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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Blogagem Coletiva - Maternidade e violência obstétrica: pautas feministas

As questões da maternidade não agregam ao feminismo

Recentemente, um grupo de mulheres fundou a Artemis, organização não governamental que tem como um dos seus objetivos a erradicação da violência obstétrica no Brasil. A Artemis tem promovido atuação efetiva, com presença decisiva no Fórum Mundial de Direitos Humanos e junto à Defensoria Pública do Estado de São Paulo.

Também recentemente, as ativistas deste grupo foram duramente atacadas, não virtualmente mas presencialmente, no cara a cara, por pessoas que afirmavam não ser a maternidade uma causa feminista.

Isso aconteceu no início do mês de dezembro, dias 06 e 07, por ocasião do IV Ciclo de Conferências da Defensoria Pública do Estado de São Paulo. A participação da Artemis em tais conferências se deu no âmbito do Grupo de Trabalho dos Direitos da Mulher, tendo sido representada por 9 delegadas e com o objetivo de pautar o tema “violência obstétrica” como uma das metas da Defensoria Pública de São Paulo para os próximos dois anos.

A Conferência é um espaço da sociedade civil, onde todas as 90 propostas apresentadas devem ser de extrema importância para a sociedade em geral e para o Estado de São Paulo.

Ali estavam propostas importantíssimas para a questão da mulher: funcionamento das delegacias da mulher 24hs/dia, inclusive finais de semana; acolhimento de mães puérperas em situação de rua; criação de casas de passagem e abrigo especializado para mulher em situação de violência; criação de Juizados Especializados em Violência Doméstica; proteção à identidade de gênero; campanhas pela legalização do aborto; atuação na questão da violência obstétrica, entre outros de igual importância. É facilmente perceptível a grande relevância de todas as propostas, as quais, certamente, estão dentro do escopo dos movimentos feministas.

E a inserção da violência obstétrica como mais um tema a ser trabalhado e a ser combatido na sociedade é prioritário num contexto do Poder Judiciário onde pouco ou quase nada tem sido feito sobre o assunto.

Após a defesa de nossa proposta, duas delegadas de movimentos feministas da capital paulista se manifestaram contrariamente à inserção da violência obstétrica como violência contra a mulher: uma sugerindo que a questão da maternidade não agrega o feminismo, já que a maternidade, segundo ela, seria “uma forma de controle do patriarcado sobre o corpo da mulher”, e outra sugerindo que as delegadas deveriam votar em questões sérias e não em “questões que ainda estão no imaginário e não acontecem de fato”.

Tais manifestações de negação da violência obstétrica como causa feminista nos causaram brutal perplexidade. Não apenas pelo caráter discriminatório para com milhares de brasileiras que estão sendo violentadas durante o nascimento de seus filhos, como também pelo desconhecimento e desatualização de ambas as delegadas a respeito do tema. Não é possível ignorar dados sérios de pesquisas brasileiras realizados nos últimos três anos e amplamente divulgados nos cenários científico e midiático brasileiros, os quais já mostraram a toda sociedade civil a gravidade da questão. Muito menos desmerecer a violência sofrida por uma a cada quatro mulheres que dão à luz no Brasil, atribuindo a essa violência caráter de “invenção”, de “imaginário”, ignorando mulheres e suas dores.

A despeito de tais manifestações, continuamos nossa atuação enquanto grupo feminista organizado e conseguimos levar a proposta à plenária final. O resultado: a proposta de inserção da violência obstétrica como pauta relevante obteve a segunda maior votação da Conferência, recebendo 43 votos (a primeira recebeu 44, pertencendo à temática do idoso e pessoa com deficiência). É importante mencionar que, nesta conferência, cada delegado tem direito a 9 votos, que podem ser dados à mesma proposta. Nossa proposta somente foi aprovada porque nós, delegadas ativistas, nos articulamos e destinamos grande parte de nossos votos a uma única proposta e, considerando que tivemos apenas 12 votos entre 116 delegados, achamos pouco – e triste. Triste porque o GT do Direito da Mulher possuía cerca de 25 delegadas e nem metade delas entendeu a gravidade do que representa a violência obstétrica enquanto violação do direito à dignidade humana e que precisa urgentemente ser discutida, combatida e, principalmente, erradicada. Triste porque a violência obstétrica que afeta tantas mulheres em nosso país diz respeito ao corpo e ao direito da mulher no momento do parto e, paradoxalmente, justamente por isso não mereceu a atenção dos movimentos feministas. Embora satisfeitas pelo que consideramos ser uma vitória – a inclusão da violência obstétrica como pauta a ser discutida – é profundamente lamentável constatar o alto grau de misoginia presente entre as próprias mulheres, ao se recusarem a tratar a questão da violência obstétrica como violência à mulher. E, por ser violência contra a mulher, é obviamente uma causa feminista.

Feminismo, maternidade e empoderamento

Não sabemos se nesse contexto ou fora dele, alguns dias depois foi publicado no coletivo Blogueiras Feministas o texto “O ativismo materno para além do parto”.

Concordamos com alguns trechos do referido texto. Realmente nos incomoda muito ver/ler/ouvir alguns discursos que se baseiam em julgamentos da mulher que não pariu, ou porque não quis, ou porque não conseguiu, ou porque… sabe-se lá porque… Nós somos do  movimento pela humanização do parto e contra a violência obstétrica e, ainda assim, fazemos essa crítica, apenas porque soa a nós como grande discrepância e incongruência defendermos o direito da mulher de não ser violentada no parto e, ao mesmo tempo, violentarmos outras mulheres com nossos discursos pré-moldados e, por vezes, sem sentido.
Porém, ao começarmos a leitura de tal texto, sentimos algo como o que sentimos quando ouvimos alguém dizer: “Não sou racista, mas….” ou “Não sou machista, mas…”, ou “Acho que mulheres têm direitos, mas…”. À semelhança desse cartoon aqui:

Extraído daqui!

Ou seja: ao ler o texto, o qual começa reafirmando a importância do apoio à humanização do parto e ao movimento pela dignidade de parir, já sabíamos que viria um “mas”… E o “mas” que veio em seguida mostrou-se muito parecido com os “mas” mencionados anteriormente e o tom do texto se assemelhou em muito ao ataque sofrido pelas ativistas da Artemis em função do suposto não pertencimento da maternidade à pauta feminista.

O texto “O ativismo materno para além do parto” foi explicitamente direcionado a um blog, cujo nome – “Mulheres Empoderadas” – faz menção ao que viveu a própria autora do blog, que viveu cesáreas indesejadas antes de lutar e conseguir dois partos naturais, porque era esse seu desejo. Claro que sabemos disso porque a conhecemos e as autoras do texto não têm obrigação de saber. Entendemos isso. Mas, do mesmo modo que ninguém tem obrigação de saber disso, também não é possível traçar uma crítica ao que se “pensa” ser, porque isso seria apenas uma de muitas interpretações possíveis da razão do nome.

Arriscamos dizer que 90% das mulheres que curtem e “fazem” a página “Mulheres Empoderadas” não se intitulam empoderadas porque defendem e vivem a autonomia da mulher para parir de cócoras, na piscina, sem intervenções ou porque amamentam seus filhos no peito por tantos anos. Não. Intitulam-se assim porque venceram muitas lutas pessoais – e coletivas – para conseguirem fazer isso, lembrando que tudo isso aí representa grandessíssimas exceções no Brasil. Estamos falando de uma minoria. E por que é que o direito de escolha de uma minoria está sendo atacado tantas vezes?

Essas mulheres travaram grandes lutas para conseguirem parir do jeito que queriam e amamentar. Muitas delas foram demitidas por incompatibilidade entre a bombinha de extrair leite e o cartão-ponto. Não são empoderadas porque paririam assim ou assado ou deram o peito, mas por terem enfrentado um sistema nojento, machista e patriarcal para fazer isso. E, muitas vezes, enfrentaram e desafiaram a si próprias, gente que nunca pensou que fosse capaz de dar conta desse tipo de enfrentamento.

O texto tem razão quando diz que mulher empoderada vai muito, mas muito além de parir. E é exatamente isso que queremos dizer aqui: essas mulheres não podem ser resumidas a um corpo que pariu, mas a mulheres que, sim, venceram um sistema esmagador, cruel, violento, humilhante, degradante, onde chegamos invariavelmente como “mãezinhas”, “mamãezinhas”, que não podem gemer ou não gemeram quando fizeram o filho e – SÓ ENTÃO – pariram. Pariram OU NÃO. Porque grande parte, ainda assim, não consegue, porque o que acontece dentro de uma sala de parto é muitas vezes cruel, opressor, indignante e ultrajante.

São mulheres recebendo tapas nas pernas de profissionais da saúde. São mulheres proibidas de gemer ou gritar para expressar sua dor porque “pra fazer não gritou nem chamou a mamãe, vai gritar agora?!”. São mulheres amarradas de pernas abertas em estribos frouxos, que caem a todo momento, para receberem exames vaginais de cinco, seis, oito alunos que as tratam como um  número. São mulheres dopadas porque “estão dando trabalho”. São mães que veem seus bebês morrerem logo após o nascimento por má assistência. Estamos falando sobre essas mulheres.

E se, à semelhança dos exemplos citados no texto mencionado, houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por mulheres que escolheram não ser mães? E se houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por mulheres que escolheram abortar? E se houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por mulheres que nasceram com pênis? E se houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por quem nasceu com ovários e vagina mas não se reconhece como mulher? E se houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por mães de plantas, mães de gatos, mães de projetos? Faria mais sentido? Seriam empoderamentos mais bem vistos no contexto do “feminismo”? Essa crítica ao uso do “empoderadas” ainda seria feita? Sejamos sinceras: não seria! E não seria porque todas essas “subáreas do empoderamento”, digamos assim, todos esses feminismos, são respeitados e reconhecidos. Mas a maternidade não! A maternidade e o direito das mulheres que se tornam mães não são reconhecidos! A maternidade é um assunto que caiu num limbo que um feminismo específico dos muitos que existem não anda muito a fim de abraçar não… E tem sido assim mesmo considerando que mulheres que se tornam mães tornam-se, também, alvos preferenciais para inúmeras iniquidades e violências de gênero. Como ser demitida sem justa causa. Como ser preterida em concursos públicos. Como ser ridicularizada ou tida como “mulherzinha”, “fraquinha”, “mãezinha”. Como ser vista para sempre como subserviente ao ser que colocou no mundo.

Condições gerais da maternidade no Brasil

Mulheres mães brasileiras vivem em péssimas condições. Pelos rankings internacionais, feitos por diferentes instituições de pesquisa, como a Save the Children, o Brasil tem péssimo desempenho no que se trata do bem estar materno. Enquanto Cuba aparece com a melhor posição da América Latina, em 33o. lugar, nosso país permanece na 78a. posição, atrás da Ucrânia (país mais pobre da Europa) e da África do Sul. Mas o que os rankings não mostram é que os melhores desempenhos, medidos por variáveis como saúde gestacional, mortalidade materna e infantil, renda, emprego, educação, dentre outras, foram construídos ao longo do tempo, principalmente por políticas públicas focadas no bem estar das mães, pais e crianças. A Suécia, por exemplo, que figura há muito tempo entre a primeira e a segunda posição em diferentes rankings como esse, construiu políticas sociais focadas nas famílias, sob influência de um feminismo forte e preocupado com as condições de vida das mães – casadas ou não. Uma das medidas mais antigas e importantes nesse país foi o financiamento de creches acessíveis e de qualidade para as crianças de famílias monoparentais. Sabendo que em 90% dessas famílias quem se responsabilizava pelo sustento e cuidado das crianças eram as mulheres, os movimentos feministas do início do século XX já cobravam medidas especiais para acolhê-las. Com o tempo e o aumento da consciência da desigualdade de gênero nas famílias e no mercado de trabalho, e com a preocupação crescente com os direitos das crianças, a Suécia desenvolveu um sistema de pré-natal totalmente baseado na prática das enfermeiras obstetras, doulas e casas de parto, concomitante a uma política de licença parental remunerada de até 13 meses, a ser desfrutada por homens e mulheres, e que, assim, contribui para uma das melhores taxas de amamentação da Europa. Mas, claro, é importante lembrar que nesse país as mulheres passaram a ter direito ao voto e representatividade política muito antes do que no Brasil.

Nossa situação, então, pode ser explicada pela dificuldade que as mães e as mulheres de maneira geral têm encontrado para entrar na arena política e colocar suas demandas por serviços de saúde e de acolhimento de bebês conectados com as recomendações internacionais acerca do bem estar materno. Em nosso país, parece ainda pairar uma ideia majoritária de que maternidade e paternidade são assuntos da vida privada, que nada tem a ver com movimentos sociais e políticas públicas. Isso é um imenso engano! Desde a redemocratização e a gradual emancipação das mulheres no mercado de trabalho, o tema dos direitos familiares tem crescido. O Estado tem reconhecido o papel fundamental das famílias e das comunidades locais para a saúde (vide Programa Saúde da Família, base do SUS) e para o desenvolvimento humano (vide Programa Bolsa Família, empoderando mulheres nos confins do Brasil principalmente porque são mães!). Ainda é pouco. Muito pouco! Ainda temos um déficit enorme de creches e escolas infantis, onde faltam cerca de dez milhões de vagas. Ainda temos um sistema de saúde suplementar totalmente desconexo das diretrizes mais importantes da saúde materno-infantil levadas a cabo com muita dificuldade pelo SUS.

Ainda temos um congresso que não acredita na necessidade de uma licença parental (que inclua os homens – hoje os pais só têm direito a cinco dias corridos de licença).

Esse abismo de políticas para as famílias acaba reforçando também a reprodução da desigualdade econômica e racial entre as mulheres. Sem garantia de vagas em boas creches, e sem licenças parentais razoáveis, a mão de obra de outras mães, pobres e geralmente negras e/ou migrantes, é explorada pelas famílias de classe média. Essas trabalhadoras, na maior parte dos casos, ainda não têm seus direitos trabalhistas respeitados e não encontram apoio público para o cuidado com suas próprias crianças.

Concordamos com as autoras: o empoderamento feminino não pode ser deslocado da luta feminista. Inclusive o empoderamento materno. Por que, então, ele é “café com leite”? Que tipo de julgamento estamos fazendo sobre as mães que se “empoderam” para viver a maternidade à sua maneira?

Também concordamos com as autoras: não é possível falar em empoderamento feminino e ser contra a descriminalização do aborto. Essa é uma das maiores expressões de incoerência de quem defende o direito da mulher de escolher parir mas não defende a escolha de não ser mãe mesmo que tenha um óvulo fecundado. Não é possível falar em empoderamento feminino e achar que outra mulher não tem direito de dispor sobre o corpo dela. Não é possível falar em empoderamento feminino e ofender moralmente a mulher que está vestida sensualmente. Assim como não é possível falar em empoderamento feminino e desmerecer o empoderamento que culminou na fuga do sistema para parir dignamente, sem ser chamada de “gorda escandalosa” ou “égua parindo”.

As mulheres que têm feito jus ao seu direito de escolha e escolhido cesarianas têm tido seu direito respeitado. Quem não tem tido é justamente quem quer parir de cócoras, para usar apenas um exemplo. E quem é que vai defender essa aí? Ou, pior: quem é que vai defender aquela que, mesmo querendo isso, está tomando tapa e sendo xingada dentro de instituições de saúde, com o suposto aval da sociedade, que se nega a acolhê-las pelo não reconhecimento da violência sofrida?

Discordamos das autoras em mais um ponto. Nem sempre parir traz poder, biológico ou político. Nem sempre traz satisfação e beleza. Nem sempre traz o poder de contestar a medicalização. Na verdade, quase nunca isso acontece no Brasil. E isso porque a grande maioria das mulheres está parindo em meio a xingamentos, barriga esmagada por um braço ou uma mutilação vaginal. Então, o “parir poderoso”, novamente tem sido para uma minoria. Então vamos atacar a minoria? E a defesa dos direitos das minorias, era só um discurso nosso?

Ao contrário do que parecem achar outras pessoas, não temos visto um culto exacerbado ao lugar da “mulher mãe” como sinônimo daquela que larga tudo para cuidar dos filhos em tempo integral. O que temos visto, isso sim, são centenas ou milhares de mulheres em luta constante para satisfazer simultaneamente seu próprio desejo de cuidar de suas crias de perto e o desejo de seu patrão de produzir ou o desejo do marido de pagar contas, ou o próprio desejo de ter uma vida profissional ativa. O que há é uma pluralidade de vozes e, entre tais vozes, há as das que querem cuidar dos filhos em período integral – embora esteja muito longe de ser majoritário. A grande maioria das mães contrata uma creche cara e vai ralar e são poucas as que continuam a tirar leite do peito para amamentar… Ou vamos cair no erro de achar que os poucos gritos de “VAMOS VOLTAR PARA CASA!” que ouvimos nas redes sociais representam a maioria das brasileiras? O mundo é mesmo machista pra cacete, como as autoras mencionaram, e ninguém está podendo fazer isso no Brasil sem arcar com uma longa lista de julgamentos e preconceitos, mesmo quem se sente “empoderada”. As mães que têm conseguido representam mesmo uma minoria. O que algumas feministas têm chamado de privilégio representa também uma conquista árdua, a partir da tomada de consciência e desejo de mudança sobre as condições gerais de maternagem em nosso país. De novo, atacaremos uma minoria porque a consideramos “privilegiada”?

Reconhecer não significa estereotipar

Uma das críticas de alguns grupos à inclusão da maternidade como questão feminista é o fato de que isso reforçaria o estereótipo de que as mulheres são as únicas responsáveis pelos cuidados com as crianças.

Não querer reforçar a ideia comum de que os cuidados com a criança é algo natural na mulher é diferente de negar que não apenas a maternidade mas todas as funções de cuidados são executadas majoritariamente por mulheres. Ao afastar isso das frentes de debates feministas perdemos a oportunidade de não apenas desnaturalizar tais associações, mas também de exigir políticas públicas que liberem a mulher de tal condição. Como falar em cuidados compartilhados entre os pais se a licença paternidade é de apenas cinco dias, enquanto a licença maternidade é de quatro a seis meses? A não criação de vínculo parental pelo pai da mesma forma como acontece com a mãe, pela ausência de tempo dedicado, também traz nefastas consequências, como o acúmulo de tarefas pela mãe que também trabalha fora de casa. E esse é apenas um exemplo sobre como agregar questões de maternidade ao debate feminista, a fim de pleitear direitos como aumento da licença paternidade, resulta em melhoria de condições para as mulheres, em especial maior possibilidade de escolhas em suas vidas.

É importante lembrar, também, que muitas mulheres que estão em defesa de crianças cuidadas presencialmente estão é colocando o homem na jogada. Queremos crianças cuidadas não pela babá ou pelo professor em tempo integral? Então que venham os homens pra dentro de casa também! E, sim, estamos vendo isso acontecer, claro que em pequeníssimo grau, mas estamos vendo! Tem homem voltando pra casa para que a mulher, que ganha mais e está bem realizada em sua carreira, continue fora, sem que as crianças percam na qualidade do cuidado recebido. É maioria? Claro que não é. E de novo vamos atacar uma minoria?

O parto humanizado no Brasil, atualmente, está mesmo limitado a um recorte de mulheres da classe média. Fato. O que significa que todas as demais, financeiramente abaixo ou acima, estão atualmente fora dele – com exceções como as que têm acesso ao Sofia Feldman (MG – SUS) ou ao Elpídio de Almeida (PB – SUS), ou a parteiras tradicionais nos confins do Brasil e outras poucas. E, por conta disso, as mulheres da classe média que estão parindo dignamente são muitas vezes ridicularizadas ou chamadas de alienadas, umbiguistas, egotripistas, etc etc. E são essas mesmas mulheres da classe média que estão organizadas para lutar pelos direitos de todas por um parto sem violência ou mutilação. É uma das poucas vezes que o Brasil vê uma mobilização da classe média espirrando na assistência básica à saúde, no SUS, na legislação. Então, sim, é um privilégio da classe média, no momento, poder parir sem ser amarrada ou xingada ou sem tomar tapa. Mas essa classe média não está em berço esplêndido vangloriando-se de seu parto orgásmico – algumas nem sequer conseguiram parir como queriam e continuaram a engordar as estatísticas que caem muito bem nos bolsos do corporativismo médico. Essas mulheres estão organizadas e estão se organizando – vide a ONG mencionada no início do texto e outros tantos exemplos.

Quanto de empoderamento feminino é preciso para sair do lugar de mãezinha e reivindicar direitos coletivos de saúde às mulheres, ainda que estejamos extrapolando a classe média brasileira tão viciada na inação? Muito. E o fato de serem mulheres mães empoderadas não desmerece nenhuma outra luta de empoderamento feminista.

O ponto é: mulher mãe não pode se intitular empoderada?

A que aborta pode, a que não quer ser mulher pode, a que é mulher embora não tenha nascido biologicamente uma pode. Mas as mães não. As mães vão ali praquele cantinho e tratem de ficar quietinhas.
Quer dizer: na categoria “mães” vamos aglomerar toda a história de opressão vivida pelas mulheres e vamos mantê-la ali porque, afinal, as mães merecem, já que concordaram em abdicar de sua “real” condição de autonomia quando se tornaram mães – esse parece ser o pensamento de um grupo que não reconhece a maternidade como pauta feminista. E, paradoxalmente, o que temos visto é justamente um movimento de luta contra uma forma cruel (e invisível e velada, até negada, veja só! e, a despeito disso, altamente prevalente) de violência – a obstétrica, que mata e mutila – cujas bandeiras estão nas mãos de… mães!
Qual é, companheiras? Não temos direitos mas podemos lutar?

Sim, o feminismo é muito mais, MAS MUITO MAIS MESMO. É autonomia para além de ser mãe.
Mas TAMBÉM para ser uma.

Nós escrevemos esse texto com o único e exclusivo objetivo de convidar outras feministas a olharem para a questão da maternidade e da violência obstétrica com olhos de luta, de empatia e de indignação, para que consigam enxergar em ambas as questões os mesmos séculos de opressão, preconceito, discriminação e violência que pairam sobre todas as mulheres. Não fazer isso é violentá-las, é violentar-nos.

Estamos ao lado de todas as demais lutas feministas. E esperamos que, em 2014, tenhamos mais lutadoras feministas ao nosso lado, ao invés de sermos atacadas apenas por sermos mulheres que criam crianças – crianças por um futuro onde haja verdadeira equidade..


Ana Lucia Keunecke - Causa Justa / Portal Vila Mamífera
Carolina Pombo - Mãe e tempo
Ligia Moreiras Sena - Cientista que virou mãe
Raquel Marques

* Lola, do Escreva Lola Escreva tb postou o texto, no Guest Post - aqui, além das respectivas autoras, em 30 de dezembro de 2013.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Maternidade e carreira profissional, ou como conciliei em home-office a maternagem ativa

O coletivo FemMaterna organizou a Blogagem Coletiva Maternidade, Paternidade e Carreira Profissional, e venho contribuir com meu relato de experiência desses mais de quatro anos em que meu companheiro e eu maternamos nossa cria, um menino sapeca e falante, que como luz guia nossos passos, desde sua gestação. Nosso Deus do Amor, Rudá, em tupi guarani, como reza a lenda, semeia a amorosidade por onde passa!


Refletindo sobre esse trilhar não posso deixar de conectar a vinda desse que foi meu segundo filho com o nascimento do primogênito, do primeiro casamento, um canceriano sensível e querido, Ícaro, mas que, também como a lenda, voou para longe de mim, com apenas dois anos, e vive, atualmente, com o pai e sua madrasta, e já se tornou um pré-adolescente questionador, com 11 anos de idade, e que pouco eu vi crescer.

Foi a falta dessa maternidade, em feridas hoje já bastante cicatrizadas que quando engravidei de Rudá prometi a mim mesma que tudo seria diferente. A começar pelo parto, já que Ícaro veio ao mundo por uma cesárea intraparto, daquela menina de pouco mais de 22 anos, que apesar de graduada pouco sabia sobre o sistema obstétrico brasileiro, tendo como fonte a Revista Crescer e Cia.

Nesta segunda gestação, numa fase bem difícil da vida, não planejada, com poucos recursos financeiros, tivemos a revelação, com o exame de farmácia. Nas próximas semanas da novidade, dois projetos que havíamos enviado foram aprovados, pela Secretaria de Cultura, do Governo de São Paulo, pelo Programa de Ação Cultural (ProAC) e Juliano passou no vestibular, dando início, no ano seguinte, os estudos em Agronomia, em outra cidade.

Nesta época estávamos na Ilha de Cananéia, onde Rudá nasceu, em nossa casa, nove meses depois, em um parto demorado, mas transformador - literalmente.

Desde aquele 23 de agosto de 2009 que nossas vidas nunca mais foram a mesma, e olhando agora para ele, que brinca ao meu lado enquanto escrevo essas palavras, faria tudo e mais um pouco de novo!

Com o parto domiciliar, a criação com apego foi inevitável, para mim. Amamentação exclusiva, até o sexto mês, e sob livre demanda, sendo prorrogada até seus dois anos e dois meses, quando houve o desmame, associada a cama compartilhada e aos cuidados integrais com aquele bebê que mostrou qual caminho, aquele do coração, que eu deveria seguir.

Organização e participação no evento Dia da Parteira, em Cananéia/SP
Foto de Leandro Cagiano.

Eu já tinha uma rotina de trabalho em home-office, como pesquisadora na área da Antropologia, com comunidades tradicionais caiçaras e ribeirinhas, e assim foram os primeiros anos de sua vida, agarrado no sling em nossas saídas-de-campo, nas assembleias de uma ONG em que éramos associados, nas vivências, cursos, formações. Todo tempo ele estava lá! E, para mim não poderia ser diferente!

Intercâmbio cultural em um quilombo carioca.

Com quatro meses prestei um concurso para professores do Estado de São Paulo, e passei em segundo lugar do Vale do Ribeira, sem ao menos ter consultado a bibliografia antes da prova. Prova em que Rudá também estava, com o pai, e que foi amamentado entre uma questão e outra. Eu teria dez aulas de Sociologia garantidas, todos os anos, mais os benefícios que a categoria permitia, porém, a amamentação como eu sonhava teria que ser mudada, ou tirando o leite, ou introduzindo leite artificial. A decisão?! Não, obrigada. E, foi aí que eu entendi que aquela maternidade ativa tinha sido uma escolha consciente, e que por ela eu abriria mão de outras coisas, mas muito menos importantes do que Rudá.

Fechamento de encomenda, com cria a tira-colo e direito a joinha!

Isso não quer dizer que não trabalhei. Desde lá foram intensos anos de muita labuta, escrita - com a criação deste blog, com Ana Carolina, em dezembro do mesmo ano de nascimento de nossos filh@s - de projetos culturais aprovados e coordenados, de quatro livros publicados - sendo o último sobre as parteiras tradicionais caiçaras - da descoberta pela paixão pela costura e bordados, com a criação do empreendimento feminino Comadres, onde eu e duas comadres amadas produzimos peças exclusivas e utilitárias. Além dessas tantas e diversas funções, iniciei um caminho na sagrada arte de partejar, através da Escola de Aprendizes de Parteira na Tradição, pelo CAIS do Parto, em Olinda-PE, atuando, ainda, como doula, e tendo a alegria de acompanhar outras mulheres, que como eu, tomaram a rédea de seus partos, e tiveram suas vidas transformadas pela maternidade.

Há pouco mais de quarenta dias nos mudamos de nosso chalezin, na ilha cercada pelas majestosas montanhas e estamos em Botucatu, interior paulista.  O motivo foi uma escola não tradicional para Rudá, onde ele não será alfabetizado aos quatro anos de idade, e sim irá brincar, correr, cantar, ouvir histórias e fábulas, enfim, irá ser o que uma criança dessa idade deveria ser, criança! Com esta nova etapa, novos caminhos profissionais para meu companheiro e eu estão se construindo, com vagarosidade e calma. Fase de adaptação, de nostalgia, de aperto no peito, lágrimas nos olhos, questionamentos, mas como disse uma amiga esses dias é para fazer a semente que está lá na terra esticar, brotar, florescer e semear novamente.


Assim, finalizo essas minhas impressões, tão sinceras com a minha verdade, na contramão de uma sociedade e seu status quo, que extraí, terceriza, medica, e pouca (ou quase nenhuma) importância dá a maternidade - reflexo do patriarcado, e da dominação em que nós mulheres sofremos, há muitos anos. Desta forma, posso dizer que para ser mãe não precisamos deixar nossa carreira profissional, e sim podemos adaptá-la, tendo em vista que essa primeira infância, tão sagrada e única, dura pouco, e lá na frente teremos saudades dela, ao ver nossos "...filhos fortes, sonho semeando o mundo real..."


* Confira outras histórias aqui!

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Quem canta seu males espanta!


Vem chegando o dia das mães, e a gente quer comemorar com gente bacana e boa música.

A ideia é fazer um vídeo coletivo, com todo mundo cantando para celebrar a beleza da maternidade e a importância do carinho materno na sua vida.


Vale tudo: cantar sozinho, cantar junto, cantar para a barriga, para a esposa, para a filha, para o espelho. Vale tocar instrumento, cantar à capela, bater panela. Se for de coração, tá valendo. É só gravar e mandar pra gente.

A música é ‘Oração’, da Banda Mais Bonita da Cidade. Você pode aprender a letra nesse vídeo aqui. Cada um canta do jeito que lhe der vontade, e a gente junta tudo num vídeo só, com a carinha de todo mundo para homenagear essa coisa linda que é o amor de mãe.

Os vídeos podem ser enviados até o dia 7, para o email contato@vilamamifera.com. Quem preferir também pode subir o vídeo no youtube e mandar o link para este mesmo email.

Vem com a gente?

domingo, 25 de novembro de 2012

Violência Obstétrica - A Voz das Brasileiras


 



Neste 25 de novembro de 2012, completamos um ano de ações coletivas nas mídias sociais, sempre com objetivo de dar mais visibilidade ao tema da violência obstétrica e de desnaturalizar as infrações aos direitos das mulheres, cometidas pelos profissionais de saúde, que muitas vezes passam desapercebidas.

São ações coletivas organizadas por usuárias, pesquisadoras e profissionais da saúde para promover o debate, sensibilizar, denunciar e ir adiante, até que se consiga que políticas públicas efetivas sejam promovidas no sentido de erradicar a violação dos direitos humanos das mulheres no parto.

Embora estejamos mobilizando centenas de pessoas e falando com cada vez mais frequência sobre o assunto, é importante que as pessoas saibam o histórico do movimento contra a violência no parto - a violência obstétrica, nome que as próprias mulheres cunharam para tais práticas.

Em agosto de 2010, a Fundação Perseu Abramo, em parceria com o SESC, realizou a pesquisa Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado, onde apresenta a evolução do pensamento e do papel das mulheres em nossa sociedade. Foram entrevistados centenas de homens e mulheres em mais de 170 municípios brasileiros.

Os resultados sobre o tema da violência contra as mulheres chamaram muito a atenção e, neste contexto, surgiu um dado alarmante sobre a violência institucional sofrida pelas brasileiras: uma em cada quatro mulheres (25%) relatou ter sofrido algum tipo de violência na hora do parto. Dentre as diversas formas possíveis de abusos e maus-tratos, tiveram destaque:
exame de toque doloroso, recusa para alívio da dor, não explicação de procedimentos adotados, gritos de profissionais ao ser atendida, negativa de atendimento, xingamentos e humilhações. Além disso, 23% das entrevistadas ouviu de algum profissional algo como: “não chora que ano que vem você está aqui de novo”; “na hora de fazer não chorou, não chamou a mamãe”; “se gritar eu paro e não vou te atender”; “se ficar gritando vai fazer mal pro neném, vai nascer surdo”.





Esses dados chocantes começaram a ganhar repercussão na mídia, com matérias em jornais de grande circulação, publicadas em fevereiro de 2011.






Em abril do mesmo ano,  a Comissão Permanente de Saúde, Promoção Social, Trabalho, Idoso e Mulher realizou um debate com o tema “Maltrato no atendimento em maternidade e no pré-natal”, na Câmara Municipal de São Paulo, reunindo cerca de 70 pessoas, entre elas o coordenador da pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo, o sociólogo e professor da USP Gustavo Venturi, a médica Anke Riedel, coordenadora da Casa Ângela, casa de parto considerada modelo no Brasil, a enfermeira e coordenadora do curso de Obstetrícia da USP Nádia Zanon Narchi, a representante do Programa Mãe Paulistana, Maria Aparecida Orsini e a bióloga Ligia Moreiras Sena, uma das autoras da ação coletiva que apresentamos hoje. 


Neste evento, o professor Gustavo Venturi apresentou os dados sobre violência no parto acima mencionados e, em entrevista para a jornalista da Câmara, afirmou: “São três os principais problemas que ocorrem e acabam gerando a violência no parto. A primeira é a questão da formação dos profissionais, em segundo vem a superlotação das instituições e, em terceiro, as mulheres não são adequadamente preparadas para o momento do parto”.

A partir de então, os coletivos femininos começaram a se mobilizar em termos de circulação de informação, denúncia da situação da assistência obstétrica brasileira, reivindicação de direitos, discussão sobre o assunto. E as mídias sociais apareceram como fator catalisador crucial para todas as ações que se seguiram.

Em 24 de novembro de 2011, no contexto de uma grande ação das Blogueiras Feministas, realizamos a primeira Blogagem Coletiva sobre o tema - “Violência Obstétrica é Violência Contra a Mulher”. Dezenas de blogueiras participaram com textos autorais livres publicados no dia 25 de novembro e, desde então, muitos relatos foram produzidos, mulheres que usaram o texto para organizar a experiência vivida - e que talvez possam ter sido beneficiadas de alguma forma com tal escrita, e beneficiado outras mulheres por meio da leitura.

Neste dia, a pesquisadora Ligia Moreiras Sena também lançou nas mídias sociais o convite à participação em sua pesquisa de doutorado, sobre a violência obstétrica na percepção das mulheres que a viveram e, por meio do Facebook, dos blogs e do Twitter, centenas de mulheres se inscreveram para serem entrevistadas. Em um esforço de divulgação, foi aproveitado o Twittaço que ocorreu utilizando a hashtag #FimDaViolenciaContraMulher para contactar pessoas que pudessem ajudar na disseminação do convite à pesquisa.







Em nossa segunda ação de ciberativismo, coordenada para o Dia Internacional da Mulher - 8 de Março de 2012, alcançamos certamente mais de duas mil mulheres, com a força de divulgação coletiva de 75 blogs.

Foi o Teste da Violência Obstétrica. Promovido pelos blogs Parto no Brasil, Cientista Que Virou Mãe e Mamíferas o instrumento foi idealizado a partir de documento original da associação civil argentina Dando a Luz, e o Coletivo Maternidade Libertária, disponível em algumas publicações na Internet, em blogs e sites, datadas de 2010.

Para a divulgação no Brasil, o documento foi revisado e adaptado à proposta desta Blogagem Coletiva. As questões abertas foram transformadas em um questionário com múltiplas escolhas, onde incluímos uma importante caracterização sociodemográfica, e contamos com a força de divulgação das mulheres conectadas em suas redes virtuais. Em apenas três dias compilamos mais de mil resultados. E seguimos com o recebimento de novas respostas durante 38 dias. Ao final do prazo, 1966 nascimentos foram avaliados.

Conseguimos atingir nosso principal objetivo, que era dar grande visibilidade a esta questão nas mídias sociais, entre as mães editoras de blogs e demais usuárias da Internet. E os resultados não poderiam deixar de ser surpreendentes. A expressiva participação no Teste da Violência Obstétrica era apenas um indicativo da força que as mulheres, juntas, têm para denunciar um grave problema de cidadania, de falta de oportunidades, de nenhum direito de escolha.






Então em 1o. de agosto de 2012, um grupo de mulheres ativistas mineiras avançam mais um pouco no contexto da luta contra a violência no parto. Em um marco histórico, conseguiram levar a cabo a Audiência Pública “Violência no Parto” na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Estiveram presentes usuárias do sistema de saúde, obstetrizes, doulas, ativistas, políticos e estudantes, em um evento que acionou entidades médicas do estado e o Ministério Público para abrir o debate.

Em outubro de 2012, uma terceira Postagem Coletiva reuniu os esforços necessários para que o vídeodocumentário "Violência Obstétrica - A Voz das Brasileiras" pudesse ser produzido. Em menos de dois meses, fizemos um roteiro para os depoimentos individuais, convidamos as mulheres a nos enviarem suas histórias de vida, com consetimento, para participação. As participantes gravaram vídeos caseiros com seus depoimentos, suas histórias de violência, intolerância, ignorância e racismo que marcaram seus corpos e suas vidas, e nos enviaram. As chamadas podem ser vistas nos blogs Cientista Que Virou Mãe e Parto no Brasil. Em poucos dias, conseguimos editar, com a ajuda do fotógrafo e videomaker Armando Rapchan, os vídeos recebidos e mais dezenas de fotografias, em um vídeo final de 52 minutos. Escolhemos por manter o caráter de produção caseira dos depoimentos.  O documentário foi então lançado no dia 17 de novembro último, como parte das comunicações científicas coordenadas do Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, ocorrido em Porto Alegre.

Assim, decorrido 1 ano após o início de nossas ações de ciberativismo, divulgamos hoje, 25 de novembro de 2012, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, o vídeodocumentario “VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA - A VOZ DAS BRASILEIRAS”. Ele representa o trabalho de dezenas de mulheres na luta contra a violência obstétrica. Com a voz de algumas delas, simbolizamos o coro de milhares de brasileiras que vivem desrespeitos aos seus direitos reprodutivos cotidianamente, em um processo tornado banal e rotineiro. Queremos ser representadas, queremos que nossas vozes sejam ouvidas e que, de alguma forma, impulsionem medidas que visem a erradicação da violenta assistência ao parto no Brasil.

Queremos agradecer, em primeiro lugar, às mulheres que muito corajosamente se dispuseram  a tocar em suas próprias feridas, em suas próprias dores, a fim de problematizar a questão e formar um coro de vozes. Queremos agradecer também às dezenas de mulheres que nos enviaram fotografias dos partos/nascimentos de seus filhos e que, por limitação de tempo, não puderam ser utilizadas. Queremos agradecer a todos que, direta ou indiretamente, nos ajudaram e incentivaram na produção desta ação.

Esse vídeo foi realizado de maneira espontânea e voluntária por:


- Bianca Zorzam, obstetriz, aluna de mestrado do Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da Universidade de São Paulo;


- Ligia Moreiras Sena, bióloga, aluna de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Santa Catarina, autora do blog Cientista Que Virou Mãe;  


- Ana Carolina Arruda Franzon, jornalista, aluna de mestrado do Programa de Pós Graduação em Saúde Pública da Universidade de São paulo e co-editora do blog Parto no Brasil;


- Kalu Brum, jornalista, doula e co-editora do blog Mamíferas.


- Armando Rapchan, fotógrafo e videomaker.

Melhorar a qualidade da atenção ao parto e nascimento é um desafio complexo, que deve contar com a colaboração multi-setorial de vários agentes: profissionais de saúde, gestores, pesquisadores e docentes, e ainda, as mulheres, por meio do controle social.

Assim, agradecemos cada pessoa envolvida nesta ação e convidamos a todas e todos para contribuírem com o enfrentamento desta forma de violência contra as mulheres, com propostas e encaminhamentos inovadores. Pelo respeito aos direitos humanos femininos. Pela redução das mortes maternas. Pela promoção da saúde das gestantes e dos bebês. Por formas inovadoras de organização dos serviços, e pela adoção massiva das boas práticas na assistência ao parto normal.

“Que nossas vozes sejam ouvidas. Que nossas histórias não sejam ignoradas...”

Muito obrigada

Bianca Zorzam
Ligia Moreiras Sena
Ana Carolina Arruda Franzon
Kalu Brum
Armando Rapchan



--


Às mulheres que transformaram suas histórias em luta


Prezadas participantes,

Estamos muito gratas por termos recebido o apoio de cada um/a de vocês nesta jornada pela melhoria da qualidade da assistência ao parto e nascimento no Brasil.

O conteúdo que vamos disseminar a partir de hoje nos coloca diante de uma realidade extrema, que resiste em muitos lugares e locais como problemas individualizados, personalizados, e invisíveis. A pior consequência da invisibilidade de toda forma de violência é o fato de que as mulheres ficam então proibidas de manifestarem suas mazelas, suas frustações, dores, traumas e revoltas.

Nós precisamos reiterar para cada pessoa que assistir a este filme que estas mulheres, todas nós, não estávamos erradas. Nunca estivemos equivocadas. O nosso único objetivo - coletivo - é colaborar para a construção de um outro modelo de assistência ao parto, mais seguro e amigável às mulheres, que valorize sua autonomia, saúde, bem-estar emocional, e integridade corporal.

Essas 24 mulheres que participaram desta produção ressonam a gravidade de uma situação que não podemos mais ignorar. Juntas, nessa rede que estamos formando há um ano, com a força da websfera materna, temos certeza de que conseguiremos estabelecer critérios rigorosos e efetivos para a avaliação da qualidade da assistência obstétrica - com valorização da experiência positiva das mulheres com o parto.

Abaixo, deixamos as instruções sobre como tirar o melhor proveito desta nova ação coletiva. Novamente, nosso muito obrigada.

Roteiro para participação da divulgação:

1. Esta é uma ação realizada via mídias sociais, e proposta por um grupo de ativistas pela humanização da assistência ao parto, usuárias, profissionais de saúde e pesquisadoras da saúde pública.

2. Junto com a divulgação do vídeo, encorajamos todas as pessoas a publicarem seus próprios comentários sobre o tema da violência obstétrica.
4. Caso você queira compartilhar o vídeo via perfil do Facebook, Orkut, ou encaminhá-lo via e-mail para listas e grupos, pode utilizar o link a seguir ou compartilhar os vídeos que já estarão postados nas fan pages dos blogs Cientista Que Virou Mãe e Parto no Brasil
5. Além da ampla divulgação nas mídias sociais, esperamos levar esta produção para discussões coletivas em grupos de apoio ao parto; salas de aula; serviços de saúde, entre outros.

6. Encorajamos todas as pessoas a nos enviarem seu comentários sobre a produção, assim como sobre o tema em geral, e informações sobre as discussões geradas a partir das exibições. Sempre que uma apresentação coletiva for realizada, pedimos a gentileza de nos informarem o grupo em que foi apresentado, a data, e quantidade aproximada de pessoas.

Novamente, nosso agradecimento a todos que se juntaram e essa causa tão relevante.
Que possamos, juntos, combater todas as formas de violência contra as mulheres.

Grande abraço

Bianca Zorzam
Ligia Moreiras Sena
Ana Carolina Franzon
Kalu Brum
Armando Rapchan

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Ação Coletiva: Divulgação do vídeo 'Violência Obstétrica - A Voz das Brasileiras'

Neste 25 de novembro de 2012, completamos um ano de ações coletivas nas mídias sociais, sempre com objetivo de dar mais visibilidade ao tema da violência obstétrica, assim como para desnaturalizar as infrações aos direitos das mulheres, cometidas pelos profissionais de saúde, que muitas vezes passam desapercebidas.

Exatamente um ano atrás, junto com Kalu Brum e Nanda Café, do Blog Mamíferas, realizamos a primeira chamada para uma Blogagem Coletiva sobre o tema, no contexto de uma ação ainda maior das Blogueiras Feministas. Nesta ação, tivemos a participação de 11 blogueiras, com destaque para a chegada da companheira de pesquisa/ativismo/blogosfera Ligia Moreiras Sena, do Cientista Que Virou Mãe, com sua oportuna e necessária pesquisa de doutorado em Saúde Coletiva, na UFSC.





Abrimos uma caixa de pandora. Para nunca mais sermos ignoradas. Há um ano, muitas brasileiras, centenas, puderam manifestar-se publica e LIVREmente contra um modelo obstétrico doente e adoecedor - em blogs, sites, veículos de comunicação, reuniões e outras redes.

Na segunda ação sobre o tema, alcançamos certamente mais de duas mil mulheres, e conseguimos 1966 respostas à pesquisa então proposta. A expressiva participação no Teste da Violência Obstétrica era apenas um indicativo da força que as mulheres, juntas, têm para denunciar um grave problema de cidadania, de falta de oportunidades, de nenhum direito de escolha.






A terceira ação realizada, pela primeira vez nomeada uma postagem coletiva, reuniu os esforços necessários para que o vídeodocumentário "Violência Obstétrica - A Voz das Brasileiras" pudesse ser produzido. Com gravações caseiras de depoimentos reais de mulheres com nome, sobrenome, e muitas histórias de violência, intolerância, ignorância e racismo, marcando seus corpos e suas vidas.

Instruções para a Postagem Coletiva - Violência no Parto: A Voz das Brasileiras


Postagem Coletiva - Violência no Parto: A Voz das Brasileiras
17 de outubro de 2012


Toda a história desta produção, e a saga de seu lançamento no X Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, estão muito bem descritos por Ligia, no Blog Cientista Que Virou Mãe.
Aqui, é preciso reiterar a empatia que sentimos em todos os momentos com estas mulheres que aparecem no vídeo. E todas as outras que sabemos que estão, neste momento, dentro de uma maternidade, em extrema situação de vulnerabilidade. Vocês são nossa força hoje, o sopro da coragem, sutil e certeiro.

Minha gratidão pela oportunidade de ter vivido as últimas semanas desta forma como foram: ouvindo mulheres pela internet, de todo o Brasil, muitas e diferentes mulheres que participaram com seus depoimentos de vida; e conversando com outras mulheres, especialmente as companheiras deste Abrascão 2012, com quem pessoalmente participei das etapas de pós-produção e lançamento. Obrigada!

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Acesse aqui o formulário de inscrições


Postagem coletiva Divulgação do vídeo 

'Violência Obstétrica - A Voz das Brasileiras'



Se você quiser ajudar a divulgar o documentário "Violência Obstétrica - A Voz das Brasileiras", preencha o formulário no Google Drive - acesse aqui

Você receberá as instruções sobre como incorporá-lo ao seu espaço de divulgação no dia 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher, ou mesmo após esta data.

Também sugerimos que profissionais de saúde, gestores, professores, pesquisadores e lideranças de movimentos sociais promovam a divulgação do filme em suas redes, organizem apresentações coletivas e compartilhem o link para o vídeo e/ou este formulário.

Muito obrigada por se juntar a nós nesse movimento contra a violência obstétrica.

Ana Carolina Franzon
Bianca Zorzam
Ligia Moreiras Sena
Kalu Brum

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Este post foi atualizado às 21h40.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Postagem Coletiva - Violência no Parto: A Voz das Brasileiras

No mundo todo, as mulheres estão usando as redes sociais para dar visibilidade ao que chamam de ‘violência obstétrica’.

Neste post, convidamos você a colaborar com a construção deste processo histórico, com a documentação da voz das mulheres, sobre os momentos que foram os mais tristes e difíceis da sua jornada reprodutiva.

Pelo direito de viver uma vida livre de violências.
Pelo direito à saúde e à boa informação.



Por que violência obstétrica?

Por definição, a violência obstétrica é considerada toda forma de desrespeito, maus-tratos, abuso e negligência, praticada pelos profissionais das maternidades contra as mulheres que estão ali em busca de serviço de saúde especializado – para a gravidez, o parto, o pós-parto, e o aborto.

Também pode incluir condutas, procedimentos e protocolos clínicos que não atendam as melhores práticas na atenção ao parto e nascimento, condutas e protocolos reconhecidos como fortes evidências científicas pela comunidade internacional para a segurança das pacientes e qualidade da assistência.

A falta de informação e esclarecimentos sobre todos os processos do parto e nascimento prejudica a comunicação entre os profissionais e pacientes. As mulheres precisam ser estimuladas a falar sobre suas dúvidas, medos, desejos e necessidades. E precisam ser ouvidas.

A Lei do Acompanhante no Parto é de 2005, e vale para todo o país, para todas as maternidades do SUS ou da Saúde Suplementar. A lei vale para todas! Todas as mulheres têm direito a ter um acompanhante de sua livre escolha desde o início até o final da sua internação na maternidade. Toda exceção é violação de direitos. Denuncie.



Segurança das pacientes e qualidade da assistência

Este cenário (de violência) é o oposto ao desejado pelo projeto da Humanização da Assistência ao Parto. Uma política pública que tem a proposta de superar o grande desafio da redução das mortes maternas; da organização de todos os serviços que compõem a rede de atenção ao pré-natal, parto e puerpério (nas UBS, centros de parto normal  e maternidades hospitalares); e da valorização do parto e nascimento como processos fisiológicos, que podem ser transformados em uma experiência positiva e satisfatória para as mulheres.

Em última instância, é uma defesa da cidadania e dos direitos humanos!



O convite para a ação

Nos últimos meses, uma série de ações sociais foram organizadas, via Internet, por mulheres que se dedicam à construção de um outro modelo de assistência ao parto, mais amigável às mulheres, e que inclui necessariamente a articulação de uma equipe de profissionais tais como enfermeiras, doulas, obstetrizes, parteiras, e médicos.

Como resultado, temos duas Blogagens Coletivas que foram realizadas coletivamente por mais de 100 blogs ao total. Confira as informações:







Nesse tempo, as mulheres também saíram às ruas, na Marcha do Parto em Casa e na Marcha pela Humanização do Parto. A perspectiva das usuárias, favorecida pela Internet, é o item de maior valor que nós podemos oferecer à saúde pública brasileira.

Esta terceira postagem coletiva tem objetivo de proporcionar mais uma troca de experiências entre as mulheres, de resgate do apoio mútuo, e de valorização de uma metodologia que é específica de uma organização política, pessoal, comprometida, com os direitos humanos das brasileiras, e sua saúde sexual e reprodutiva, na perspectiva da integralidade, diversidade e individualidade, com aplicação de saberes multidisciplinares complementares.


Participe, divulgue a imagem abaixo, junto com um texto livre de sua autoria.
Grave seu video, e envie até 28 de outubro!

Instruções para a Postagem Coletiva - Violência no Parto: A Voz das Brasileiras

Como resultado, esperamos produzir um videodocumentário sobre a perspectiva das brasileiras que se sentiram desrespeitadas, para ser lançado oficialmente durante o 10o Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, que ocorrerá entre os dias 14 e 18 de novembro de 2012, em Porto Alegre-RS.

Uma iniciativa dos blogs Parto no Brasil, Cientista que Virou Mãe e Mamíferas, junto com o grupo de pesquisa do Gênero, Maternidade e Saúde (GEMAS/FSP/USP).

Nosso muitíssimo obrigada!
Ana Carolina Franzon
Bianza Zorzam
Kalu Brum
Ligia Moreiras Sena




terça-feira, 14 de agosto de 2012

Natureza da Violência

por Kalu Brum

Escolheu fazer medicina porque gostava de ajudar pessoas. Desde de pequenina ela socorria os coleguinhas que se machucavam, os animais enfermos. A medicina era uma vocação para fazer deste lugar um mundo melhor, dizia ela.
Estudou muito: anos de cursinho, abrindo mão das baladas e até mesmo do grande amor que surgiu no caminho. Era preciso estudar, madrugadas a fio, sacrificando qualquer coisa que a desviasse do caminho. Passou em uma das melhores faculdades do país. Orgulho na família, status no cursinho e na escola que frequentava. Foi garota propaganda de ambos e dava palestras motivacionais: como entrar em medicina.
Na faculdade aprendia mais sobre doenças, exames, diagnósticos, cirurgias do que sobre ouvir, acolher, entender os processos que levavam às doenças. Dava-se mais importância para vírus, bactérias do que para o seu hospedeiro: o ser humano.
Congressos patrocinados por laboratórios a mostrarem as grandes novidades das terras da alopatia. Seduzir para ser receitado. Ser receitado para gerar receita.
Ela decidiu pela obstetrícia. Nos hospitais escola, havia uma fila de alunos para fazer exames de toque nas pacientes em trabalho de parto. Um professor falava no corredor: vamos fazer um forceps, no leito 43, para os alunos aprenderem? E lá os alunos esqueciam do ser humano em nome da ciência.
Saiu do interior do país para a capital. Conheceu Wellington, que com seus olhos de jabuticaba, a seduziu naquela noite de forró. Ela esperou por meses a menstruação chegar. Pensava que a fome, excesso de trabalho tivesse resultado em um problema ginecológico. A barriga começou a crescer, mas ela achava que a falta de grana e muito pão que comia, que era o que dava para comprar, que tinha levado aos quilos a mais.
Em uma faxina pesada, desmaiou e foi levada ao SUS. Descobriu ali que estava grávida de mais de seis meses.
Quando as dores do nascimento começaram ela foi para o hospital. Pediu para que sua amiga fosse junto, afinal, ela nunca mais encontrou o rapaz de olhos de Jabuticaba. Ela não pode entrar.
Deixou todos os seus pertences na entrada: brincos, óculos, roupa. Lembrou-se de sua rápida passagem pela polícia.
Entregou seu ralo cartão de pré-natal. A enfermeira nem olhou na sua cara. Colocou um soro e mandou que ela ficasse deitada. Era praticamente impossível diante da dor das contrações.
O professor chamou a residente: vai lá e faça um exame de toque naquela ali. Ela fez o que aprendeu: nem olhou na cara daquela mulher assustada, com dor, que dizia: doutora, me dá sua mão.
A princípio pensou em acolher, mas voltou para o pedestal e distanciamento necessário. Foi introduzindo a mão. Estava com 8 centímetros. Avisou.
Vamos passar um forcéps nessa daí para você ver como funciona. Então será o pacote completo: episiotomia, fórceps e kristeller.
A faxineira gritava de dor. A residente pode ouvir a enfermeira chefe dizer: na hora de fazer você não gritou, né? Então fique quietinha senão vamos deixar você aí. Ela se calou, engoliu a dor.
Em nome da ciência um fórceps, uma episiotomia, um Kristeller. Ela nunca se sentiu tão humilhada com aquele tanto de estudantes em frente a sua vagina aberta. E assim, chegou ao mundo, um menino pequeno, sem pai, filho de uma mãe assustada. Foi levado, aspirado. Ela mal pode vê-lo. Ficou sozinha na sala de espera, sentindo muito frio. Sozinha no quarto, com muitas outras mães. No meio da madrugada veio a saber que ele não havia sobrevivido.
Ela não pode ver o corpo e só o viu no dia do velório. Enterrou seu primeiro filho e decretou: nunca mais quero parir! Sofrer assim ninguém merece. Quando contava sobre a violência que tinha sofrido, todas diziam: é assim mesmo.
A residente virou obstetra. Aprendeu a fazer cesáreas como ninguém e depois daquele campo de concentração que foi sua residência teve a certeza: cesáreas agendadas é o melhor caminho para o médico. Talvez para mãe e bebê, mesmo que a evidência científica provasse o contrário.



A história acima relata uma cena de violência fictícia que acontece diariamente nos hospitais do país. Mulheres são objetos de aprendizado para residentes. E assim, coisificadas, esses profissionais deixam de entender que ali, em trabalho de parto, existe uma mulher no momento mais importante de sua vida.
A violência, tida como tão normal, acontece sem estranhamento. E talvez nasça desta forma de aprendizado.
Precisamos abrir a nossa boca e denunciar a violência obstétrica. A Lígia Moreira Senna, do Blog Cientista que Virou Mãe, com apoio do Mamíferas e Parto no Brasil fez um teste revelando as facetas da violência obstétrica. Ela também tem 400 mulheres inscritas para realizar uma pesquisa sobre o tema.
Mais uma vez o  Mamíferas, Cientista que virou Mãe e Parto no Brasil se unem para lançar uma blogagem coletiva em vídeo. A idéia é que possamos fazer um vídeo com depoimentos de mulheres do Brasil sobre a violência que sofreram durante o parto.
Envie um vídeo de até 2 minutos relatando a violência que sofreu  para naoaviolencianoparto@gmail.com Nas próximas semanas vamos reunir os depoimentos e fazer um vídeo coletivo para mostrarmos a violência que acontece nas instituições durante o momento do parto.
Junto com o vídeo, envie seu nome completo, estado, nome da instituição onde a violência aconteceu e data do parto.
Sair do silêncio pode evitar que outras mulheres sofram novas formas de violência de gênero. Você pode também escrever seu depoimento no site http://violencianoparto.wordpress.com/depoimentos. Participe.

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