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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Blogagem Coletiva - Maternidade e violência obstétrica: pautas feministas

As questões da maternidade não agregam ao feminismo

Recentemente, um grupo de mulheres fundou a Artemis, organização não governamental que tem como um dos seus objetivos a erradicação da violência obstétrica no Brasil. A Artemis tem promovido atuação efetiva, com presença decisiva no Fórum Mundial de Direitos Humanos e junto à Defensoria Pública do Estado de São Paulo.

Também recentemente, as ativistas deste grupo foram duramente atacadas, não virtualmente mas presencialmente, no cara a cara, por pessoas que afirmavam não ser a maternidade uma causa feminista.

Isso aconteceu no início do mês de dezembro, dias 06 e 07, por ocasião do IV Ciclo de Conferências da Defensoria Pública do Estado de São Paulo. A participação da Artemis em tais conferências se deu no âmbito do Grupo de Trabalho dos Direitos da Mulher, tendo sido representada por 9 delegadas e com o objetivo de pautar o tema “violência obstétrica” como uma das metas da Defensoria Pública de São Paulo para os próximos dois anos.

A Conferência é um espaço da sociedade civil, onde todas as 90 propostas apresentadas devem ser de extrema importância para a sociedade em geral e para o Estado de São Paulo.

Ali estavam propostas importantíssimas para a questão da mulher: funcionamento das delegacias da mulher 24hs/dia, inclusive finais de semana; acolhimento de mães puérperas em situação de rua; criação de casas de passagem e abrigo especializado para mulher em situação de violência; criação de Juizados Especializados em Violência Doméstica; proteção à identidade de gênero; campanhas pela legalização do aborto; atuação na questão da violência obstétrica, entre outros de igual importância. É facilmente perceptível a grande relevância de todas as propostas, as quais, certamente, estão dentro do escopo dos movimentos feministas.

E a inserção da violência obstétrica como mais um tema a ser trabalhado e a ser combatido na sociedade é prioritário num contexto do Poder Judiciário onde pouco ou quase nada tem sido feito sobre o assunto.

Após a defesa de nossa proposta, duas delegadas de movimentos feministas da capital paulista se manifestaram contrariamente à inserção da violência obstétrica como violência contra a mulher: uma sugerindo que a questão da maternidade não agrega o feminismo, já que a maternidade, segundo ela, seria “uma forma de controle do patriarcado sobre o corpo da mulher”, e outra sugerindo que as delegadas deveriam votar em questões sérias e não em “questões que ainda estão no imaginário e não acontecem de fato”.

Tais manifestações de negação da violência obstétrica como causa feminista nos causaram brutal perplexidade. Não apenas pelo caráter discriminatório para com milhares de brasileiras que estão sendo violentadas durante o nascimento de seus filhos, como também pelo desconhecimento e desatualização de ambas as delegadas a respeito do tema. Não é possível ignorar dados sérios de pesquisas brasileiras realizados nos últimos três anos e amplamente divulgados nos cenários científico e midiático brasileiros, os quais já mostraram a toda sociedade civil a gravidade da questão. Muito menos desmerecer a violência sofrida por uma a cada quatro mulheres que dão à luz no Brasil, atribuindo a essa violência caráter de “invenção”, de “imaginário”, ignorando mulheres e suas dores.

A despeito de tais manifestações, continuamos nossa atuação enquanto grupo feminista organizado e conseguimos levar a proposta à plenária final. O resultado: a proposta de inserção da violência obstétrica como pauta relevante obteve a segunda maior votação da Conferência, recebendo 43 votos (a primeira recebeu 44, pertencendo à temática do idoso e pessoa com deficiência). É importante mencionar que, nesta conferência, cada delegado tem direito a 9 votos, que podem ser dados à mesma proposta. Nossa proposta somente foi aprovada porque nós, delegadas ativistas, nos articulamos e destinamos grande parte de nossos votos a uma única proposta e, considerando que tivemos apenas 12 votos entre 116 delegados, achamos pouco – e triste. Triste porque o GT do Direito da Mulher possuía cerca de 25 delegadas e nem metade delas entendeu a gravidade do que representa a violência obstétrica enquanto violação do direito à dignidade humana e que precisa urgentemente ser discutida, combatida e, principalmente, erradicada. Triste porque a violência obstétrica que afeta tantas mulheres em nosso país diz respeito ao corpo e ao direito da mulher no momento do parto e, paradoxalmente, justamente por isso não mereceu a atenção dos movimentos feministas. Embora satisfeitas pelo que consideramos ser uma vitória – a inclusão da violência obstétrica como pauta a ser discutida – é profundamente lamentável constatar o alto grau de misoginia presente entre as próprias mulheres, ao se recusarem a tratar a questão da violência obstétrica como violência à mulher. E, por ser violência contra a mulher, é obviamente uma causa feminista.

Feminismo, maternidade e empoderamento

Não sabemos se nesse contexto ou fora dele, alguns dias depois foi publicado no coletivo Blogueiras Feministas o texto “O ativismo materno para além do parto”.

Concordamos com alguns trechos do referido texto. Realmente nos incomoda muito ver/ler/ouvir alguns discursos que se baseiam em julgamentos da mulher que não pariu, ou porque não quis, ou porque não conseguiu, ou porque… sabe-se lá porque… Nós somos do  movimento pela humanização do parto e contra a violência obstétrica e, ainda assim, fazemos essa crítica, apenas porque soa a nós como grande discrepância e incongruência defendermos o direito da mulher de não ser violentada no parto e, ao mesmo tempo, violentarmos outras mulheres com nossos discursos pré-moldados e, por vezes, sem sentido.
Porém, ao começarmos a leitura de tal texto, sentimos algo como o que sentimos quando ouvimos alguém dizer: “Não sou racista, mas….” ou “Não sou machista, mas…”, ou “Acho que mulheres têm direitos, mas…”. À semelhança desse cartoon aqui:

Extraído daqui!

Ou seja: ao ler o texto, o qual começa reafirmando a importância do apoio à humanização do parto e ao movimento pela dignidade de parir, já sabíamos que viria um “mas”… E o “mas” que veio em seguida mostrou-se muito parecido com os “mas” mencionados anteriormente e o tom do texto se assemelhou em muito ao ataque sofrido pelas ativistas da Artemis em função do suposto não pertencimento da maternidade à pauta feminista.

O texto “O ativismo materno para além do parto” foi explicitamente direcionado a um blog, cujo nome – “Mulheres Empoderadas” – faz menção ao que viveu a própria autora do blog, que viveu cesáreas indesejadas antes de lutar e conseguir dois partos naturais, porque era esse seu desejo. Claro que sabemos disso porque a conhecemos e as autoras do texto não têm obrigação de saber. Entendemos isso. Mas, do mesmo modo que ninguém tem obrigação de saber disso, também não é possível traçar uma crítica ao que se “pensa” ser, porque isso seria apenas uma de muitas interpretações possíveis da razão do nome.

Arriscamos dizer que 90% das mulheres que curtem e “fazem” a página “Mulheres Empoderadas” não se intitulam empoderadas porque defendem e vivem a autonomia da mulher para parir de cócoras, na piscina, sem intervenções ou porque amamentam seus filhos no peito por tantos anos. Não. Intitulam-se assim porque venceram muitas lutas pessoais – e coletivas – para conseguirem fazer isso, lembrando que tudo isso aí representa grandessíssimas exceções no Brasil. Estamos falando de uma minoria. E por que é que o direito de escolha de uma minoria está sendo atacado tantas vezes?

Essas mulheres travaram grandes lutas para conseguirem parir do jeito que queriam e amamentar. Muitas delas foram demitidas por incompatibilidade entre a bombinha de extrair leite e o cartão-ponto. Não são empoderadas porque paririam assim ou assado ou deram o peito, mas por terem enfrentado um sistema nojento, machista e patriarcal para fazer isso. E, muitas vezes, enfrentaram e desafiaram a si próprias, gente que nunca pensou que fosse capaz de dar conta desse tipo de enfrentamento.

O texto tem razão quando diz que mulher empoderada vai muito, mas muito além de parir. E é exatamente isso que queremos dizer aqui: essas mulheres não podem ser resumidas a um corpo que pariu, mas a mulheres que, sim, venceram um sistema esmagador, cruel, violento, humilhante, degradante, onde chegamos invariavelmente como “mãezinhas”, “mamãezinhas”, que não podem gemer ou não gemeram quando fizeram o filho e – SÓ ENTÃO – pariram. Pariram OU NÃO. Porque grande parte, ainda assim, não consegue, porque o que acontece dentro de uma sala de parto é muitas vezes cruel, opressor, indignante e ultrajante.

São mulheres recebendo tapas nas pernas de profissionais da saúde. São mulheres proibidas de gemer ou gritar para expressar sua dor porque “pra fazer não gritou nem chamou a mamãe, vai gritar agora?!”. São mulheres amarradas de pernas abertas em estribos frouxos, que caem a todo momento, para receberem exames vaginais de cinco, seis, oito alunos que as tratam como um  número. São mulheres dopadas porque “estão dando trabalho”. São mães que veem seus bebês morrerem logo após o nascimento por má assistência. Estamos falando sobre essas mulheres.

E se, à semelhança dos exemplos citados no texto mencionado, houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por mulheres que escolheram não ser mães? E se houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por mulheres que escolheram abortar? E se houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por mulheres que nasceram com pênis? E se houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por quem nasceu com ovários e vagina mas não se reconhece como mulher? E se houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por mães de plantas, mães de gatos, mães de projetos? Faria mais sentido? Seriam empoderamentos mais bem vistos no contexto do “feminismo”? Essa crítica ao uso do “empoderadas” ainda seria feita? Sejamos sinceras: não seria! E não seria porque todas essas “subáreas do empoderamento”, digamos assim, todos esses feminismos, são respeitados e reconhecidos. Mas a maternidade não! A maternidade e o direito das mulheres que se tornam mães não são reconhecidos! A maternidade é um assunto que caiu num limbo que um feminismo específico dos muitos que existem não anda muito a fim de abraçar não… E tem sido assim mesmo considerando que mulheres que se tornam mães tornam-se, também, alvos preferenciais para inúmeras iniquidades e violências de gênero. Como ser demitida sem justa causa. Como ser preterida em concursos públicos. Como ser ridicularizada ou tida como “mulherzinha”, “fraquinha”, “mãezinha”. Como ser vista para sempre como subserviente ao ser que colocou no mundo.

Condições gerais da maternidade no Brasil

Mulheres mães brasileiras vivem em péssimas condições. Pelos rankings internacionais, feitos por diferentes instituições de pesquisa, como a Save the Children, o Brasil tem péssimo desempenho no que se trata do bem estar materno. Enquanto Cuba aparece com a melhor posição da América Latina, em 33o. lugar, nosso país permanece na 78a. posição, atrás da Ucrânia (país mais pobre da Europa) e da África do Sul. Mas o que os rankings não mostram é que os melhores desempenhos, medidos por variáveis como saúde gestacional, mortalidade materna e infantil, renda, emprego, educação, dentre outras, foram construídos ao longo do tempo, principalmente por políticas públicas focadas no bem estar das mães, pais e crianças. A Suécia, por exemplo, que figura há muito tempo entre a primeira e a segunda posição em diferentes rankings como esse, construiu políticas sociais focadas nas famílias, sob influência de um feminismo forte e preocupado com as condições de vida das mães – casadas ou não. Uma das medidas mais antigas e importantes nesse país foi o financiamento de creches acessíveis e de qualidade para as crianças de famílias monoparentais. Sabendo que em 90% dessas famílias quem se responsabilizava pelo sustento e cuidado das crianças eram as mulheres, os movimentos feministas do início do século XX já cobravam medidas especiais para acolhê-las. Com o tempo e o aumento da consciência da desigualdade de gênero nas famílias e no mercado de trabalho, e com a preocupação crescente com os direitos das crianças, a Suécia desenvolveu um sistema de pré-natal totalmente baseado na prática das enfermeiras obstetras, doulas e casas de parto, concomitante a uma política de licença parental remunerada de até 13 meses, a ser desfrutada por homens e mulheres, e que, assim, contribui para uma das melhores taxas de amamentação da Europa. Mas, claro, é importante lembrar que nesse país as mulheres passaram a ter direito ao voto e representatividade política muito antes do que no Brasil.

Nossa situação, então, pode ser explicada pela dificuldade que as mães e as mulheres de maneira geral têm encontrado para entrar na arena política e colocar suas demandas por serviços de saúde e de acolhimento de bebês conectados com as recomendações internacionais acerca do bem estar materno. Em nosso país, parece ainda pairar uma ideia majoritária de que maternidade e paternidade são assuntos da vida privada, que nada tem a ver com movimentos sociais e políticas públicas. Isso é um imenso engano! Desde a redemocratização e a gradual emancipação das mulheres no mercado de trabalho, o tema dos direitos familiares tem crescido. O Estado tem reconhecido o papel fundamental das famílias e das comunidades locais para a saúde (vide Programa Saúde da Família, base do SUS) e para o desenvolvimento humano (vide Programa Bolsa Família, empoderando mulheres nos confins do Brasil principalmente porque são mães!). Ainda é pouco. Muito pouco! Ainda temos um déficit enorme de creches e escolas infantis, onde faltam cerca de dez milhões de vagas. Ainda temos um sistema de saúde suplementar totalmente desconexo das diretrizes mais importantes da saúde materno-infantil levadas a cabo com muita dificuldade pelo SUS.

Ainda temos um congresso que não acredita na necessidade de uma licença parental (que inclua os homens – hoje os pais só têm direito a cinco dias corridos de licença).

Esse abismo de políticas para as famílias acaba reforçando também a reprodução da desigualdade econômica e racial entre as mulheres. Sem garantia de vagas em boas creches, e sem licenças parentais razoáveis, a mão de obra de outras mães, pobres e geralmente negras e/ou migrantes, é explorada pelas famílias de classe média. Essas trabalhadoras, na maior parte dos casos, ainda não têm seus direitos trabalhistas respeitados e não encontram apoio público para o cuidado com suas próprias crianças.

Concordamos com as autoras: o empoderamento feminino não pode ser deslocado da luta feminista. Inclusive o empoderamento materno. Por que, então, ele é “café com leite”? Que tipo de julgamento estamos fazendo sobre as mães que se “empoderam” para viver a maternidade à sua maneira?

Também concordamos com as autoras: não é possível falar em empoderamento feminino e ser contra a descriminalização do aborto. Essa é uma das maiores expressões de incoerência de quem defende o direito da mulher de escolher parir mas não defende a escolha de não ser mãe mesmo que tenha um óvulo fecundado. Não é possível falar em empoderamento feminino e achar que outra mulher não tem direito de dispor sobre o corpo dela. Não é possível falar em empoderamento feminino e ofender moralmente a mulher que está vestida sensualmente. Assim como não é possível falar em empoderamento feminino e desmerecer o empoderamento que culminou na fuga do sistema para parir dignamente, sem ser chamada de “gorda escandalosa” ou “égua parindo”.

As mulheres que têm feito jus ao seu direito de escolha e escolhido cesarianas têm tido seu direito respeitado. Quem não tem tido é justamente quem quer parir de cócoras, para usar apenas um exemplo. E quem é que vai defender essa aí? Ou, pior: quem é que vai defender aquela que, mesmo querendo isso, está tomando tapa e sendo xingada dentro de instituições de saúde, com o suposto aval da sociedade, que se nega a acolhê-las pelo não reconhecimento da violência sofrida?

Discordamos das autoras em mais um ponto. Nem sempre parir traz poder, biológico ou político. Nem sempre traz satisfação e beleza. Nem sempre traz o poder de contestar a medicalização. Na verdade, quase nunca isso acontece no Brasil. E isso porque a grande maioria das mulheres está parindo em meio a xingamentos, barriga esmagada por um braço ou uma mutilação vaginal. Então, o “parir poderoso”, novamente tem sido para uma minoria. Então vamos atacar a minoria? E a defesa dos direitos das minorias, era só um discurso nosso?

Ao contrário do que parecem achar outras pessoas, não temos visto um culto exacerbado ao lugar da “mulher mãe” como sinônimo daquela que larga tudo para cuidar dos filhos em tempo integral. O que temos visto, isso sim, são centenas ou milhares de mulheres em luta constante para satisfazer simultaneamente seu próprio desejo de cuidar de suas crias de perto e o desejo de seu patrão de produzir ou o desejo do marido de pagar contas, ou o próprio desejo de ter uma vida profissional ativa. O que há é uma pluralidade de vozes e, entre tais vozes, há as das que querem cuidar dos filhos em período integral – embora esteja muito longe de ser majoritário. A grande maioria das mães contrata uma creche cara e vai ralar e são poucas as que continuam a tirar leite do peito para amamentar… Ou vamos cair no erro de achar que os poucos gritos de “VAMOS VOLTAR PARA CASA!” que ouvimos nas redes sociais representam a maioria das brasileiras? O mundo é mesmo machista pra cacete, como as autoras mencionaram, e ninguém está podendo fazer isso no Brasil sem arcar com uma longa lista de julgamentos e preconceitos, mesmo quem se sente “empoderada”. As mães que têm conseguido representam mesmo uma minoria. O que algumas feministas têm chamado de privilégio representa também uma conquista árdua, a partir da tomada de consciência e desejo de mudança sobre as condições gerais de maternagem em nosso país. De novo, atacaremos uma minoria porque a consideramos “privilegiada”?

Reconhecer não significa estereotipar

Uma das críticas de alguns grupos à inclusão da maternidade como questão feminista é o fato de que isso reforçaria o estereótipo de que as mulheres são as únicas responsáveis pelos cuidados com as crianças.

Não querer reforçar a ideia comum de que os cuidados com a criança é algo natural na mulher é diferente de negar que não apenas a maternidade mas todas as funções de cuidados são executadas majoritariamente por mulheres. Ao afastar isso das frentes de debates feministas perdemos a oportunidade de não apenas desnaturalizar tais associações, mas também de exigir políticas públicas que liberem a mulher de tal condição. Como falar em cuidados compartilhados entre os pais se a licença paternidade é de apenas cinco dias, enquanto a licença maternidade é de quatro a seis meses? A não criação de vínculo parental pelo pai da mesma forma como acontece com a mãe, pela ausência de tempo dedicado, também traz nefastas consequências, como o acúmulo de tarefas pela mãe que também trabalha fora de casa. E esse é apenas um exemplo sobre como agregar questões de maternidade ao debate feminista, a fim de pleitear direitos como aumento da licença paternidade, resulta em melhoria de condições para as mulheres, em especial maior possibilidade de escolhas em suas vidas.

É importante lembrar, também, que muitas mulheres que estão em defesa de crianças cuidadas presencialmente estão é colocando o homem na jogada. Queremos crianças cuidadas não pela babá ou pelo professor em tempo integral? Então que venham os homens pra dentro de casa também! E, sim, estamos vendo isso acontecer, claro que em pequeníssimo grau, mas estamos vendo! Tem homem voltando pra casa para que a mulher, que ganha mais e está bem realizada em sua carreira, continue fora, sem que as crianças percam na qualidade do cuidado recebido. É maioria? Claro que não é. E de novo vamos atacar uma minoria?

O parto humanizado no Brasil, atualmente, está mesmo limitado a um recorte de mulheres da classe média. Fato. O que significa que todas as demais, financeiramente abaixo ou acima, estão atualmente fora dele – com exceções como as que têm acesso ao Sofia Feldman (MG – SUS) ou ao Elpídio de Almeida (PB – SUS), ou a parteiras tradicionais nos confins do Brasil e outras poucas. E, por conta disso, as mulheres da classe média que estão parindo dignamente são muitas vezes ridicularizadas ou chamadas de alienadas, umbiguistas, egotripistas, etc etc. E são essas mesmas mulheres da classe média que estão organizadas para lutar pelos direitos de todas por um parto sem violência ou mutilação. É uma das poucas vezes que o Brasil vê uma mobilização da classe média espirrando na assistência básica à saúde, no SUS, na legislação. Então, sim, é um privilégio da classe média, no momento, poder parir sem ser amarrada ou xingada ou sem tomar tapa. Mas essa classe média não está em berço esplêndido vangloriando-se de seu parto orgásmico – algumas nem sequer conseguiram parir como queriam e continuaram a engordar as estatísticas que caem muito bem nos bolsos do corporativismo médico. Essas mulheres estão organizadas e estão se organizando – vide a ONG mencionada no início do texto e outros tantos exemplos.

Quanto de empoderamento feminino é preciso para sair do lugar de mãezinha e reivindicar direitos coletivos de saúde às mulheres, ainda que estejamos extrapolando a classe média brasileira tão viciada na inação? Muito. E o fato de serem mulheres mães empoderadas não desmerece nenhuma outra luta de empoderamento feminista.

O ponto é: mulher mãe não pode se intitular empoderada?

A que aborta pode, a que não quer ser mulher pode, a que é mulher embora não tenha nascido biologicamente uma pode. Mas as mães não. As mães vão ali praquele cantinho e tratem de ficar quietinhas.
Quer dizer: na categoria “mães” vamos aglomerar toda a história de opressão vivida pelas mulheres e vamos mantê-la ali porque, afinal, as mães merecem, já que concordaram em abdicar de sua “real” condição de autonomia quando se tornaram mães – esse parece ser o pensamento de um grupo que não reconhece a maternidade como pauta feminista. E, paradoxalmente, o que temos visto é justamente um movimento de luta contra uma forma cruel (e invisível e velada, até negada, veja só! e, a despeito disso, altamente prevalente) de violência – a obstétrica, que mata e mutila – cujas bandeiras estão nas mãos de… mães!
Qual é, companheiras? Não temos direitos mas podemos lutar?

Sim, o feminismo é muito mais, MAS MUITO MAIS MESMO. É autonomia para além de ser mãe.
Mas TAMBÉM para ser uma.

Nós escrevemos esse texto com o único e exclusivo objetivo de convidar outras feministas a olharem para a questão da maternidade e da violência obstétrica com olhos de luta, de empatia e de indignação, para que consigam enxergar em ambas as questões os mesmos séculos de opressão, preconceito, discriminação e violência que pairam sobre todas as mulheres. Não fazer isso é violentá-las, é violentar-nos.

Estamos ao lado de todas as demais lutas feministas. E esperamos que, em 2014, tenhamos mais lutadoras feministas ao nosso lado, ao invés de sermos atacadas apenas por sermos mulheres que criam crianças – crianças por um futuro onde haja verdadeira equidade..


Ana Lucia Keunecke - Causa Justa / Portal Vila Mamífera
Carolina Pombo - Mãe e tempo
Ligia Moreiras Sena - Cientista que virou mãe
Raquel Marques

* Lola, do Escreva Lola Escreva tb postou o texto, no Guest Post - aqui, além das respectivas autoras, em 30 de dezembro de 2013.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Dia Internacional pelo Fim da Violência Contra a Mulher

Neste 25 de novembro o mundo se une para lutar contra a violência que arrebate milhares de mulheres, sejam em seus lares, no ambiente profissional, e/ou num dos momentos que deveriam ser dos mais zelosos e respeitosos, da vida feminina: o parto.


É da violência obstétrica que estamos nos referindo, e que é um dos temas centrais deste espaço, trazendo e divulgando informações sobre o assunto, e militando na causa, tendo oportunizado a criação de algumas ações, em rede, e coletivas, com grande repercussão, como foi o Teste da Violência Obstétrica, e o documentário popular Violência Obstétrica - A Voz das Brasileiras, premiado no Seminário Internacional Fazendo Gênero 10, em Florianópolis/SC, este ano, como Melhor Filme, da Mostra Audiovisual.

Assim, nesta data, compartilhamos mais uma produção brasileira, desta vez de Brasília/DF, A Dor Além do Parto, de Letícia Guedes, Amanda Rizério, Nathália M. Couto e Raísa Cruz, com edição de Léo Preto, pela Branco Preto Produções, sobre esta violência velada e ainda invisível, que não nos cansamos de denunciar e lutar, para que chegue seu fim!



Divulgamos também a exibição de Violência Obstétrica - A Voz das Brasileiras em Ourinhos, interior paulista, no Curso Técnico de Enfermagem, da ETEC, em 02 de dezembro, às 19h30!

Assista aqui!

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A legislação brasileira e a violência institucional no parto e nascimento - VIII COBEON (2013)

Entre os dias 30/10 e 01/11/2013, foi realizado, em Florianópolis-SC, o VIII COBEON – Congresso Brasileiro de Enfermagem Obstétrica e Neonatal. Promovido pela ABENFO – Nacional e organizado pela ABENFO-SC e Departamento de Enfermagem da UFSC, o evento reúne centenas de profissionais que trabalham diretamente com o ciclo gravídico-puerperal. 

O grupo de pesquisa Gênero, Maternidade e Saúde esteve representado por alunas e as docentes líderes, as profas. Dra. Carmen Simone Grilo Diniz (FSP/USP) e Dra. Camilla Schneck (EACH/USP).

A advogada Prisicila Cavalcanti apresentou uma série de marcos legais que protegem as brasileiras da violência obstétrica. Confira a íntegra do trabalho na imagem abaixo.

Priscila Cavalcanti, que também é doula em São Paulo-SP, considera ainda que o trabalho apresenta um “panorama geral” dos marcos legais, não incluindo as normas vigentes que decorrem de tratados internacionais ratificados pelo país.




Você também pode enviar seu trabalho apresentando no COBEON para publicação no Blog Parto no Brasil. 
Escreva para lunabianka@yahoo.com.br

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Respeito ao parto, violência obstétrica e amamentação

Esta semana, a Violência Obstétrica ocupou o jornal venezuelano Correo del Orinoco, uma publicação do governo daquele país. Neste post, publicamos a tradução livre do texto "Respeito ao Parto, Violência Obstétrica e Amamentação". Já sabemos que, desde 2007, o país reconhece, tipifica e condena civilmente os abusos, maus-tratos, negligências, imperícias e imprudências cometidas e praticas por profissionais de saúde durante o atendimento de mulheres para a gravidez, parto e pós-parto. Assinado pelo coletivo La Araña Feminista, o texto fala da realidade de milhares de mulheres venezuelanas, mas poderia perfeitamente representar nossa experiência. La Araña Feminista é também um grupo socialista e partidário que defende a política de Hugo Chávez, e nos chama a atenção, muito positivamente, a forma com que esse governo trata do tema. Aqui no Blog Parto no Brasil, você encontra diversas experiências que trouxemos de lá para cá se procurar pela palavra-chave "Venezuela"; não deixe de conhecer especialmente os posts:






Respeito ao parto, violência obstétrica e amamentação


"A violência obstétrica é, sem dúvida, uma das manifestações mais concretas e corriqueiras do sistema de dominação patriarcal, que se materializa no seqüestro dos processos naturais do trabalho de parto"


A celebração da Semana Mundial pelo Respeito ao Parto e Nascimento é uma oportunidade para chamar a atenção, especialmente da mídia, sobre um drama humano que tem sido naturalizada pela maioria dos cidadãos, governos e organizações sociais. O nome deste terrível problema é "violência obstétrica", delito tipificado na “Lei Orgânica sobre o Direito das Mulheres a uma Vida Livre de Violência”. 
A violência obstétrica é, sem dúvida, uma das manifestações mais concretas e corriqueiras do sistema de dominação patriarcal, que se materializa no seqüestro dos processos naturais do trabalho de parto. A proibição da mobilidade, a aplicação de fármacos e métodos artificiais para acelerar o trabalho de parto, a agressão verbal e física contra as mulheres, a tomada de decisões sem o seu consentimento, a negação da presença de um acompanhante; enfim, um conjunto de práticas do sistema industrial de saúde que anulam a capacidade das mulheres de parir e cuidar de seu bebê.
Um dos principais desafios que enfrentam as pessoas e organizações que trabalham para aumentar a consciência coletiva sobre esse problema é que - ao fazer-se cotidiana - as mulheres não percebem como agressão as ações exercidas pelo sistema de saúde sobre seus corpos, suas famílias e mais gravemente ainda sobre seu bebê, a não ser que sejam realmente extremas.
Ao contrário do que se pensa, as mulheres não são as únicas vítimas da violência obstétrica. Os bebês sofrem agressões semelhantes às vividas por suas mães durante e depois do parto ou cesárea. Esta visão mais ampla do problema está descrita na “Lei Orgânica sobre o Direito das Mulheres a uma Vida Livre de Violência", que também qualifica como crime a separação da mãe de seu bebê sem justificativa médica, o impedimento do contato pele a pele precoce e da amamentação imediatamente ao nascer.
Separar o bebê recém-nascido de sua mãe tem implicações para a saúde física e emocional do binômio mãe-bebê. Impede que a cria, logo ao sair do útero, volte ao corpo materno que constitui seu habitat, onde consegue regular seu metabolismo, a respiração, a freqüência cardíaca, temperatura e onde obterá o alimento permanente (leite materno), que irá garantir sua saúde e sua vida.
Na maioria dos locais de nascimento, tanto públicos como privados, o recém-nascido é separado de sua mãe assim que nasce para que possa ser realizado um conjunto de procedimentos médicos, alguns deles profundamente violentos, praticados sem o consentimento ou a presença da mãe e do pai, realizados por rotina ou protocolo e não devido ao estado de saúde-doença de cada um.
Particularmente dois dos procedimentos realizados na maioria dos centros de saúde no momento do nascimento são determinantes para o início da amamentação.
São eles: o uso de incubadoras e a prática de dar mamadeiras de glicose e/ou fórmulas lácteas para os bebês durante a sua estadia no centro de saúde. Ambas as práticas são não só contrariam à natureza do recém-nascido e da mãe, mas são profundamente violentas, já que produzem nos recém-nascidos inúmeros episódios de choro, e na mãe, ansiedade, estresse e perda de confiança.
Entender que a amamentação é a continuação da gestação do mamífero humano é imprescindível para compreender que a violência exercida sobre as mulheres durante o parto e nos dias seguintes também é uma violência contra os bebês, e por isso deve ser visibilizado em todas as ações que visam humanizar o parto e o nascimento.

Manifestação na Venezuela, com participação de grupo feminista/chavista La Araña Feminsita, foto daqui

Fonte:

terça-feira, 7 de maio de 2013

A morte materna invisível das brasileiras negras

Dia 28 de maio está chegando!

"O futuro da África é carregado na barriga de suas mães" Ação da White Ribbon Alliance for a Safe Motherhood

Blog Parto no Brasil estudando a morte materna invisível das negras brasileiras (Alaerte Martins, 2006) chama a atenção: mulheres negras têm risco 7 vezes maior de morrer por causa materna do que as brancas.

Considerando as nuances da cor da nossa pele, e ainda, que:

1) os Comitês de Prevenção da Mortalidade Materna não julgam o mérito pelas perspectivas da imprudência, imperícia e negligência, e mais,

2) podemos dizer que cerca de 90% das mortes maternas ocorrem dentro dos hospitais e em decorrência de quadros clínicos evitáveis com assistência oportuna e eficaz (confira neste post em nossa Fanpage);

Retomamos uma citação de Janaína Marques de Aguiar para a Folha de São Paulo, sobre a violência obstétrica neste nosso Brasilzão:

"Quanto mais jovem, mais escura, mais pobre, maior a violência no parto". 

Uma morte materna afeta diretamente um número grande de membros da família e da comunidade que depende dela. As mortes maternas, quando muitas, podem produzir graves conseqüências para as comunidades, as nações e a população. OMS (1993).

E você, vai convidar a sua comunidade para refletir sobre como prevenir a morte materna? Conte-nos como, vamos ampliar a divulgação das iniciativas locais, regionais e nacionais. 


Confira o comunicado na Fanpage Mobilização pelos Direitos das Mulheres e Redução da Morte Materna.


sábado, 6 de abril de 2013

segunda-feira, 25 de março de 2013

Violência obstétrica por todos os lados! Como denunciar

"Estamos em um tsunami de informações sobre violência obstétrica e parto humanizado, nas mídias sociais, e em parte da grande imprensa." Comenta Profa. Dra. Simone Diniz, do Grupo de Pesquisa do CNPq Gênero, Maternidade e Saúde da FSP/USP, sobre a quantidade de mulheres que estão desejando promover o debate sobre suas experiências com o parto e nascimento dos filhos.

Contamos com a força e coragem de centenas de mães que estão muito bem dispostas a escancarar suas dores e incertezas, politizá-las, e buscar justiça. Elas nos revelam uma perspectiva muito importante para aprendermos sobre como podemos melhorar a atenção à saúde, o acolhimento das pacientes e familiares.

Quando denunciamos a violência obstétrica, estamos avaliando a qualidade da assistência que é prestada para os dois grandes grupos populacionais: as mulheres atendidas no SUS e as consumidoras dos planos de saúde.

São estas duas as condições que acabam por determinar seus dois tipos de parto: a cesárea para o plano, maior parte delas agendadas; e o parto normal completamente inadequado para favorecer a experiência das mulheres: com manipulação excessiva, em posição litotômica, e sem acompanhante (nesse setor, a taxa de cumprimento da Lei do Acompanhante está em somente 36%, cresceu apenas 20% em seis anos) - a principal medida de conforto e segurança das mulheres contra a violência obstétrica.

A reportagem de Andrea Dip para a Pública - Agência de Jornalismo Investigativo, Na hora de fazer não gritou, foi publicada hoje cedinho, e à tarde já havia superado a marca dos cinco mil compartilhamentos.

Acesse Na hora de fazer não gritou

Há nove anos, Andrea pariu seu filho, em São Paulo-SP, e foi desrespeitada pela equipe assistencial. Hoje, nos emociona com sua reportagem sobre Violência Obstétrica e a qualidade da assistência obstétrica no Brasil, e também nos honra com sua força: "o movimento ganhou mais uma militante", ela escreveu em e-mail pessoal.

Enquanto isso, no importante e maravilhoso Eu quero parto normal (aqui!), Marília Mercer, doula e companheira de ativismo em Londrina-PR, publica seu depoimento de um parto acompanhado na sexta-feira, em nossa maternidade municipal.

Este é um serviço público de saúde, que atende partos de baixo risco, e constitui em campo de estágio e internato para os estudantes de Medicina e Enfermagem da UEL. Tem histórico de praticar pouquíssimas episiotomias, confira na entrevista gravada em 2012, para a Rádio UEL, aqui, ou no post então intitulado A Violência Invisívelaqui.

Mas Marília Mercer viu uma realidade completamente diversa daquela gravada há um ano. E também não deixou a violência ficar invisibilizada. A realização de uma episiotomia em multípara, sem qualquer respaldo clínico, sem o consentimento da mulher, é lesão corporal grave. Por três dias, ela me disse que queria denunciar, e então, em mais uma magia da vida, Ligia Moreiras Sena resolveu organizar a compilação das informações que ela tinha obtido em junho de 2012, mas que estavam lá no cantinho do Cientista Que Virou Mãe. Ei-la.

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Por Ligia Moreiras Sena, na Fanpage Cientista Que Virou Mãe

Essas são orientações fornecidas pela Secretaria de Direitos Humanos e pela Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República. 
Como denunciar?
A orientação é a seguinte: a violência no parto enquadra-se como violência contra a mulher e, portanto, não entra como "ofensa aos direitos humanos", já que temos uma lei específica para violência contra a mulher no Brasil. Se fosse violência contra o nascituro, seria possível denunciar via Secretaria de Direitos Humanos, mas como a denúncia é contra a mulher, é necessário acionar o serviço 180, da Secretaria de Política para Mulheres. Ainda assim, a atendente fez questão de enfatizar qual seria o procedimento: primeiro, registrar um boletim de ocorrência. Segundo, entrar em contato com o Ministério da Saúde (diretamente ou via Secretarias) e denunciar, tendo em mãos o nome do profissional de saúde (seja médico ou enfermeiro) e seu registro profissional. São dois processos diferentes e o profissional será chamado em ambos os casos para prestar esclarecimentos. Nessa etapa, pode ser ou não solicitado um advogado, que pode ser um defensor público. Orientação da atendente: somente como última etapa, acionar o CRM ou o COFEN. Após essas orientações, pediu que eu ligasse no 180.
Orientação do serviço 180: fazer um boletim de ocorrência na delegacia mais próxima da sua residência, não precisa ser delegacia da mulher. É preciso o nome do profissional, o local de trabalho e todas as informações que a mulher conseguir coletar. Na sequência, denunciar à unidade do Ministério da Saúde mais próxima, com as mesmas informações sobre o profissional.
Nesse serviço 180, a atendente afirmou que a abertura de uma denúncia no CRM ou COFEN pode ocorrer paralelamente, mas que por se tratar de violência contra a mulher, esse caminho de denúncia via B.O. e Ministério da Saúde é bastante indicado, porque o profissional seria implicado criminalmente, além de profissionalmente.
E que, por cair na área de violência contra a mulher, outra pessoa que não a vítima pode fazer a denúncia, em função da alteração recente que houve na legislação.
A atendente reforçou o fato de que, em todas essas etapas, a mulher pode – e deve – ir ligando para o 180 para receber outras informações, apoio, encaminhamento para centros de referência e demais orientações para levar a cabo a denúncia. Se precisar da defensoria pública, sugeriu entrar em contato novamente com o 180 que eles indicam telefone e endereço.
IMPORTANTE!
A indicação é fazer um boletim de ocorrência dando nomes aos bois (fui xingada, fui humilhada, me amarrou, me bateu, gritou comigo, me ameaçou, impediu meu acompanhante de entrar - é lei!, e tudo mais), não usando o tempo VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA, que ainda não é conhecido.
Ligia Moreiras Sena
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Faz pouco mais de um ano quando eu percebia o quanto era difícil, para as pessoas em geral, associar os maus-tratos no parto à violação dos direitos da mulheres. Hoje estou feliz por estar mais otimista: o manto da invisibilidade está caindo, e vai continuar caindo cada vez mais. 

A violência obstétrica está por todos os lados: as mulheres estão denunciando massivamente. E elas choram quando nos contam suas histórias, mesmo que uma década tenha se passado. E nós queremos aumentar suas chances de obter informação sobre o modelo obstétrico que defendemos, porque sabemos que é mais seguro para a saúde da mãe e do bebê, dentro do qual parimos e gostamos, muito.

Gostamos da ética, da estética, dos cheiros e dos sabores e das dores de um parto fisiológico seguro, favorecido, respeitado, bem acolhido e monitorado.

Hoje, vejo que temos como o mais urgente desafio a formalização jurídica de tal conceito: Violência Obstétrica. Para facilitar o acesso de TODAS as mulheres à denúncia e apreciação da assistência recebida. Para que haja regulamentação também por parte dos Conselhos profissionais, da ANVISA, das empresas hospitalares e operadoras de planos de saúde. Para que o Ministério da Saúde perceba a importância de estabelecer o monitoramento de todas as intervenções no parto: rotura de bolsa, episiotomia, litotomia, kristeller, tudo o mais. Para que implementem protocolo para formulários de qualidade preenchidos pelas mulheres e seus acompanhantes de parto.

Por Carla Raiter, na Fanpage Projeto 1:4

Muitas ações já despontam como estratégias, como Carla Raiter publicou em seu Projeto 1:4, ou a Cientista Que Virou Mãe, e a advogada Gabi Sallit em sua jornada ao lado de Ana Paula Garcia, a partir da qual publicou a Campanha Tenha Seu Pronturário.

Percebendo, hoje, que a violência obstétrica está por todos os lados, pergunto: quais são os principais desafios colocados para os nossos processos individuais contra a violência obstétrica? Como podemos agir para ampliar a efetividade dos direitos para um número cada vez maior de mulheres? Como podemos burocratizar (sim, ela é necessária, e requer organização, planejamento, advocacy) o poderoso Mapa da Violência?

Definição de violência obstétrica estabelecida na Ley Orgánica sobre el 
Derecho de las Mujeres a una Vida Libre de Violencia (Venezuela, 2007) 

sexta-feira, 8 de março de 2013

Não me venha com flores

Pois é. Dia Internacional da Mulher.

Recebemos flores, temos atividades comemorativas que contemplam nossa beleza exterior, c/ manicures, cabeleireiros e o escambau p/ celebrarmos a data.

Mas, quem disse que temos o que comemorar num País que tem altos índices de violência contra às mulheres, seja doméstica, sexual, e/ou obstétrica?!

Quem disse que somos o sexo frágil - "mas que mentira absurda", já expressada por Erasmo Carlos!

Somos mulheres, mães, guerreiras e lutadoras, em busca de respeito e autonomia!

Por isso, o Blog Parto no Brasil lança hoje a página sobre Violência Obstétrica, editada por Ana Carolina, c/ o intuito de compilar as postagens neste espaço, sobre o tema, p/ dar visibilidade a este tabu, que é pouquíssimo debatido ou questionado.

Para quem não conhece e nunca ouviu falar violência obstétrica é o desrespeito físico, verbal, de classe/minorias, e institucional durante o trabalho de parto e parto de uma em cada quatro mulheres brasileiras, segundo pesquisas da Fundação Perseu Abramo, e do sociólogo Gustavo Venturi, em 2011. Não é mito. Acontece todos os dias em algum hospital do Brasil. Pode ter acontecido c/ você, um familiar, um amigo.

Assim, p/ desmitificar bora se informar e vir lutar c/ a gente! Por que temos o direito de parir c/ dignidade, e o Estado tem o dever de cumpri-lo!


Ouça, ainda, uma entrevista de profissionais sobre o assunto pela Radioagência Nacional, de 06 de março, por Katiana Rabêlo, c/ Ligia Moreiras Sena, do Cientista que virou mãe, Ana Cris Duarte, obstetriz e coordenadora do Grupo de Apoio a Maternidade Ativa (GAMA), em São Paulo, e outros convidados!


Para finalizar, conheça os sites:

Violência Obstétrica - Mapa de Abusos Cometidos no Parto

 Um panorama deste tipo de violência relatada por mulheres e suas famílias, lançado hoje, em:

https://violenciaobstetrica.crowdmap.com/


E, a fanpage Projeto 1:4, da fotógrafa Carla Raiter

https://www.facebook.com/projeto1em4


E, se você passou por algum tipo de violência denuncie!

Não se cale!

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Conexão Futura - Direitos da Grávida - 18/02/2013

Foi ao ar nesta segunda-feira, ao vivo, gravado no estúdio do Conexão Futura, no Rio de Janeiro, e apresentado por Thiago Gomide, um debate sobre direitos das gestantes, c/ a presença da Juíza do Trabalho Daniela Müller, do médico Renato Sá, da FEBRASCO, e tb Ana Carolina A. Franzon, q co-edita este Blog e está às vésperas de se tornar Mestre em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP/USP).

Ana Paula Garcia esteve, ainda, por telefone, direto de Belo Horizonte/MG e relatou c/ muita emoção a perda de seu bebê, após o parto, muito por conta das intervenções não autorizadas por ela, como falta de seu acompanhante por dado momento, uso de soro e analgesia, perca da mobilidade no trabalho de parto, estando atada a cama p/ parir, além de violências verbais ao discriminar o tipo de parto que ela e sua família desejavam, antes planejados e idealizados.

Mais que destacar os direitos constitucionais tivemos a oportunidade de ouvir sobre o trabalho das Doulas, seus benefícios e atuações, além do poder de decisão que nós mulheres temos na assistência obstétrica frente aos vários tipos de modelos disponíveis.

O tema da violência obstétrica também foi muito bem esclarecida, mesmo que rapidamente, principalmente ao ser frisado como algo velado, sendo rotineiro, e encarado como normalidade.

Fica o gosto de quero mais, e de que c/ dedicação, amor e luta de milhares seremos milhões!

Confiram, abaixo:



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Antes de ir ao ar na web, Ana compartilhou conosco um breve relato de agradecimento:

Um SUPER agradecimento aos jornalistas produtores, ao apresentador Tiago, e ao editor do programa Conexão Futura - por pautarem tão importante tema para as mulheres: os direitos daquelas que engravidam, direitos trabalhistas e especialmente o direito à saúde e a melhor assistência obstétrica disponível. E especialmente pelo contato acolhedor e recepcão cuidadosa - foi um grande prazer ter tido a oportunidade de conhecê-los. Nos bastidores, conheci uma juiza do TRT que teve parto domiciliar planejado com Heloisa Lessa (fala sério!!), e conversavamos felizmente sobre o Congresso de Honolulu, do qual ela participou, e outras coisitas caras aos defendores de uma assistência ao parto mais amigável as mulheres. Conhecemos também um GO da Febrasgo administrador da Maternidade Perinatal, do Rio. Em 25 minutos de conversa, tivemos como auge das emoções o relato ao vivo e por telefone de Ana Paula Garcia, de BH-MG, com a história de sua filha que nao conseguiu sobreviver aos danos iatrogênicos, e sobre como ela transformou o 'luto em luta'. Conversamos sobre as doulas, os acompanhantes, a qualidade do pré-natal e a importância da valorização das escolhas de parto das mulheres. O desafio é IMENSO - e é sempre desalentador ouvir o discurso que culpabiliza as mulheres pelas taxas de cesáreas, pelo não cumprimento das recomendações do pré-natal, por uma gravidez incompatível com os objetivos de lucro das empresas. MUITO felizmente, hoje somos milhares de brasileiras e brasileiros bem dispostos a fazer com que as informações estratégicas sobre a assistência ao/ a experiência de parto cheguem a cada vez mais mulheres. Obrigada a todos vocês que se importam com a qualidade dos nossos serviços de saúde, e com a MISSÃO de aumentar o número de mulheres satisfeitas com a experiência do parto normal. Sinto uma imensa gratidão por poder fazer desta rede de mulheres que lutam. Um abraço enorme em Ana Paula, e em todas as mulheres que não puderam levar seus bebês para casa. Nós somos todas vocês! Bianca Lanu e Vanessa do Canal Futura, obrigada do coração. O programa sera reprisado esta noite, e em breve, estará também nos canais do Blog Parto no Brasil. 

Por Ana Carolina Franzon

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Direitos das gestantes e violência obstétrica, no Conexão Futura, do Canal Futura

O tema do programa desta segunda-feira, dia 18, no Conexão Futura são os direitos das gestantes.


Mesmo garantidos por Lei, muitas delas não sabem, sendo que, de acordo com a Rede Cegonha, em 2012, 56% das gestantes atendidas pelo SUS foram impedidas de levar acompanhantes para o trabalho de parto, parto, e pós-parto imediato, assegurado pela Lei 11.108/2005, sendo esse um direito violado.

A prioridade no atendimento médico nas instituições públicas e privadas também é outro direito ainda desconhecido pela sociedade.

No ar, às 15h35. Também acessado pela internet em: 


Ana Carolina, a convite da produção do programa tb estará nessa prosa, ao vivo, no Rio de Janeiro, p/ falar sobre violência obstétrica, assim como Ana Paula Garcia, por telefone, nos contará sua história de luta, e coragem, bem como outros profissionais da área.

Imperdível!

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Por um outro modelo de assistência ao parto

Por um modelo de cuidado à gravidez, parto e pós-parto centrado na mulher, com mais mulheres envolvidas, e muito mais conversas entre elas.


52% dos nascimentos no Brasil ocorrem por cesáreas. A morte materna e a morte infantil são eventos raros. Mas a transferência de mães e bebês para a UTI não é fenômeno incomum. Todas as mulheres têm direito a auto-determinação e  não-coação em suas escolhas de parto.


Mais parteiras, mais obstetrizes, mais enfermeiras! E doulas para TODAS as mulheres.

O Blog Parto no Brasil assina este manifesto.

Violência obstétrica, em tradução artística de Noghan S. Rodberg, por The Unnecesarean

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ATENÇÃO MULHERES em defesa da cidadania:
Mais um direito à saúde está ameaçado! Compartilhe o manifesto da CMB, em defesa das boas práticas na atenção ao parto, com a valorização do trabalho das parteiras, obstetrizes e enfermeiras!
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A Confederação das Mulheres do Brasil - CMB repudia a cobrança de taxas ILEGAIS que vem sendo cobradas das mães brasileiras em trabalho de parto. Os Planos de Saúde pagam valores irrisórios pelo atendimento ao Parto. Com essa avidez por lucros estimulam que uma parcela de médicos cobrem taxas extras para acompanhar as mulheres em trabalho de parto natural.

A pressão sobre as mães é absurda e inaceitável. O número de nascimentos através de cesarianas no sistema se saúde privado alcançou 83% neste último ano. As famílias são colocadas diante da situação de concordar com a cesariana ou pagar a mais caso queiram tentar o parto natural com o médico ou médica que acompanhou o pré-natal pelo Plano de Saúde.

O Brasil ainda luta para diminuir a morte materna por causas evitáveis como infecções e hemorragias. A cesariana é uma cirurgia que pode ser evitada e as mulheres devem ter direito de optar livremente sobre como querem dar a luz tendo acesso à todas as informações necessárias sem indução em sua escolha.

É preciso fortalecer o Sistema Único de Saúde e agilizar ainda mais a implantação do PROGRAMA REDE CEGONHA. É preciso colocar a SAÚDE no patamar que o povo brasileiro merece e precisa. Com as verbas necessárias e participação social á altura de um governo democrático. Queremos o atendimento pelo SUS proporcionando o acolhimento e a segurança que as mães merecem evitando que se tornem clientes dos Planos a aumentar os lucros de quem desrespeita a mulher brasileira.

A ANS está para decidir se legaliza a cobrança. A CMB apela ao Ministro da Saúde Alexandre Padilha que exija dos Planos de Saúde que tenham respeito com seus clientes que já pagam absurdas mensalidades e não recebem o tratamento adequado.

O acolhimento digno é elementar quando o assunto é SAÚDE. Os filhos do Brasil não são MERCADORIA e muito menos a SAÚDE. A falta de acolhimento é ainda mais grave quando se trata das mães brasileiras que estão a dar a luz à brasileiros e brasileiras que serão os futuros responsáveis por nosso país.

São Paulo, 4 de dezembro de 2012
CONFEDERAÇÃO DAS MULHERES DO BRASIL.

Pedimos que se posicione através de nossa página no Facebook.
http://www.facebook.com/confederacaodasmulheres.brasil

E envie sua mensagem ao ministro e à ANS.

domingo, 25 de novembro de 2012

Violência Obstétrica - A Voz das Brasileiras


 



Neste 25 de novembro de 2012, completamos um ano de ações coletivas nas mídias sociais, sempre com objetivo de dar mais visibilidade ao tema da violência obstétrica e de desnaturalizar as infrações aos direitos das mulheres, cometidas pelos profissionais de saúde, que muitas vezes passam desapercebidas.

São ações coletivas organizadas por usuárias, pesquisadoras e profissionais da saúde para promover o debate, sensibilizar, denunciar e ir adiante, até que se consiga que políticas públicas efetivas sejam promovidas no sentido de erradicar a violação dos direitos humanos das mulheres no parto.

Embora estejamos mobilizando centenas de pessoas e falando com cada vez mais frequência sobre o assunto, é importante que as pessoas saibam o histórico do movimento contra a violência no parto - a violência obstétrica, nome que as próprias mulheres cunharam para tais práticas.

Em agosto de 2010, a Fundação Perseu Abramo, em parceria com o SESC, realizou a pesquisa Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado, onde apresenta a evolução do pensamento e do papel das mulheres em nossa sociedade. Foram entrevistados centenas de homens e mulheres em mais de 170 municípios brasileiros.

Os resultados sobre o tema da violência contra as mulheres chamaram muito a atenção e, neste contexto, surgiu um dado alarmante sobre a violência institucional sofrida pelas brasileiras: uma em cada quatro mulheres (25%) relatou ter sofrido algum tipo de violência na hora do parto. Dentre as diversas formas possíveis de abusos e maus-tratos, tiveram destaque:
exame de toque doloroso, recusa para alívio da dor, não explicação de procedimentos adotados, gritos de profissionais ao ser atendida, negativa de atendimento, xingamentos e humilhações. Além disso, 23% das entrevistadas ouviu de algum profissional algo como: “não chora que ano que vem você está aqui de novo”; “na hora de fazer não chorou, não chamou a mamãe”; “se gritar eu paro e não vou te atender”; “se ficar gritando vai fazer mal pro neném, vai nascer surdo”.





Esses dados chocantes começaram a ganhar repercussão na mídia, com matérias em jornais de grande circulação, publicadas em fevereiro de 2011.






Em abril do mesmo ano,  a Comissão Permanente de Saúde, Promoção Social, Trabalho, Idoso e Mulher realizou um debate com o tema “Maltrato no atendimento em maternidade e no pré-natal”, na Câmara Municipal de São Paulo, reunindo cerca de 70 pessoas, entre elas o coordenador da pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo, o sociólogo e professor da USP Gustavo Venturi, a médica Anke Riedel, coordenadora da Casa Ângela, casa de parto considerada modelo no Brasil, a enfermeira e coordenadora do curso de Obstetrícia da USP Nádia Zanon Narchi, a representante do Programa Mãe Paulistana, Maria Aparecida Orsini e a bióloga Ligia Moreiras Sena, uma das autoras da ação coletiva que apresentamos hoje. 


Neste evento, o professor Gustavo Venturi apresentou os dados sobre violência no parto acima mencionados e, em entrevista para a jornalista da Câmara, afirmou: “São três os principais problemas que ocorrem e acabam gerando a violência no parto. A primeira é a questão da formação dos profissionais, em segundo vem a superlotação das instituições e, em terceiro, as mulheres não são adequadamente preparadas para o momento do parto”.

A partir de então, os coletivos femininos começaram a se mobilizar em termos de circulação de informação, denúncia da situação da assistência obstétrica brasileira, reivindicação de direitos, discussão sobre o assunto. E as mídias sociais apareceram como fator catalisador crucial para todas as ações que se seguiram.

Em 24 de novembro de 2011, no contexto de uma grande ação das Blogueiras Feministas, realizamos a primeira Blogagem Coletiva sobre o tema - “Violência Obstétrica é Violência Contra a Mulher”. Dezenas de blogueiras participaram com textos autorais livres publicados no dia 25 de novembro e, desde então, muitos relatos foram produzidos, mulheres que usaram o texto para organizar a experiência vivida - e que talvez possam ter sido beneficiadas de alguma forma com tal escrita, e beneficiado outras mulheres por meio da leitura.

Neste dia, a pesquisadora Ligia Moreiras Sena também lançou nas mídias sociais o convite à participação em sua pesquisa de doutorado, sobre a violência obstétrica na percepção das mulheres que a viveram e, por meio do Facebook, dos blogs e do Twitter, centenas de mulheres se inscreveram para serem entrevistadas. Em um esforço de divulgação, foi aproveitado o Twittaço que ocorreu utilizando a hashtag #FimDaViolenciaContraMulher para contactar pessoas que pudessem ajudar na disseminação do convite à pesquisa.







Em nossa segunda ação de ciberativismo, coordenada para o Dia Internacional da Mulher - 8 de Março de 2012, alcançamos certamente mais de duas mil mulheres, com a força de divulgação coletiva de 75 blogs.

Foi o Teste da Violência Obstétrica. Promovido pelos blogs Parto no Brasil, Cientista Que Virou Mãe e Mamíferas o instrumento foi idealizado a partir de documento original da associação civil argentina Dando a Luz, e o Coletivo Maternidade Libertária, disponível em algumas publicações na Internet, em blogs e sites, datadas de 2010.

Para a divulgação no Brasil, o documento foi revisado e adaptado à proposta desta Blogagem Coletiva. As questões abertas foram transformadas em um questionário com múltiplas escolhas, onde incluímos uma importante caracterização sociodemográfica, e contamos com a força de divulgação das mulheres conectadas em suas redes virtuais. Em apenas três dias compilamos mais de mil resultados. E seguimos com o recebimento de novas respostas durante 38 dias. Ao final do prazo, 1966 nascimentos foram avaliados.

Conseguimos atingir nosso principal objetivo, que era dar grande visibilidade a esta questão nas mídias sociais, entre as mães editoras de blogs e demais usuárias da Internet. E os resultados não poderiam deixar de ser surpreendentes. A expressiva participação no Teste da Violência Obstétrica era apenas um indicativo da força que as mulheres, juntas, têm para denunciar um grave problema de cidadania, de falta de oportunidades, de nenhum direito de escolha.






Então em 1o. de agosto de 2012, um grupo de mulheres ativistas mineiras avançam mais um pouco no contexto da luta contra a violência no parto. Em um marco histórico, conseguiram levar a cabo a Audiência Pública “Violência no Parto” na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Estiveram presentes usuárias do sistema de saúde, obstetrizes, doulas, ativistas, políticos e estudantes, em um evento que acionou entidades médicas do estado e o Ministério Público para abrir o debate.

Em outubro de 2012, uma terceira Postagem Coletiva reuniu os esforços necessários para que o vídeodocumentário "Violência Obstétrica - A Voz das Brasileiras" pudesse ser produzido. Em menos de dois meses, fizemos um roteiro para os depoimentos individuais, convidamos as mulheres a nos enviarem suas histórias de vida, com consetimento, para participação. As participantes gravaram vídeos caseiros com seus depoimentos, suas histórias de violência, intolerância, ignorância e racismo que marcaram seus corpos e suas vidas, e nos enviaram. As chamadas podem ser vistas nos blogs Cientista Que Virou Mãe e Parto no Brasil. Em poucos dias, conseguimos editar, com a ajuda do fotógrafo e videomaker Armando Rapchan, os vídeos recebidos e mais dezenas de fotografias, em um vídeo final de 52 minutos. Escolhemos por manter o caráter de produção caseira dos depoimentos.  O documentário foi então lançado no dia 17 de novembro último, como parte das comunicações científicas coordenadas do Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, ocorrido em Porto Alegre.

Assim, decorrido 1 ano após o início de nossas ações de ciberativismo, divulgamos hoje, 25 de novembro de 2012, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, o vídeodocumentario “VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA - A VOZ DAS BRASILEIRAS”. Ele representa o trabalho de dezenas de mulheres na luta contra a violência obstétrica. Com a voz de algumas delas, simbolizamos o coro de milhares de brasileiras que vivem desrespeitos aos seus direitos reprodutivos cotidianamente, em um processo tornado banal e rotineiro. Queremos ser representadas, queremos que nossas vozes sejam ouvidas e que, de alguma forma, impulsionem medidas que visem a erradicação da violenta assistência ao parto no Brasil.

Queremos agradecer, em primeiro lugar, às mulheres que muito corajosamente se dispuseram  a tocar em suas próprias feridas, em suas próprias dores, a fim de problematizar a questão e formar um coro de vozes. Queremos agradecer também às dezenas de mulheres que nos enviaram fotografias dos partos/nascimentos de seus filhos e que, por limitação de tempo, não puderam ser utilizadas. Queremos agradecer a todos que, direta ou indiretamente, nos ajudaram e incentivaram na produção desta ação.

Esse vídeo foi realizado de maneira espontânea e voluntária por:


- Bianca Zorzam, obstetriz, aluna de mestrado do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da Universidade de São Paulo;


- Ligia Moreiras Sena, bióloga, aluna de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Santa Catarina, autora do blog Cientista Que Virou Mãe;  


- Ana Carolina Arruda Franzon, jornalista, aluna de mestrado do Programa de Pós Graduação em Saúde Pública da Universidade de São paulo e co-editora do blog Parto no Brasil;


- Kalu Brum, jornalista, doula e co-editora do blog Mamíferas.


- Armando Rapchan, fotógrafo e videomaker.

Melhorar a qualidade da atenção ao parto e nascimento é um desafio complexo, que deve contar com a colaboração multi-setorial de vários agentes: profissionais de saúde, gestores, pesquisadores e docentes, e ainda, as mulheres, por meio do controle social.

Assim, agradecemos cada pessoa envolvida nesta ação e convidamos a todas e todos para contribuírem com o enfrentamento desta forma de violência contra as mulheres, com propostas e encaminhamentos inovadores. Pelo respeito aos direitos humanos femininos. Pela redução das mortes maternas. Pela promoção da saúde das gestantes e dos bebês. Por formas inovadoras de organização dos serviços, e pela adoção massiva das boas práticas na assistência ao parto normal.

“Que nossas vozes sejam ouvidas. Que nossas histórias não sejam ignoradas...”

Muito obrigada

Bianca Zorzam
Ligia Moreiras Sena
Ana Carolina Arruda Franzon
Kalu Brum
Armando Rapchan



--


Às mulheres que transformaram suas histórias em luta


Prezadas participantes,

Estamos muito gratas por termos recebido o apoio de cada um/a de vocês nesta jornada pela melhoria da qualidade da assistência ao parto e nascimento no Brasil.

O conteúdo que vamos disseminar a partir de hoje nos coloca diante de uma realidade extrema, que resiste em muitos lugares e locais como problemas individualizados, personalizados, e invisíveis. A pior consequência da invisibilidade de toda forma de violência é o fato de que as mulheres ficam então proibidas de manifestarem suas mazelas, suas frustações, dores, traumas e revoltas.

Nós precisamos reiterar para cada pessoa que assistir a este filme que estas mulheres, todas nós, não estávamos erradas. Nunca estivemos equivocadas. O nosso único objetivo - coletivo - é colaborar para a construção de um outro modelo de assistência ao parto, mais seguro e amigável às mulheres, que valorize sua autonomia, saúde, bem-estar emocional, e integridade corporal.

Essas 24 mulheres que participaram desta produção ressonam a gravidade de uma situação que não podemos mais ignorar. Juntas, nessa rede que estamos formando há um ano, com a força da websfera materna, temos certeza de que conseguiremos estabelecer critérios rigorosos e efetivos para a avaliação da qualidade da assistência obstétrica - com valorização da experiência positiva das mulheres com o parto.

Abaixo, deixamos as instruções sobre como tirar o melhor proveito desta nova ação coletiva. Novamente, nosso muito obrigada.

Roteiro para participação da divulgação:

1. Esta é uma ação realizada via mídias sociais, e proposta por um grupo de ativistas pela humanização da assistência ao parto, usuárias, profissionais de saúde e pesquisadoras da saúde pública.

2. Junto com a divulgação do vídeo, encorajamos todas as pessoas a publicarem seus próprios comentários sobre o tema da violência obstétrica.
4. Caso você queira compartilhar o vídeo via perfil do Facebook, Orkut, ou encaminhá-lo via e-mail para listas e grupos, pode utilizar o link a seguir ou compartilhar os vídeos que já estarão postados nas fan pages dos blogs Cientista Que Virou Mãe e Parto no Brasil
5. Além da ampla divulgação nas mídias sociais, esperamos levar esta produção para discussões coletivas em grupos de apoio ao parto; salas de aula; serviços de saúde, entre outros.

6. Encorajamos todas as pessoas a nos enviarem seu comentários sobre a produção, assim como sobre o tema em geral, e informações sobre as discussões geradas a partir das exibições. Sempre que uma apresentação coletiva for realizada, pedimos a gentileza de nos informarem o grupo em que foi apresentado, a data, e quantidade aproximada de pessoas.

Novamente, nosso agradecimento a todos que se juntaram e essa causa tão relevante.
Que possamos, juntos, combater todas as formas de violência contra as mulheres.

Grande abraço

Bianca Zorzam
Ligia Moreiras Sena
Ana Carolina Franzon
Kalu Brum
Armando Rapchan

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