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segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

É preciso ressignificar a dor

Hoje vou compartilhar com vocês a história de uma amiga, e de como vi, a partir de minha percepção como necessitamos ressignificar as dores, e como isso não é permitido, quando temos, enfim, um bebê saudável nos braços, depois de uma cesárea bem indicada.

Luana, 21 anos, gestava Miguel.

Passou a gravidez buscando boas informações, além das consultas médicas, em Botucatu, interior paulista. Mesmo assim, lhe faltou oportunidades de estar num grupo de gestantes e casais, para trocar as emoções, sensações, expectativas de gestar um bebê. Ela também optou por não ter uma doula ao seu lado.

A Lua vira, e com mais de 38 semanas ela perde o tampão mucoso, uma espécie de muco que costuma sair, no fim da gravidez, pelo colo do útero, indicando sua abertura, mesmo assim varia de mulher e gestação, e não é indicação de trabalho de parto. Mas, no caso de Luana já veio acompanhado de contrações. Bora correr para o Hospital Universitário da UNESP!

Com um dedo de colo uterino dilatado, foi aconselhada a voltar para casa. Chuveiro, descanso, casa cheia, ansiedade. E, o relógio passa, tic tac tic tac...

Volta para o hospital! As contrações aumentaram!

Mesmo assim, o trabalho de parto estava longe de ser ativo. E, ela e seu esposo desejavam tanto receber Miguel em um parto normal, mas depois de mais de 30 horas, o obstetra observou que sua cabecinha estava mal colocada, além disso, após romper o saco amniótico verificou um líquido esverdeado, e optou por operá-la, imediatamente, assim, o bebê nasceu via cesárea.

Mesmo com toda a emoção que um nascimento provoca, toda alegria contagiante de ver o rostinho de seu filho, tão aguardado, e sim, saber que está tudo bem, e que foi preciso ser assim, é normal e humano se entristecer! Mas, a sociedade nos cobra o oposto, e fundamenta, inclusive, como a cesárea é ótima, já que seu bebê nasceu de uma, e, claro, agendada, para não termos imprevistos - imagina sair no meio da noite para parir, que absurdo, com tanta tecnologia e modernidade tsc tsc...

Pela rede social afora vi quantos comentários Luana recebia com esse mesmo discurso, com essa cobrança, impossibilitada de vivenciar sim seu luto. O luto de que não foi como sonhava, de que seu corpo não atendeu a fisiologia do nascimento, assim a dor tem que ser abafada, dentro do peito...

Obviamente ficamos felizes quando um filh@ nosso nasce, saudavelmente, e se foi preciso uma intervenção como essa, que ótimo que pudemos ser atendidas, e com todo o respeito, mas ressignificar as emoções, o nó na garganta, a lágrima que afoga também são precisos, e preciosos, até mesmo para o vínculo entre mãe-bebê, a descida do leite, a amamentação, as novas noites sem dormir, enfim, os novos desafios que a maternidade nos presenteia, para, junto daquele serzinho, crescer!

E, tratando sobre esse assunto me vem a palavra empatia. O tal de se colocar no lugar do outro, e não dizer com aquele sorrisinho: "Mas, o importante é que blábláblá...". E, sim: "Eu imagino sua tristeza!", ou apenas o silêncio, e um abraço - como vi nesta animação muito bacana, que compartilha essa mensagem - aqui.

Finalizo, com um pequeno relato de Luana Prado Godoi, abaixo:

O último clic!

"E foram 37 horas em trabalho de parto, 37 horas com contração atrás de contração. Mas infelizmente o parto não ocorreu do jeito que eu previa, Miguel teve que nascer de cesárea pois estava encaixado sim mas com a cabeça torta, viradinha. Não tinha como nascer de parto normal naquela posição. Sem falar que a bolsa foi estourada pelo médico e o líquido já estava esverdeado, outro motivo para fazerem a cirurgia. Mas tanto eu, como os médicos e enfermeiros fizemos de tudo e mais um pouco para que o Miguel viesse ao mundo naturalmente, tanto que eu já estava com quase sete dedos de dilatação  Pexão (seu esposo) e eu ficamos tão tristes por não ter sido o parto que tanto esperávamos, mas essa tristeza logo passou quando vimos o rostinho do nosso abençoado homenzinho, que nasceu lindão e cheio de saúde. Mas Deus é testemunha de que fiz o possível, aguentei tudo firme e forte, e se não aconteceu: amém! Deus sabe de todas as coisas. O que me alivia é saber que o Miguel veio no tempo dele e que essa cesárea foi uma cirurgia realmente NECESSÁRIA!".

Nasce um bebê, e um pai!

Miguel S2

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Parto no Brasil entrevista Adriana Vieira - Agosto de 2013


Publicamos hoje uma entrevista realizada em agosto c/ a querida Adriana Vieira, doula, educadora perinatal, instrutora de Yoga e coordenadora do Namaskar Yoga, na Baixada Santista. Na ocasião ela estava em seu puerpério da filhota Dora, nascida de um parto normal após duas cesáreas!








PARTO NO BRASIL Adriana é um prazer ter você neste espaço para nos contar como foi gestar após os 40 anos, e, também buscar um parto natural, após duas cesáreas anteriores! Conte-nos como foi este processo!

ADRIANA R: Obrigada pela oportunidade em estar aqui também. Sempre li o blog, e por aqui aprendi muito com outras mulheres, com as informações que vocês passam, então, fico feliz em estar falando sobre o meu parto e minha vivência e espero poder ajudar também. 
O processo foi longo e cheio de aprendizado. Posso dizer agora que havia uma Adriana antes do parto normal e outra agora. Renasci como mulher! Foi a experiência mais divina que já tive.
Bem, tive duas cesárias: uma há 22 anos e outra há 20. Na época achei que a cesariana era o melhor pra mim e para meu bebê, pois ouvia isso constantemente, tanto de amigas, familiares, como de médicos, e não questionei. Por sorte, entrei em trabalho de parto em ambas gestações, mas como tive uso de ocitocina (o que chamam de sorinho, no hospital) não aguentei a dor e acabei indo pra cesariana. 
Mas tudo começou há sete anos, quando estive na Holanda e acabei fazendo um curso de Iyengar Yoga em Amsterdã.  Lá comecei a ouvir falar sobre Yoga pré-natal e Yoga para casais grávidos, e então comecei a estudar por lá. Assim, conheci o trabalho das midwifes e das doulas.
Fiz um curso em Amsterdã e me encantei com esse mundo das gestantes, e dos casais que se preparavam pra ter seu parto, pra serem protagonistas desse momento. E vi uma realidade por lá muito diferente do que via aqui: a maioria das mulheres queriam o parto normal e tinham seus bebês em casa, com todo apoio da família, marido, e também do governo.
Quando voltei ao Brasil comecei a dar aulas de Yoga bem direcionadas para as gestantes,  e elaborei alguns cursos para os casais grávidos, pois em Santos, onde moro, não havia nenhum curso que realmente preparasse os casais pra um parto natural, ou normal. 
Então, conheci um grupo em São Paulo que falava a língua que eu estava começando a entender, e lá fiz vários cursos para começar atuar como doula aqui no Brasil. 
Realmente aprendi a importância do parto normal para a mulher, para o bebê, para o casal em si! Me apaixonei por esse mundo e há cinco anos abri a Namaskar Yoga, com esse intuito: levar informações para que as mulheres e casais pudessem fazer suas escolhas conscientes em relação ao seu corpo, ao seu parto. Por isso, temos grupos gratuitos, encontros para gestantes e casais que realmente buscam essas informações.
Bom, essa viagem a Holanda que mudou minha vida profissional, mudou ainda minha vida pessoal. Me casei com um holandês e viemos morar no Brasil, e então, quando completei 42 anos, em 2012, decidimos ter um bebê, já que meu marido ainda não tinha filhos, e eu estava realmente louca pra ser mãe de novo!
A gravidez foi de baixo risco, sem nenhuma intercorrência, ou seja, saúde perfeita: pressão ótima, peso ok, nenhuma doença crônica.
Bom, com tudo normal, minha médica, um anjo na minha vida, me liberou para uma viagem que eu já tinha marcado antes de saber que iria engravidar. Então, com quatro meses de gestação fui para Dubai e Índia, onde estive por 22 dias, estudando mais sobre Yoga e saúde da mulher, bem como passeando bastante com Dorinha na barriga.
Continuei a levar minha vida normalmente, mas claro, sem excessos. Doulei alguns partos durante a gravidez, até completar 30 semanas. Mas como dou aulas de Yoga para gestantes, continuei com essa atividade, e acrescentei a caminhada na praia e mais meditação. Mas depois, com 36 semanas parei de dar aulas de Hatha Yoga e Yoga para crianças, pra descansar um pouco mais, fisicamente. Senti essa necessidade e assim fiz.
Eu e meu marido queríamos tentar o parto em casa e já tinha o apoio de uma equipe, com quem trabalho já aqui na minha cidade, Santos. 
Como eu já tinha duas cesárias anteriores, durante o trabalho de parto eu não poderia ter nenhum medicamento, caso precisasse ajudar a dilatar, então, decidimos ficar em casa. Entrei em trabalho de parto num domingo, e tive minha bebê na madrugada de terça-feira, 23 de julho. Passamos a segunda-feira toda em TP (trabalho de parto). A equipe trabalhou muito comigo, e me ajudou bastante, pois foi um parto longo. E meus dois filhos, Aline, 22 anos e Thales, 20, ficaram comigo o tempo todo também me ajudando, bem como meu marido. Cada momento foi importante. 
Num trabalho de parto longo como foi o meu, todo o preparo anterior é de total importância! Eu praticava Yoga e meditação, e ambos me ajudaram muito, pois o parto é físico e mental! Ambos precisam estar em sintonia. 
Bom, outra coisa que me ajudou muito foi a total sintonia com meu marido e meus filhos. Cada olhar, cada palavra. 
Num longo TP , qualquer coisa poderia ter me desanimado, mas com uma boa equipe, pessoas te ajudando e preparo físico e mental anterior, resultou no que tive: um parto normal vaginal.

PARTO NO BRASIL Compartilhe conosco seu parto, e nos conte como foi a participação de seu companheiro, e filh@s durante o trabalho de parto e parto.

ADRIANA R: Ficamos em casa domingo e segunda, e eu entrei em trabalho de parto franco, na segunda-feira. Liguei para a doula na segunda de manhã, mas as contrações ainda estavam espaçadas, porém, ritmadas. Como eu já não havia dormido bem de noite, devido às contrações, resolvi ligar pra ela. Ela chegou em casa, ficamos fazendo alguns movimentos na bola, eu caminhava, agachava etc. Eu ainda estava conversando e interagindo bem com todos em casa. Quando as contrações começaram a ficar mais fortes, comecei a querer ficar mais em silêncio, e a usar mais o chuveiro. Aliviava muito as dores, a água quente na lombar. E então, depois do almoço, eles montaram a banheira no meu quarto. Foi excelente também! Tomamos um lanche, feito pela minha mãe, já no final da tarde, pois entre uma contração e outra, parece que nada havia acontecido. Com isso, aguentei bem as contrações nesse período. Depois das 18hs, aí sim comecei a achar que as contrações estavam bem fortes, e a coisa foi ficando pior e pior! Enfim, a equipe auscutava sempre os batimentos da bebê, e ela colaborava sempre. Coraçãozinho sempre ótimo. Então, eu poderia continuar meu TP. E então, comecei a fazer força. Chegava ao período expulsivo. Contrações mais perto umas das outras e muito doloridas. Nessa hora lembro que o que eu mais queria é que alguém da equipe, ou meus filhos, marido, continuassem a acreditar em mim e que eu iria passar essa fase, e então minha filha ia nascer. E foi exatamente o que fizeram. Me falavam que já estavam vendo o cabelinho do bebê, e brincavam comigo, enfim, me incentivavam sempre. 


Mas, a equipe viu que eu estava com um edema na vagina, e que a dor que eu sentia era também do edema, e esse período do expulsivo foi se tornando mais e mais longo. A bebê estava bem, mas já há muito tempo no canal vaginal, então, resolvemos ir para o hospital e tomar uma analgesia pra não sentir mais tanta dor. Foi tudo bem rápido. Cheguei no hospital depois da 1 da manhã, e ela nasceu antes das duas. Na terceira força que eu fiz Dora coroou. Parto vaginal, sem episiotomia, sem corte nenhum na vagina. Um bebê bem esperto, sadio e lindo! Minha Dora chegou e foi o momento mais emocionante da minha vida, do meu marido, da minha mãe e dos meus dois filhos mais velhos. Eles não  haviam assistido um parto anteriormente. E viram e vivenciaram tudo comigo, na sala de pré-parto, pois nem entramos no centro obstétrico. Tive ela no quarto.
Meu filho, Thales, foi quem cortou o cordão, e foi extremamente emocionante pra mim assistir de certa maneira, meu filho e minha filha. Detalhe:  eu tirei a foto dele cortando o cordão, uma cena inesquecível! Minha filha e minha mãe estavam comigo e adorei tê-las por perto. Maridão o tempo todo pertinho, e logo que Dora nasceu, ele a segurou no colo, e só largou para que ela viesse mamar, o que aconteceu logo nos primeiros minutos.
Me senti a mulher mais feliz do mundo, mais poderosa, mais forte e vi que minha família toda vibrou com minha alegria! Foi divino. Nos trouxe uma união incrível.

PARTO NO BRASIL Você também atua como doula e educadora perinatal, além de instrutora de Yoga. Como está sendo a vivência da maternidade durante o puerpério, e os primeiros dias amamentando Dorinha, aliado à vida profissional, nessa área.

ADRIANA R: Como mulher, mãe e doula, fico feliz em ter tido essa experiência, e aos 42 anos. Me percebi ainda mais. Senti o poder que temos sobre nossa mente, sobre nosso corpo, e também como podemos aprender sobre nossos limites, medos e como ultrapassá-los. Percebi, que tudo que venho aprendendo e ensinando com o Yoga foi fundamental pra que eu tivesse essa percepção, física e mental, e como é importante sermos responsáveis pela nossa decisão do que queremos, do que podemos fazer por nós mesmas. E como é importante escolher bons profissionais pra ter nesse momento, e apenas as pessoas importantes e essenciais pra você nesse momento tão importante, tão privado, que é nosso parto e o nascimentos de seu bebê, de uma nova família. 
Percebi ainda mais a importância da privacidade e do silêncio durante o trabalho de parto e no parto realmente. E o respeito à gestante para que ela possa ficar consigo mesma e perceba o que seu corpo pede, que posição ficar, como agir, pois no fundo, cada mulher sabe o que precisa fazer e como agir.


Dora nasceu num ambiente amoroso, sem intervenções desnecessárias e veio logo pro meu peito mamar. Ficou comigo o tempo que quisemos. Pôde mamar, pôde parar de mamar quando quis. Fomos pra casa no dia seguinte. Tomei banho sozinha, claro, e me sentia inteira, física e mentalmente. Sem cortes ou cicatrizes, sem dores, sem medos, pelo contrário, me sentia a super mulher, super mãe. Percebi a admiração também de meu marido por tudo que fiz, que consegui. Na verdade, tudo o que juntos conseguimos! 
Hoje me sinto uma profissional também mais completa, como doula e educadora perinatal me sinto plena. Pude passar pelas duas experiências diferentes, e assim, sinto-me mais capaz pra ajudar muitas mulheres, pois saber na prática o que a teoria nos diz e isso é realmente algo profundo. Espero assim, poder ajudar ainda mais as gestantes e os casais grávidos.
Vejo hoje, ainda mais, também que devemos dar uma extrema importância para o período pós-parto. Pois, começamos uma nova fase,  tanto para o casal, que se torna uma família, como para o binômio mãe-bebê, que tem que se adaptar a tudo: amamentação, dormir menos etc. 
Como eu já havia amamentado meus dois primeiros filhos, e já sabia que queria amamentar exclusivamente também até os seis meses, e que no início, nem sempre amamentar é fácil, então, tive bastante paciência, até eu e Dorinha nos adaptarmos uma a outra, nesse balet que é o amamentar. Depois de uma semana, tudo já estava fluindo naturalmente, sem dores, sem medos, sem ansiedade. Ela mama bem, e claro, dorme muito bem. 
E adoro fazer massagem nela, a Shantala, pra que ela não tenha muitas cólicas. Ela ama receber. Também logo dei o banho de ofurô nela, com três dias, pois acredito que remeta o bebê ao útero, e eles amam esse tipo de banho. Embalo ela numa fralda e a mergulho até o pescocinho, deixando o rostinho de fora, claro, e mantendo o corpinho dela imerso no baldinho. Ela fica paradinha, apenas sentindo, e ama também.
Como casal também conversamos muito sobre as mudanças que passamos. Acho isso importante, principalmente pra quem é pai ou mãe de primeira viagem, pois meu marido, que é pai agora, pela primeira vez, aos 47 anos, está percebendo como as mudanças são grandes para o casal. E ele tem aprendido muito e cuidado muito bem da Dorinha também, pois achamos importantíssimo para que eles dois criem um bom vínculo, que ele também faça todas as atividades e tenha os cuidados com ela, como dar banho, trocar fralda, fazê-las dormir, etc.
O pós-parto é um período que requer muito cuidado de ambos, marido e mulher, para que passem bem por essa fase, com um novo serzinho a ser cuidado, uma fase sem sexo pelo menos nos 40 primeiros dias, enfim, muitas mudanças e novidades. Bater papo é o melhor para um bom entendimento e para que a nova família se vincule e se fortifique. Se tivesse que dar um conselho diria pra o casal e bebê terem sempre um tempo sozinhos, sem visitas, sem compromissos e preservem o bebê desses tumultos, por pelo menos 15 a 20 dias. Isso, acredito, faz o trio se vincular mais e melhor! 
Eu me sinto privilegiada por tudo que passei. Me sinto privilegiada por ter conhecido esse caminho, meu marido, essa família que tenho, e pela profissão que estou trilhando. E creio que toda mulher que tiver essa vontade, esse desejo de ter seu parto normal, corra realmente atrás de informações úteis para realizar esse sonho, que nos realiza como fêmeas realmente. 
E claro, aprendi e aprendo muito com as mulheres que doulei, e também com as alunas que ministrei aulas de Yoga pré-natal, e quero cada vez mais retribuir tudo isso. E através do meu trabalho, penso que posso dar um pouco do que recebi!
Se tive meu parto lindo e tão gratificante dessa maneira, foi porque outras mulheres me ensinaram muito! E isso me faz amar mais e mais o trabalho que faço como doula. E acredido muito, que nosso "trabalho" na vida seja realmente nossa "missão". Algo muito maior do que "ganhar" dinheiro pra viver. O trabalho depende da nossa energia e essa depende de como lidamos com o que fazemos, então, quanto mais amor, melhor você se doa, e mais você recebe. Uma roda cíclica de linda em nossas vidas!
E assim tudo foi acontecendo em minha vida. O espaço Namaskar Yoga foi se moldando dia após dia. E fico feliz, porque, se tem tido procura pelas aulas e cursos que ministramos por lá, é porque as mulheres e os casais grávidos estão realmente buscando ser protagonistas de seus partos. Isso vai fazer mudar a triste realidade do nosso país, que hoje é um campeão de cesárias desnecessárias. 
Eu estou retomando as atividades na Namaskar aos poucos, percebendo o ritmo que seja bom pra minha bebê Dora também. Quando ela fez 15 dias participamos do encontro mensal e gratuito que transmitimos ao vivo, via internet, e é dedicado aos casais grávidos, nossa Roda de Mães da Baixada. 


Quanto às aulas de Yoga também volto a dar em setembro, quando completo 40 dias de pós parto.
Em setembro vamos voltar ainda com as aulas de Babyoga, que é pra ser feita pela mãe com o bebê.
Mas claro, devemos perceber nosso bebê, e sentir como eles se comportam, se essas saídas atrapalham ou não o sono e a mamada deles. Por enquanto, Dora fica muito bem no meu colo, no wrap ou sling, quando participamos desses eventos. 


E assim é a fase de puerpério, um eterno aprendizado entre pais e bebês, com uma linda jornada pela frente: a Vida!


(Re)leia outras entrevistas!

Rebeca Celes

Janet Balaskas

Kalu Brum

Mayra Calvette

sábado, 10 de agosto de 2013

Quando a voz é do pai


Por Juliano Codorna


Lembro que uma das primeiras histórias que marcaram o início desse meu processo de transformação como homem e como pai, foi quando minha companheira Bianca Lanu comentou comigo durante sua gestação que gostaria de parir o nosso filho em casa, e a minha reação foi única e imediata:
             - Não me venha com essa conversinha de antropóloga!!! rs
Mas, a partir desse momento foi dado o ponta pé inicial, mesmo sem nossa percepção, de um processo que mudaria nossas vidas para sempre e principalmente a minha, pois sou pai de “primeira viagem”. 
Bianca começou uma empreitada em busca de informações sobre parto humanizado, gestação ativa, e sempre a procura de textos, livros, vídeos, relatos de parto e com isso ela ia me passando alguns. Lembro que li durante a gestação Nascer Sorrindo, de Leboyer e O Camponês e a Parteira, de Michel Odent, além de alguns relatos de parto, mas acabava sempre assistindo algum vídeo ali meio que por acaso durante o cotidiano.
Claro que todas essas informações estavam sendo processadas em mim e a essa altura já via aquela ideia maluca como algo possível, pois aos poucos iam sendo desmistificados as impressões que tinha sobre essa possibilidade, e percebia como isso seria realmente importante para receber o Rudá e também de dar todo apoio a Bianca que desde o início pretendia ter um parto domiciliar de forma mais humana e calorosa. Outros fatores, como não acreditar no Sistema Único de Saúde e nem na Medicina convencional me ajudaram a realmente ter certeza do que seria melhor para todos nós.
No dia 23 de agosto de 2009 às 3h46 da manhã recebemos Rudá em nosso “Chalézinho”, em uma noite de chuva fina e de pouco frio... momentos inesquecíveis com pessoas que tenho o maior apreço nessa vida.
Realmente a vinda de Rudá foi algo maravilho em minha vida!
Eu sempre pretendi ter filhos, talvez até mesmo pela minha própria criação, e como filho único, sempre tive por perto dois corujões de marca maior, além do meu pai ter sido muito presente em minha criação, então acho até meio que óbvio ter Rudá como um parceiro pra essa caminhada chamada.
Mas, confesso que nunca pensei que a paternidade poderia ser algo tão transformador, pois me fez entender muitas coisas, como também me fará entender tantas outras, espero eu. E, me faz refletir de como matamos a criança que existe em nós para vivermos esse mundo cada dia mais maluco, cartesiano, e consumista.
Muita coisa sobre essa nova paternidade chegou até mim através dos relatos, textos, blogs, vídeos e livros e por isso acredito ser fundamental essas ferramentas como forma de empoderamento paterno e materno, como esse texto mesmo. Desde o nascimento do Rudá ensaio para escrever  um relato, mas a criatividade e a falta de tempo são fatores limitantes - por exemplo, esse texto mesmo era pra ser pro Dia das Mães, mas está saindo no Dias dos Pais! rs

* Mariana Massarani, A franja.

segunda-feira, 18 de março de 2013

31 em 31

O Blog Parto no Brasil apresenta hoje o projeto 31 em 31, de Elaine Miragaia, 33 anos, mãe da Ana Luísa, 3 anos e 10 meses, nascida numa cesárea eletiva, e do Luís Augusto, de 10 meses, nascido numa cesárea intra-parto completamente desnecessária e violenta.

Tb psicóloga clínica junguiana e arteterapeuta, sendo a Psicologia Feminina seu foco, além de apaixonada por mitologias, livros, gatos séries, e a natureza - odeia maquiagem e salto alto, criou o 31 em 31 em seu blog No Quintal - "um blog pessoal que nasceu da inveja, onde escrevo acerca das minhas idas e vindas como mãe e o meu processo de me tornar mãe consciente. Lá, também descobri que sou ativista de sofá e o Projeto 31 em 31 é o primeiro movimento expansivo que faço no sentido de sair da casca e pôr os ideais à mostra".

Elaine nos procurou na fanpage do Blog indagando:

Olá!!
Eu já tinha lido o relato do vbac do Rudá, na Roda Bebedubem.
Em maio, completo um ano do meu quase vbac, acompanhado por uma das enfermeiras da roda. Não rolou por violência obstétrica.
Devido a isso, estou com a idéia de publicar 31 relatos de vbac no mês em questão. Estou em busca de mulheres que queiram dividir suas histórias comigo e permitam a publicação das mesmas no meu blog.
Vocês me autorizam a publicação desse relato? Se sim, entrem em contato comigo, por favor: elainemiragaia@yahoo.com.br ou no FB Elaine Miragaia ou No Quintal.
(se vocês puderem me indicar mais mulheres que queiram dividir suas experiências de vbac, por favor, me mandem os contatos)
Obrigada.

Óbvio que nosso retorno foi um sim, e além disso compartilhamos c/ outras mães que tiveram um VBAC, em nossas redes, e também no perfil e fanpage.

Nomes como Gisele Leal, Pati Merlin, Katia Z. A. Pedroso, q amparou Rudá, foram contactados, e nasce um lindo trabalho pela frente, p/ mostrar q SIM, podemos parir após cesáreas anteriores!

O Projeto 31 em 31 nasceu do desejo de transformar uma ferida em algo construtivo: o meu VBAC (ou PNAC- Parto Normal Após Cesárea) que não aconteceu em um serviço de utilidade pública àquelas que querem passar pela experiência.
Com isso, decidi coletar 31 relatos de VBAC para serem publicados diariamente, durante 31 dias.
Até agora, 13 mulheres já me enviaram seus relatos, contribuindo com a idéia.
Se você se interessar em contribuir ou conhecer alguém que gostaria de dividir sua história comigo e com os leitores do meu blog (No Quintal), por favor, entre em contato. Basta me mandar uma mensagem aqui mesmo, no FB (perfil Elaine Miragaia) ou via email: elainemiragaia@yahoo.com.br.

Simbora c/ a gente?!

Compartilhem, repliquem, relatem!

segunda-feira, 4 de março de 2013

Nascimento de Surya - Parto Domiciliar

Tudo começou em novembro de 2010, quando a banda do meu marido Silvio Rocha foi convidada para tocar em Buenos Aires e eu e minha amiga Bianca, que namora o baixista Rene, iríamos acompanhá-los. Dois dias antes dessa viagem, encontrei Bianca no supermercado. Nós conversamos um pouco sobre nossos preparativos e logo eu fui embora. Nós só nos vimos novamente no dia da viagem, no aeroporto de Londrina, onde cada uma pegou um voo para São Paulo.

Uns 20 minutos após a decolagem, comecei a sentir um pouco de enjoo e quando chegamos a Guarulhos, onde seria feita a conexão, eu e o Silvio encontramos Bianca e Rene no saguão do aeroporto, aguardando o voo para Buenos Aires. Houve um atraso “básico” no embarque e nós ficamos lá por umas 2 horas! E eu ainda estava meio estranha por causa do enjoo, mas isso já havia acontecido comigo antes em aviões. Vendo meu estado, a Bia fez uma pergunta inusitada e crucial:

- Fer, você tá grávida? Eu logo franzi a testa e respondi:

- Não! ... Não que eu saiba! Porém, Bianca tinha algo revelador para me contar, algo que mudaria minha vida para sempre! E então ela começou:

- Sabe por que perguntei? Porque aquele dia no mercado eu senti sua presença, antes de você se aproximar de mim e tapar meus olhos (tipo advinha quem é?)! E quando eu virei pra conversar com você, “vi” uma luz muito intensa ao seu redor e uma menininha de cabelo cacheado, olhos claros e o com o seu “queixinho” brincando de se esconder atrás das suas pernas! Na hora eu gelei e logo em seguida, eu fui contar pro Silvio, que conversava com o Rene. Ele ficou mexido com a história, mas depois conseguiu relaxar.

Depois dessa espera infinita, nosso voo saiu de São Paulo. Meu marido comprou um bilhete de 1ª. classe sem perceber naqueles sites de promoções e seguimos rumo a “ mi Buenos Aires querido”! Mas minha alegria durou pouco, pois minutos após a decolagem, comecei a ter enjoos de novo e dessa vez foi pior porque a viagem era mais longa, umas 2 horas e meia. E eu de  1ª. classe, vendo meu marido comer um jantar super fino e tomando vinho, enjoando sem parar! Eu não tava acreditando naquilo! Kkkkkkkkkkk.. E quando chegamos a Buenos Aires, logo que a gente saiu do aeroporto e eu respirei ao ar livre, meu enjoo passou na hora! Incrível! E correu tudo bem nos 3 dias em que ficamos lá, só a dúvida da possível gravidez que me incomodava um pouco. E pra resumir, a volta para Londrina foi igual à ida, enjoos com direito a turbulência tipo escorregador tobogã e 2 arremetidas por causa do mal tempo!!! Eu quase desmaiei, quase!!! Antes tivesse..kkkkkk..

Chegamos em Londrina e a 1ª coisa que eu fiz quando acordei foi ir numa farmácia e comprar o teste de gravidez para acabar com essa dúvida infinita! E não deu outra, o resultado foi POSITIVO! Eu estava grávida! Fiquei em estado de choque por alguns minutos, pois não planejamos isso, e assim que o Silvio acordou, eu contei pra ele. Ele arregalou os olhos e surpreso disse:

- É? E eu confirmei:

- É, fiz o exame e deu positivo! E nós sorrimos um pro outro e assim iniciei a gestação da Surya!

Nos 3 primeiros meses senti muito enjoo, mas como num passe de mágica, quando eu entrei no 4º mês, tudo passou! E daí pra frente foi tudo maravilhoso, mesmo quando aos 8 meses, tive uma pielonefrite (infecção no rim em decorrência de infecção de urina). Meu obstetra achou melhor me internar, pois havia risco de aborto espontâneo. E eu fiquei no hospital 1 semana e isso foi fundamental para eu optar pelo PD.

Foi aí que eu decidi ter minha filha em casa! Ganhei o livro “Parto com Amor” (autora Luciana Benatti) da minha grande amiga Ana Carolina Franzon, que me apresentou todo o universo do parto natural humanizado, e esse livro conta 9 relatos de parto, onde um deles me chamou muito a atenção por algumas semelhanças entre a mulher e eu, como: mudança de obstetra, mesma idade que eu, 1ª gestação e demorou para decidir. Ela também pensou muito antes de ter seu bebê em casa! Sem contar que eu fiquei internada na ala da maternidade e vi como era o dia-dia no hospital. Eu tinha receio por ser minha 1ª gestação, mas depois dessa experiência, não havia mais dúvida: a Surya vai nascer em casa! E então fui atrás da equipe para me amparar durante o PD e combinei tudo previamente com o obstetra, com a pediatra e com a doula. Todos eles respeitaram a nossa decisão de ter o bebê em casa e se propuseram a ir até lá no dia do parto. E caso ocorresse algo mais sério, eu seria removida para o hospital, que fica há 5 km da minha casa, ou de carro ou de ambulância, mas dentro de mim, eu tinha certeza de que tudo daria certo! Tudo! Eu iria conseguir cumprir essa missão!

Quando eu entrei na 39ª semana, o Silvio precisou viajar no fim de semana do dia 28/07/11 e eu não sentia nada que pudesse dar indícios de TP. Quer dizer, sentia, mas não sabia! Eu tinha pequenas cólicas/contrações pela manhã, mas como tudo acabava após eu usar o banheiro, eu ficava tranquila. E pouco antes dele sair de viagem, ele pôs a mão na minha barriga e disse pra Surya:

- Filha, espera o papai chegar pra você nascer, tá!? Fica calminha aí! O papai te ama e quer estar aqui quando você for nascer!

E assim foi até domingo, dia 31/07/2011 as 08h30min, quando ele chegou em casa e deitou na cama. Imediatamente, eu senti aquela “cólica matinal” um pouco mais forte, porém fui ao banheiro e mais uma vez, tudo normal! Voltei pra cama, dormi e lá pelas 10h00min, eu levantei com uma “cólica” chatinha, que foi aumentando rapidamente de intensidade até as 11h00min. Eu tentei caminhar e pegar algo pra comer, mas a dor já era forte! Ficava tipo uns 5 minutos doendo e depois parava. Eu sentia vontade de deitar, me encolher pra ver se melhorava um pouco, mas nada fez passar! Eram elas, as contrações! Meu TP havia começado e as dores já eram fortes! Daí 11h30min, liguei para minha querida doula Patrícia Merlin, que mora em Maringá (a 100 km de Londrina), dizendo que eu estava tendo contrações fortes e achava que tinha começado o TP. Ela pediu que eu marcasse o intervalo entre as contrações e a avisasse, caso persistisse a dor intensa. “Pata”, que é seu apelido, disse também, pelo que eu me lembro, para eu tomar um banho e tentar comer alguma coisa. Comecei a marcar num papel e minhas contrações já estavam em 10 em 10 minutos, porém com duração e dores diferentes. E assim foi até as 13h00min, quando liguei pra Pata de novo, quase chorando, falando pra ela vir pra Londrina naquele instante. E ela falou pra eu continuar contando durante a próxima hora, pois ela já estava indo. Estava chuvoso e muito frio neste dia, e eu fiquei até as 14h00min horas deitada na sala, tentando encontrar posição para melhorar as dores. Daí, eu fui acordar o Silvio, que tava dormindo depois d viajar a noite toda, para me ajudar a cortar um pedaço de maça pra comer. Comi com muito sacrifício, tomei um pouco de água e logo em seguida, vomitei tudo! Daí pra frente eu entrei num transe Saí do meu estado de consciência normal e fui para outro mundo! O mundo mágico das contrações doloridas, mais conhecido como Partolândia... kkkkkkkkkkk!! Eu era a contração, eu era o útero! Não sentia mais o ambiente, era só eu e as contrações! Fiquei praticamente muda, não queria conversar com ninguém. O único som que eu emitia era o gemido de dor quando vinha uma contração. Fiquei de olhos fechados, concentrada no que acontecia comigo e deixando meu corpo agir e não minha mente. E por isso, eu não me lembro da sequência exata dos acontecimentos, só me lembro de “flashes”. Então, precisei da ajuda dos que estavam presentes durante o TP para me contar com mais detalhes como tudo aconteceu.

Bom, vamos lá! Meu marido ligou para as pessoas viriam participar do “grande dia” (amiga Ana, mãe, pai e sogra) e quando já era umas 15h00min horas, a Ana resolveu chamar a Thelma, uma enfermeira obstetra queridíssima, que veio em casa me ver. Ela fez o “toque” pra ver como estava a minha dilatação e ouvir os batimentos do bebê. Ela examinou e disse que eu estava com 4 cm e que a Surya estava bem. Nem a dor do toque eu me lembro de sentir! Fiquei no meu quarto o tempo todo, mas como o chuveiro de lá tava queimado, eu fui até o banheiro social da casa e fiquei na ducha e pelo que me disseram, eu gostei! Kkkkkk. Mas estava muito frio nesse dia e a água do chuveiro era pouca para que eu relaxasse. Aliás, nada me relaxava naquele momento, não achei nenhuma posição para amenizar as dores. Eu vi minha família e eles falavam comigo, mas não me lembro de nada do que conversamos. O Silvio falava com eles passando as informações sobre o andamento do TP.

Mais ou menos às 17h00min, minha doula chegou e ela foi o divisor de águas do meu TP. “Pata” me ensinou a respirar empurrando o ar pra dentro do corpo, até o útero e finalmente, tudo foi melhorando. Sem contar os óleos essenciais, o apoio moral e físico que uma doula dá a sua parturiente! Foi fundamental pra mim! As dores ainda eram fortes, claro, mas se tornaram suportáveis. Eu senti que estava mais consciente do que estava acontecendo. Voltei a me comunicar com palavras e quando a Thelma fez o 2º toque, eu já estava com 6 cm de dilatação! Fiquei animada, pois elas (Pata, Thelma e Ana) falavam que estava sendo rápido o processo! E até agora, o Silvio e a Pata falaram com o obstetra só por telefone, e ele havia pedido que eu fosse ao hospital para realizar o exame de Cardiotoco, porém nós ficamos em casa até as 19h00min, e daí fomos pra lá.

Chegando ao hospital, eu já estava exausta! Sentia muita, muita, muita dor; fui de cócoras no banco de trás do carro com contrações de 3min em 3min! Me lembro que o enfermeiro que nos recebeu puxava papo comigo, perguntado de quantas semanas eu tava, se era menino ou menina e eu não respondia nada, óbvio! Em compensação a Pata dava cada “patada” nele que eu ria por dentro! Kkkkkk. Tipo, respostas monossilábicas num tom bem bravo.. Sim! Menina! 39! rsrsrsrsrs.. muito engraçado! Subimos pra maternidade e lá ficamos por cerca de 40min esperando o obstetra chegar. E enquanto isso eu tive que: tirar a roupa, vestir avental, deitar de barriga pra cima numa cadeira reclinável horrível e esperar até que o exame fosse feito. Tudo isso com contrações fortíssimas e nos intervalos uma e outra, eu quase dormia. Sei que ficamos lá até umas 20h30min e eu, já não aguentando mais, falava:

- Eu quero ficar aqui! Eu não aguento mais! Eu não aguento andar de carro de novo! Alguém me ajuda a acabar com isso! Me dá uma anestesia! Kkkkkkkkkkkk... eu quase entreguei os pontos! E eu já tava na fase final do TP, com 9cm de dilatação, mas como eu nunca tinha passado por isso antes, me desesperei! Mas como eu já sabia que isso iria acontecer, por conhecer o relato de parto da Ana, escrevi em meu Plano de Parto que não era pra me dar nada, nenhum remédio, mesmo se eu pedisse, implorasse! E meu marido e a Pata me davam força o tempo todo, muita força! Silvio ficou comigo o dia todo, me ajudando! Todos diziam, inclusive o obstetra, que já havia realizado os exames, que já estava no final. No final mesmo, porque eu saí do hospital com 9 cm para 10 cm de dilatação. O obstetra ainda falou no ouvido do Silvio:

- Vai rápido pra casa porque o bebê pode nascer a qualquer momento, inclusive no caminho! E liga pra pediatra já! Fala pra ela ir pra casa da Fernanda urgente!

Como estava muito frio, não havia quase carros na rua e chegamos a minha casa em 5 minutos. Daí a doula recomendou que eu fosse pro chuveiro e eu fui, porém fiquei apenas alguns minutos e logo saí. Não queria ficar lá, estava muito frio! Então, fui pro meu quarto e lá fiquei por uns 30 minutos. Eu estava de joelhos apoiada na cama, sobre um travesseiro, quando de repente, senti um calor junto com a contração e saiu sangue. Antes, eu fiquei de roupa o tempo todo, mas a partir desse momento, eu tirei tudo, senti calor e comecei a andar pelo quarto. Não sei quando minha bolsa estourou porque não saiu líquido abundante em nenhuma hora. Foi tudo bem limpinho até. Mas logo voltei a ficar de cócoras apoiada na cama por um bom tempo. Saiu mais sangue e aí me sentei na banqueta de parto que a Pata trouxe. Fui me acomodando nela e por alguns minutos, minhas contrações pararam! Foi quando eu consegui recuperar um pouco das minhas forças, mas como a Surya já estava quase nascendo, a doula apertou um ponto na base da minha coluna que fez com que a contração voltasse na hora com força total! Eu andei um pouco e logo sentei novamente na banqueta de parto e finalmente a equipe teve uma grande ideia: deram-me um espelho pra eu ver o cabelinho da Surya e acreditar que tudo estava acabando! Aquilo me revigorou, mas havia chegado o momento de fazer força e eu estava com muito medo! Eu sentia a sensação de que eu iria explodir se eu fizesse força. Quase chorando eu falava:

- Eu não vou fazer força, vai doer! Kkkkkkkkkkkk.. como se não tivesse doído nada até aquela hora! E a
Pata respondia:

- Parece que vai, mas não vai! Pode acreditar em mim! Faz força!

O obstetra também falava que aquele era o momento, que eu podia ficar calma que daria tudo certo e que minha bebê precisava de mais essa ajuda para nascer!

Então, quando já eram 21h00min, meu marido ficou atrás de mim sentado na cama me segurando pelas axilas e eu fiz força a 1ª vez. Logo senti o Círculo de Fogo! Queimou todo o meu corpo! E no embalo, fiz a 2ª. força e a cabeça da Surya saiu! Daí  respirei fundo um tempo e logo fiz força mais 2 vezes e enfim, pela graça divina, a Surya nasceu as 21h18min do dia 31/07/2011! Os parentes entraram no quarto assim que ouviram o choro do bebê. Ela era perfeita, estava limpinha e chorando, (sinal de que ela estava respirando bem)! Peguei-a em meus braços e enquanto meu marido cortava o cordão umbilical, eu dizia chorando emocionada, em extase:



- Eu consegui! Eu consegui!!!!!!!!!!!! Obrigada Deus!!!! Eu consegui!!!

A pediatra examinou nossa pequena ainda nos primeiros momentos de vida, porém com muito respeito. Não foi necessário usar sondas, não foi aplicada nenhuma injeção de vitamina k ou ainda, colírio. Ela apenas ouviu seus batimentos, viu que seus sinais vitais estavam bem e logo me devolveu o bebê.  Uns 10 min depois do parto da Surya, a placenta saiu. Eu não senti nada, inclusive a anestesia local para me dar pontos devido a uma pequena laceração do períneo. Tudo acontecendo ali mesmo, em minha cama, e eu não senti nem a picada da agulha! Eu estava eufórica, feliz e muito exausta! Todos choraram muito! A emoção do nascimento é contagiante, é muita ocitocina! E estar em casa nesse momento tão especial foi incrível! Peguei minha filha no colo e dei muitos beijos nela! Olhei bem pro rosto dela pra ver como ela era! Ela era linda, perfeita, saudável! Olhou para todos no quarto assim que ela se acalmou. Logo ela achou meu peito e começou a sugar instantaneamente! Foi lindo demais! A melhor experiência da minha vida! O ato mais heroico que eu já realizei até hoje! Uma maravilha da natureza!

E como num passe de mágica, tudo voltou ao seu estado normal! Eu via as pessoas de novo.. kkkk.. conversei com todos e eles me contaram tudo! Comi um belo prato de comida, tudo em família, tudo delicioso!

Depois de algumas horas, as coisas se acalmaram e fomos todos dormir, com a Surya entre mim e meu marido. Não dormi a noite toda. Qualquer barulhinho que ela fazia, eu abria os olhos pra ver se estava tudo bem. Mãe de 1ª. viagem é assim, tudo é novo!


Quando nasce um bebê, nasce também uma mãe e um pai! É algo transformador para sempre, uma mudança radical! Mas também é a coisa mais linda que um ser humano pode fazer! Que nós mulheres podemos viver intensamente, com respeito ao nosso corpo e às nossas vontades. E principalmente, com respeito ao nosso bebê que está nascendo.

Viva o parto natural humanizado!

_Fernanda Rocha, mãe de Surya.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

No ar, Relatos de Parto

É c/ alegria que compartilhamos a página Relatos de Parto, publicada hoje, no Blog Parto no Brasil, c/ muitos relatos de vários tipos de parto, e nascimento: hospitalares, e domiciliares, alopáticos, e naturais, normais e por cesáreas.

Na voz de muitas mulheres pudemos nos emocionar, e nos ver em cada contração.

Confiram! (Re)leiam!


É só acessar - Relatos de Parto

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Relato: Nascimento de Manoela - Parto Natural Hospitalar e Método Canguru

A Paola Alfarano entrou em contato com o Blog Parto no Brasil, logo na primeira semana de janeiro, quando começávamos a publicar a Série Especial de Férias, com todos os relatos de parto que foram compartilhados aqui em nosso espaço.

Como todos os relatos do mundo, este também é muito especial. Mas há algo de diferente em sua história - a experiência de ter praticado o método canguru. Uma mulher confiante, determinada e corajosa - que levou adiante, da melhor forma que podia, uma experiência de gravidez de risco, com assistência especializada e garantida pelo SUS, e que acabou parindo Manoela sozinha, sem acompanhante. Às 33 semanas de gestação, ela confiou que aquele era o momento de parto e nascimento pelo qual ela e sua filha esperavam. E ainda conseguiu argumentar com a equipe de plantonistas quais eras suas decisões de parto.

Confira sua história, e ao final, algumas informações-chave sobre esta gravidez e parto, e ainda, as novidades que ela tem para contar, que foram informadas em nossa troca de e-mails. Paola, somos muito gratas pela oportunidade de conhecer sua história, e de poder compartilhá-la com muitas outras mulheres. Desejamos um novo caminho de conquistas e realizações.


Inspire-se.

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EM CASA

Terça-feira, 17/05/2011- por volta das 07:56h da manhã, o telefone toca. Eu, que estava preguiçosa na cama, assistindo TV com a Mariana e esperando a Manuela se mexer, levanto, atendo o telefone pensando ser o Raphael e na verdade é o montador de móveis, avisando que chegaria a partir das 08:00h para montar a cômoda que faltava no quarto para acomodar as roupas das meninas. Aí sim eu poderia comprar o enxoval da Manu, visto que eu pensei a gravidez toda que tinha guardado as roupas dela de recém-nascida para a gravidez seguinte, e descobri na semana passada que havia doado as roupas e não me lembrava, e ainda não tenho praticamente nada de recém-nascido. 

Decido deixar a preguiça de lado, aviso à Mari que vou limpar o quarto dela e ajeitar o espaço para que o montador trabalhe sossegado e monte a cômoda no lugar correto, uma vez que eu não poderia arrastar o móvel depois. Retiro o carrrinho de bebê do lugar, recolho os brinquedos do chão, passo a vassoura, e quando ia pegar o banquinho no banheiro para alcançar o desinfetante no armário da cozinha, sinto um líquido escorrer pela calcinha em 2 jatos. É a bolsa que estourou!- pensei. Vou ao banheiro sem nenhum pingo de dor nem contração, sentindo apenas a expectativa. Ao olhar a calcinha, um susto: sangue vivo, 2 manchas grandes. Pego um absorvente, saio do banheiro para pegar outra calcinha, a Mari olha aquelas manchas e pergunta: “É cocô, mamãe?” Eu respondo que não, explico que é um sinal de que a Manu vai nascer. 

Visto a roupa, pego o telefone desesperada e ligo para o Raphael. Ele tinha ido trabalhar normalmente, pois nem sinal dos pródromos no dia anterior. Eram 08:39h. Contei o que aconteceu (que eu não esperava ter visto sangue, que achava não ser normal, pois eu já tinha perdido o tampão 2 semanas antes, quando a Manu tentou nascer pela primeira vez), que o montador estava vindo e que eu estava com medo das contrações virem muito rápido e eu estar em casa sozinha com a Mari e o montador, enfim, tudo estava diferente do planejado e esperado.

Logo o montador chegou, indiquei o quarto das meninas à ele, e fui pra internet pesquisar a respeito do sangramento. Ao entrar no MSN, encontrei a Patrícia, minha ex-cunhada, e perguntei a ela sobre seus partos, se alguma vez tinha acontecido algo parecido. Ela me disse que o parto do Biel (caçula, prematuro, nascido de parto domiciliar não planejado) havia começado igual, com sangramento, e que como ela não tinha contrações fortes, foi levando, até que não deu tempo e o menino nasceu em casa. Ela me disse que inevitavelmente era o dia da Manu nascer, que esse era o sinal, que eu poderia ter certeza de que ela queria nascer e de que os médicos não iriam conseguir evitar novamente. 

Conversamos mais e fui lavar a louça, me movimentar para ver se as contrações apareciam. O Raphael chegou em 25 minutos da hora em que eu liguei, pois a Marginal em sentido bairro estava vazia, e já querendo sair correndo pro hospital. Expliquei a ele que o montador estava ainda em casa, relatei o que a Patrícia me falou, e fui ajeitando a casa na expectativa de que as contrações viessem. O montador terminou a cômoda, limpei os móveis do quarto com álcool, lavei o banheiro, e nada! Decidi tomar banho com a Mari, pois a Patrícia havia reforçado a lembrança de que banho engrena as contrações, mas apenas fez com que o sangramento parasse. O Raphael, já impaciente, reclamou que eu o faria perder mais um dia de trabalho à toa, pois era alarme falso. Decidimos ir ao Santa Marcelina como na orientação anterior da parteira, pelo menos para verificar o motivo do sangramento e monitorar a bebê. 

Saindo pelo portão do prédio (sendo que o Rapha já havia descido antes com as malas da maternidade nas mãos), uma vizinha pergunta: “Nossa, sua barriga já está grande, pra quando é?”. E eu respondo que é para o final do mês, mas querendo dizer “É hoje!”. Eu havia chorado muito nos dias anteriores, estava estressada e cansada, foi uma gravidez conturbada com tantos riscos e ameaças de abortamento, estava sem paciência com a Mariana e nervosa, muito frágil emocionalmente. Havia pedido a Deus que se a Manu estivesse pronta, que Ele permitisse que ela nascesse saudável e logo.

INDO PARA O HOSPITAL
Seguimos ouvindo a mesma música que tocou no caminho do hospital no parto da Mariana, combinamos onde estacionar, subimos a rampa do hospital andando, e nada de contrações. Fiz a triagem, os mesmos 3cm de dilatação de 2 semanas atrás, colo pérvio posterior. Solicitaram um ultrassom, e o sangramento já tinha parado.

A espera pelo ultrassom foi tanta, que eu entrei na sala com contrações de 7 em 7 minutos, regulares. Estava calma, o c ronômetro do celular era meu melhor amigo, cada contração durava cerca de 45 segundos, o médico até percebeu as contrações durante o USG e mediu o BCF da Manu durante uma contração. O laudo demorou mais ainda, mas apontou restrição de crescimento intra-uterino (RCIU), os dados estavam praticamente iguais ao USG de 2 semanas atrás, quando a Manu tentou nascer e o trabalho de parto prematuro foi inibido, porém estava dentro da margem de erro, segundo o médico. Voltamos à triagem, foi feito um cardiotoco: Manu ativa, contrações de 6/6min, as outras gestantes na sala torciam e diziam que a Manu nasceria hoje ainda, dava pra ver a barriga se movimentando para baixo quando as contrações vinham. 

Ao terminar o exame, a residente disse estar normal, e que eu voltasse para casa, solicitando um USG para o dia seguinte às 09:00h da manhã, para conferir a RCIU. Eu disse que voltaria, se a Manu esperasse até lá, pois as contrações estavam de 5 em 5 minutos. Ela decidiu me examinar somente por desencargo de consciência, e achou o colo com 4 cm de dilatação, contrações efetivas. Disse que internaria para inibir o trabalho de parto novamente. Eu disse a ela que era contra a 2ª inibição, contei meu histórico, ela disse que a equipe do CO que daria o parecer final. Mandaram o Raphael para casa, uma vez que seria feita a inibição, e me internaram. Ao subir para o CO de cadeira de rodas (para não incentivar o TP), fui obrigada a colocar aquela camisolinha infame para ser examinada. 

O Dr. Lucas se apresentou, fez minha anamnese e falou na inibição que seria feita. Questionei, ele disse que seria aplicado Buscopan no soro, e que se o TP estacionasse, cada minuto ganho seria bom para a Manu, mas que se ela insistisse em nascer, que nós a receberíamos. Assim fiquei por volta das 18:30h às 20:37h, quando apesar das contrações estarem de 4 em 4 min, eu andar, rebolar e agachar escondida da equipe de enfermagem no biombo, o Dr. Marcelo viu que eu estava com apenas 5cm de dilatação e praticamente sem dor. Eu ouvia a moça do biombo da frente chorar para o marido dela quando estava com 5cm, e pouco tempo depois a equipe estava fazendo o parto dela. 

Vibrei junto com ela quando o bebê chorou, agradeci a Deus por mais uma criança saudável no mundo, mais uma mãe feliz e um parto normal. Depois de um tempo, eu já tinha feito um cardiotoco no CO, subiu a equipe do PS: Dr. Nelson, Dra. Cláudia, e os médicos do CO, Dr. Lucas, Dr. Marcelo e Dra. Maíra. Questionavam as falhas do BCF no cardiotoco, que sumiam no final das contrações e reapareciam depois repentinamente, era a Manu brincando de virar quando o útero apertava ela. Foi refeito e descoberta a brincadeira, tudo dentro da normalidade. Decidiram que deveriam deixar a Manu vir, já que o Buscopan não tinha servido pra nada, tomando uma conduta ativa: queria romper a bolsa, pois estava protusa, mas a Manu não conseguia estourar nem descer mais. Não permiti, expliquei que as contrações poderiam vir muito fortes e eu ainda estava com pouca dilatação, negociei ir para o chuveiro. 

O PERÍODO ATIVO
Fiquei lá no chuveiro por bastante tempo curtindo as contrações, cantando louvores em pensamento. Havia acabado a bateria do celular, eu não sabia que horas eram, nem o Raphael sabia que a Manu iria nascer, eu achava que teria tempo de ligar pra ele quando saísse do chuveiro. Ledo engano.Não percebi que o louvor contido se transformou em gemidos e logo em gritos, eu fiquei esperando a enfermeira vir trazer outra camisola e nada. 

Saí do banheiro já gemendo de dor, com a camisola suja mesmo, sentindo cabeça da Manu descer, tipo “parafusando” colo abaixo. Gritei pela enfermagem, fui para o biombo, e pelo gemido a Dra. Maíra me reconheceu e veio correndo, pedindo pra eu sentar na maca e perguntando “Paola, como você está?”. Relatei, mas não conseguia sentar na maca para ser examinada durante a contração. Passou, logo vieram Dr. Lucas e Dr. Marcelo,viram que a Manu estava alta e móvel, mas que estourando a bolsa ela desceria. Concordei, coloquei a bunda na comadre e apesar de incômodo e dolorido, foi legal. Perguntei se o líquido estava claro, o Dr. Marcelo confirmou. 

Dr. Lucas examinou e disse: “Parabéns, você já está com 10cm! Vamos começar.” Abençoei a ele pela boa notícia, agradeci sorrindo, apesar de quase gritar durante as contrações. Armaram a cama de parto, inclinando e colocando os apoios de pés e os remos das mãos, mas eu agarrava no lençol e gemia, gritava, soprava, tentava respirar fundo mas não conseguia fazer força. Comentei com a Dra. Maíra do meu lado (que disse mais cedo que adoraria assistir meu parto) que ainda bem que o Raphael não estava lá, que eu morreria de vergonha dele e travaria ainda mais. Durante uma contração pensei em pedir um Buscopan para aliviar a dor, mas refleti que não ajudaria em nada, estava muito forte, e pensei que a analgesia descaracterizaria o parto natural. Desisti. 

Aos poucos consegui seguir as orientações e fazer força colocando o queixo no peito, segurando os remos e prendendo a respiração durante a força. Mas uma coisa eu digo: não sentia vontade de fazer cocô, quando a contração vinha, minha vontade era me jogar no chão e chorar! 

O NASCIMENTO
Senti o círculo de fogo, ou melhor, o túnel de fogo. Me desesperei, queimava o percurso e eu sentia a Manu descendo. Gritei: “tá queimando tudo!”, disse que estava com vergonha, a equipe disse não ter porquê, fiz a força seguinte e acabei fazendo cocô. Dessa hora em diante, a vergonha foi tanta que eu não consegui mais abrir os olhos e ver a equipe, só pedia perdão, mas disseram que era normal aquilo acontecer. Dr. Marcelo avisou que ia ajudar segurando minha barriga, pois tinha muito espaço sobrando e a Manu tinha dificuldade em descer, onde se apoiar. Foi hilário, mas eu gritei “Kristeller não!”. Quiseram colocar ocitocina no soro do acesso, mas eu expliquei que queria tudo o mais natural possível, negociei que fosse utilizada somente em último caso e fui atendida.

A Manu coroou, o Dr. Lucas me avisou e me ofereceu para sentir o cabelinho dela, e coloquei a mão e foi a sensação mais feliz da minha vida, minha filha estava chegando! Tive ânimo de fazer força, Dr. Lucas pediu que avisassem a pediatra Neo-natal que ela ia nascer. O campo estéril foi colocado, e segundo a equipe, mais umas 4 contrações e a Manu nasceu, chorou espontaneamente e resmungou quando o médico mexeu nela, acho que pra clampear o cordão, e comentaram que ela já era brava... Eu tinha feito uma forçona comprida e só parei quando o Dr. disse que não precisava mais, abri os olhos e vi ela escorregar. Então olhei para a Dra. Maíra, pra quem eu tinha até dado a mão durante as contrações, e a vi com alegria e brilho nos olhos, como se fosse minha irmã, anunciar: “Olha a Manuela aí!”. Eu a olhei, reparei que era moreninha, a amei e disse: “Deus a abençoe, seja bem-vinda, Manuela”. Eram 00:45h do dia 18/05/2011.

Levaram ela para examinar, o Dr. Lucas me tranquilizou dizendo que ela nasceu respirando muito bem, forte e esperta para quem é prematura. Ajudaram a dequitar a placenta com uma massagem, eu pedi pra ver e para que me explicassem qual era o lado materno e o lado fetal. Deram risada e ainda me zoaram pela curiosidade. Lembro que eu pensei: “nunca mais eu como carne na minha vida”, mas dei risada por dentro e ainda reparei no tamanho do cordão umbilical, comprido. Depois eu soube que a Manu tinha 1 circular de cordão, que eu nem vi, tanta a rapidez do médico em desfazê-la.

Pedi muito para ver minha pequena, para pegá-la, me trouxeram ela embrulhada naquele pano verde-escuro, olhei seus traços, falei algo com ela sobre a vida, Deus, proteção e felicidade, me disseram para dar um beijo nela e me despedir com um beijos, pois levariam ela pro berçário. Dei um beijo em sua testa, que ficará marcado em mim pro resto da minha vida! Foi o beijo que eu gostaria de ter dado na Mari, 2 anos, 3 meses e 2 dias antes. Manuela arrematou uma história de amor que começou na irmã Mariana.

Manoela na maternidade

DEPOIS DO NASCIMENTO
Manuela ficou durante o seu primeiro dia de vida na semi-UTI do berçário, até que os médicos percebessem que ela é uma criança surpreendente o suficiente para deixar sua mãe orgulhosa e que não precisava de cuidados especiais, nada mais além de muito amor e leitinho materno! Deste 2º dia de vida em diante, o médico nos liberou para permanecermos em quarto conjunto, usufruindo dos benefícios do Programa Mãe Canguru, que deu incentivo para o nome deste blog. 

CURIOSIDADES
TP de cerca de 8 horas;

Sem episio, sem ocitocina, sem acesso de soro contínuo;

Foi feita a kristeller somente de apoio, sem empurrar, de maneira super-respeitosa;

O Rapha ficou sabendo do nascimento da Manu quase 2 horas depois, pelo celular da Dra. Maíra, e ficou espantado inicialmente, mas muito feliz.

A Manu nasceu com 33 semanas e 5 dias, mas com capurro de 37 semanas. Não ficou nem o primeiro dia de vida inteiro com suporte de oxigênio, usou sonda naso-gástrica somente até a primeira tentativa de mamada, que ocorreu com sucesso antes das primeiras 12 horas de vida. Saiu da encubadora diretamente para o sistema mãe-canguru no segundo dia de vida.

A primeira coisa que ela fez na encubadora ao ouvir minha voz de madrugada foi abrir os olhos, mostrando que me reconhecia.

Peso: 1,540Kg, 41cm de estatura.

Comentei logo ao vê-la que ela nasceu escurinha, e apelidei ela de Manuela Canela, pra combinar com a irmã Mariana Banana. E ainda brinquei: “Parir dá uma fome! Uma torta de banana com canela cairia bem agora!”.

O único momento em que eu senti medo foi na sutura da laceração, receava que me costurassem torta, cheguei até a pensar em pedir pra não suturarem quando ouvi falar que ela superficial. Mas depois reconheci que era bobeira e nem falei nada. O pior é que quando inchou, realmente parecia que tinha ficado torta.

A partir do momento em que a Manu mamou o leite materno, todas as vezes em que alguma enfermeira tentava oferecer leite de fórmula, ela virava o rosto, chorava e se negava a engolir. Foi uma das próprias enfermeiras que relatou isto

O sangramento puerperal cessou quase por completo já no 7º dia.

No 3º dia de vida da Manu, o leite desceu em grande quantidade e tive até mastite com febre. Tive que ordenhar e tirei 40ml de cada mama, sendo que ainda ficaram bem cheios, mas menos doloridos.

Tabela do peso da Manu:

Ao nascer: 1,540Kg
19/05/2011- 1,530Kg
20/05/2011- 1,465Kg
21/05/2011-1,495Kg
22/05/2011-1,520Kg
23/05/2011-1,565Kg
24/05/2011-1,570Kg
25/05/2011-1,590Kg
26/05/2011-1,655Kg
27/05/2011-1,690Kg.
Ficamos 9 dias internadas no mãe-canguru, para chegar ao peso de alta padrão do hospital, que era 1,700Kg.
Na consulta com o pediatra em 30/06/2011, Manuela já estava pesando 3,050Kg e com 48cm de comprimento:

Manoela com um mês e meio
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Eu fiz pré-natal grande parte pelo SUS, como gestação de risco devido à descolamento de placenta e mais de 6 ameaças de aborto. Quando fiquei boa (o descolamento sumiu), tentei fazer pré-natal pelo convênio, mas já dei de cara com um "bostetra" que na primeira consulta veio me falar de cesariana, quando eu disse que queria normal, ele falou: - Vai lá, então, faz normal depois você volta pra me contar! Você nunca teve um, não sabe do que tá falando..." 

Então o parto foi pelo SUS, com a equipe de plantonistas/ residentes, apenas uma delas eu conhecia de internação anterior. Os demais eu conheci na hora mesmo, tive que negociar meu plano de parto sozinha porque não consegui fazer contato com minha doula-obstetriz, ou seja, tive que botar meu empoderamento em prática em plena partolândia! Graças à Deus eu cruzei muitas pessoas bacanas do parto humanizado que dividem informações, leio muito e sou bem sintonizada com meu corpo e meus filhos, senão poderia ter sido totalmente diferente (pra pior). 

Acho interessante divulgar, porque tem muita desinformação e mitos sobre parto e amamentação de prematuro, pouca divulgação do método-canguru. E pra variar, estou gestando novamente! Tomara que dessa vez consigamos o PD!

_Paola, mãe da Mariana e da Manoela e do bebê na barriga.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Relatos: Partos Naturais Hospitalares


Engravidei a primeira vez aos 22 anos e confesso, não estava preparada psicologicamente para abraçar a maternidade. Ao contrário do meu marido, custei algumas semanas até digerir a informação de que, a partir dali, a minha vida seria diferente, muito diferente. Ele se fez pai antes que eu me descobrisse mãe.
O apoio dele e sua serenidade foram cruciais para me conduzir para o caminho que trilharia para maternar. E o mais importante: percorreríamos juntos.
Durante toda a gravidez aprendi a equilibrar medos e desejos, amadurecê-los para que deles nascessem as escolhas. E uma, das tantas que fazemos ao longo do percurso, foi a forma de trazer a minha filha ao mundo.
Bia nasceu de um parto natural super desumano. Lembro-me de como  estava assustada na entrada do hospital e do barulho de um portão se fechando. Lembro ainda de ter visto as lágrimas escorrendo do rosto do Paulinho do outro lado do portão e com olhares assustados nos despedimos.
Estive só durante todo o período em que fiquei hospitalizada. Sem acompanhante, sem apoio. Estava sozinha transformando medo em coragem. O trabalho de parto durou uma madrugada inteira, mais por falta de preparo, acredito eu. Instintivamente lutava contra as contrações, repelindo-as. A bolsa só veio romper quando eu estava com seis cm de dilatação e eu estava exausta e carente, aguardando pacientemente que alguém viesse me socorrer, trazendo algum conforto, no "sofredouro".
Entendi esse processo como uma metamorfose. A cada dor, me aproximava mais da minha filha. A cada dor, me aproximava mais da mãe que me tornaria. Com o dia claro, fui convidada a me fazer presente na sala de parto. Estava exaurida e a cadeira sugeria um parto na posição ginecológica. Tentei obedecer em vão... até que, seguindo meu próprio instinto, agindo de ímpeto, fiquei de cócoras, para espanto da plateia. Lembro-me do nervosismo da médica, que batia nas minhas pernas que com olhar duro e tom ameaçador disse-me que minha falta de cooperação mataria a minha própria filha. Foi então que fechei os olhos e me concentrei na que seria a última contração. Estava num universo paralelo, totalmente inebriada de sentidos, até que nascemos. Mãe e filha. E como gostaria de perpetuar a sensação de tê-la saindo de mim! É indescritivelmente mágico! Transformadora.
Cinco anos mais tarde, resolvi engravidar e, decidida, antes mesmo da concepção que teria mais um parto natural. Prometi a mim mesma que o segundo seria muito diferente do primeiro, embora o prazer do nascimento em si fosse um velho conhecido meu.
Fui muito feliz nas duas gravidezes, sem nenhuma intercorrência que merecesse cuidados especiais. O que me deixava mais tranquila para encarar o parto. Tudo estava indo muito bem, quando, na quadragésima semana, numa consulta de rotina, a obstetra que até então havia falado que esperaríamos o tempo que fosse necessário, resolveu intervir, tentando transformar meu sonho em frustração.
Fez uma guia de internação e pediu que eu desse entrada no mesmo dia. Alegou que o bebê estava com dorso à direita. Sinceramente, com tanta informação que temos acesso hoje em dia, achei que ela fosse usar uma desculpa mais elaborada. Saí de lá ciente de que EU poderia esperar um pouco mais.
Pedi uma ultrassonagrafia que comprovasse o bem estar do bebê, mas ela se negou. Ao sair, prometi que ligaria, quando desse entrada nos papéis e fui direto para o posto de saúde perto de casa e pedi uma guia de US.
O ultrassonografista foi um anjo!!! Disse que o bebê estava muito bem: batimentos cardíacos, quantidade de líquido, maturação da placenta e mesmo acusando um peso de 4.125kg, ele informou que há uma margem de erro de 600g para mais ou para menos, que eu não me preocupasse - era um incentivo. Ah! E o bebê estava com dorso à esquerda, vejam vcs! Garantiu ainda, que poderia esperar tranquilamente até as 42 semanas. E assim o fiz, sem médicos. Confiando na vida e no meu corpo.
Nos momentos finais, quando o cansaço apareceu para desmotivar, contei com a ajuda de uma doula-anja, a Gabi Zanella. Aprendi com ela que não devemos lutar contra as contrações, mas ter a consciência de que elas encurtam o caminho até o nascimento. Aprendi também que a respiração está intimamente ligada à vagina e que podemos através dela, controlar a dor. Aprendi ainda que sexo e chá de canela são ótimos para estimular o parto.
Até que chegou o dia em que estávamos preparados. Amanheci diferente, barriga baixa, pequenas dores...tomei o café da manhã com a minha filha que, a partir dali, deixaria de ser única. As contrações ficaram mais fortes, o que serviu para que eu espantasse a incerteza. O transporte levou a minha filha para escola e, sozinha, comecei a me preparar para a chegada do meu menino. Cantava, andava, sorria e chorava.
Andei por horas, só isso aliviava as dores das contrações. Respirava e vivia cada contração como quem vai ao encontro de alguém que se quer muito reencontrar. Para não correr riscos, pedi que me levassem para o Hospital Universitário de Florianópolis, pois tinha certeza de que só interviriam em caso de necessidade. Cheguei lá com seis cm bem vividos de dilatação.
Dessa vez, pude ter a presença de um acompanhante - o meu amigo, o meu parceiro, o meu marido. E como faz diferença tê-lo tido ali, a me reconfortar. Não senti dor, aliás nunca me senti tão consciente do meu corpo! Tudo o que fiz foi andar, enquanto silenciosamente e através de olhares conversava com o Paulinho. A bolsa foi rompida aos 8,5cm de dilatação. Tive tempo de tomar um banho e seguir para sala que havia escolhido previamente. A equipe me chamava pelo nome e me encorajava, apesar de não ter sido humanizado em todos os termos, sentia-me acolhida. Estava segura.
Fiquei de cócoras, fechei os olhos e nascemos. Mãe e filho. Chorei eu e chorou o pai. Esse de emoção, mas chorei por ter sentido mais uma vez um filho saindo de mim, chorei por ter estado ativa durante todo o processo, chorei de alegria...por ter confiado em mim e ter seguido adiante. Nos demos as mãos para receber o pequeno, que no meu colo ouviu baixinho "viste na hora exata, com ares de festa e luas de prata..."
Da primeira vez, queria mas não sabia que podia.
Da segunda vez, queria e nunca duvidei que conseguiria.

_Daniele Brito, 33 anos, mãe de dois. Uma menina de 10 anos e um menino de 4 anos e meio. Escreve o Balzaca Materna, um blog autoral.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Relato: Nascimento de Natália - Parto Domiciliar

Marcela nos contou ontem sobre seu 1o. parto, c/ o Relato: Nascimento de Nahuel. Natural, mas hospitalar. Nos escreveu enviando este relato que postamos hoje, de seu 2o. parto, já domiciliar, e ocorrido neste mês de janeiro, no dia 02. Memória e sensações frescas, Marcela ainda nos alegrou dizendo que tem acompanhado este Especial de Férias, c/ relatos de parto publicados diariamente. Quando sugeriu a publicação deste nascimento pedimos também do 1o. parto. Confiram, então, uma nova história!

Ainda não vi os vídeos e as fotos do nascimento. Acho que muitos detalhes eu já esqueci, mas ainda tenho algumas sensações frescas e nos últimos dias tenho tentado reviver cada momento na minha memória. Começo o relato do nascimento da minha filha usando uma metáfora: "A escalada"...

Eu tinha um mapa, que me mostrava um caminho a percorrer até chegar ao topo de uma montanha muito grande e íngreme. Comecei a seguir as indicações.
Apesar do mapa ser muito detalhado, o caminho parecia muito diferente, e eu não conseguia avistar a alta montanha que o mapa indicava. Quando eu pensava que já estava começando a subir, vinha então uma curva e o caminho descia novamente, me levando de volta ao ponto de partida. Tentei várias vezes seguir o mapa desde o início, dava voltas e voltas e não saia do lugar. Depois de tanto caminhar, comecei a ficar tensa, cansada, frustrada. Chorei, e tive medo de não achar o caminho certo. Precisava me tranquilizar, rever as indicações do mapa e decidi parar. Encontrei uma caverna. Nesta caverna havia uma fogueira que me aqueceu assim que entrei. O cheiro dentro dela era muito agradável, fresco. Tinha algum rio passando ali dentro, e o som das águas me tranquilizava. Entrei na escuridão, me aconcheguei e dormi. Quando acordei, me sentia renovada. Peguei o mapa, que era meu único guia e o joguei no fogo, já não precisava mais dele. Sai da caverna e continuava sem ver montanha nenhuma, mas na minha frente havia uma trilha que entrava numa mata fechada. Fui caminhando por essa trilha, que por vezes era difícil de caminhar, outras, muito fácil e agradável. Fui caminhando, mata adentro, cada vez mais densa, e sem me preocupar em me perder, só seguindo meus pés. Às vezes a trilha se perdia, mas eu continuava, para onde meu corpo queria me levar. Até que lá na frente vi um clarão, algo que indicava que estava próxima ao meu destino. Ao mesmo tempo que aquilo me dava ânimo para continuar, não conseguia acreditar que já estava tão perto. Continuei caminhando em direção àquela luz, o caminho foi ficando mais íngreme e difícil, e nessa hora, eu usava toda minha força para pegar um impulso e escalar com rapidez. E logo após ter subido um ponto difícil, parava para descansar, sem tirar os olhos do clarão.  Mais alguns passos, mais alguns impulsos e cheguei ao meu destino: o topo de uma montanha altíssima, majestosa, que me permitia olhar além do que eu imaginava, uma paisagem incrível. Era a minha montanha, e subi-la foi muito mais simples do que eu pensava, era só me deixar levar...

No dia 30, Suely, Thiana e família chegaram na pousada. Almoçamos e acho que nesse mesmo dia a Suely me examinou. Fez o toque e eu estava com seis cm de dilatação. Isso já indicava que faltava pouco, mas eu não sentia nenhuma dor e as contrações que apareciam de vez em quando eram quase imperceptíveis. No dia seguinte, 31 de dezembro, fez calor, e as horas passaram sem grandes novidades. À noite, depois da ceia de ano novo, comecei a sentir algumas pontadas, não eram contrações, eram umas fisgadas bem embaixo. A Suely achou uma boa ideia me examinar, e eu estava com sete ou oito cm de dilatação. Acreditamos que o parto aconteceria naquela madrugada, do dia 1° de Janeiro, e eu comecei a me preparar para as horas de contrações dolorosas. Já tinha convocado minha tia Leone, minha prima Amanda e minha prima agregada Gabriela para ajudarem com as panelas de água, o tambor, o fogo. A Thiana ligou para a Carol, que também participaria do parto. Gonzalo acendeu o fogo e ficamos ali em volta aguardando as contrações. Mas elas estavam muito suaves, indolores e irregulares, longe de serem as contrações que eu esperava/queria... Fiquei caminhando em volta do fogo, passeando pra lá e pra cá. A Amanda tocando tambor, Tia Leone esquentando as águas e enchendo a banheira, Thiana e Carol fazendo massagens pra induzir as contrações, Suely conversando comigo. O tempo passou voando, e nada daquele trabalho de parto que eu tanto esperava, aquela dor que eu tanto me preparei... Já perto das 5:00 da manhã, decidimos ir dormir.
Deitei na cama e me sentia muito elétrica, não conseguia fechar os olhos. Amanheceu, todo mundo foi tomar café, o dia começou, e eu com aquelas contrações fraquinhas, indolores e irregulares. Suely fez mais um toque, e acho que eu já estava com uns oito cm, e segundo ela, a cabeça do bebê estava bem embaixo... Aquilo era muito louco, estava quase com dilatação total, sem dor, sem nenhuma outra sensação e isso às vezes me dava uma sentimento de vulnerabilidade, insegurança...
Quando amanheceu, Suely pediu pra colocar um forró e mandou eu ficar rebolando com o Gonzalo, e isso estimularia o trabalho de parto... As contrações começaram a vir de quatro em quatro minutos, mas sem dor, muito leves... O único incômodo que eu tinha era nas pernas, um tipo de formigamento, que a Thiana e a Carol aliviavam com massagens. Fui ficando cansada, sentei na bola e as contrações se foram. Tentei dormir, descansar, mas não conseguia, seguia elétrica, com a adrenalina lá em cima e cada vez mais tensa. Ficava pensando que não ia conseguir ter as tais contrações e tinha muito medo de que a Suely me mandasse para o hospital. Mas, sempre que ela vinha me examinar, a bolsa continuava perfeita e os batimentos do bebê ótimos! Ela me tranquilizava, explicando que não havia motivo para se preocupar. Era só eu deixar de pensar, parar de querer controlar a situação e permitir que meu corpo trabalhasse.
No fim da tarde, tentei ir dormir mais uma vez. Das 15:00 às 18:00 tive contrações irregulares, indolores, e pra mim, mais uma vez inofensivas...
Até que cheguei à conclusão que precisava dormir de verdade, antes de ficar contanto as contrações... Fui para o quarto, dentei na cama e fiquei rolando de um lado para o outro, sem conseguir relaxar, com a cabeça a mil por hora. Não, o parto não ia acontecer daquela maneira. Anoiteceu, pedi que o Gonzalo me fizesse uma massagem nas costas, que já doíam de tanta tensão. Perto das 23:00, o Gonzalo sugeriu que a Thiana e a Carol me fizessem uma massagem mais completa. Ele aproveitou para dizer a todo mundo (tia e primas) que estava de plantão que fossem dormir.  A única que ficou na pousada foi minha mãe. Thiana me mandou entrar no chuveiro, me preparou um escalda pés com sal grosso e fiquei ali, sentada na bola, com os pés no balde. Gonzalo foi se deitar para tentar descansar também. Thiana e Carol prepararam o quarto ao lado, com aromatizante, luz de velas, música relaxante. Deitei num colchão no chão e elas me massagearam, não sei por quanto tempo. Uma delícia, tão relaxante que acho que cochilei. Em algum momento senti uma contração forte, a mais forte que havia sentindo desde então. Senti o sono chegando, senti meus pensamentos lá longe. Percebi que a massagem tinha terminado, mas não percebi elas saindo do quarto. Alguns minutos depois senti mais contrações doloridas, e notei que estavam regulares. Não consegui calcular o tempo entre elas, nem o tempo em que fiquei ali. Elas começaram a ficar mais e mais fortes, e eu fiquei “curtindo” aquela viagem, inspirando fundo, expirando com a boca aberta, como a Thiana tinha me ensinado nas aulas de Yoga. Aproveitei para sonorizar a dor. Inspirava fundo, expirava dizendo “ahhhhhhhhhhh”. Me concentrava no som que saia e isso era muito agradável, tornando as dores muito suportáveis... Agora tinha certeza que a hora tinha chegado. Chamei o Gonzalo, que foi avisar a Suely e as meninas. Não consigo me lembrara exatamente o que acontecia enquanto eu fazia “ahhhhhh”, mas me lembro muito bem das cenas quando as dores davam uma pausa: Suely mandando Gonzalo ir esquentar as águas para a banheira; Thiana me massageando forte na região lombar; Carol me dando algo para tomar; Me lembro do gato observando tudo ao meu lado. Suely perguntando onde doía, me examinado, depois ela chamou o Gonzalo e disse pra ele desencanar das águas, não daria tempo de entrar na banheira, eu já ia ter vontade de fazer força.
-Fazer força? Daqui umas 3 horas, não? – perguntei.
-Não, já já – Suely respondeu.
Escutei o galo cantando e me assustei: “já amanheceu?”.
-Não, o galo é que está cantando antes da hora - me esclareceu Thiana.
Prepararam o quarto, me  levantei entre uma contração e outra e me sentei no colo do Gonzalo. Na minha frente, 3 anjos...


Por um lado, me sentia incrivelmente feliz, porque a hora tinha chegado. Por outro lado, não conseguia acreditar que já estávamos no fim, porque me preparava para o momento em que a dor seria insuportável, em que eu não fosse conseguir dar conta, o momento em que iria implorar por anestesia. Este momento nunca chegava, nunca chegou. As contrações eram fortes, mas me pareceram curtas e o intervalos entre elas longas o suficiente para respirar e me preparar para a próxima. Então senti a pressão, a vontade de empurrar, fiz força. Gritei várias vezes, pra mim, um grito de bicho. A contração ia embora e eu dizia alguma coisa. Ela voltava e eu gritava com gosto.
A Suely disse que o bebê era cabeludo, coloquei a mão e senti algo muito estranho entre minhas pernas. Suely pediu um espelho, a bolsa ainda estava intacta e era uma imagem incrível. A contração deu uma pausa e pude dizer:
-Nossa, parece uma lichia...
-Sim, parece uma lichia... a bolsa vai estourar a qualquer momento – nos preparava Suely.
Quanto mais minha filha se aproximava, mais vontade eu tinha de empurrar. Elas começaram a cantar algo em espanhol. Me lembro de ter escutado aquela música em algum lugar, tenho que perguntar ainda que canção era aquela - Rosa Zaragoza, em Sabemos Parir. Agarrei no pescoço do Gonzalo, agarrei na perna do Gonzalo, agarrei na minha perna e gritei. Senti ela descendo. Mais uma vez, mais uma vez e a cabeça saiu. A próxima contração veio e empurrei por última vez, e o corpinho deslizou.
Olhei para baixo e a vi, nas mãos da Suely. Que vontade de gritar mais uma vez, de alegria... Gonzalo me dizia que eu tinha conseguido. Ficamos ali hipnotizados.
Alguns instantes depois, ela veio para o meu colo e foi maravilhoso. E ela veio direto para o meu peito. Mamou forte. A placenta saiu, Gonzalo cortou o cordão. Ficamos ali curtindo nossa filha.

Ela é perfeita, forte, linda!
Parece que desde o momento que as contrações doloridas começaram até a hora do nascimento se passou menos de uma hora. Mas, todo o processo de trabalho de parto foi longo, lento, cheio de inícios, pausas e grilos, muito diferente, mas muito melhor do que eu imaginei. Foi mágico! Foi um dos momentos mais intensos da minha vida.
Foram avisar a minha mãe, que também não conseguia relaxar nos últimos dias e estava de plantão. Ela chegou trazendo um leite com aveia e muitas lágrimas. E, então, fomos dormir na nossa cama. O Gonzalo trouxe o Nahuel, que quando deitou ao lado da irmã, abriu os olhos e lhe fez uma carícia na cabecinha: o bebê da barriga da mamãe tinha finalmente chegado.

OBS: Tínhamos escolhido o nome Tainah, caso fosse menina, mas poucos dias antes do parto tive um sonho onde chamava por minha filha, e, no sonho, seu nome era Natália. Assim ficou...

Natália nasceu com apgar 10/10. Peso: 3,375gm. Tamanho: 50cm.

_Marcela Mölk, Designer de Interiores, mãe de Nahuel e de Natália.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Relato: Nascimento de Nahuel - Parto Natural Hospitalar


Quando engravidei estávamos vivendo na Áustria, onde todo o pré-natal foi acompanhado por uma médica homeopata. Durante os nove meses ela me orientou para que caminhasse bastante, tomasse alguns chás, fizesse acupuntura e massagem no períneo.
Fomos conhecer a maternidade da cidade. Os quartos de pré-parto e parto eram lindos: com banheiras, banquinhos de parto, cordas que saiam do teto para a gestante segurar na hora da força, com decoração aconchegante... Para o parto poderíamos levar o que quiséssemos: algum CD com músicas preferidas, alguma coisa que eu gostasse de comer etc...
Já estava de 40 semanas e quatro dias de gestação, alguns cm de dilatação, mas até então, nenhum sinal de que o bebê chegaria logo. Na última consulta, a médica me disse que eu teria um parto lindo e rápido.
Nesta noite estávamos vendo televisão, quando senti o bebê se mexer e uma dorzinha... dali há uns 15 minutos reconheci outra pequena contração. Continuamos a ver TV e comecei a sentir mais contrações, em períodos curtos, mas como não eram regulares e não haviam dores,  não acreditei que a hora tinha chegado. Não havia nenhum programa interessante, mas continuamos a ver a televisão... então, fui uma vez  ao banheiro, depois  mais uma e mais outra. Decidi tomar banho, e ai debaixo do chuveiro senti uma contração mais forte, mas estava  tão gostoso debaixo da água quentinha, que não me incomodei. O Gonzalo vinha a cada minuto com um papelzinho na mão perguntando quando havia tido a última dorzinha... e eu dizia: “ah sei lá, acho que há dois minutos...”.
Voltei pra cama e mais “contraçõezinhas”, depois de meia hora, fui tomar banho de novo, porque era muito relaxante a massagem que a água da ducha fazia nas minhas costas, exatamente onde sentia as dorzinhas. Quando sai do banho, vi um pouco de sangue e ai pensei: "putz, agora temos que ir para o hospital!
Desde a primeira contração até este momento haviam passado duas horas. Gonzalo chamou um taxi.
Pegamos as malinhas e fomos. Quando desci do apartamento, pus cara de “leva a gente pro cinema”, pro motorista não desistir de me levar pra clínica. Felizmente era uma mulher quem dirigia o taxi! Ela me olhou e disse:
            -Como você se sente?
            -Bem, ainda temos tempo, não se preocupe.
            -Ok, sem problema...
 O carro era tipo uma van, e eu pensei: “ah, um carro perfeito para um parto!”.
Entramos e ela parecia estar super emocionada com a aventura de levar uma grávida às 23:45 para o hospital. O melhor de tudo é que ela sabia exatamente em que porta tinha que deixar a gente. Era uma taxista muito gente boa!
Entramos no hospital e as contrações começaram a ficar mais fortes. Me perguntaram desde quando eu tinha as contrações e mandaram a gente se sentar na salinha de recepção. Depois de cinco minutos veio uma enfermeira e nos levou para a sala de parto. Mandou eu tirar a roupa e esperar. Foi nesse momento que vi que a coisa vinha pra valer, porque comecei a sentir dores mais fortes e frequentes como nunca.
Eu dizia pro Gonzalo: “diz pra parteira que eu quero ter na água! Põe o CD com as músicas para o parto!”.
A parteira veio me examinar e quando foi medir a dilatação a bolsa estourou e ela disse: “uau! Você já tem nove cm de dilatação! Muito bem! Vai ser super rápido!”.
Conclusão: não deu tempo de ir para a banheira, todo mundo se esqueceu das músicas e a aventura do parto começou.
Contração atrás de contração e não me lembro exatamente as coisas que pensava nesse momento, só sentia coisas pelo corpo que eu não conhecia e não conseguia controlar. Cada contração era um golpe, e quando elas iam embora, sentia um alivío imenso. Nessa hora aproveitava para respirar com mais tranquilidade e tentar reunir energia para a próxima contração.
A dor de parto foi a única dor que senti que não sei como explicar, como comparar. Me lembro muito mais das dores no dentista, da tatuagem e piercing. Com outras dores cheguei a chorar, às vezes  tremer... com a dor do parto minha reação foi gritar, me sentia meio bicho. E o Gonzalo tentava me trazer de volta, e me lembrava que tinha que respirar. Daí já se vê como foi importante tudo o que a gente aprendeu durante a gravidez. Respirar fundo me ajudava muito, mas era difícil controlar. Também não tinha muita noção do tempo, cheguei a olhar o relógio na parede, mas não o que ele me indicava.
Me lembro que a parteira e o médico diziam: “vamos, você tem que empurrar agora!”. Mas, que era empurrar mesmo? Então senti uma pressão super forte, e meu corpo já fazia tudo sozinho... mesmo que eu não quisesse, era impossível  não fazer força!
Depois de um tempo já me sentia muito cansada, e dizia pro Gonzalo: “não quero mais! Não consigo mais! Em que cilada me meti?”.
O médico me injetou alguma coisa no braço. Eu pensei que era algum tipo de anestesia, mas não, era ocitocina...
A parteira dizia: “estou vendo o cabelo, vamos, empurra mais!”.
E eu  tentava reunir toda a força do planeta, empurrava e gritava!
Em um momento ela pegou a minha mão e colocou no meio das pernas. Senti uma coisa meio mole, estranha, e ela me disse que era a cabeça!
O médico então chamou outra parteira, que veio pro lado da cama, colocou a mão na minha barriga, e deu um empurrão e senti que algo pulava pra fora de mim. A cabeça havia saído, e ele tava roxinho.
Gonzalo dizia: “Vamos chuchu, já saiu a cabeça, falta só mais um pouco.”.
O expulsivo estava demorando muito. Só mais tarde eu fui entender que o bebe era muito grande e as manobras realizadas pelas parteiras foram necessárias. A parteira que estava na minha frente agarrou a cabeça do bebê e começou a puxar,  e vi ela desenrolando o cordão do pescoço dele. Acho que essa foi a pior parte, porque sentir ela puxando o bebê me causava muita dor.
E eu fazia força, fazia força, mas não conseguia terminar com aquilo. Então, com  a segunda ordem do médico, a parteira ninja, desta vez com a mão aberta, apertou a minha barriga e senti que algo escorregou para fora, e foi o maior alívio que senti na minha vida. Já não havia dor nenhuma e a sensação foi uma maravilha.
Olhei entre minhas pernas e vi um corpinho todo mole, e a ficha só caiu quando Gonzalo disse:
            -"Es un machito!".
Então entendi que NAHUEL havia nascido! Eram 2:15 de manhã do dia 17 de Julho.
O Gonzalo  cortou o cordão e em seguida colocaram aquele corpinho em cima de mim, e fiquei ali, sentido aquela coisinha quente. E foi nessa hora, desse jeito que amamentei pela primeira vez!

Já nem me lembro direito o que foi feito depois. Não vi e não senti a placenta saindo.
Entre a entrada na sala de parto e a saída de Nahuel, haviam passado duas horas.
Já com Nahuel vestido, fui levada para o quarto, e não me lembro mais de nada. Toda aquela dor que havia passado já estava esquecida, já não tinha nenhuma importância. Gonzalo ficou comigo e dormiu numa cadeira que havia por lá.
Quando amanheceu, começou a rotina com os bebês. Fui tratada como rainha, e Nahuel como um príncipe. Tirando a minha companheira de quarto, que não era muito simpática, tudo era maravilhoso: os médicos, as enfermeiras, a cama, a comida... e com todo esse apoio, papai, mamãe e filhote fomos nos conhecendo e aprendendo um montão de coisas.
Nesse dia fez um calor terrível, e sofri um pouco pra dormir. Mas, na madrugada esfriou e choveu e na manhã do dia 18, olhei pela janela e as montanhas estavam cheias de neve. Sim, neve em pleno verão! Que sensação estranha... aquela paisagem, que vejo todos os dias, já tinha outro sentido pra mim.
Eu acho que no final todos aqueles chás que tomei, as massagens, a acupuntura me ajudaram. Recomendo as outras futuras mamães!

_Marcela Mölk, Design de Interiores, e mãe de Nahuel e de Natália.

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