Mostrando postagens com marcador saberes tradicionais. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador saberes tradicionais. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Conheça o Projeto Mulheres da Terra


O Blog Parto no Brasil divulga hoje, c/ mais detalhes, o Projeto Mulheres da Terra, comentado em maio deste ano, no post - Mulheres da Terra. Conheça sua história, seu propósito, sua atuação e lindas imagens - outros dados aqui!

Francisquinha, parteira tradicional indígena, do Amazonas, por Isadora Carneiro.

- A Concepção -

Mulheres da Terra foi concebido com o interesse de aprofundar questões que envolvem o processo de nascimento do ser humano. Dentro da Antropologia, o nascer é tido como um ritual de passagem, um evento universal que todos nós atravessamos, e cuja forma e circunstâncias variam de acordo com cada cultura e a região onde se está inserido.

De que maneira o processo de nascimento, a forma como chegamos a esse mundo, pode interferir em nossas vidas? Quais impactos isto traz aos nossos comportamentos e ações? Em suma, de que modo o cuidado com a vida intra-uterina e com a experiência do parto e nascimento representam um cuidado essencial para com o mundo, e, portanto, tem o potencial de transformá-lo?

Na medida em que a vida humana caminha em direção aos avanços tecnológicos, cada vez mais sofisticados, conquistamos progressos até antes inimagináveis. Porém, não é difícil perceber que, gradativamente, estamos perdendo o interesse por alguns detalhes muito importantes da vida, especialmente no que concerne à conexão das pessoas com a natureza, e seus ciclos sazonais e fisiológicos.

Visando a compreensão de que um nascimento digno é o primeiro direto do ser humano, ressaltamos o fato de que o Brasil alcança, hoje, o maior índice de cesarianas do planeta, e questionamos quais serão as consequências disso para a saúde das mulheres e das crianças que estão nascendo.

França, parteira tradicional, por Camila Reis Colonhesi.

 - O Nascimento -

O trabalho realizado pelas parteiras tradicionais é uma das atividades mais antigas exercidas na história da humanidade, e está inserido nas raízes de todos os povos e suas culturas específicas, que já existiram, e que ainda existem.

O projeto Mulheres da Terra nasceu à partir do contato com parteiras tradicionais do Brasil, e se estende por pesquisas e encontros com parteiras em outros países e continentes, revelando ensinamentos poéticos e profundos tão ancestrais quanto contemporâneos.

Por mais distantes que estejam umas das outras ou por mais distintas que sejam suas culturas, as parteiras trazem a compreensão de que gestar, parir e nascer são processos sagrados da experiência e da vida humana, e por isso, requerem muita atenção e cuidado.

Mulheres da Terra reúne histórias que transmitem a simplicidade e os valores de sábias mulheres ao redor do mundo. Dedicando suas vidas para ajudar ao próximo, elas vem acolhendo com amor as gerações ao longo dos tempos.

Coletivo de parteiras tradicionais Gandharbas, de Banzar/Nepal, por Isadora Carneiro.

Por que Mulheres da Terra?

Quando os antigos viviam em harmonia com os ciclos da natureza, eles respeitavam a Terra como a grande Mãe de todos os seres vivos. A generosidade da Mãe-Terra era reconhecida por nutrir e alimentar a vida, e quando essa vida se transformava, eles compreendiam que todos os seres, um dia, voltariam à ela.

Desde o início da existência humana, as mulheres doaram seus corpos para conceber e gerar a vida. Nas palavras de Suely Carvalho, parteira tradicional: “O útero é a matriz da humanidade, e todo ser humano passou por dentro de uma mulher. É preciso que a gente dignifique a vida como um milagre.

Mulheres da Terra vem para resgatar o contato mais íntimo entre o ser humano e sua verdadeira natureza, disseminando informações e conhecimentos que estimulem escolhas mais conscientes nas experiências tão vitais e significativas que são a concepção, a gestação, o parto e o nascimento.

Em Deserto do Thar, por Mariana Kuroyama.

Conheça a Fanpage Mulheres da Terra no Facebook
Curta e Compartilhe!



Na USP Leste, na EACH, em São Paulo capital, acontece a Exposição Mulheres da Terra, c/ belíssimas imagens de parteiras tradicionais, até dia 06 de julho. Mais informações aqui!

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Pronunciamiento - Encuentro Con La Partería Tradicional De Oaxaca

Revista, Midwifery Today. E. 69. 2004


Considerando que las parteras tradicionales, durante miles de años hemos hecho nuestro trabajo con calidad y respeto, y que las instituciones y los medios de comunicación han bloqueado nuestro papel fundamental en la reproducción de los pueblos indígenas, las personas involucradas en este Foro nos pronunciamos por:

Que se respete el trabajo digno de las parteras por el gran espíritu de vida que se conjunta en uno solo: madre, padre, bebé, partera y naturaleza.
Necesitamos unirnos todas las parteras para cumplir nuestra misión y lograr una atención humanitaria haciendo el parto cálido, alegre y bonito.
Para que los conocimientos tradicionales de los ancianos y ancianas no se pierdan, nosotras los aprendices queremos aprender de su teoría y práctica.
Queremos que nuestra práctica sea respetada de acuerdo a las costumbres de cada comunidad.
Como parteras atendemos a la mujer de acuerdo a sus necesidades y con amor a nuestra práctica, las preparamos desde niñas para su vida reproductiva. En casos de riesgo y siempre y cuando la partera pida apoyo exigimos que se le atienda de la manera más atenta y oportuna.
En caso de riesgo y/o complicaciones la partera tiene el derecho de acompañar y asistir a la parturienta aunque ésta se traslade a alguna institución de salud.
Que se respete la riqueza cultural que tenemos y haya comunicación mutua y conciente entre parteras y médicos.
Pedimos el reconocimiento y promoción de la partera tradicional en políticas y programas, a fin de asegurarle el respeto pleno a sus derechos que se traduzca en hechos y actitudes.
Que los programas de salud sean de acuerdo a las necesidades de la comunidad, y no del gobierno.
Que todo lo que quieran hacer sobre el cuerpo de la mujer sea bajo su consentimiento.
Como seres humanos somos uno solo y tenemos los mismos derechos el hombre y la mujer.
Que en cualquier programa de salud sexual y reproductiva sean partícipes la mujer y el hombre. Que el marido comparta el proceso del nacimiento para concientizar a la pareja de la responsabilidad que deben tener ambos dentro del núcleo familiar.
Que nosotras como parteras comuniquemos a las parejas de la importancia del respeto mutuo para formar una familia sólida, feliz y próspera.
Declaramos la urgencia de cuidar nuestro medio ambiente para evitar que se siga contaminando nuestra tierra, el agua, los bosques y el aire y así preservar y fortalecer a nuestra Madre Naturaleza.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Dia da Parteira e seus múltiplos - III

Por Suely Carvalho

5 DE MAIO DIA MUNDIAL DA PARTEIRA
Como Parteira Tradicional, missão e Dom herdado das minhas ancestrais avós e bisavós parteiras as quais honro hoje e sempre, quero falar para minhas colegas companheiras de ofício para as queridas aprendizes e também falar sobre nós parteiras oportunamente neste momento de celebrações, reivindicações e denúncias que se ancora no decorrer do mês de maio.
Durante centenas de anos as parteiras atuavam como sempre fizeram desde que a humanidade existe e sequer entendiam o quanto era importante. Diferente da maioria das profissões ser parteira é muito mais do que estar presente na hora do parto e nascimento ajudar a mulher e aparar o bebê. Não escolhemos esta profissão assim como as demais profissões onde as pessoas escolhem prestam vestibular e se aprovados cursam alguns anos recebem um título e acreditam estar prontas para exercer, torna-se profissional antes de ter a experiência apenas com a teoria e no máximo algum tempo de estágio. No ofício de parteira sentimos o chamado de alguma forma e geralmente nos aproximamos da prática seja com nosso próprio corpo ou com outras mulheres ou ajudando alguma parteira. Nascemos com o DOM, é missão de vida. Entendo que alguns outros ofícios também nascem com a pessoa. Dom é diferente de talento. 
Algumas parteiras se referem ao acaso, aconteceu de uma mulher vizinha ou parente começou o parto sozinha sem ter ninguém para ajudar e chamou, ou a que teve coragem chegou e ajudou seguindo a intuição, neste momento sentiu medo e alegria algo inexplicável. Aconteceu mais uma ou duas vezes e pronto ela ouviu o chamado e sabia que tinha o Dom de parteira mesmo necessitando de muito tempo e muito mais conhecimentos e experiências mas, estava iniciada. Outras parteiras aconteceu com seu corpo ao ter seus próprios partos fez quase tudo sozinha e sentiu claramente que era capaz e naturalmente as grávidas foram chegando e os bebês nascendo com sua ajuda. No seu dia a dia a parteira não fica em um consultório ou hospital cumprindo um horário de atendimento ela está fazendo outras coisas naturalmente e quando chega alguém chamando tudo passa para o segundo plano e a prioridade é a gestante em trabalho de parto sem ter hora para voltar para sua casa. Disponibilidade, dedicação e compromisso são combustíveis que mobilizam a parteira, quando volta prá casa está cansada algumas vezes sem o devido reconhecimento, mas leva paz na consciência gratidão no espírito e emoção no coração. Sensação de dever cumprido. 
A cada parto aprendemos mais e mais por isso, quanto mais antiga mais experiente e mais sábia é a parteira. Diferente das profissões modernas que se dá todo mérito aos recém-formados no nosso caso de parteira o tempo e a experiência qualificam a profissional assim quando já idosa com muitas décadas de experiências não precisa mais estar nos partos, é mestra para ensinar e contar as histórias de vida e morte, de dor e alegrias, de bebês que se fizeram gente grande, de reconhecimentos e injustiças. Se ela formou aprendizes herdeiras do seu saber estas seguidoras irão beber dessa fonte e com segurança e determinação dar continuidade a essa tradição milenar honrando sua mestra e as ancestrais ante passadas.
Nos últimos anos em vários países, e o Brasil se inclui fortemente, estamos numa fase de emersão conquistamos visibilidade. Historicamente é cíclico que a existência e prática das parteiras emergem nas diferentes sociedades galgam visibilidade reconhecimento depois vem as tentativas de mudanças de descréditos por parte dos sistemas vigentes e de grupos sociais específicos, voltam as perseguições as iniquidades e as injustiças. Mais uma vez as parteiras voltam ao estado latente porém sem nunca deixar de atuar seguem na invisibilidade partejando silenciosamente e solitariamente como forma de cumprir a missão de sobreviver e continuar existindo. Embora muitas pessoas em diferentes sociedades acreditem que as parteiras não existem mais ou estão em extinção como parte da natureza, o elo jamais foi rompido, sobrevivemos a caça às bruxas no obscuro período da inquisição, sobrevivemos a hegemonia hospitalocêntrica criando a cultura da cesariana desnecessária e aqui estamos queridas amigas e companheiras parteiras, existimos porque resistimos, somos nós mesmas parteiras que sabemos o que fazer e como atuar nas horas de escuridão e injustiças, sabemos também que nas fases de euforia e modismos precisamos cuidar do que nos é mais precioso nosso Saber e prática repassado de geração em geração entre mulheres e homens de espírito feminino. Aqui estamos, em todos os lugares deste planeta presentes no momento sagrado em que um novo Ser brota da Pachamama saindo de dentro de uma mulher trazendo luz e esperança.
Hoje, 5 de maio de 2012 dia mundial da parteira, estou num lugar distante onde a natureza é uma explosão de vida força e beleza no alto da serra dos papagaios nas Minas Gerais, esperando o parto de uma jovem obstetriz, aprendiz de parteira do CAIS do Parto minha aluna. O bebê já está quase chegando. Hoje dia da parteira e é também a maior lua cheia do ano assim que nascer a Lua cheia de Budha faremos uma grande fogueira no quintal da casa desta mulher prestes a dar a Luz iremos celebrar a vida nova que chega plena de fé esperança e possibilidades, junto ao fogo iremos celebrar nossas ancestrais antepassadas parteiras que foram queimadas na fogueira da intolerância fogueira das vaidades fogueira das injustiças conhecida como inquisição. Iremos chamar a força dessas mulheres sábias ancestrais que antes de nós prepararam o caminho e cuidaram de preservar a cultura e a tradição, vamos honrar a existência delas e vamos honrar nossa própria existência para que tenhamos a mesma força e sabedoria de seguir na missão de parteira tradicional, para cumprir esse compromisso nascemos e aqui estamos. 
Com o coração cheio de gratidão e amor abraço todas, comadres e compadres, alunas, companheiras, mestras, afilhadas e afilhados.

Axé, namastê, I hei yá, que a grande Mãe nos abençoe.

Suely Carvalho –  61 anos, 39 anos de ofício de parteira tradicional, duas filhas, um filho, 11 netos e netas, uma bisneta. Fundadora do C.A.I.S. do Parto - 1991, coordenadora da Rede Nacional de Parteiras Tradicionais do Brasil, cofundadora da REHUNA (Rede pela Humanização do Parto e Nascimento), cofundadora da RELACAHUPAN (Rede Latino Americana pela Humanização do Parto e Nascimento), vice-presidente da ALAPAR (Aliança Latino Americana de Parteiras - México), Assessora da ASOPARUPA (Associação de Parteiras Unidas do Pacífico - Colômbia), Rede de Escolas de Parteiras -Argentina, Instrutora da formação de aprendizes de parteiras tradicionais do CAIS do Parto, Griô, leitora de aura, rezadeira, curandeira xamânica.

terça-feira, 13 de março de 2012

Colo e Despedida da Barriga - boas práticas brasileiras

Buenos dias!

Depois de alguns dias ausentes por aqui, por conta de uma vivência c/ mulheres muito especiais, no Estado de São Paulo, hoje trago mais uma boa prática brasileira, na assistência à mulher gestante e sua família!

Os posts anteriores nos trouxeram a discussão tão pertinente sobre a violência institucional, vivida por inúmeras mulheres em todo o País, sejam nos corredores frios dos hospitais, nas vozes caladas, nos corpos deitados, nas vaginas cortadas... Debate pouco (ou quase nada) discutido pelas e entre as mulheres, que velam suas dores... Assim, é hora de falar!

Mas, p/ também nos lembrar das alegrias de gestar p/ parir, trago a prática do Colo e Despedida da Barriga feito pelas Rodas de Casais Grávidos da ONG CAIS do Parto - Centro Ativo de Integração do Ser, realizada em Olinda/PE há 22 anos, fruto da parteira tradicional Suely Carvalho, que atua há mais de 40 anos, presidente da Rede Nacional de Parteiras Tradicionais, que já amparou mais de 5.000 bebês por todo o mundo!

Ana nos trouxe o exemplo do Chá de Bençãos, organizado em Minas Gerais, pela Roda Bem-Nascer e pelo Ishtar, e nos fez (re)pensar que tipo de cuidado uma gestante necessita neste momento singular e divisor de águas que é a gestação, o trabalho de parto e o parto.

Todas às terças-feiras, a partir das 19 horas o CAIS do Parto recebe casais grávidos, mulheres com seus filhos, doulas, aprendizes de parteira e interessad@s para debater sobre assuntos ligados ao universo da gestação e parto. Como facilitadoras parteiras tradicionais que trazem à tona os aspectos fisiológicos, culturais e espirituais do nascimento de um novo Ser. Além disso as parteiras da ONG também esclarecem as grávidas que serão atendidas por elas, nos meses seguintes, tendo Suely Carvalho e sua filha Marcely Carvalho como as parteiras da casa, informando-as sobre os cuidados, a alimentação, o dia-a-dia durante os próximos nove meses, o trabalho de parto e parto, a chegada do bebê, a amamentação.

Além disso, as gestantes que estão p/ parir recebem do grupo um colo e tod@s despedem-se da barriga, a espera do nascimento! Momento muito especial, de amor, carinho, cuidado!

Estive em outubro numa dessas rodas, em Olinda, e, em janeiro deste ano participei em Bauru/SP de outra. Muita emoção!

A roda começou!

Suely Carvalho em atendimento c/ a gestante que recebeu o Colo da noite!

Colo e Despedida da Barriga de Denise Cardoso.

Denise e Anahí, a espera de Ravi!

Assim, vemos e percebemos o que uma mulher que gesta necessita, em sua essência. Calma, coragem e amor!

_____________________________________________________

No dia 17, sábado, às 10 hs. Suely Carvalho estará em Jundiaí/SP p/ uma Roda de Casais Grávidos no espaço Gerar e Nascer Humanizado Jundiaí, coordenado pos Thiana Andreotti Ferrarezi - aqui!

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Entrevista c/ a parteira tradicional Suely Carvalho

O Blog Parto no Brasil compartilha hoje uma entrevista c/ a parteira tradicional Suely Carvalho, por Say Adinkra, que nos trás a beleza do Chamado e da sacralidade feminina, numa perspectiva holística guiada pela Tradição dos povos, além da história do CAIS do Parto, em Olinda/PE, que todas às terças-feiras, há 22 anos realiza rodas de casais grávid@s, no Centro Cultural Luiz Freire, às 19h30,  na R. 27 de janeiro, 169, Carmo.




segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Parto Aymara

O post que inicia esta semana é sobre uma experiência exitosa no Chile, em Iquique, c/ a população rural Aymara, que mescla saberes tradicionais, partería e atenção ginecológica - confiram no vídeo abaixo:



Saibam mais no post:

http://www.paula.cl/blog/salud/2009/08/05/el-aporte-del-parto-aymara/

"En el hospital de Iquique un doctor y cinco matronas crearon un modelo de parto indígena único en Chile en el que la mujer aimara se entibia con mantas altiplánicas, toma infusiones, recibe masajes de su partera y da a luz en la posición que quiera, rodeada de su familia, como es su tradición. Lo asombroso es que el equipo médico descubrió que aquello que las aimaras han hecho por siglos es exactamente lo mismo que la OMS recomienda para un parto con apego."

Neste outro link pode ser baixado um artigo sobre este tipo de assistência, chamada de intercultural:

Atención Aymara de Salud en el Embarazo y el Parto, em Las Wavas del Inka -

http://www.ilcanet.org/publicaciones/pdf/wawas/wawas_11atencion.pdf

Foto do mapa - daqui.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Lançamento de "Parteiras Caiçaras", em Cananéia


Eita que vai ser bão demais contar p/ vcs como foi a festividade nesta última terça-feira, no lançamento da publicação "Parteiras Caiçaras: relatos e retratos sobre parto e nascimento, em Cananeia, SP", no Ponto de Cultura "Caiçaras" - Matimpererê Empório Cultural, então, bora! Mas, hj o relato é de comadre, visse!
Durante dois dias minha comadre, mais uma amiga e eu montamos uma instalação no espaço que seria o "quarto da parteira"! Objetos de costura também não podiam faltar, então uma ideia "maluca" na cabeça de uma seria facilmente executada na cabeça da outra, rs! E, não é que em um Corsa levamos uma cama de solteiro, uma máquina de costura antiga, além do pé dessa máquina, daqueles bem vintage inesquecíveis de nossas avós. Bota no meio disso uma cria, e muitos apetrechos: toalha, lençol, bacia ("Ai, quem tem bacia de alumínio?! Passe no Xavier, Sil, que lá deve ter!" - e, não é que tinha, rs!), Bíblia, alguma imagem de santa, ervas medicinais etc. Enquanto isso a outra comadre, c/ dotes de boleira-confeteira, aprendidos c/ a mãe, preparava o bolo de D. Enedina, que completaria 81 anos!



Uma linda rede de mulheres que cuidam uma das outras...

P/ completar a festa, a vinda de duas amigas queridíssimas tb estavam nos planos!
Na degustação, o Café Caiçara organizado pela Associação Rede Cananéia, c/ produtos da agricultura familiar provenientes dos sítios, além de um bom Fandango p/ alegrar ainda mais a noite!

As arpilleras que bordamos, costuramos e que integram o livro também estavam expostas!

No momento exato que chegávamos no evento D. Enedina acabava de descer do carro, toda linda! É... foi difícil naquela hora segurar a emoção, mesmo porque c/ o tempo chuvoso ainda estava em dúvida se ela viria, pois teria que enfrentar uma longa viagem fluvial.

Com a casa lotada, como nunca vimos antes, c/ cerca de 70 pessoas agradecemos aquela vida dedicada às mulheres e aos bebês! E, em sua sapiência ouvimos algumas histórias de como era a vida da parteira - de dedicação, doação, e amor! Sem hora p/ ser chamada, sem hora p/ voltar, fosse na chuva, ou no sol!

Além dela estavam presentes, ainda, Cleusa, também parteira tradicional, e muitos parentes de D. Enedina, inclusive nascidos por suas mãos, além de sua filha Izildinha, que acompanhou de perto o ofício da mãe, mas que não herdou a Tradição.

Eu queria me dividir em muitas... E, naquele dia eu entendi, em meu coração, o que era "carregar a bolsa da parteira", c/ todo o cuidado desprendido c/ D. Enedina, a atenção, o carinho, e acima de tudo, o respeito!
Uma noite que nunca será esquecida... mais um degrauzinho dessa jornada, de muitos...
Bate-papo c/ @s amig@s querid@s, encontros, risos e alegria! Muita alegria, e a sensação de dever cumprido! Para que um pouco de nossa História não seja esquecida, para que essas mulheres guerreiras, parteiras, mães e avós sejam reconhecidas, valorizadas, e agradecidas!
Aproveito p/ agradecer tod@as as pessoas que contribuíram p/ que este trabalho fosse concretizado, bem como os presentes. Cada abraço, cada beijo, cada olhar. Cada confiança.

E, que D. Enedina possa assoprar muitas, e muitas velinhas!
- Leiam mais sobre esta inciativa no Blog da Rede Parto do Princípio - aqui!
Fotos de Mayra Jankowsky, Leandro Cagiano e Silmara Guerreiro.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Mulheres da floresta


Por Patrícia Schleumer
Uma mulher de longos cabelos negros acompanha a filha que acaba de menstruar até a beira do rio para um ritual de passagem. São índias da etnia Arara Shawãdawa, uma aldeia situada nas entranhas da Floresta Amazônica, no Acre. Em sua primeira menstruação, as jovens aprendem que devem devolver esse sangue para a Terra e para a água, a fim de reverenciar a sintonia dos seus ciclos com a natureza. Diz a sabedoria da floresta que, dessa forma, elas ficam protegidas de cólicas e garantem um bom parto. As índias usam um pano – como os absorventes ecológicos ainda pouco usados pelas mulheres da cidade – e durante os seus ciclos lavam o pano no rio: “A índia primeiro oferece o sangue para a Terra e depois devolve o resto para a água, onde ela lava o pano e guarda para usar sempre que menstruar. Meu avô, que foi pajé, falava que a mulher não pode usar nada a não ser um pano limpo, de algodão, para ser saudável e não pegar uma inflamação ou uma doença no útero”, explica dona Francisca das Chagas, parteira, com experiência em mais de mil partos naturais na sua aldeia e em vários locais do Brasil. Dona Francisca é uma das representantes brasileiras que participa das atividades do Conselho Internacional das Treze Avós Indígenas, organizado pela ONU, que reúne anciãs de várias etnias indígenas para trocar experiências e preservar as tradições de seus povos. Elas se declaram representantes de uma aliança de prece, educação e cura para a Mãe Terra, para todos seus habitantes e para as próximas sete gerações. Dona Francisquinha, como é mais conhecida, mãe de 12 filhos e avó de 13 netos, também nasceu em uma família grande, com doze irmãos: – O mais velho foi o Manuel, depois veio a Nair, depois a Nedina, depois o Francisco, depois o Nalésio, o Raimundo, aí veio a …” Ela para para lembrar e percebemos, rindo, que finalmente era ela: a Francisca, nascida pelas mãos da tia da mãe e do próprio pai que era parteiro e pajé. O pajé é o conselheiro e o curandeiro da aldeia. Ele aprende com o pai, que aprendeu com o avô etc., seguindo uma tradição oral que passa ensinamentos como a medicina da floresta, de geração em geração. Com um tom de voz calmo e olhar sereno, sem a pressa que costumamos ter nas grandes cidades, ela explica: – O pajé sabe tudo, das coisas da matéria e, principalmente, do espírito. Ele conversa e fala o que você precisa ouvir, é muito sábio. A mulher ou filha do pajé também sabe muito. Eu aprendi muito com meu pai e minha mãe, que também era parteira; quando tinha um parto na aldeia, minha mãe dizia que não era bom me levar, porque a cena era muito forte. E meu pai respondia: “Não, ela tem de ir porque ela tem de aprender, ela vai ser parteira, não tem nada forte para minha filha, ela vai aprender tudo.” Desde pequena ouço meu pai dizer: “Minha filha, você deve ter amor por você; se você tem amor por você, você tem amor pela humanidade.” E a profecia do pajé se cumpriu. Além de dona Francisca ter se tornado uma parteira conhecida e requisitada fora dos limites de sua aldeia, ela também se tornou uma das guardiãs da cultura e da sabedoria de seus ancestrais. Vivendo no ritmo da própria natureza Muitas mulheres da cidade procuram dona Francisca para tratamentos de saúde ou para se prepararem para o parto. Seus remédios são feitos com as plantas, raízes, folhas e flores da floresta amazônica. Perguntei o que ela achava sobre a dificuldade que muitas mulheres têm para engravidar ou para parir naturalmente; ela me disse: – As mulheres que vivem na cidade trabalham muito para pagar contas e perdem a tranquilidade e o amor de dentro delas. Elas pensam em ganhar mais dinheiro e o tempo passa; quando param e querem filhos com a idade avançada, fica mais difícil. Diante da simplicidade de sua sabedoria, concluo que o estresse da mulher urbana a desconecta de sua própria natureza e essência feminina, dificultando a possibilidade de uma gravidez e pergunto sobre como é o ritmo de trabalho das índias: – Na aldeia, as índias também trabalham muito na cultura, fazendo remédios, mas elas trabalham vendo o que está acontecendo com os filhos e com elas, com a própria matéria e o espírito porque elas estão pisando na terra, sentindo a Mãe Terra, sentindo a floresta o tempo todo. Elas trabalham muito para plantar, para alimentar os filhos, mas com o sentimento da floresta, com sentimento pela Terra, que significa o amor e a paz.” Quando a lua nova aparece no céu, as índias se enfeitam, pintam o corpo todo e fazem uma roda em volta de uma fogueira para dançar para lua. É uma folia. Elas cantam chamando todas as mulheres da aldeia para a roda, até as pequenas índias, e celebram os ciclos da vida noite adentro. Com a benção das estrelas Se para a maioria das mulheres da cidade todas as informações sobre a gravidez e os preparos para o parto são resolvidos em um consultório médico, para as índias é bem diferente. Na aldeia, elas já crescem assistindo a partos naturais e, logo que engravidam, começam a se preparar para receber seu filho. As massagens com óleos para abrir o quadril começam a partir dos três meses de gravidez; a permanência na postura de cócoras também é praticada desde o início da gestação: “Na aldeia, as mulheres não têm problemas com dilatação ou contração porque lá a mulher se prepara bem antes, logo que engravida ela toma os remédios das plantas da floresta e as parteiras vão ajeitando a criança. Quando chega a hora do trabalho de parto, está tudo certo. As mulheres não têm medo da dor, aprendem a entregar-se a si mesmas, a confiar na natureza e as índias mais velhas explicam desde cedo para as moças como são as contrações e a dilatação”. Quando uma criança nasce na aldeia, as parteiras cortam o cordão umbilical e enterram a placenta encostada em uma árvore para devolvê-la para a floresta e para a Terra. E na hora que o nenê começa a nascer, a parteira faz uma reza e começa a entoar uma canção para receber a criança. A canção fala da lua, da água, da terra, do fogo e das estrelas e o bebê nasce envolvido em uma benção sagrada que lhe descreve o cenário da sua nova morada.
Fonte: http://materna.uol.com.br/reportagem-especial/mulheres-da-floresta/#.TfDuw59kuq0;facebook
Imagem: Comadrona hands, de Rebecca Plummer Rohloff

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Instrução para Parteiras Tradicionais


Hoje compartilho um pouco do que vivenciei semana passada quando estive, por uma tarde de domingo, dia 13 e dois outros dias, na terça e quarta-feiras, na presença da parteira tradicional Suely Carvalho, fundadora da ong Cais do Parto, em Olinda/PE, na Instrução para Parteiras Tradicionais, ocorrida em Pariquera-Açu, no Vale do Ribeira/SP, distando 50 km aproximadamente de Cananéia, onde resido, sendo o 2o. módulo em que profissionais de várias áreas realizam esta imersão nas artes da Partería, tendo esta grande mestre Griô como porta-voz.
Tarde e dias intensos e muito felizes no sítio Toque Natural, propriedade da Acunputurista e Musicoterapeuta Esther Pallares, aliado ao carinho das mãos de Ana, que nos contemplava com deliciosos pratos vegetarianos e bolos integrais maravilhosos! Além disso, muita mulherada reunida, e, um único homem, o Rodrigo, em ótimas prosas sobre gestação, parto e pós-parto, querem mais?!
Eu quero, rs!
Suely chegou até a mim por esses caminhos que o destino nos permite viver. Através do casal Fábio e Fabiana, que gestavam Miguel, nascido meses depois pelas mãos de Suely, os recebi em junho passado em meu singelo lar! Já havia a visto pela tv, no Globo Rural, em uma matéria sobre parteiras, e cheguei a escrevê-la para solicitar a permissão de postar um lindo relato dela que havia lido no Orkut - leiam aqui Minhas mestras ancestrais. Assim, quando abri as portas do nosso chalezinho e abracei aquela parteira que nos contou muitas histórias de parto, de sua atuação, de sua luta soube, na serenidade de meu coração, a gratidão que tive por essa oportunidade - vejam aqui as imagens desse encontro!
Meses se passaram e novos trabalhos dessa parceria surgiram! A oito mãos escrevemos um projeto para a realização de uma Capacitação para Parteiras Tradicionais - indígenas, caiçaras, quilombolas e ribeirinhas, tendo em vista o contexto antropológico da região em que resido, com um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do País, num contínuo de Mata Atlântica remanescente e uma rica biodiversidade, com a presença de comunidades tradicionais com práticas, modos de vida, mitos e ritos próprios e peculiares, pertencentes ao patrimônio material e imaterial brasileiro.
Sinto-me lisongeada por atuar profissionalmente na área da Antropologia como uma espécie de guardiã desses saberes na medida em que realizo trabalhos de resgate, registro, difusão e valorização das histórias desses povos, e o parto e nascimento fazem parte desse arcabouço em uma região escassa de riqueza econômica, mas milionária na sabedoria popular.
A metodologia aplicada nesta formação em Parteira Tradicional, oferecida pela Cais do Parto, tendo Suely como Mestre Griô, utiliza da oralidade, do resgate do sagrado feminino, da potencialidade natural e fisiológica de nosso corpo para gestar e parir. Receitas de ervas medicinais e curativas, posições para o parto, o parto, a Medicina da Placenta, a espiritualidade do parto, o pós-parto, a depressão pós-parto, os cuidados na amamentação, os 1os dias com o bebê e a formação de uma nova família são temas tratados neste curso que tem quatro módulos até sua conclusão, em que mais uma nova parteira nasce!
Vejam aqui a entrevista dada por Suely a TV Ribeira, por Esther Pallares, no Programa Medicina Alternativa.
Para ler e assistir alguns documentários em outros posts sobre Suely Carvalho acessem os links abaixo:
Ao natural - http://partonobrasil.blogspot.com/2010/11/ao-natural.html
Quem agora caminha - http://partonobrasil.blogspot.com/2010/10/quem-agora-caminha.html
Pelo direito de nascer de parto normal, do post Luta nossa de cada dia - http://partonobrasil.blogspot.com/2011/01/boa-noite-hoje-o-debate-por-aqui-e.html

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A arte de "pega menino" Brasil afora

Lindo documentário sobre o ofício de parteira na região da Chapada Diamantina, no Estado da Bahia/BA - Saber de Parteira.


[Use o Keepvid para baixar o vídeo]

domingo, 29 de agosto de 2010

Parto no Brasil misturava rezas e gordura de galinha


Separe os ingredientes: fígado cru e gordura de galinha recém-abatida. Ovos quentes, café, vinho do porto, cebola e cachaça. Leve tudo para um quarto, junto com panos limpos e água fervente. Conte com a ajuda de quatro mulheres experientes para a realização desta receita um tanto indigesta: um parto no Brasil Colônia. Cercado de misticismo, o nascimento de uma criança era tenso. O risco de morte da mãe e do bebê era alto e se acreditava que com amuletos e alimentos específicos o dano seria menor. Durante o trabalho de parto, a mulher se agarrava a escapulários e a uma pedra, chamada mombaza, que, segundo a historiadora Mary Del Priori, tinha a função mágica de atrair a criança para fora. Um cordão de santo Antônio era colocado em volta da barriga. Nossa Senhora do Bom Parto, Nossa Senhora do Leite e santa Margarida eram algumas das invocações da futura mãe. Enquanto isso, as parteiras untavam suas partes íntimas com gordura de galinha e óleo de açucena. Ou, ainda, vinho quente. A placenta era rompida com a unha do dedo mínimo da parteira. Quando começava a perder líquido, a parturiente ingeria ovos quentes, café e vinho do porto. Para espantar a dor, o indicado era mastigar cebola, tomar goles de cachaça e amarrar fígado de galinha na coxa. Ao nascer, a criança era banhada com cachaça e estopada – uma mistura de ovos com vinho. Depois, era enrolada com uma faixa. Acreditava-se que a sujeira protegia. Estima-se que 30% dos bebês não sobreviviam ao primeiro ano de vida.
SAIBA MAIS - História das Crianças no Brasil, organizado por Mary Del Priori (Contexto, 2006).
Por Mariana Albanese, Almanaque Brasil, outubro de 2009.

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...