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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Blogagem Coletiva - Maternidade e violência obstétrica: pautas feministas

As questões da maternidade não agregam ao feminismo

Recentemente, um grupo de mulheres fundou a Artemis, organização não governamental que tem como um dos seus objetivos a erradicação da violência obstétrica no Brasil. A Artemis tem promovido atuação efetiva, com presença decisiva no Fórum Mundial de Direitos Humanos e junto à Defensoria Pública do Estado de São Paulo.

Também recentemente, as ativistas deste grupo foram duramente atacadas, não virtualmente mas presencialmente, no cara a cara, por pessoas que afirmavam não ser a maternidade uma causa feminista.

Isso aconteceu no início do mês de dezembro, dias 06 e 07, por ocasião do IV Ciclo de Conferências da Defensoria Pública do Estado de São Paulo. A participação da Artemis em tais conferências se deu no âmbito do Grupo de Trabalho dos Direitos da Mulher, tendo sido representada por 9 delegadas e com o objetivo de pautar o tema “violência obstétrica” como uma das metas da Defensoria Pública de São Paulo para os próximos dois anos.

A Conferência é um espaço da sociedade civil, onde todas as 90 propostas apresentadas devem ser de extrema importância para a sociedade em geral e para o Estado de São Paulo.

Ali estavam propostas importantíssimas para a questão da mulher: funcionamento das delegacias da mulher 24hs/dia, inclusive finais de semana; acolhimento de mães puérperas em situação de rua; criação de casas de passagem e abrigo especializado para mulher em situação de violência; criação de Juizados Especializados em Violência Doméstica; proteção à identidade de gênero; campanhas pela legalização do aborto; atuação na questão da violência obstétrica, entre outros de igual importância. É facilmente perceptível a grande relevância de todas as propostas, as quais, certamente, estão dentro do escopo dos movimentos feministas.

E a inserção da violência obstétrica como mais um tema a ser trabalhado e a ser combatido na sociedade é prioritário num contexto do Poder Judiciário onde pouco ou quase nada tem sido feito sobre o assunto.

Após a defesa de nossa proposta, duas delegadas de movimentos feministas da capital paulista se manifestaram contrariamente à inserção da violência obstétrica como violência contra a mulher: uma sugerindo que a questão da maternidade não agrega o feminismo, já que a maternidade, segundo ela, seria “uma forma de controle do patriarcado sobre o corpo da mulher”, e outra sugerindo que as delegadas deveriam votar em questões sérias e não em “questões que ainda estão no imaginário e não acontecem de fato”.

Tais manifestações de negação da violência obstétrica como causa feminista nos causaram brutal perplexidade. Não apenas pelo caráter discriminatório para com milhares de brasileiras que estão sendo violentadas durante o nascimento de seus filhos, como também pelo desconhecimento e desatualização de ambas as delegadas a respeito do tema. Não é possível ignorar dados sérios de pesquisas brasileiras realizados nos últimos três anos e amplamente divulgados nos cenários científico e midiático brasileiros, os quais já mostraram a toda sociedade civil a gravidade da questão. Muito menos desmerecer a violência sofrida por uma a cada quatro mulheres que dão à luz no Brasil, atribuindo a essa violência caráter de “invenção”, de “imaginário”, ignorando mulheres e suas dores.

A despeito de tais manifestações, continuamos nossa atuação enquanto grupo feminista organizado e conseguimos levar a proposta à plenária final. O resultado: a proposta de inserção da violência obstétrica como pauta relevante obteve a segunda maior votação da Conferência, recebendo 43 votos (a primeira recebeu 44, pertencendo à temática do idoso e pessoa com deficiência). É importante mencionar que, nesta conferência, cada delegado tem direito a 9 votos, que podem ser dados à mesma proposta. Nossa proposta somente foi aprovada porque nós, delegadas ativistas, nos articulamos e destinamos grande parte de nossos votos a uma única proposta e, considerando que tivemos apenas 12 votos entre 116 delegados, achamos pouco – e triste. Triste porque o GT do Direito da Mulher possuía cerca de 25 delegadas e nem metade delas entendeu a gravidade do que representa a violência obstétrica enquanto violação do direito à dignidade humana e que precisa urgentemente ser discutida, combatida e, principalmente, erradicada. Triste porque a violência obstétrica que afeta tantas mulheres em nosso país diz respeito ao corpo e ao direito da mulher no momento do parto e, paradoxalmente, justamente por isso não mereceu a atenção dos movimentos feministas. Embora satisfeitas pelo que consideramos ser uma vitória – a inclusão da violência obstétrica como pauta a ser discutida – é profundamente lamentável constatar o alto grau de misoginia presente entre as próprias mulheres, ao se recusarem a tratar a questão da violência obstétrica como violência à mulher. E, por ser violência contra a mulher, é obviamente uma causa feminista.

Feminismo, maternidade e empoderamento

Não sabemos se nesse contexto ou fora dele, alguns dias depois foi publicado no coletivo Blogueiras Feministas o texto “O ativismo materno para além do parto”.

Concordamos com alguns trechos do referido texto. Realmente nos incomoda muito ver/ler/ouvir alguns discursos que se baseiam em julgamentos da mulher que não pariu, ou porque não quis, ou porque não conseguiu, ou porque… sabe-se lá porque… Nós somos do  movimento pela humanização do parto e contra a violência obstétrica e, ainda assim, fazemos essa crítica, apenas porque soa a nós como grande discrepância e incongruência defendermos o direito da mulher de não ser violentada no parto e, ao mesmo tempo, violentarmos outras mulheres com nossos discursos pré-moldados e, por vezes, sem sentido.
Porém, ao começarmos a leitura de tal texto, sentimos algo como o que sentimos quando ouvimos alguém dizer: “Não sou racista, mas….” ou “Não sou machista, mas…”, ou “Acho que mulheres têm direitos, mas…”. À semelhança desse cartoon aqui:

Extraído daqui!

Ou seja: ao ler o texto, o qual começa reafirmando a importância do apoio à humanização do parto e ao movimento pela dignidade de parir, já sabíamos que viria um “mas”… E o “mas” que veio em seguida mostrou-se muito parecido com os “mas” mencionados anteriormente e o tom do texto se assemelhou em muito ao ataque sofrido pelas ativistas da Artemis em função do suposto não pertencimento da maternidade à pauta feminista.

O texto “O ativismo materno para além do parto” foi explicitamente direcionado a um blog, cujo nome – “Mulheres Empoderadas” – faz menção ao que viveu a própria autora do blog, que viveu cesáreas indesejadas antes de lutar e conseguir dois partos naturais, porque era esse seu desejo. Claro que sabemos disso porque a conhecemos e as autoras do texto não têm obrigação de saber. Entendemos isso. Mas, do mesmo modo que ninguém tem obrigação de saber disso, também não é possível traçar uma crítica ao que se “pensa” ser, porque isso seria apenas uma de muitas interpretações possíveis da razão do nome.

Arriscamos dizer que 90% das mulheres que curtem e “fazem” a página “Mulheres Empoderadas” não se intitulam empoderadas porque defendem e vivem a autonomia da mulher para parir de cócoras, na piscina, sem intervenções ou porque amamentam seus filhos no peito por tantos anos. Não. Intitulam-se assim porque venceram muitas lutas pessoais – e coletivas – para conseguirem fazer isso, lembrando que tudo isso aí representa grandessíssimas exceções no Brasil. Estamos falando de uma minoria. E por que é que o direito de escolha de uma minoria está sendo atacado tantas vezes?

Essas mulheres travaram grandes lutas para conseguirem parir do jeito que queriam e amamentar. Muitas delas foram demitidas por incompatibilidade entre a bombinha de extrair leite e o cartão-ponto. Não são empoderadas porque paririam assim ou assado ou deram o peito, mas por terem enfrentado um sistema nojento, machista e patriarcal para fazer isso. E, muitas vezes, enfrentaram e desafiaram a si próprias, gente que nunca pensou que fosse capaz de dar conta desse tipo de enfrentamento.

O texto tem razão quando diz que mulher empoderada vai muito, mas muito além de parir. E é exatamente isso que queremos dizer aqui: essas mulheres não podem ser resumidas a um corpo que pariu, mas a mulheres que, sim, venceram um sistema esmagador, cruel, violento, humilhante, degradante, onde chegamos invariavelmente como “mãezinhas”, “mamãezinhas”, que não podem gemer ou não gemeram quando fizeram o filho e – SÓ ENTÃO – pariram. Pariram OU NÃO. Porque grande parte, ainda assim, não consegue, porque o que acontece dentro de uma sala de parto é muitas vezes cruel, opressor, indignante e ultrajante.

São mulheres recebendo tapas nas pernas de profissionais da saúde. São mulheres proibidas de gemer ou gritar para expressar sua dor porque “pra fazer não gritou nem chamou a mamãe, vai gritar agora?!”. São mulheres amarradas de pernas abertas em estribos frouxos, que caem a todo momento, para receberem exames vaginais de cinco, seis, oito alunos que as tratam como um  número. São mulheres dopadas porque “estão dando trabalho”. São mães que veem seus bebês morrerem logo após o nascimento por má assistência. Estamos falando sobre essas mulheres.

E se, à semelhança dos exemplos citados no texto mencionado, houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por mulheres que escolheram não ser mães? E se houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por mulheres que escolheram abortar? E se houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por mulheres que nasceram com pênis? E se houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por quem nasceu com ovários e vagina mas não se reconhece como mulher? E se houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por mães de plantas, mães de gatos, mães de projetos? Faria mais sentido? Seriam empoderamentos mais bem vistos no contexto do “feminismo”? Essa crítica ao uso do “empoderadas” ainda seria feita? Sejamos sinceras: não seria! E não seria porque todas essas “subáreas do empoderamento”, digamos assim, todos esses feminismos, são respeitados e reconhecidos. Mas a maternidade não! A maternidade e o direito das mulheres que se tornam mães não são reconhecidos! A maternidade é um assunto que caiu num limbo que um feminismo específico dos muitos que existem não anda muito a fim de abraçar não… E tem sido assim mesmo considerando que mulheres que se tornam mães tornam-se, também, alvos preferenciais para inúmeras iniquidades e violências de gênero. Como ser demitida sem justa causa. Como ser preterida em concursos públicos. Como ser ridicularizada ou tida como “mulherzinha”, “fraquinha”, “mãezinha”. Como ser vista para sempre como subserviente ao ser que colocou no mundo.

Condições gerais da maternidade no Brasil

Mulheres mães brasileiras vivem em péssimas condições. Pelos rankings internacionais, feitos por diferentes instituições de pesquisa, como a Save the Children, o Brasil tem péssimo desempenho no que se trata do bem estar materno. Enquanto Cuba aparece com a melhor posição da América Latina, em 33o. lugar, nosso país permanece na 78a. posição, atrás da Ucrânia (país mais pobre da Europa) e da África do Sul. Mas o que os rankings não mostram é que os melhores desempenhos, medidos por variáveis como saúde gestacional, mortalidade materna e infantil, renda, emprego, educação, dentre outras, foram construídos ao longo do tempo, principalmente por políticas públicas focadas no bem estar das mães, pais e crianças. A Suécia, por exemplo, que figura há muito tempo entre a primeira e a segunda posição em diferentes rankings como esse, construiu políticas sociais focadas nas famílias, sob influência de um feminismo forte e preocupado com as condições de vida das mães – casadas ou não. Uma das medidas mais antigas e importantes nesse país foi o financiamento de creches acessíveis e de qualidade para as crianças de famílias monoparentais. Sabendo que em 90% dessas famílias quem se responsabilizava pelo sustento e cuidado das crianças eram as mulheres, os movimentos feministas do início do século XX já cobravam medidas especiais para acolhê-las. Com o tempo e o aumento da consciência da desigualdade de gênero nas famílias e no mercado de trabalho, e com a preocupação crescente com os direitos das crianças, a Suécia desenvolveu um sistema de pré-natal totalmente baseado na prática das enfermeiras obstetras, doulas e casas de parto, concomitante a uma política de licença parental remunerada de até 13 meses, a ser desfrutada por homens e mulheres, e que, assim, contribui para uma das melhores taxas de amamentação da Europa. Mas, claro, é importante lembrar que nesse país as mulheres passaram a ter direito ao voto e representatividade política muito antes do que no Brasil.

Nossa situação, então, pode ser explicada pela dificuldade que as mães e as mulheres de maneira geral têm encontrado para entrar na arena política e colocar suas demandas por serviços de saúde e de acolhimento de bebês conectados com as recomendações internacionais acerca do bem estar materno. Em nosso país, parece ainda pairar uma ideia majoritária de que maternidade e paternidade são assuntos da vida privada, que nada tem a ver com movimentos sociais e políticas públicas. Isso é um imenso engano! Desde a redemocratização e a gradual emancipação das mulheres no mercado de trabalho, o tema dos direitos familiares tem crescido. O Estado tem reconhecido o papel fundamental das famílias e das comunidades locais para a saúde (vide Programa Saúde da Família, base do SUS) e para o desenvolvimento humano (vide Programa Bolsa Família, empoderando mulheres nos confins do Brasil principalmente porque são mães!). Ainda é pouco. Muito pouco! Ainda temos um déficit enorme de creches e escolas infantis, onde faltam cerca de dez milhões de vagas. Ainda temos um sistema de saúde suplementar totalmente desconexo das diretrizes mais importantes da saúde materno-infantil levadas a cabo com muita dificuldade pelo SUS.

Ainda temos um congresso que não acredita na necessidade de uma licença parental (que inclua os homens – hoje os pais só têm direito a cinco dias corridos de licença).

Esse abismo de políticas para as famílias acaba reforçando também a reprodução da desigualdade econômica e racial entre as mulheres. Sem garantia de vagas em boas creches, e sem licenças parentais razoáveis, a mão de obra de outras mães, pobres e geralmente negras e/ou migrantes, é explorada pelas famílias de classe média. Essas trabalhadoras, na maior parte dos casos, ainda não têm seus direitos trabalhistas respeitados e não encontram apoio público para o cuidado com suas próprias crianças.

Concordamos com as autoras: o empoderamento feminino não pode ser deslocado da luta feminista. Inclusive o empoderamento materno. Por que, então, ele é “café com leite”? Que tipo de julgamento estamos fazendo sobre as mães que se “empoderam” para viver a maternidade à sua maneira?

Também concordamos com as autoras: não é possível falar em empoderamento feminino e ser contra a descriminalização do aborto. Essa é uma das maiores expressões de incoerência de quem defende o direito da mulher de escolher parir mas não defende a escolha de não ser mãe mesmo que tenha um óvulo fecundado. Não é possível falar em empoderamento feminino e achar que outra mulher não tem direito de dispor sobre o corpo dela. Não é possível falar em empoderamento feminino e ofender moralmente a mulher que está vestida sensualmente. Assim como não é possível falar em empoderamento feminino e desmerecer o empoderamento que culminou na fuga do sistema para parir dignamente, sem ser chamada de “gorda escandalosa” ou “égua parindo”.

As mulheres que têm feito jus ao seu direito de escolha e escolhido cesarianas têm tido seu direito respeitado. Quem não tem tido é justamente quem quer parir de cócoras, para usar apenas um exemplo. E quem é que vai defender essa aí? Ou, pior: quem é que vai defender aquela que, mesmo querendo isso, está tomando tapa e sendo xingada dentro de instituições de saúde, com o suposto aval da sociedade, que se nega a acolhê-las pelo não reconhecimento da violência sofrida?

Discordamos das autoras em mais um ponto. Nem sempre parir traz poder, biológico ou político. Nem sempre traz satisfação e beleza. Nem sempre traz o poder de contestar a medicalização. Na verdade, quase nunca isso acontece no Brasil. E isso porque a grande maioria das mulheres está parindo em meio a xingamentos, barriga esmagada por um braço ou uma mutilação vaginal. Então, o “parir poderoso”, novamente tem sido para uma minoria. Então vamos atacar a minoria? E a defesa dos direitos das minorias, era só um discurso nosso?

Ao contrário do que parecem achar outras pessoas, não temos visto um culto exacerbado ao lugar da “mulher mãe” como sinônimo daquela que larga tudo para cuidar dos filhos em tempo integral. O que temos visto, isso sim, são centenas ou milhares de mulheres em luta constante para satisfazer simultaneamente seu próprio desejo de cuidar de suas crias de perto e o desejo de seu patrão de produzir ou o desejo do marido de pagar contas, ou o próprio desejo de ter uma vida profissional ativa. O que há é uma pluralidade de vozes e, entre tais vozes, há as das que querem cuidar dos filhos em período integral – embora esteja muito longe de ser majoritário. A grande maioria das mães contrata uma creche cara e vai ralar e são poucas as que continuam a tirar leite do peito para amamentar… Ou vamos cair no erro de achar que os poucos gritos de “VAMOS VOLTAR PARA CASA!” que ouvimos nas redes sociais representam a maioria das brasileiras? O mundo é mesmo machista pra cacete, como as autoras mencionaram, e ninguém está podendo fazer isso no Brasil sem arcar com uma longa lista de julgamentos e preconceitos, mesmo quem se sente “empoderada”. As mães que têm conseguido representam mesmo uma minoria. O que algumas feministas têm chamado de privilégio representa também uma conquista árdua, a partir da tomada de consciência e desejo de mudança sobre as condições gerais de maternagem em nosso país. De novo, atacaremos uma minoria porque a consideramos “privilegiada”?

Reconhecer não significa estereotipar

Uma das críticas de alguns grupos à inclusão da maternidade como questão feminista é o fato de que isso reforçaria o estereótipo de que as mulheres são as únicas responsáveis pelos cuidados com as crianças.

Não querer reforçar a ideia comum de que os cuidados com a criança é algo natural na mulher é diferente de negar que não apenas a maternidade mas todas as funções de cuidados são executadas majoritariamente por mulheres. Ao afastar isso das frentes de debates feministas perdemos a oportunidade de não apenas desnaturalizar tais associações, mas também de exigir políticas públicas que liberem a mulher de tal condição. Como falar em cuidados compartilhados entre os pais se a licença paternidade é de apenas cinco dias, enquanto a licença maternidade é de quatro a seis meses? A não criação de vínculo parental pelo pai da mesma forma como acontece com a mãe, pela ausência de tempo dedicado, também traz nefastas consequências, como o acúmulo de tarefas pela mãe que também trabalha fora de casa. E esse é apenas um exemplo sobre como agregar questões de maternidade ao debate feminista, a fim de pleitear direitos como aumento da licença paternidade, resulta em melhoria de condições para as mulheres, em especial maior possibilidade de escolhas em suas vidas.

É importante lembrar, também, que muitas mulheres que estão em defesa de crianças cuidadas presencialmente estão é colocando o homem na jogada. Queremos crianças cuidadas não pela babá ou pelo professor em tempo integral? Então que venham os homens pra dentro de casa também! E, sim, estamos vendo isso acontecer, claro que em pequeníssimo grau, mas estamos vendo! Tem homem voltando pra casa para que a mulher, que ganha mais e está bem realizada em sua carreira, continue fora, sem que as crianças percam na qualidade do cuidado recebido. É maioria? Claro que não é. E de novo vamos atacar uma minoria?

O parto humanizado no Brasil, atualmente, está mesmo limitado a um recorte de mulheres da classe média. Fato. O que significa que todas as demais, financeiramente abaixo ou acima, estão atualmente fora dele – com exceções como as que têm acesso ao Sofia Feldman (MG – SUS) ou ao Elpídio de Almeida (PB – SUS), ou a parteiras tradicionais nos confins do Brasil e outras poucas. E, por conta disso, as mulheres da classe média que estão parindo dignamente são muitas vezes ridicularizadas ou chamadas de alienadas, umbiguistas, egotripistas, etc etc. E são essas mesmas mulheres da classe média que estão organizadas para lutar pelos direitos de todas por um parto sem violência ou mutilação. É uma das poucas vezes que o Brasil vê uma mobilização da classe média espirrando na assistência básica à saúde, no SUS, na legislação. Então, sim, é um privilégio da classe média, no momento, poder parir sem ser amarrada ou xingada ou sem tomar tapa. Mas essa classe média não está em berço esplêndido vangloriando-se de seu parto orgásmico – algumas nem sequer conseguiram parir como queriam e continuaram a engordar as estatísticas que caem muito bem nos bolsos do corporativismo médico. Essas mulheres estão organizadas e estão se organizando – vide a ONG mencionada no início do texto e outros tantos exemplos.

Quanto de empoderamento feminino é preciso para sair do lugar de mãezinha e reivindicar direitos coletivos de saúde às mulheres, ainda que estejamos extrapolando a classe média brasileira tão viciada na inação? Muito. E o fato de serem mulheres mães empoderadas não desmerece nenhuma outra luta de empoderamento feminista.

O ponto é: mulher mãe não pode se intitular empoderada?

A que aborta pode, a que não quer ser mulher pode, a que é mulher embora não tenha nascido biologicamente uma pode. Mas as mães não. As mães vão ali praquele cantinho e tratem de ficar quietinhas.
Quer dizer: na categoria “mães” vamos aglomerar toda a história de opressão vivida pelas mulheres e vamos mantê-la ali porque, afinal, as mães merecem, já que concordaram em abdicar de sua “real” condição de autonomia quando se tornaram mães – esse parece ser o pensamento de um grupo que não reconhece a maternidade como pauta feminista. E, paradoxalmente, o que temos visto é justamente um movimento de luta contra uma forma cruel (e invisível e velada, até negada, veja só! e, a despeito disso, altamente prevalente) de violência – a obstétrica, que mata e mutila – cujas bandeiras estão nas mãos de… mães!
Qual é, companheiras? Não temos direitos mas podemos lutar?

Sim, o feminismo é muito mais, MAS MUITO MAIS MESMO. É autonomia para além de ser mãe.
Mas TAMBÉM para ser uma.

Nós escrevemos esse texto com o único e exclusivo objetivo de convidar outras feministas a olharem para a questão da maternidade e da violência obstétrica com olhos de luta, de empatia e de indignação, para que consigam enxergar em ambas as questões os mesmos séculos de opressão, preconceito, discriminação e violência que pairam sobre todas as mulheres. Não fazer isso é violentá-las, é violentar-nos.

Estamos ao lado de todas as demais lutas feministas. E esperamos que, em 2014, tenhamos mais lutadoras feministas ao nosso lado, ao invés de sermos atacadas apenas por sermos mulheres que criam crianças – crianças por um futuro onde haja verdadeira equidade..


Ana Lucia Keunecke - Causa Justa / Portal Vila Mamífera
Carolina Pombo - Mãe e tempo
Ligia Moreiras Sena - Cientista que virou mãe
Raquel Marques

* Lola, do Escreva Lola Escreva tb postou o texto, no Guest Post - aqui, além das respectivas autoras, em 30 de dezembro de 2013.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Maternidade, feminismo e estudos além mar, com Carol Pombo

É com grande satisfação que publicamos um relato consciente, crítico, e atual sobre o que nós mulheres passamos ao nos depararmos com uma gravidez não planejada, frente a falta de apoio que nossa sociedade reflete em nossa maternagem, incentivando um parto sem acompanhante, um não aleitamento materno exclusivo, e por seis meses, a tercerização de nossos filh@s e todas as outras ambiguidades culturais. 

Quem vem para a prosa é Carolina Pombo, que está em solos franceses, em seu doutorado, com cria e companheiro a tira colo, como um dia sonhou - antes de ser mãe!

Minha maternidade transitória

A maternidade chegou na minha vida de forma inesperada. Eu não tinha o sonho de engravidar, eu não era casada nem tinha uma relação amorosa estável, eu estava no meio do mestrado acadêmico e acabara de voltar a namorar com meu companheiro, meu atual marido. Eu sonhava em fazer o doutorado no exterior e ter dias mais livres, com o pé na estrada.

Quando soubemos da gravidez, foi um choque. A resposta positiva foi lida na companhia do meu namorado, duas amigas e minha irmã mais nova. Comemorações e lamentos ao mesmo tempo rodearam a minha cabeça, que girava em direções completamente opostas. Eu não queria mudar totalmente o curso da minha vida. Eu não queria parar de trabalhar, abandonar o sonho do doutorado no exterior, e nem queria casar, mesmo amando muito o pai da minha filha. Eu não queria ser outra pessoa – e a maternidade, diziam, faz com que o mundo a enxergue prioritariamente como “mãe”. Eu não queria ser limitada a essa identidade.

A primeira questão que eu encarei quando me vi grávida foi, então, a do aborto. Faria um aborto e continuaria meu percurso profissional e pessoal sem grandes mudanças?

A conversa com meu companheiro, na ocasião, foi fundamental para que eu tomasse uma decisão. Para ele, a gravidez não me impediria de fazer nada do que eu vinha sonhando, apenas retardaria um pouco meus planos. Ele me apoiaria em qualquer decisão, mas deixou claro que não via a maternidade como uma redução ou uma transformação completa da minha identidade. Eu poderia ser mãe, profissional, amante, doutoranda no exterior, com o mochilão nas costas e família ao lado...

Eu topei o desafio, e fui, gradualmente, retomando minha autonomia, fazendo da maternidade uma escolha e não um destino. Eu não tinha planejado o tempo em que Laura viria, mas eu poderia responder à essa novidade com o meu protagonismo. Foi com essa decisão que me preparei para um parto natural e enfrentei os constrangimentos do sistema obstétrico brasileiro. Abandonei a primeira obstetra que certamente me induziria a uma cesária desnecessária, depois tive que desistir de parir em casa porque o novo médico não me apoiava a esse ponto, e me indispus com ele por causa de uma atitude anti-ética em relação ao preço de sua assistência. Pari muito bem numa maternidade privada, tendo consciência, porém, de que eu representava os 10% de uma classe econômica privilegiada que sustenta a enorme desigualdade social entre as mães no meu país. Esse foi um dos primeiros processos que me levou a entender a contradição dessa identidade materna compulsória: se, depois da concepção, passam a nos olhar prioritariamente como “mãe” é geralmente para nos tornar em receptáculos dos conselhos (e cobranças) alheias e não para nos apoiar em nossas escolhas.

O fato é que, mesmo com todo o apoio do meu companheiro, tive que lidar com os enormes desafios da maternidade compulsória – essa que querem nos fazer vestir a todo custo emocional, econômico, e conjugal possível. Ela é composta das pressões para que, enquanto mães, adotemos certas práticas de maternagem que deixam muito pouca margem de autonomia. São práticas tidas como “naturais” (ou seja, normais), quando na verdade são moldadas por padrões de consumo que invadem os corpos e o tempo das mulheres, que impõem sobre elas a responsabilidade quase integral do bem estar das crianças, oferecendo pouco ou nenhum suporte para tal. São padrões que oferecem soluções “privatistas” para os cuidados com os bebês: que defendem hipocritamente a amamentação materna enquanto nos seduzem com bicos de plásticos em cada esquina; que nos “educam” para ter empatia pelas necessidades dos bebês, mas que não enxergam as nossas necessidades como indivíduos e cidadãs; que nos empurram a “terceirizar” a maternagem e depois nos culpam por fazê-lo. Percebi que, para exercer de fato uma maternidade “natural” – ou seja, espontânea e autêntica – eu precisava lutar contra o aliciamento de discursos contraditórios que sempre, invariavelmente, apontavam para a “culpa materna” e não problematizavam a “culpa da sociedade”.

Enquanto me debatia com os constrangimentos diários dessa maternidade, passei a debater com o meu companheiro: vamos fazer diferente?

Apesar do mercado de trabalho exigir que os homens estejam muito mais tempo fora do ambiente doméstico e das mulheres que se dividam entre trabalho do cuidado e trabalho (menos) remunerado, eu e ele passamos a negociar uma maternidade diferente. Ele passou a se integrar mais, cada vez mais, nos cuidados com a Laura (a começar pela participação no parto e na amamentação). E eu continuei buscando alternativas coletivas, que me proporcionassem o protagonismo materno e ao mesmo tempo a manutenção dos meus sonhos pessoais e profissionais. Esbarrei na falta de instituições de qualidade, para as crianças e os pais, na falta de espaços públicos de lazer, na falta de receptividade às crianças em ambientes diversos, nas poucas (ou nenhuma) ofertas de trabalho remunerado que me permitissem conviver de verdade com minha filha. Enfim, comecei a lutar com uma sociedade despreparada para a cidadania das crianças e de suas mães. Enquanto essa sociedade esperava que eu assumisse o cuidado integral da minha filha e abandonasse uma carreira profissional, ou que explorasse o trabalho de outra mulher e me ausentasse demais de casa, eu tentava esboçar soluções alternativas, negociando sempre com o marido. Não foi simples, não foi fácil. Discutimos muitas vezes, peitamos os patrões, os parentes, os especialistas, e as expectativas alheias – e seguimos na tentativa de conciliar nossos sonhos com o bem estar de nossa filha.

Hoje, falamos de maternidade transitória porque entendemos que “ser mãe” é algo diverso, que muda ao longo da História e das culturas das sociedades. Porque a forma como as mulheres são afetadas por essa função não é universal, mas é mutável, é transitória, varia de acordo com as expectativas e os recursos coletivos que elas vêem. E por isso, nem ele nem eu podemos impor sobre a “mãe da Laura” as expectativas de uma maternagem padronizada. Por isso, ele se integra muito mais do que o “esperado” nas práticas de maternagem que estabelecemos. A maternidade transita entre nós, e hoje, é compartilhada com as estruturas coletivas que são amigáveis e receptivas às famílias com filhos, no país que escolhemos passar os próximos três anos. Estamos na França, onde faço meu doutorado e ele aprende o francês e se dedica bastante à filha de quatro anos; onde eu acabo de escrever meu primeiro livro sobre o assunto e ele se prepara para renovar sua vida profissional. (Tudo com muito menos dinheiro do que tínhamos no Brasil, mas também com muito mais tempo para usufruir da companhia uns dos outros).

No livro A Mãe e o tempo: ensaio da maternidade transitória (que será publicado no final de outubro pela editora Memória Visual, no Rio de Janeiro), narro as dificuldades que vivi no primeiro ano de minha filha, e ensaio explicações sociológicas para elas, identificando contradições em discursos feministas e maternistas que, muitas vezes, nos fazem parar na cadeira de terapeutas e analistas, ou nos levam a tocar um ativismo apaixonado – sem que nos demos conta da reprodução de desigualdades sociais tão arraigadas. Eu busco, com esse livro, entender meu próprio percurso e incentivar a outras mulheres e famílias que busquem seus caminhos de forma autêntica, contribuindo para que Estado, empresas e demais organizações se responsabilizem também por nossos pequenos cidadãos.

O blog Parto no Brasil é um dos exemplos de ativismo materno que não se ilude com soluções privatistas, mas que nos leva a pensar na complexidade do sistema obstétrico brasileiro, que nos leva a reconhecer realidades e maternidades tão diferentes das nossas, a aprender com elas e a olhar de forma mais crítica para nossos padrões de maternagem. Agradeço demais a Bianca e a Ana Carolina que tem dialogado comigo nesses anos de blogosfera (a Bianca até publicou seu relato de parto no meu antigo blog, o What Mommy Needs)! Espero voltar aqui mais pra frente, para contar do desenrolar de minha pesquisa que é basicamente sobre o primeiro ano de transição da maternidade de mães brasileiras que vivem no Brasil, em Portugal, na França e na Suécia. Até breve!


* Carolina Pombo é escritora, pesquisadora e psicóloga social, e escreve seus diários de trabalho, viagens e escrita nos blogs Kaléidoscope e Com a cabeça fora d´`aguaalém de participar do coletivo feminista FemMaterna. Neste mês publica seu primeiro livro!




E, já que o tema é maternidade versus carreira fica o convite para a Blogagem Coletiva que o FemMaterna está organizando, abaixo:



sábado, 1 de dezembro de 2012

Multimídia Parto no Brasil - Novas Maneiras de Nascer na Contemporaneidade


Vídeo "Novas Maneiras de Nascer na Contemporaneidade"
Dra. Rosamaria Giatti Carneiro
Revista Aulas. UNICAMP, v. 07, 2009.

Acesse o link:



Resumo:
Esta aula tem por objetivo introduzir um fenômeno recente no Brasil: a prática de outros modos de parir. Há três décadas afloram grupos de mulheres que têm buscado um parto ‘mais natural’, com o mínimo de intervenções médicas possível. Entre elas, o parto é percebido de modo multifacetado, enquanto experiência pessoal, familiar, social, cultural e inclusive sexual, muito mais do que um ato fisiológico e médico. Considerando essas iniciativas, gostaríamos de apresentar e problematizar brevemente a existência de uma outra percepção do corpo feminino, interpretado aqui enquanto potência e possibilidade de prazer. Fluidos corporais e órgãos, antes considerados ‘abjetos’ ou simplesmente desconsiderados adquirem outros significados, assim como o corpo em sua totalidade, por isso tendemos a discutir essa percepção a luz do feminismo e da possibilidade de sua própria abertura para a diferença.

Palavras-chave: 
parto humanizado, sexualidade, experiência e feminismo.

Sobre Rosamaria Giatti Carneiro
Doutora em Ciências Sociais pelo IFCH, Unicamp (2011), fez graduação e mestrado em Direito. Especialista em Gênero e Psicanálise e em Gênero e Políticas Públicas.
Suas principais áreas de interesse e de atuação são: antropologia urbana e antropologia da saúde, relações de gênero, teoria crítica feminista e representações sociais de feminino na contemporaneidade.

Link para CV Lattes

sábado, 22 de outubro de 2011

Multimídia Parto no Brasil - Arte Yoni

Nossos corpos, nós mesmas - Arte da Oficina Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos


Arte de Dana Leggett.
"Eu sou uma doula radical, feminista e mãe de três. Por meio da arte, venho trabalhando há mais dez anos para o empoderamento feminino. This is my writing.
Yoni é uma palavra do Sânscrito que significa "passagem divina", "lugar de nascimento", "fonte de vida", "templo sagrado" e ainda o órgão sexual feminino. É considerado igualmente um símbolo de Shakti e de outras deusas de natureza similar. No Kama Sutra, é o termo usado para designar a vulva (ou a vagina).
Fonte: Wikipédia, a enciclopédia livre.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A violência simbólica de gênero e a Lei "antibaixaria" na Bahia [1]

Por Cecilia M. B. Sardenberg
OBSERVE- Observatório de Monitoramento da Lei Maria da Penha - NEIM/UFBA
A polêmica atual instaurada em torno da constitucionalidade do Projeto de Lei no. 19.137/2011 (apelidada de lei “Antibaixaria”) da Deputada Estadual Luiza Maia da Bahia, que dispõe sobre a não contratação, com verbas públicas, de artistas que degradem a imagem das mulheres, me faz voltar pouco mais de vinte anos no tempo, mais precisamente aos fins dos anos 1980, quando da elaboração da Constituição do Estado da Bahia. Naquela época, nós, feministas atuantes no Fórum de Mulheres de Salvador, nos reunimos várias vezes para discutir a inclusão de um capítulo específico sobre os direitos das mulheres na nova carta magna baiana.
Inspiradas pelos avanços conquistados por nós na Constituição Federal de 1988 com a mobilização de mulheres, em todo país, e, em especial, pelo chamado “Lobby do Batom” – o lobby exercido diretamente junto aos deputados e deputadas constituintes -- ousamos ir além formulando uma proposta ainda mais progressista para a Bahia. Dentre outras questões de interesse das mulheres, incluímos nessa proposta disposições sobre a prevenção da violência contra as mulheres e a obrigatoriedade de criação de delegacias especiais de atendimento às vítimas em cidades com mais de 50.000 habitantes, a proibição da exigência por parte de empregadores de comprovantes de esterilização das trabalhadoras, a criação de comissões especiais para monitorar as pesquisas no campo da reprodução humana, e – de interesse especial para o momento -- o impedimento da veiculação de mensagens que aviltassem a imagem das mulheres.
Nossa ousadia se revelava, tanto no teor dessas propostas, quanto no fato de que, para defendê-las na Constituinte Estadual, contávamos apenas com a Deputada Amabília Almeida, a única mulher então exercendo mandato naquela casa. Mas, nesse ponto, não havia o que temer. Com muita diplomacia, a nossa querida Amabília, companheira de muitas batalhas, conquistou mais aquela, logrando transformar nossas propostas em princípios e leis sagradas na Constituição Estadual de 1989. Foi assim que a Bahia passou a ter uma das constituições mais avançadas do país no tocante aos direitos das mulheres.
Frente à citada polêmica em torno do Projeto de Lei da Deputada Luíza Maia, destaco aqui, em especial, o Art. 282 da Constituição Estadual, particularmente o inciso I, em que se afirma que o Estado da Bahia “garantirá, perante a sociedade, a imagem social da mulher como mãe, trabalhadora e cidadã em igualdade de condições com o homem, objetivando”, entre outras questões, “impedir a veiculação de mensagens que atentem contra a dignidade da mulher, reforçando a discriminação sexual ou racial.” Nesse artigo reside, sem sombra de dúvida, a constitucionalidade do Projeto de Lei “antibaixaria”. Aliás, ele vem com mais de vinte anos de atraso para regulamentar o que reza nossa Constituição desde 1989, como de resto ainda acontece com a maior parte de nossas conquistas nessa carta, que ainda aguarda regulamentação.
Em relação ao Art. 282, posso testemunhar que, já na década de 1980, ao propormos sua inclusão na Constituição da Bahia, tínhamos em mente, não apenas o combate à constante veiculação de anúncios em jornais, outdoors e na mídia televisiva, que em muito desmerecem, objetificam e assaltam moralmente a nós, mulheres, como também à cantigas que exemplificam, em suas letras, o que se classifica como violência simbólica de gênero – tal qual em “...nega do cabelo duro... pega ela aí, pega ela aí prá passar batom ... na boca e na bochecha”, música sexista e racista, popular na época!
Na verdade, uma de nossas maiores preocupações era (e ainda é) o enfrentamento à violência de gênero contra as mulheres, particularmente a violência simbólica de gênero, que se infiltra por todo a nossa cultura, legitimando os outros tipos de violência. Por “violência de gênero”, refiro-me a toda e qualquer forma de agressão ou constrangimento físico, moral, psicológico, emocional, institucional, cultural ou patrimonial, que tenha por base a organização social dos sexos e que seja impetrada contra determinados indivíduos, explícita ou implicitamente, devido à sua condição de sexo ou orientação sexual. Isso implica dizer que tanto homens quanto mulheres, independente de sua preferência sexual, podem ser alvos da violência de gênero. Contudo, em virtude da ordem de gênero patriarcal, ‘machista’, dominante em nossa sociedade, são, porém, as mulheres e, em menor número, os homossexuais, que se vêem mais comumente na situação de objetos/vítimas desse tipo de violência.
Quando falamos de violência de gênero contra mulheres, pensamos mais de imediato em atos de violência física – agressões, espancamentos, estupros, assassinatos -- perpetrados, geralmente, por seus companheiros, e que acabam estampados em manchetes nas páginas policiais jornalísticas. Essa é, sem dúvida, a mais chocante e revoltante forma de violência de gênero, posto que atenta diretamente contra a vida de uma pessoa, não sendo raros os casos em que ela passa impune.
A Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006, mais conhecida como “Lei Maria da Penha”, trouxe um grande avanço no enfrentamento à violência de gênero contra mulheres, vez que, além de criminalizar esse tipo de violência - que passava invisível na esfera doméstica e familiar - também reconheceu outras formas de violência, tais como a violência sexual, moral, psicológica, e patrimonial, como igualmente puníveis por lei. Cabe lembrar, porém, que tanto as agressões físicas, quanto essas outras formas de violência e sua impunidade, são legitimadas pela ordem social de gênero que caracteriza a nossa sociedade, a ordem de gênero patriarcal, ordem inscrita e perpetrada nas nossas instituições sociais, nos nossos sistemas de crenças e valores e no nosso universo simbólico, com ressonância nas relações interpessoais e na construção das nossas identidades e subjetividades enquanto homens e mulheres.
De fato, a violência de gênero se expressa com força nas nossas instituições sociais (falamos então de violência institucional de gênero) e, de maneira mais sutil, embora não menos constrangedora, na nossa vida cultural, nos atacando (ou mesmo nos bombardeando) por todos os lados, sem que tenhamos plena consciência disso. Diariamente, ouvimos piadinhas, canções, poemas, ou vemo-nos diante de contos, novelas, comerciais, anúncios, ou mesmo livros didáticos (ditos científicos!), de toda uma produção cultural que dissemina imagens e representações degradantes, ou que, de uma forma ou de outra, nos diminuem enquanto mulheres. Essas imagens acabam sendo interiorizadas por nós (até mesmo as feministas “de carteirinha”), muitas vezes sem que nos demos conta disso. Elas contribuem sobremaneira na construção de nossas identidades/subjetividades, diminuindo, inclusive, nossa auto-estima.
Isso tudo se constitui no que chamamos de violência simbólica de gênero, uma forma de violência que é, indubitavelmente, uma das violências de gênero mais difíceis de detectarmos, analisarmos e, por isso mesmo, combatermos. Talvez até mesmo porque o ‘bombardeio’ é tanto, de todos os lados, que acabamos ficando anestesiadas, inertes, impassíveis, incapazes de percebê-la, bem como o seu poder destruidor. Na verdade, o mundo simbólico aparece como um grande quebra-cabeças a ser decifrado, difícil de abordar, vez que, como no caso das metáforas, ele se processa através de um encadeamento e superposição de símbolos e seus significados, ou de associações, transposições, oposições e deslocamentos. Destrinchar esses processos é muitas vezes adentrar num labirinto, correndo atrás de um novelo que torce, retorce, rola, enrola e dá nós, difíceis de serem desatados. Por isso mesmo, a violência simbólica é sutil, mascarada, disfarçada e, assim, bastante eficaz.
Certamente, não é esse o caso da “nova poesia baiana”, tal qual expressa nas letras do nosso cancioneiro popular contemporâneo. Ao contrário, não há nada de dissimulado nessas cantigas. Nelas, a imagem da mulher, de todas nós mulheres, é explicitamente aviltada, rebaixada, causando constrangimento naquelas que se prezam. Senão vejamos:
Em “Me Dá a Patinha”, por exemplo, a mulher é abertamente chamada de “cadela”, porque está supostamente disponível para todos:
O João já pegou
Manoel, pegou também
O Mateus engravidou,
tá esperando o seu nenem
Carlinhos, pegou de quatro
Marquinhos fez frango assado
José sem camisinha
Pego uma coceirinha
O nome del'é Marcela
Eu vou te dizer quem é ela
Eu disse
Ela, ela, ela é uma cadela
Ela,ela mais ela é prima de Isabela
Joga a patinha pra cima
One,Two,Three
Me dá, me dá patinha
Me dá sua cachorrinha
(sic)
Igualmente desrespeitosa em relação às mulheres é a cantiga “Ela é Dog”, que segue a mesma linha (... estilo cachorra, ela fica de quatro, ela é dog, dog, dog, ....parede de costas), assim como “Rala a Tcheca no Chão” (rala a tcheca no chão, a tcheca no chão, a tcheca no chão, mamãe), sem esquecer de “Na Boquinha da Garrafa”, onde se afirma que ...no samba ela gosta do rala, rala, me trocou pela garrafa, não agüentou e foi ralar... vai ralando na boquinha da garrafa, sobe e desce na boquinha da garrafa, é na boca da garrafa...
Ressalto que não se trata somente do gosto deveras questionável desses versos, mas, sobretudo, da incitação e legitimação da violência física contra mulheres que eles expressam. Como nos versos, ...se o homem é chiclete, mulher é que nem Lata, um chuta, o outro cata...”, ou então, na já combatida “Tapinha de Amor”:
Não era preciso chorar desse jeito
Menina bonita anjo encantador
Aquele tapinha que dei no seu rosto
Não foi por maldade foi prova de amor
A nossa briguinha foi de brincadeira
...
Não seja assim tolinha eu sei que tapinha de amor não dói
(sic)
Não custa lembrar que foram mais de 30 anos de lutas dos movimentos feministas no país no combate à violência de gênero contra mulheres, uma luta que logrou trazer a elaboração e aprovação da Lei Maria da Penha em agosto de 2006. Essa lei cria mecanismos para “coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher”, assim destacando, em seus Artigos 2º e 3º:
Art. 2o Toda mulher, independentemente de classe, raça, etnia, orientação sexual, renda, cultura, nível educacional, idade e religião, goza dos direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sendo-lhe asseguradas as oportunidades e facilidades para viver sem violência, preservar sua saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social.
Art. 3o Serão asseguradas às mulheres as condições para o exercício efetivo dos direitos à vida, à segurança, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, à moradia, ao acesso à justiça, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.
De acordo com a Lei Maria da Penha, uma Lei Federal, e, como vimos, também de acordo com a Constituição da Bahia, é dever do Estado combater a violência, assegurando às mulheres o direito ao respeito e dignidade enquanto seres humanos. O Projeto de Lei apresentado pela Dep. Luiza Maia vem regulamentar a intervenção do Estado nesse tocante, dispondo sobre “a proibição do uso de recursos públicos para a contratação de artistas que, em suas músicas, danças, ou coreografias desvalorizem, incentivem à violência ou exponham as mulheres a situações de constrangimento.”
Ressalte-se que não se trata aqui de cercear o direito de “livre expressão artística” de ninguém, já devidamente consagrada na Constituição Federal. Não se trata de fazer censura. Longe disso! Mas é necessário que o Estado não seja conivente com mensagens que façam a apologia da violência de gênero contra mulheres, utilizando verbas públicas – o dinheiro nosso e do nosso povo – para aviltar a nossa imagem! Fazê-lo, ou seja, contratar com dinheiro público quem assim procede é legitimar a violência de gênero contra as mulheres. É, pois, atentar contra a nossa carta magna, cabendo, pois, de nossa parte, a impetração de ações cíveis junto ao Ministério Público.
Espera-se, outrossim, que o Projeto de Lei em questão também tenha um papel pedagógico. Que ele venha a conscientizar mulheres e homens desta Bahia (e por que não, do nosso Brasil) da necessidade de combate à violência contra mulheres, hoje expressa, de forma tão vulgar e grosseira, no nosso cancioneiro popular. Creio que é isso que minhas combativas companheiras do Fórum de Mulheres de Salvador, que comigo lutaram pelo avanço das nossas conquistas nos idos dos anos 1980, tinham também em mente quando sonhávamos com uma Bahia sem sexismo, sem racismo, e sem violência!
[1] Uma primeira versão deste ensaio foi apresentada como contribuição aos debates sobre o Projeto de Lei No.19.137/2011, na Comissão da Mulher da Assembléia Legislativa da Bahia, em 24/08/2011.

Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher - Universidade Federal da Bahia - UFBA - Estrada de São Lázaro, 197 - Federação Salvador/BA - Tel./Fax: (55) 71-3237-8239 - Email: ceciliasard@yahoo.com.br

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Empoderamento feminino - Ric Jones propõe 'revolução cultural'

Jornal Uruguaio “La diária”
SOCIEDAD 16.8.11 RICARDO JONES | HUMANIZACIÓN DEL PARTO
El obstetra y ginecólogo brasileño Ricardo Jones se encuentra en el país dictando el primer curso de “Extensión en humanización del nacimiento para profesionales de la salud”, organizado por el Instituto Perinatal del Uruguay. En diálogo con la diaria señaló que es necesario un cambio de paradigma en el sistema médico uruguayo para abordar los partos y que se le debe restituir el protagonismo a la mujer, algo que sólo será posible a través de una “revolución cultural”.
Foto: Javier Calvelo
Cuerpo y alma
Entrevista con Ricardo Jones, especialista en humanización del nacimiento.
-¿Qué se entiende por humanización del nacimiento?
-Es una actitud basada en la restitución del protagonismo de la mujer en el parto. Es una síntesis de dos paradigmas antiguos: el naturalista, que deja actuar a la naturaleza, y el intervencionista contemporáneo, que incluye las cirugías, los fórceps y las episiotomías, entre otras cosas. Este último es un paradigma del siglo XX, ahora tenemos que producir otro, que es el humanista, que toma las enseñanzas de la naturaleza, valoriza la fisiología del parto, pero tiene la herramienta de la tecnología para ayudar en los casos en los que el parto se aleja de la fisiología y se acerca a la patología.
-Esta idea de un nuevo paradigma ¿puede ser aplicado a la medicina en general?
-Es una idea general. Por ejemplo, en Brasil hay un programa nacional del gobierno que se llama Humanización del Sistema Único de Salud y se aplica no sólo en la obstetricia, hay toda una metodología para que las personas sean acogidas en los hospitales y tengan más autonomía y protagonismo de y en su existencia. Es más fuerte en la cuestión del nacimiento porque tratamos de la mitad de la población del mundo que puede pasar por ese evento, que además es fisiológico y natural. Se trata de un grupo de personas que son tratadas de una forma muy negativa y despreciativa, por eso hay más urgencia de humanizar el nacimiento que otras áreas.
-¿Hay más resistencia cuando se habla de humanizar esta área en particular?
-En todas hay resistencia porque los modelos médicos son autoritarios, no se puede cuestionar la autoridad del médico y de la institución. Pero en el tema del nacimiento es más complicado porque se trata de mujeres, que históricamente son más sumisas. Las mujeres deben decir “nuestro cuerpo es sagrado, es nuestro, no se lo puede tratar mal”.
-¿Qué elementos o situaciones deshumanizan los nacimientos?
-Por ejemplo cuando las mujeres no son escuchadas. Se les dice que un parto debe ocurrir en un hospital y nadie pregunta dónde ella se siente mejor. La Organización Mundial de la Salud [OMS] es muy clara cuando dice que el mejor lugar para que una mujer tenga su hijo es donde ella se sienta segura. En Inglaterra se le pregunta dónde quiere tener a su hijo; puede ser en una casa de parto o en su casa, y el sistema público va a la casa de esa mujer a ofrecerle asistencia. Pero acá y en toda América Latina se la deriva directamente al hospital porque pensamos que es mejor allí. En los estudios actuales no hay elementos que nos permitan afirmar que el hospital es el mejor lugar para una mujer que va a tener a su hijo si no tiene enfermedad; sin embargo, en una casa de parto o en el domicilio los resultados son iguales o mejores que en los partos de bajo riesgo que son atendidos en los hospitales.
-¿Cómo ve el tema en Uruguay?
-Es muy similar a Brasil, con la diferencia de que acá escuché una entrevista al doctor [Leonel] Briozzo [subsecretario de Salud Pública] en la que sostiene que él no se interesa por la idea de partos fuera del hospital y que va a incentivar los partos intrahospitalarios. Ésa es una idea del siglo XX. Me deja muy triste ver que Uruguay aún se quiere quedar tan atrás. Otros países como Brasil e Inglaterra, que es un ejemplo asombroso, están intentando entrar en el siglo XXI, ofreciendo lo mejor de los dos mundos: el de comprender y respetar la fisiología y el de ofrecer la calidad tecnológica cuando la fisiología no es suficiente. Por lo tanto, Uruguay aún no se dio cuenta de que es importante más que simplemente actuar para que la mujer sobreviva al parto, que sea un acontecimiento de calidad para ofrecer a la mujer y al niño un buen inicio de la maternidad y de la propia vida.
-La idea de parto humanizado no excluye la intervención médica cuando hay complicaciones. ¿Cómo equilibrar estas dos ideas?
-Muchas de las intervenciones se hacen para reanimar a un bebé que nació con problemas respiratorios principalmente porque las acciones médicas en el hospital lo perjudican. Por ejemplo, la utilización de oxitocina es muy desgastante para la oxigenación del bebé y, por lo tanto, nace mal por la acción médica. En casas de parto o en el domicilio no se utilizan estas hormonas. Más allá de eso, los partos a domicilio están respaldados por un aparato médico para resolver 98% de las complicaciones allí y, si es necesario, hacer traslados al hospital; es muy raro que suceda eso, pero siempre estamos preparados. El hospital y los médicos también son muy importantes y necesarios, pero hay un prejuicio que se creó con la idea de que la tecnología siempre es buena.
-¿De qué manera cree posible aplicar estos conceptos y la idea de humanización del nacimiento al sistema de salud uruguayo?
-Se debe dar pequeños pasos. Por ejemplo el Instituto Perinatal del Uruguay tiene la idea de utilizar sus instalaciones para crear una casa de parto y para eso necesita tener una aprobación del Ministerio de Salud, pero eso es difícil porque sus autoridades tienen una visión del siglo XX. La discusión del parto casi nunca es una discusión médica, sino política. También es necesario producir educación continuada. Hay que hacer una pequeña revolución en la cultura, en la manera de ver el parto así como entrenamiento sobre este tema en los hospitales. Yo pienso que la revolución va a ocurrir con las mujeres cuando empiecen a percibir que el parto se quitó de ellas y quedó en manos de los profesionales. Debe ser un movimiento social como en su momento lo fue el movimiento sufragista femenino; es un capítulo más en la historia de la emancipación de la mujer, que no sólo la beneficiará a ella sino a la humanidad en sí.
Inés Acosta
http://ladiaria.com/articulo/2011/8/cuerpo-y-alma/#contenido

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Feminização do Parto


Estelita e Evandro, pesquisadores do Netccon/UFRJ

Sessões Científicas


Sessão debate o espaço social da gestante e o parto

Informe ENSP, publicada em 01/08/2011
por Vinicius Damazio
Para debater o tema Feminização do parto e saúde psicopolítica, a partir de seu estudo de arqueologia da presença dos conceitos nos corpos, a pesquisadora do Núcleo de Estudos Transdisciplinares de Comunicação e Consciência da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Netccon/UFRJ), Estelita Oliveira de Amorim Ouriques, relacionou a natureza, os gêneros feminino e masculino e a cultura pós-moderna. Estelita proferiu a sessão científica promovida pelo Grupo Direitos Humanos e Saúde da ENSP na quinta-feira (28/7).
Segundo a pesquisadora, que também é yogaterapeuta, o pensamento e a cultura ocidentais pós-modernos são patriarcais, sustentados por valores predominantemente masculinos, em que o gênero feminino é desprezado e renegado a segundo plano, e isso afeta o processo da gestação e do parto.
"É preciso que se faça a transição da humanização para a feminização do parto, porque a própria humanização na sociedade é ligada ao gênero masculino e seus costumes - um deles de recusa dos princípios femininos - e isso causa uma desnaturalização da mulher, proveniente do controle sobre o parto. A mulher, protagonista do ato, é considerada mero instrumento, o que é uma violência."
De acordo com Estelita, há uma relação muito forte entre a natureza e o gênero feminino, enquanto a cultura é diretamente associada ao gênero masculino. O desprezo pelos princípios femininos vigente na sociedade se dá através do que Boaventura de Sousa Santos chama de epistemicídio: ou seja, a mortandade de outras formas de saber e a imposição de um padrão, atitude típica do dualismo.
"O que causa a diferenciação é a falta de legitimidade e reconhecimento de outras formas de pensar e agir, que caracteriza a excessiva masculinização da sociedade; o uso da força, da violência, e a competição são valorizados, e despreza-se o que é diferente disso. A natureza, associada ao gênero feminino por ser provedora da vida tal qual a mulher, é desprezada, por não trazer lucro, em uma sociedade em que o capital é valorizado demasiadamente."
A saúde psicopolítica da mulher gestante, para Estelita, só será fixada quando ela tiver o direito ao autogoverno, que nada mais é do que o controle do próprio espaço sem interferências que causem estranhamento e desnaturalização do processo natural do parto.
"O autogoverno implica a emancipação das interferências impróprias da cultura no processo natural da gestação e do parto, o que é uma experiência de generosidade. Parir é o encontro agudo da cultura com a natureza, e, de forma muito intensa, isso se dá no corpo feminino. É preciso que a mulher tenha o controle do processo para não ser descaracterizada."
Fontes: http://www.ensp.fiocruz.br/portal-ensp/informe/materia/?origem=1&matid=26742 http://www.wix.com/evouriques/evandrobio http://www.wix.com/evouriques/netccon

quinta-feira, 31 de março de 2011

Sorteio da Promoção Todo Dia é Dia Das Mulheres

Boa noite,
Semanas e dias atribulados por aqui, c/ novos trabalhos se iniciando, depois de uma incrível viagem a Paraty/RJ, neste último fim-de-semana (logo mais contarei das maravilhosas mulheres que conheci!), e já é noite... a cria dorme, o projeto já foi enviado (éh, vida de produtor cultural é isso - muitas ideias na cabeça e pouco dinheiro no bolso, é cumpadi tu é funk até o caroço!, já diria BNegão) - o maridão, sem minha companhia que cá realizo o sorteio da Promoção Todo Dia é Dia das Mulheres espera na rede vendo tv, e olha que está passando um filme nacional bem legal!
Bão, vamos lá! P/ sortear três ganhadoras das 14 inscritas (poxa minha gente, poucas inscrições para prêmios tão bacanas hein...) fiz uma espécie de tabela, p/ que todos os n°s concorrecem nos três prêmios - Vale-compras de R$34,00 da Samba Calcinha; Absorvente ecológico da Ninho da Coruja e um coletor menstrul da Miss Cup.
Seguem abaixo as numerações de cada inscrita, e atentem-se que quando um n° é sorteado as numerações de cada uma mudam, em ordem descrescente:
1 - 1 - 1 Simone
2 - 2 - 2 Jessica
3 - 3 Ana Carolina - 2a. sorteada_Absorvente da Ninho da Coruja
4 - 4 - 3 Marina
5 Cinthia - 1a. sorteada_Vale-compras da Samba Calcinha Negrito
6 - 5 - 4 Larissa
7 - 6 - 5 Ana Paula
8 - 7 - 6 Elly
9 - 8 - 7 Uyara
10 - 9 - 8 Marilia
11 - 10 - 9 Luciana Negrito
12 - 11 - 10 Virgínia Negrito
13 - 12 - 11 Vanessa - 3a. sorteada_Coletor menstrual da Miss Cup
14 - 13 - 12 Naomi
Eba! Que delícia mulherada, parabéns!
Amanhã entrarei em contato c/ vcs p/ explicar como será o envio e por parte de quem, aguardem!
Soninho, aiai...
Inté!

terça-feira, 29 de março de 2011

Encontro: mulheres brasileiras e gênero - HOJE, na FSP

Para comemorar o Dia Internacional da Mulher neste ano de 2011 a Comissão de Cultura e Extensão (CCE.x.) da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP realizará um Encontro Comemorativo ao tema que abrirá espaço para apresentação e debate dos resultados da pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo, intitulada Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado, tendo em vista identificar questões relevantes para o campo da Saúde Pública e suas Políticas Públicas em relação às mulheres em suas diversidades.
Hoje, dia 29, das 14h30 às 17h30, na FSP/USP - Anfiteatro Paula Souza - Av. Dr. Arnaldo, 715 - São Paulo - SP (Próximo a Estação Clínicas do Metro).
Abertura às 14h30, c/ Helena Ribeiro (Diretora da FSP-USP), Maria Rosário Dias de Oliveira Latorre (Presidente da CCEx) - Coordenadoras do Evento.
Mesa Redonda: Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado.
Palestra c/:
- Gustavo Venturi ( FFLCH-USP): Apresentação da Pesquisa da Fundação Perseu Abramo sobre o tema da mesa;
Comentários e debates c/:
- Carmen Simone Grilo Diniz (FSP-USP) - Violência institucional de gênero, como foco no parto e aborto;
- Márcia Couto (FM-USP) - Masculinidades, gênero e violência.
Coordenadora: Augusta Thereza de Alvarenga (FSP/USP).
As inscrições para o Encontro são gratuitas e podem ser feitas no site da Faculdade ou no local, no dia do evento. Serão fornecidos certificados de participação no mesmo pela Comissão de Cultura e Extensão da FSP/USP.
Inscrições no site - http://www.fsp.usp.br/crintform/phpmyadmin/eventos/form/form1.php?vIdEv=46.
Coordenação Geral do Encontro Comemorativo: Ana Cristina D´Andretta Tanaka – FSP/USP; Augusta Thereza de Alvarenga - FSP/USP; Carmem Simone Grilo Diniz - FSP/USP e Neia Schor - FSP/USP.
Não haverá estacionamento disponível na Faculdade. Mais informações pelo e-mail: svalunos@fsp.usp.br.
Fonte: http://www.fsp.usp.br/site/eventos/mostrar/861.

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