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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Estar grávida no Brasil

Por Maria do Carmo Leal
Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro

A gravidez é um tempo de muitas mudanças e expectativas na vida da mulher e das suas famílias porque implica novas responsabilidades afetivas, sociais e legais, decorrentes da maternidade. No ano passado, apenas 45% das gestações que terminaram em nascimento foram planejadas para acontecer no momento em que ocorreram. Embora 97% das gestantes brasileiras tenham realizado consultas pré-natais e 99% dos partos tenham ocorrido em hospitais, persistem problemas na qualidade da atenção oferecida (Lancet 2011; 377:1863-76).


Segundo dados de estudo realizado no Rio de Janeiro em hospitais do Sistema de Saúde Suplementar, durante a gestação a mulher vai mudando de opinião sobre o tipo de parto. No início, mais de 30% delas gostariam de ter um parto cesariano, ao chegarem à maternidade, 70% haviam se decidido pela cesárea, mas, ao saírem das maternidades, apenas 10% tiveram um parto por via vaginal. O medo da dor foi o principal motivo alegado inicialmente para desejar fazer uma cesárea e continuou sendo importante para ela mudar de opinião durante a gestação. Foi protetor estar bem informada sobre as vantagens do parto
vaginal e o desejo do companheiro por esta modalidade de parto (Ciência Saúde Coletiva 2008; 13:1521-34).

A cesariana é uma cirurgia que não deve ser banalizada, pois aumenta o risco de hemorragia pós-parto, infecção, admissão em UTI, mortalidade e em gravidezes futuras de placentação anormal, ruptura uterina, dentre outros. Para o recém-nascido são reportados maior necessidade de suporte ventilatório ao nascer e maior uso de UTI neonatal.

Nos serviços públicos brasileiros as gestantes que fazem parto vaginal também são submetidas a uma excessiva manipulação, ficam presas ao leito, impedidas de deambular e se alimentar, usam ocitocina e dão à luz em posição de decúbito dorsal, com o auxílio de episiotomia. Esses procedimentos não são hoje recomendados pela Organização Mundial da Saúde.

O modelo de atenção, baseado em tecnologias apropriadas para o parto e nascimento (também conhecido como parto humanizado), conduzido por enfermeiras obstétricas (midwives) e encontrado em quase todos os países europeus, tem ótimos resultados perinatais e está em franco contraste com o modelo que temos implantado aqui no Brasil. Com mais de 50% de cesarianas, cada vez mais as mulheres brasileiras têm parido anestesiadas, passando pelo processo do parto sem sentirem dor, mas também sem sentirem acontecer o próprio nascimento dos seus filhos. Por outro lado, a maioria dos nossos bebês tem sido retirada do útero pelos médicos, ficando subtraídos dessa experiência humana vital e tão significativa. Não temos nenhuma avaliação dos resultados do nosso modelo extremamente medicalizado de atenção ao parto sobre as crianças a médio e longo prazo, mas podemos reconhecer, sem muito esforço, que ele se constitui em uma ruptura com a maneira como nasceram as gerações brasileiras anteriores e que, do ponto de vista populacional, é uma experiência não avaliada previamente.

Está em curso no país um movimento pela adoção de um modelo de atenção baseado em tecnologias apropriadas para o parto e nascimento. Iniciativas importantes do Ministério da Saúde, tais como o Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento, a Lei do Acompanhante, o Programa de Qualificação das Maternidades no Nordeste e Amazônia Legal e, mais recentemente, a Rede Cegonha, são exemplos desse esforço. Em paralelo, verifica-se um renascimento dos movimentos sociais das mulheres pelo resgate do protagonismo da mulher na condução do seu parto e do nascimento dos seus filhos. Existe hoje um consenso de que se necessita urgentemente reformar o modo de atender ao parto e nascimento das mães e crianças brasileiras.

Fonte: http://www.scielo.br/pdf/csp/v28n8/01.pdf

domingo, 22 de julho de 2012

Nosso modelo de assistência ao parto é adoecedor*

"Nos dias atuais, nascer naturalmente é uma questão de cidadania" Esta é a conclusão a que chega Maria do Carmo Leal, coordenadora da Pesquisa Nascer no Brasil, da ENSP Fiocruz. Aqui, "nascer naturalmente" significa receber uma assistência obstétrica e neonatal de qualidade, com profissional especialista em acompanhar a evolução da fisiologia do parto e detectar qualquer anormalidade que necessite de avaliação médica, com segurança. 

Para além dos indicadores em Saúde Pública, os resultados do nosso modelo de assistência ao parto representam a qualidade do acesso que as cidadãs brasileiras têm nos diferentes segmentos - SUS, plano de saúde, e via pagamento direto - para conseguir um "parto sem cortes", com mãe e bebê saudáveis, e íntegros.

A edição do programa Sala de Convidados que foi ao ar em 13 de julho de 2012, no Canal Saúde da Fiocruz, tem 54 minutos e é uma belíssima aula de Saúde Pública, sobre os diferentes modelos de assistência ao parto. 



Acesse aqui

(Vídeo disponível para download)



Os convidados são Marcos Nakamura, Marcos Dias e Maria do Carmo Leal. Dois médicos parteiros, e uma das mais brilhantes pesquisadoras do Brasil, na área da Saúde Materno-Infantil.

Um vídeo imperdível para quem gosta do tema, e para quem quer saber um pouco mais sobre o porquê nós NÃO nos impactamos negativamente com o UM MILHÃO de cesáreas desnecessárias que são realizadas no país, anualmente.

E de como esta é apenas um dos lados da questão, a mais extrema das intervenções obstétricas, entre tantas outras que são praticadas sem critérios de seleção, contrariando as recomendações de pesquisas científicas atuais. 

Imperdível para entender porque devemos apoiar e valorizar a assistência direta ao parto por enfermeiras, obstetrizes e parteiras.

Marcha das Vadias - autoria e local desconhecidos, publicada no perfil Parto Ativo
Ser perfeitamente saudável e poder escolher uma cesárea, TROCAR seu parto por uma CIRURGIA de grande porte, aqui no Brasil, e em outros países em que há muito desrespeito e violência contra as mulheres, você pode.

Mas estando perfeitamente saudável e poder escolher ter um parto domiciliar, com assistência de qualidade, e a segurança de que o hospital de referência está organizado para te receber muito bem em caso de uma transferência vir a ser necessária, conforme RECOMENDÁVEL por uma recente pesquisa inglesa, NÃO. Você NÃO PODE.

Nem 'parto humanizado' pelo plano de saúde pode!

Mais uma oportunidade que confirma o quanto nós não temos escolha:

- 95% de cesáreas no plano de saúde, significa que as mulheres não estão podendo escolher.
- 90% dos partos normais em posição de litotomia, significa que as mulheres não estão podendo escolher.
- Analgesia só para aquelas que 'descompensam', significa que as mulheres não estão podendo escolher.

Foto de Ana Carolina Franzon, em 02 de junho de 2012, Marcha das Vadias em Londrina-PR

E também são atos de violência obstétrica: uma mulher baixo risco chegar ao ponto de 'desconpensar' durante um trabalho de parto para o qual ela 'não colabora'; e só para encerrar, proibir as mulheres de terem a companhia de uma doula ou outra mulher com experiência de parto.

Tudo isso não precisa ser assim, aliás, deveria ser tudo inadmissívelEspero poder ver o dia em que ter parto de mãe e bebê perfeitamente saudáveis com médico seja algo considerado retrógrado, esquisito, notavelmente antiquado. Brega.

* Porque o nosso modelo de assistência ao parto é iatrogênico. Nos causa danos físicos e emocionais. E também é impossível não aproveitar para falar do nosso padrão de planejamento reprodutivo. Da falta de opção que temos, e de como muitas mulheres se submetem inquestionavelmente ao uso de hormônios anti-concepcionais. É a mesma lógica - do domínio e do controle do corpo das mulheres, só que em favor do homens.


Foto de Marcos AF Gomes, em 02 de junho de 2012, Marcha das Vadias em Londrina-PR 
Fotos - Porque parir e maternar livremente, e conscientemente, são atitudes super-feministas!  

domingo, 10 de junho de 2012

Plantão: A questão do (medo do) parto no jornal O Globo 2/2

Confiram a íntegra da matéria publicada na edição de sábado do jornal O Globo.

O Blog Parto no Brasil defende e valoriza as boas práticas na atenção ao parto vaginal.

Mulheres, não vacilem: a possibilidade de ter um parto prazeroso existe! E você tem direito de escolher como viver a SUA história! 
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A questão do parto
Número de cesáreas confirma cirurgia como primeira opção das mulheres


VIVIANE NOGUEIRA
Publicado: 9/06/12 - 14h00


A informação é sua melhor aliada para a defesa de sua integridade física e bem-estar emocional. Não deixe que escolham por você. Busque apoio de outras mulheres, em grupos presenciais e virtuais de apoio ao parto.

Se você perguntar à grávida mais próxima como ela quer que seu bebê chegue ao mundo, ela provavelmente responderá que por parto normal. Ainda assim, dados sobre nascidos vivos do Ministério da Saúde mostram que, em 2010 (ano mais recente desse levantamento), nas redes pública e privada, 52,2% dos partos realizados foram cesarianas e 47,8% foram normais. O motivo pode estar entre os instintos mais básicos: o medo. 

Um estudo feito em 2008 no Rio e na Baixada Fluminense pela epidemiologista Maria do Carmo Leal, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, mostrou que no início da gravidez 70% das mulheres queriam parto vaginal, mas ao fim dos nove meses apenas 30% confirmavam seu desejo. A maioria dos bebês nascia mesmo por cesárea. Por que elas mudavam de opinião? Algumas queriam ligar as trompas, outras eram influenciadas por seus médicos, mas a maioria tinha medo da dor.
A cesárea já está no inconsciente coletivo, é a experiência da maioria. Os médicos aqui não sabem fazer parto, já aprendem a cirurgia na universidade. Nos outros países não há essa cultura intervencionista, mas as mulheres são mais bem assistidas no pré parto, ficam em banheiras de água quente, recebem massagem para relaxar e aprendem a respirar para conduzir o parto, isso diminui o medo — acredita a pesquisadora, que prepara para agosto uma pesquisa com 24 mil mulheres do país sem problema algum de saúde que optaram pela cesárea.
Pela Organização Mundial de Saúde, o recomendado é que apenas 15% das mulheres deem à luz por cesárea, uma cirurgia ótima para quando há algum problema. Quando não há, o ideal é o parto vaginal para evitar o estresse orgânico do corte de tecido, infecções, cicatrizes uterinas e a alienação da mãe na hora do nascimento do bebê por causa da anestesia. 

Para tentar atender a esta demanda, o Ministério da Saúde criou em 2011 o Rede Cegonha, que prevê consultas de pré-natal, a presença do acompanhante durante o parto, e centros de parto normal com leitos adaptados para num só lugar acolher a mulher antes, durante e depois do parto. Hoje, o valor repassado ao médico do Sistema Único de Saúde (SUS) no parto normal já é maior que nas cesáreas e, segundo o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, já se pensa em remunerar as horas que o médico acompanha a mulher no parto normal.
— É preciso mudar a cultura dos médicos que hoje se aprimoram na cirurgia e deixam de lado o parto vaginal. O que vai reduzir o número de cesáreas é a gestante chegar segura à maternidade. Até 2014 queremos 80% das grávidas com no mínimo seis consultas de pré-natal e exames de sífilis, HIV e ultrassonografia feitos — anuncia Padilha.
Na experiência da professora da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB) Daphne Rattner, presidente da Rede pela Humanização do Parto e Nascimento (ReHuNa), as mulheres cada vez mais reivindicam seus corpos e o direito de parir. E para isso a melhor opção seria o parto domiciliar. De acordo com a “The Cochrane Collaboration”, pesquisa da fundação sem fins lucrativos feita com 8.677 mulheres, quando comparados com os hospitais, os partos em casa apresentaram menos intervenções médicas e mais satisfação materna, com a ressalva de que cuidadores e pacientes devem estar atentos para sinais de complicações.
— Gravidez não é doença e parto não é cirurgia, mas a cultura influencia muito. Em 1997 participei de um encontro internacional e a representante do Nepal disse que lá o médico aprende que a dor é sinal de que algo está errado e é preciso intervir. Já a parteira diz ‘oba, as dores começaram, vamos ver o que há para fazer’ — conta Daphne.
Por aqui a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) é terminantemente contra partos domiciliares porque considera que um parto só é sem riscos depois de 24 horas que aconteceu.
— Muitas interferências podem acontecer mesmo num parto normal, como uma hemorragia e a consequente retirada do útero. E às vezes, na transferência de casa para o hospital, a morte da mãe pode acontecer — explica a diretora administrativa da Febrasgo, Vera Lúcia Mota da Fonseca, que defende a cesárea em indicações precisas e acredita que a gravidez acompanhada por uma equipe múltipla pode servir para aumentar o número de partos normais. — Dessa forma o médico não precisa largar o consultório e correr para a maternidade: a mulher entra em trabalho de parto, vai para a maternidade em que fez o pré-natal e lá o médico disponível faz o parto.
A ginecologista e obstetra Cláudia Araújo Bottino credita à vida moderna a opção das mulheres “ocupadas e estressadas” pela cesárea:
— A carga da mulher hoje não é só ser mãe. Ela é profissional, esposa, dona de casa e mãe. E por isso não quer sentir dor — diz.
A dor não desanimou a publicitária Simone Pinto, que queria que seu filho João, hoje com sete meses e meio, nascesse quando estivesse pronto. As contrações começaram às 3h, ela monitorou tranquilamente, chegou ao hospital às 8h30 e às 15h recebeu o bebê. 
Eu senti dor mas curti, foi um momento intenso de dor e prazer. Mas a todo momento eu sabia que se algo desse errado eu poderia contar que minha médica faria a cesárea — conta.
Fonte: A Questão do Parto - O Globo



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Opção polêmica

Portal O Globo
Publicado: 9/06/12 - 14h00

Dados: O número de cesáreas na rede pública vem aumentando na medida em que diminuem os partos normais. No SUS, os percentuais de cesáreas em 2009, 2010 e 2011 foram 34,6%, 36,7% e 38,3 enquanto o de partos normais, 65,3%, 63,2% e 61,6%. Nas redes pública e privada (os dados dos nascidos vivos) o percentual de cesáreas aumentou de 50% para 52,2% entre 2009 e 2010 e o de partos normais caiu de 50% para 47,8% no mesmo período.
Mãe: Como toda cirurgia, a cesárea pode ter como desdobramentos, além da cicatriz aparente, uma fibrose uterina, o que pode dificultar a implantação do embrião em uma próxima gestação. Por isso muitos médicos indicam que o no segundo parto de uma mulher que já tenha feito uma cesárea se repita a cirurgia.
Bebê: A idade gestacional do feto é determinada por ultrassonografia ou pela data da última menstruação da mãe, mas esses métodos não podem precisar a data exata do nascimento.
Natural ou normal: A nomenclatura natural é usada quando todos os processos biológicos do nascimento do bebê são respeitados. Ou seja: não há anestesia, não há corte para ajudar a passagem da cabeça. Já o parto normal é o vaginal, no qual o bebê sai pela vagina e a mãe pode contar com a interferência médica.
SUS: No primeiro ano do programa Rede Cegonha, houve queda de 21% na mortalidade decorrente de complicações na gravidez e no parto. No Estado do Rio, já há uma unidade em funcionamento no Hospital da Mulher, em São João de Meriti e a próxima será inaugurada em Mesquita. Em 2011, mais de 1,7 milhão de mulheres fizeram no mínimo sete consultas pré-natais pelo programa.
Dor: Segundo Daphne Rattner, a dor faz parte do processo de parto e, “quando a mulher se mexe por causa da dor, a cabeça do bebê se encaixa”. Mais importante que qualquer estratégia ou planejamento já traçado, é que o parto seja bom para a mãe e para o bebê.

Plantão: Práticas obstétricas obsoletas - O Globo 1/2


O Blog Parto no Brasil defende e valoriza as boas práticas na atenção ao parto vaginal.
Mulheres, não vacilem: a possibilidade de ter um parto prazeroso existe! E você tem direito de escolher como viver a SUA história!


Confira a íntegra do artigo publicado ontem no jornal O Globo.


Imperdível!

Busque esclarecimentos sobre riscos e benefícios - não apenas sobre parto vaginal e cesárea, mas também sobre o "jeitão" do parto normal, se o profissional conhece e valoriza as boas práticas na atenção ao parto vaginal

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Estar grávida no Brasil
Em artigo inédito, a epidemiologista Maria do Carmo Leal, pesquisadora da Ensp/ Fiocruz escreve como são conduzidos os partos hoje no país

Publicado: 9/06/12 - 14h00


A gravidez é um tempo de muitas mudanças e expectativas na vida da mulher e das suas famílias porque implica em novas responsabilidades afetivas, sociais e legais decorrentes da maternidade. Mas, no nosso país, no ano passado, apenas 45% das gestações que terminaram em um nascimento foram planejadas para acontecer no momento em que elas ocorreram. Das não planejadas, 30% foram consideradas gestações não desejadas pelas mulheres.

Esse aspecto do não planejamento da gravidez, mais frequente ainda em adolescentes, torna a gestação também um motivo de angustia para uma grande parte das mulheres. Estima-se que houve cerca de um milhão de abortos em 2008, ou seja, uma gravidez em cada quatro terminou em aborto naquele ano no Brasil (Victora ET AL 2011). A ilegalidade atribuída ao aborto no país faz com que essa prática seja de alto risco, frequentemente realizada fora do sistema oficial de saúde, muitas vezes por leigos, sem a presença de profissionais qualificados, estando, em qualquer das situações, fora do controle sanitário e profissional vigentes. A situação de vulnerabilidade é maior para mulheres de baixa escolaridade, negras e jovens (Victora ET AL 2011).

Assim, desejar estar grávida é o primeiro componente para o sucesso e bem-estar da gestação. Dados recentemente publicados na “World Health Statistics” da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que, em 2010, 97% das gestantes brasileiras realizaram consultas pré-natais, sendo que 86% fizeram mais de quatro consultas e que 99% dos partos ocorreram dentro dos serviços de saúde, colocando o Brasil em uma situação próxima aos indicadores de cobertura dos países desenvolvidos (WHO, 2012).

Dados preliminares do Inquérito Nacional sobre Parto e Nascimento, realizado em 2011, mostram que mais de 80% das mulheres entrevistadas usaram os serviços públicos de saúde para acompanhar suas gestações e seus partos, sem diferenças entre as regiões geográficas, capital e interior, denotando a importância do SUS para o alcance daquele desempenho em âmbito internacional. Entretanto, persistem ainda problemas na qualidade da atenção oferecida, o que pode ser constatado pelas altas taxas de morbidade e mortalidade por patologias possíveis de serem evitadas por uma assistência bem feita no pré-natal e no parto (Vettore ET AL 2011).

Durante a gestação a mulher planeja o seu parto, a forma como vai receber o seu filho. Aqui no Brasil recebe influência da opinião do seu médico, dos familiares e amigos sobre as vantagens de fazer um parto normal ou cesáreo. Para gestantes que têm plano de saúde a escolha da via de parto (vaginal ou abdominal) pode se constituir em motivo de estresse. Ao início da gravidez a maioria delas prefere que o seu parto seja vaginal, opinião essa que vai mudando no decorrer da gestação.

Um estudo realizado no Rio de Janeiro, em 2008, por nosso grupo de pesquisa em hospitais do Sistema de Saúde Suplementar, onde as cesarianas atingem cifras próximas a 90%, mostrou que as mulheres mudam de ideia sobre o tipo de parto, durante a gravidez. No início um pouco mais de 30% delas gostariam de ter um parto cesariano, ao chegarem à maternidade, 70% havia se decidido pela cesárea, mas, ao saírem das maternidades, apenas 10% teve um parto por via vaginal. O medo da dor foi o principal motivo alegado inicialmente para desejar fazer uma cesárea e continuou sendo importante para ela mudar de opinião durante a gestação. Foi protetor estar bem informada sobre as vantagens do parto vaginal e o desejo do companheiro por essa modalidade de parto. As mulheres referiram com muita frequência (mais de 50%) que a sua decisão de mudança foi compartilhada com o medico (Dias et al 2008).

Em relação à cesariana, o que se sabe hoje é que essa cirurgia produz danos para a vida reprodutiva futura da mulher, aumentando o risco de placentação anormal, ruptura uterina, hemorragia pós-parto, infecção, admissão em UTI e mortalidade. É, portanto, um procedimento que não deve ser banalizado e que deve ser utilizado quando necessário, em situações em que esteja em risco a vida da gestante e do recém-nascido. Para o recém-nascido também são reportados prejuízos advindos de uma cesariana: mais frequentemente necessitam de suporte ventilatório para respirar ao nascer e usam mais a UTI neonatal, sendo essa necessidade tão maior quanto menor for a idade gestacional do recém-nascido (Hansen et AL, 2008).

Outros danos tão importantes quanto esses são o retardo do contato da mãe com o filho no momento do nascimento e a baixa prática do aleitamento materno na sala de parto. Esses últimos aspectos jogam um importante papel no apego da mãe ao seu bebê e vice-versa (Buccolini ET AL 2008).

Nos serviços públicos brasileiros as gestantes que fazem parto vaginal são submetidas a uma excessiva manipulação, ficam presas ao leito, impedidas de deambular e se alimentar, usam ocitocina e dão à luz em posição de decúbito dorsal, com auxilio de episiotomia. Esses procedimentos, além de produzirem um trabalho de parto muito doloroso, são hoje não recomendados pela Organização Mundial de Saúde. Ou seja, tanto pelo excesso de cesarianas quanto pela inadequação do modelo ofertado para atendimento ao parto vaginal, no Brasil a pratica obstétrica é obsoleta, não segue as recomendações baseadas em evidencias cientificas e precisa ser modificada.

No Reino Unido e em outros países da Comunidade Econômica Europeia as gestantes também escolhem o tipo de parto que melhor convém a elas, levando em conta suas expectativas, as do seu companheiro e da sua família. Mas, diferente daqui, a escolha que elas fazem não é se o parto será cirúrgico ou não, mas qual a posição que elas desejam parir, se de cócoras, sentada, de joelhos, dentro da água, ou outra. Além dos cuidados pré-natais habituais, durante a gestação as mulheres se preparam psicológica e emocionalmente para o momento do parto, aprendendo técnicas de respiração, concentração e relaxamento que ajudarão no alívio das dores e aumentarão a segurança e tranquilidade para condução do seu parto. 

O parto tem um profundo significado para o encontro da mulher com a sua feminilidade e, por isso, naqueles países, os aspectos emocionais da parturição são também objeto de considerações pelos serviços de saúde, que cumprem um papel de dar suporte, amparo e garantia de segurança à escolha da gestante na condução do seu parto, em uma ambiência de conforto material, afetivo e emocional que inclui a presença da família no cenário das maternidades. Nesses países, os protocolos de atendimento ao parto recomendam o parto vaginal, com um mínimo de intervenção, sendo a decisão por uma cesariana, geralmente da responsabilidade do serviço de saúde, diante das condições e necessidades reais de cada caso clínico.

Esse modelo de atenção, baseado em tecnologias apropriadas para o parto e nascimento (também conhecido como parto humanizado), conduzido por enfermeiras obstétricas (midwives) e encontrado em quase todos os países europeus, tem ótimos resultados perinatais e está em franco contraste com o modelo que temos implantado aqui no Brasil. Com mais de 50% de cesarianas, cada vez mais as mulheres brasileiras têm parido anestesiadas, passando pelo processo do parto sem sentirem dor, mas também sem sentirem acontecer o próprio parto dos seus filhos.

Por outro lado, a maioria dos nossos bebês tem sido retirada do útero pelos médicos, não fazem força para nascer, ficando subtraídos dessa experiência humana e vital tão significativa. Não temos nenhuma avaliação dos resultados do nosso modelo extremamente medicalizado de atenção ao parto sobre as crianças a médio e longo prazo, mas podemos reconhecer, sem muito esforço, que ele se constitui em uma ruptura com a maneira como nasceram as gerações brasileiras anteriores e que, do ponto de vista populacional, é uma experiência não avaliada previamente.

As mulheres brasileiras, mesmo que desejem, têm pouca chance de vivenciarem um parto do tipo humanizado porque esse modelo de atenção está implantado em pouquíssimas maternidades dos serviços de saúde. E, para as mulheres de nível socioeconômico mais elevado que são esclarecidas e desejam ter um parto vaginal, uma opção tem sido o parto domiciliar, geralmente realizado por enfermeiras obstétricas.

No Brasil a decisão sobre a realização de um parto cirúrgico sem indicação clínica tem sido considerado um direito de escolha da gestante. Ocorre que o exercício desse direito não tem se acompanhado de informações claras sobre o risco de um parto operatório. Ou seja, a escolha tem sido feita sem informações adequadas para a tomada de uma decisão consciente. Em parte porque os obstetras que as assiste também ou não têm essas informações, ou não baseiam sua pratica em evidencias cientificas. Ambas as situações são graves, sobretudo porque os manuais técnicos do Ministério da Saúde trazem recomendações corretas sobre a atenção ao parto e nascimento e estão disponíveis para todos.

Está em curso no país um movimento pela adoção de um modelo de atenção baseado em tecnologias apropriadas para o parto e nascimento. Iniciativas importantes do Ministério da Saúde tais como Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento, Lei do acompanhante, Programa de Qualificação das Maternidades no Nordeste e Amazônia Legal e, mais recentemente a Rede Cegonha, são exemplos desse esforço.

Em paralelo, verifica-se um renascimento dos movimentos sociais das mulheres pelo resgate do protagonismo da mulher na condução do seu parto e do nascimento dos seus filhos. Um grande número de grupos associativos de mulheres vem surgindo no país, tendo a ReHuNa — Rede pela Humanização do Parto e Nascimento – uma organização da sociedade civil criada em 1993 com o objetivo de formar uma rede em defesa do parto humanizado, um papel importante na articulação desse movimento pela mudança do modelo obstétrico vigente (http://www.rehuna.org.br/index.php/seminario). Existe hoje um consenso de que se necessita urgentemente reformar o modo de atender ao parto e nascimento das mães e crianças brasileiras.




Bibliografia
Victora CG, Aquino EM, do Carmo Leal M, Monteiro CA, Barros FC, Szwarcwald CL. Maternal and child health in Brazil: progress and challenges. Lancet. 2011 May 28;377:1863-76.
WHO World health Statistics 2012 - Press, World Health Organization, 20 Avenue Appia, 1211 Geneva 27, SwitzerlandWHO Press, World Health Organization, 20 Avenue Appia, 1211 Geneva 27.
Vettore, MV; Dias MABD; Domingues RMSM; Vettore MV; Leal MC - Cuidados pré-natais e avaliação do manejo da hipertensão arterial em gestantes do SUS no Município do Rio de Janeiro, Brasil. Cad. Saúde Pública, Maio 2011, vol.27, no.5, p.1021-1034.
Dias MAB, Domingues RMSM; Pereira APE; Fonseca SCF; Gama GN; Theme Filha MM; Bittencourt SDA; Rocha PMM; Schilithz AOC; Leal MC - Trajetória das mulheres na definição pelo parto cesáreo: estudo de caso em duas unidades do sistema de saúde suplementar do estado do Rio de Janeiro. Ciênc. Saúde Coletiva 13 (5) Rio de Janeiro, 2008.
HANSEN, et al. Risk of respiratory morbidity in term infants delivered by elective caesarean section: cohort study. BMJ, v.336, n.7635, Jan 12, p.85-7, 2008.
BOCCOLINI, et al. Fatores que interferem no tempo entre o nascimento e a primeira mamada. Cadernos de Saúde Pública, v.24, p.2681-2694, 2008.


sábado, 31 de março de 2012

Multimídia Parto no Brasil - Michel Odent na Fiocruz

Saúde Primal: da concepção até o primeiro ano de vida

Foto: Michel Odent, Laura Uplinger e Maria do Carmo Leal
Informe ENSP  

Confiram a palestra que Michel Odent, médico e pesquisador do Primal Health Research Centre, Londres, na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca. 

A mesa foi coordenada pela pesquisadora da ENSP, Maria do Carmo Leal, responsável pelo Inquérito Nacional sobre Parto e Nascimento. 

Tradução consecutiva de Laura Uplinger, psicóloga e educadora no campo de consciência pré-concepção, pré-natal e perinatal.

O evento foi realizado no dia 28 de março de 2012, na ENSP, Rio de Janeiro.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Pesquisadora destaca a necessidade de maior atenção à saúde materno-infantil


Por Vinicius Zepeda
Nos últimas décadas, o Brasil tem praticado uma forma de atendimento ao parto e ao nascimento que poderia ser mais eficiente e humanizada. O alerta é de Maria do Carmo Leal, Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, médica sanitarista e pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp) da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Uma das maiores especialistas do País na questão da atenção à saúde de bebês e gestantes, tema que vem estudando desde os anos 1980, ela explica que os melhores índices de resultados obstétricos e perinatais estão em países da Europa Ocidental, como Suécia, Noruega, Inglaterra, França, onde a maioria dos partos acontece de forma normal ou natural – quando não há indução de nenhuma espécie e o parto ocorre no tempo adequado para o recém-nascido, respeitando a necessidade de maturação e desenvolvimento dos fetos dentro do útero. "Muito diferente do modelo que adotamos no Brasil, que é bastante intervencionista, chegando mesmo a colocar o País na péssima condição de ser o detentor das maiores taxas de cesárea do mundo", afirma Maria do Carmo. Segundo a pesquisadora, é preciso recuperar as práticas de partos naturais. "Na Europa Ocidental, o índice de mortalidade de bebês chega a ser três vezes menor que o brasileiro. Já no caso da mortalidade materna, o índice europeu chega a ser dez vezes menor que o brasileiro", complementa.
A pesquisadora, que recentemente deixou o cargo de vice-presidente de Ensino e Pesquisa da Fiocruz, explica que a cirurgia cesariana é uma excelente tecnologia que salva vidas de mães e bebês, mas quando é feita sem indicação deixa de ser benéfica e passa a representar riscos. "No Brasil, a maioria dos partos operatórios ocorre por escolha do médico e da gestante, sem indicação ligada à presença de qualquer patologia materna ou fetal", afirma. Maria do Carmo, porém, destaca que vários estudos internacionais vêm mostrando os riscos associados ao parto cesáreo para a gestante e o recém-nascido, quando não há indicação clínica, tais como maior probabilidade de o recém-nascido precisar de suporte ventilatório, ida para a UTI neonatal, dor e desconforto imediatos, adoecimento e óbito durante o primeiro ano de vida dos bebês. "No caso das mães, aumenta-se a chance de problemas de inserção da placenta e ruptura do útero nas futuras gestações", acrescenta.
Para conhecer a realidade brasileira, está em curso um estudo nacional denominado "Nascer no Brasil: Inquérito Nacional sobre parto e nascimento", sob a coordenação de Maria do Carmo Leal. Apoiado pelo Ministério da Saúde e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o estudo entrevistará 24.000 mulheres que pariram recentemente em hospitais públicos e privados, em todas as capitais e o interior de todos os estados brasileiros. "Previsto de completar a coleta de dados em dezembro desse ano, esse estudo permitirá uma avaliação dos resultados perinatais – períodos imediatamente anterior e posterior ao parto – de acordo com a modalidade de parto praticada", acrescenta.
Maria do Carmo Leal chama ainda a atenção para a necessidade urgente de reduzir as taxas de mortalidade infantil e materna no País. "O Brasil assumiu um compromisso com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) – conjunto de oito metas firmadas pelos 191 Estados membros da Organização das Nações Unidas (ONU), em 2000, com vistas à redução das desigualdades mundiais até 2015 – mas não deverá cumprir a meta estipulada em relação à mortalidade materna, o que se constituirá uma vergonha para o País", afirma. Segundo a pesquisadora, os dados também estão associados ao modelo de atenção ao parto e nascimento que adotamos, pois, hoje, 97% dos partos ocorrem dentro dos serviços de saúde, segundo as estatísticas oficiais. "O modelo intervencionista de atenção obstétrica não se refere somente às cesáreas, mas diz respeito também ao uso indiscriminado de ocitocina, episiotomia e outras intervenções desnecessárias e não mais recomendadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS)", complementa.
Com apoio da FAPERJ, a médica sanitarista concluiu um estudo sobre a qualidade do atendimento pré-natal nas unidades públicas do município do Rio de Janeiro. "Com elevadas coberturas de atendimento ao pré-natal, atingindo, pode-se dizer, a totalidade das mulheres grávidas, o município do Rio de Janeiro ainda tem problemas incompatíveis com a extensão de cobertura que oferece. Por exemplo, uma taxa excessivamente alta de sífilis congênita", afirma. O estudo procurou entender onde estavam as falhas nos processos de atenção e procurou identificá-las em três componentes: gestantes, profissionais de saúde e infraestrutura dos serviços de saúde. "Comparecendo regularmente às consultas pré-natais marcadas no decorrer da gravidez e seguindo, na medida do possível, as recomendações médicas, as mães foram as que melhor cumpriram sua parte", recorda a pesquisadora. Já os profissionais de saúde foram os que mais falharam. "Observamos que falta uma melhor formação para eles se comunicarem com a população. Se o médico ou enfermeiro não interagem com as mães, não dialogam porque certos comportamentos devem ser evitados, não orientam sobre os alimentos que são mais adequados, que medicamentos são necessários e como usá-los, não se terá a adesão dessa mãe desinformada", explica. Segundo a pesquisadora, vários estudos têm mostrado que o entendimento do uso do medicamento receitado é muito baixo. "Além disso, a falta de diálogo entre médico e paciente torna grande o uso incorreto, principalmente quando há desnível educacional e a paciente tem vergonha de perguntar o que não entendeu", complementa.
Outro problema identificado no estudo refere-se ao funcionamento do SUS para o atendimento pré-natal, em que se constatou atraso na disponibilização dos resultados de exames de rotina. "De que adianta fazê-los se eles não são disponibilizados em tempo hábil? O problema, identificado no Rio, está presente em outros lugares", destaca a sanitarista. Segundo Maria do Carmo, o que temos hoje no SUS é a instalação de várias facilidades diagnósticas e de infraestrutura para suporte, por exemplo, uma boa assistência pré-natal, mas sem velocidade nos processos para que o investimento feito redunde em proteção efetiva às mães e recém-nascidos. "A dificuldade de comunicação entre os profissionais de saúde e os pacientes é outro problema dessa mesma natureza. Esse ajuste fino é o nosso desafio atual", explica. Para ela, o enfrentamento dessas mudanças não poderá ser feito isoladamente pelos serviços de saúde. "Será necessário uma revisão na formação do profissional de saúde, que atualmente não está saindo da universidade preparado para realizar bem a sua tarefa de atender a população", destaca.
A edição de maio de 2011 da revista inglesa The Lancet, uma das publicações médicas mais influentes do mundo, publicou pela primeira vez na sua história, um número falando somente sobre o sistema de saúde e a saúde do brasileiro. Pesquisadores de todo o País traçaram, em artigos, um panorama sobre o funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS) com base em um extenso estudo de documentos existentes. Na publicação, Maria do Carmo Leal apresentou, em conjunto com outros pesquisadores, a situação da saúde materno-infantil no Brasil. Para ela, a discussão na renomada revista inglesa foi uma oportunidade enorme e o reconhecimento dos esforços feitos pelo País na área da saúde. "Com a revista, pudemos mostrar ao mundo que temos um sistema de saúde e que, com qualidades e insuficiências, estamos avançando na direção correta de oferecer uma atenção à saúde pública e gratuita para todos os brasileiros", afirma a pesquisadora.
Um dos pontos abordados em seu artigo diz respeito ao número abortos praticado no País. Maria do Carmo explica que, em 2008, o SUS contabilizou 215 mil internações de mulheres em hospitais públicos, decorrentes de complicações de abortos feitos no País. Estima-se que o número de abortos, resultante da soma dos contabilizados oficialmente e dos feitos ilegalmente é cinco vezes maior, chegando à cifra de um milhão. Em vista desses fatos, a pesquisadora se mostra pessoalmente favorável à legalização do aborto. No Brasil a legislação só permite no caso de estupro ou de feto anencéfalo (sem cérebro). Neste último caso, porém, somente depois de autorização judicial. "O aborto ilegal, como é praticado pelas mulheres mais pobres em clínicas clandestinas, é uma chaga em nosso País. Ele maltrata e humilha a mulher, além de ser a quarta maior causa de mortalidade materna no Brasil, só perdendo para hipertensão, infecção generalizada (septicemia) e hemorragia", afirma. "Enquanto as mulheres ricas fazem abortos pagos em clínicas particulares de maneira segura, as pobres estão sujeitas a infecções e ao risco de infecções e da própria vida", acrescenta.
Apesar das dificuldades ainda enfrentadas na área da saúde, a médica identifica como muito positiva a busca de soluções para problemas crônicos na gestão do SUS. Entre os exemplos, ela cita o maior investimento nos Programas de Saúde da Família, nas capitais e cidades de grande porte, como vem acontecendo no Rio de Janeiro, e o desenvolvimento do Rede Cegonha – projeto do Ministério da Saúde, lançado no final de março de 2011, que pretende reunir um conjunto de medidas para garantir a todas as brasileiras, pelo SUS, atendimento adequado, seguro e humanizado desde a confirmação da gravidez, passando pelo pré-natal e o parto, até os dois primeiros anos de vida do bebê. "Com essas iniciativas, espero que no futuro as crianças possam nascer de forma mais humanizada, sem aceleração de seu processo de maturação. Que nasçam quando, de fato, avisarem que estão prontas para chegar", conclui.
Fonte: FAPERJ - http://www.faperj.br/boletim_interna.phtml?obj_id=7379
* Ilustração de Paulica Santos.

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