Para mulheres assintomáticas, o documento do Consenso Internacional para Controle do Câncer de Mama recomenda mamografia - a cada dois anos - somente após os 50 anos de idade.
Antes disso, as mulheres assintomáticas precisam de bons clínicos - dispostos a realizarem bons exames clínicos. E precisam do auto-cuidado também.
Mamografia anual, a partir do 40, não serve à saúde das mulheres, mas ao financiamento do escoamento da tecnologia. Fique esperta!
Detalhe: O documento do Consenso Internacional também foi pactuado pelo Ministério da Saúde, que agora só fala em Mamografia. E como não poderia ser? A tecnologia está disponível, os bons clínicos, nem tanto.
Este post foi motivado principalmente pela dúvida de uma leitora do blog Parto no Brasil.
"Eu gostaria de saber se vcs conhecem mulheres que usaram o EPI-NO, um instrumento à pressão usado para trabalhar o períneo de grávidas. Se vale a pena ter."
Pessoalmente, não tinha recordações sobre tal aparato tecnológico. Fui ao Google. E então, prontamente direcionada ao ótimo blog da fisioterapeuta e doula Renata Olah. De lá, parti para o link de um comentário:
Pois trata-se de um site da empresa que vende EPI-NO no Brasil. O aparelho promete tonificar o assoalho pélvico, portanto, trata especificamente de trabalhar com períneo íntegro, lesão espontânea ou episiotomia. Então, vamos observar como as coisas estão organizadas em nossa sociedade, para nós e o nosso corpo.
Os filmes explicam que o objetivo é obter um volume similar ao tamanho da cabeça de um bebê. Observem a reação com o tamanho do balão no primeiro filme, com mulheres dos EUA; já o varão no vídeo abaixo, não infla o produto da mesma maneira, o mantém em menor proporção.
Fora do universo engajado na humanização, não raro, a episiotomia é defendida como salvadora das entranhas das mulheres, sem a qual todas se destroçarão.Neste mesmo mundo perverso, a cesárea, muitas vezes, é vendida como instrumento cirúrgico de preservação da integridade física do períneo das mulheres - não só durante o parto, mas meses após, para sempre "lesionadas" pela elasticidade do expulsivo?
Voltando ao site do EPI-NO, encontramos as seguintes informações:
Episiotomia
Pequena incisão realizada no períneo que permite ao feto sair mais facilmente no final do período de expulsão.
Sexualidade no pós parto
Um dos aspectos mais importantes da recuperação pós parto é a “reconciliação” com o seu próprio corpo, especialmente com a zona genital. Depois do parto, o retorno da vagina às suas dimensões normais e consequentemente a qualidade das relações sexuais, está ligada à tonicidade do períneo.
Caso tenha sido um parto via vaginal, deve ter presente o risco de infecção na episiotomia, que deve estar cicatrizada antes de o casal iniciar as relações sexuais. Na prática, a episiotomia pode provocar dor, ardor e incômodo na relação, uma vez que sendo uma região húmida, dificulta a cicatrização.
Pequena incisão? Sair mais facilmente? Pode provocar dor, ardor, incômodo na relação? Acorda Alice! Ou, levante-se mulher! Qualquer corte cirúrgico dói! E torna cicatriz!
Então qual é a charada? - "Qual é a polêmica com a episiotomia?" - como perguntou certa vez uma acadêmica de enfermagem durante palestra de Mary Zwart no interior do Paraná, me provocando risos.
A resposta está no eixo do seu corpo, mulher - é vertical ou horizontal.
Com liberdade de posição ou presa ao protocolo do profissional que está á sua frente.
Acompanhante engajado, doula, água quente, massagem, assistência profissional especializada, hands off. Eles te ajudarão a proteger teu períneo. E especialmente o teu autocuidado em realizar os exercícios. Recomendo esta versão, da Cartilha Fique Amiga Dela, de Simone Diniz - minha orientadora, com muito prazer, líder do Grupo de Pesquisa CNPq Gênero, Maternidade e Saúde (GEMAS/FSP/USP). Na página 15.
É tão incoerente esta atitude de valorização da tecnologia acima de qualquer coisa. E quando este valor é somado ao "medo do parto normal" (e é de dar medo mesmo, eu tenho muito medo de violência verbal, kristeller, episiotomia, fórceps, assistência técnica de má-qualidade, tudo isso sem analgesia) - pimba! 52% de "parto cesáreo" e períneos íntegros. E, hoje à noite, o Prof. Dr. Zugaib vai falar 45min sobre "A Cesárea nos Dias Atuais", durante lançamento do livro Ética em Ginecologia e Obstetrícia.
Exercícios para músculos do assoalho pélvico devem ser praticados por todas as pessoas. Muito especialmente por aquelas que se cuidam, e que estiveram grávidas, independente da via de nascimento dos filhos.
A leitora é que está certa. Buscando informação para melhorar, prevenir o que for possível. Alguém tem experiência que possa compartilhar?
OFICINA: Narrativas da Vagina: Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos
Nosso corpo nos pertence!
O feminismo dos anos 60/70 incluiu a saúde das mulheres no rol dos temas políticos. Desde então, saúde e sexualidade, política e gênero, são pontos ‘controlados’ por um complexo sistema de valores sobre o exercício do poder.
Valorizar o histórico desta conquista. E situar os desafios presentes.
Foi em 1984, em Amsterdan, no International Women’s Health Meeting, que a noção de direito inaugurou um novo campo da saúde sexual e reprodutiva. Até então, esta era uma esfera considerada ‘natural’, regulada pela biologia, o Estado, a família e a religião.
O campo dos direitos sexuais e direitos reprodutivos é definido em termos de poder e recursos: poder de tomar decisõescom base em informações seguras sobre a própria fecundidade, gravidez, educação dos filhos, saúde ginecológica, atividade sexual; e recursos para levar a cabo tais decisões de forma segura. Esse terreno envolve necessariamente a noção de integridade corporal ou controle sobre opróprio corpo. (Correa e Petchesky, Direitos Sexuais e Reprodutivos: Uma perspectiva Feminista, 1996).
Saúde das brasileiras e iniqüidades
O Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM/MS, 1991) é o espaço em que a perspectiva das relações de gênero encontra abertura para ação. Sua proposta é ampla, trata da saúde para além do biológico, incorporando as dimensões culturais e simbólicas, o psicológico e o social. Propõe a crítica à medicalização dos corpos. E valoriza as diversidades e subjetividades tais como a geração, a classe social, etnia, sexualidades. Defende a maternidade voluntária e o direito a contracepção e ao aborto, preocupa-se com a saúde mental e ocupacional.
Além de ratificar tratados internacionais que privilegiam os direitos humanos e promovem eqüidades em saúde, o Brasil apresenta um histórico de implementação de políticas de Estado e publicação de documentos que recomendam práticas de saúde baseadas nas melhores evidências aos serviços de saúde. São exemplos destas ações: as recomendações da Organização Mundial da Saúde reunidas na publicação de 1996 intitulada “Maternidade Segura. Assistência ao Parto Normal: Um Guia Prático”; e as publicações do Ministério da Saúde: “Parto, Aborto e Puerpério: Assistência Humanizada à Mulher (2001)” e “Pacto Nacional pela Redução da Mortalidade Materna e Neonatal (2004)”.
Apesar de passados trinta anos após o reconhecimento destes direitos, ainda hoje enfrentamos o drama de seu não cumprimento na prática: lei do acompanhante sem sanção pecuniária; episiotomia de rotina nas instituições de ensino e na prática da maioria dos serviços; ilegalidade e criminalização do aborto no país, entre outros.
Objetivos:
Promover a sensibilização das participantes para a possibilidade de auto-educação sexual e da promoção da saúde a partir da perspectiva do empoderamento feminino e comunitário.
Valorizar a beleza do corpo feminino, as diversidades do sexo, as manifestações do auto-cuidado saudável.
Para tal, às inscritas serão propostas atividades de sensibilização sensorial e cognitiva, por meio de troca de experiências e dinâmicas orientadas. Como produto final, as participantes da oficina produzirão cartazes (arte em tecido – imagem, desenho, colagens, etc.) de sensibilização para os temas da saúde e direitos sexuais e reprodutivos, que deverão compor uma Mostra Itinerante entre os vários campi da USP.
COORDENAÇÃO
Carmen Simone Grilo Diniz (PPGSP/FSP/USP - Docente e orientadora)
Ana Carolina Arruda Franzon (PPGSP/FSP/USP - mestrado)
Bianca Alves De Oliveira Zorzam (PPGSP/FSP/USP - mestrado)
Rosario Avellaneda (PPGSP/FSP/USP - doutorado)
Marília Reiter (jornalista e psicóloga, colaboradora GEMAS)
Bia Fioretti (publicitária e fotógrafa, colaboradora GEMAS)
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