Esse vídeo chega para nos contagiar o final de semana com muito amor!
LIZ nasceu há dois dias, em casa, e o vídeo foi prontamente editado pelo PAI - ocitocina, sabem como é... ♥
SIM! Em Maringá-PR, cidade com 370 mil habitantes e índice geral de cesárea acima de 90% (SUS, planos e privados), as mulheres podem escolher por uma assistência segura e de qualidade para o parto domiciliar planejado! Um salve para o amor dessa família!
Informação - Saúde - Direitos - Autonomia
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sábado, 18 de maio de 2013
segunda-feira, 4 de março de 2013
Nascimento de Surya - Parto Domiciliar
Tudo começou em novembro de 2010, quando a banda do meu marido Silvio Rocha foi convidada para tocar em Buenos Aires e eu e minha amiga Bianca, que namora o baixista Rene, iríamos acompanhá-los. Dois dias antes dessa viagem, encontrei Bianca no supermercado. Nós conversamos um pouco sobre nossos preparativos e logo eu fui embora. Nós só nos vimos novamente no dia da viagem, no aeroporto de Londrina, onde cada uma pegou um voo para São Paulo.
Uns 20 minutos após a decolagem, comecei a sentir um pouco de enjoo e quando chegamos a Guarulhos, onde seria feita a conexão, eu e o Silvio encontramos Bianca e Rene no saguão do aeroporto, aguardando o voo para Buenos Aires. Houve um atraso “básico” no embarque e nós ficamos lá por umas 2 horas! E eu ainda estava meio estranha por causa do enjoo, mas isso já havia acontecido comigo antes em aviões. Vendo meu estado, a Bia fez uma pergunta inusitada e crucial:
- Fer, você tá grávida? Eu logo franzi a testa e respondi:
- Não! ... Não que eu saiba! Porém, Bianca tinha algo revelador para me contar, algo que mudaria minha vida para sempre! E então ela começou:
- Sabe por que perguntei? Porque aquele dia no mercado eu senti sua presença, antes de você se aproximar de mim e tapar meus olhos (tipo advinha quem é?)! E quando eu virei pra conversar com você, “vi” uma luz muito intensa ao seu redor e uma menininha de cabelo cacheado, olhos claros e o com o seu “queixinho” brincando de se esconder atrás das suas pernas! Na hora eu gelei e logo em seguida, eu fui contar pro Silvio, que conversava com o Rene. Ele ficou mexido com a história, mas depois conseguiu relaxar.
Depois dessa espera infinita, nosso voo saiu de São Paulo. Meu marido comprou um bilhete de 1ª. classe sem perceber naqueles sites de promoções e seguimos rumo a “ mi Buenos Aires querido”! Mas minha alegria durou pouco, pois minutos após a decolagem, comecei a ter enjoos de novo e dessa vez foi pior porque a viagem era mais longa, umas 2 horas e meia. E eu de 1ª. classe, vendo meu marido comer um jantar super fino e tomando vinho, enjoando sem parar! Eu não tava acreditando naquilo! Kkkkkkkkkkk.. E quando chegamos a Buenos Aires, logo que a gente saiu do aeroporto e eu respirei ao ar livre, meu enjoo passou na hora! Incrível! E correu tudo bem nos 3 dias em que ficamos lá, só a dúvida da possível gravidez que me incomodava um pouco. E pra resumir, a volta para Londrina foi igual à ida, enjoos com direito a turbulência tipo escorregador tobogã e 2 arremetidas por causa do mal tempo!!! Eu quase desmaiei, quase!!! Antes tivesse..kkkkkk..
Chegamos em Londrina e a 1ª coisa que eu fiz quando acordei foi ir numa farmácia e comprar o teste de gravidez para acabar com essa dúvida infinita! E não deu outra, o resultado foi POSITIVO! Eu estava grávida! Fiquei em estado de choque por alguns minutos, pois não planejamos isso, e assim que o Silvio acordou, eu contei pra ele. Ele arregalou os olhos e surpreso disse:
- É? E eu confirmei:
- É, fiz o exame e deu positivo! E nós sorrimos um pro outro e assim iniciei a gestação da Surya!
Nos 3 primeiros meses senti muito enjoo, mas como num passe de mágica, quando eu entrei no 4º mês, tudo passou! E daí pra frente foi tudo maravilhoso, mesmo quando aos 8 meses, tive uma pielonefrite (infecção no rim em decorrência de infecção de urina). Meu obstetra achou melhor me internar, pois havia risco de aborto espontâneo. E eu fiquei no hospital 1 semana e isso foi fundamental para eu optar pelo PD.
Foi aí que eu decidi ter minha filha em casa! Ganhei o livro “Parto com Amor” (autora Luciana Benatti) da minha grande amiga Ana Carolina Franzon, que me apresentou todo o universo do parto natural humanizado, e esse livro conta 9 relatos de parto, onde um deles me chamou muito a atenção por algumas semelhanças entre a mulher e eu, como: mudança de obstetra, mesma idade que eu, 1ª gestação e demorou para decidir. Ela também pensou muito antes de ter seu bebê em casa! Sem contar que eu fiquei internada na ala da maternidade e vi como era o dia-dia no hospital. Eu tinha receio por ser minha 1ª gestação, mas depois dessa experiência, não havia mais dúvida: a Surya vai nascer em casa! E então fui atrás da equipe para me amparar durante o PD e combinei tudo previamente com o obstetra, com a pediatra e com a doula. Todos eles respeitaram a nossa decisão de ter o bebê em casa e se propuseram a ir até lá no dia do parto. E caso ocorresse algo mais sério, eu seria removida para o hospital, que fica há 5 km da minha casa, ou de carro ou de ambulância, mas dentro de mim, eu tinha certeza de que tudo daria certo! Tudo! Eu iria conseguir cumprir essa missão!
Quando eu entrei na 39ª semana, o Silvio precisou viajar no fim de semana do dia 28/07/11 e eu não sentia nada que pudesse dar indícios de TP. Quer dizer, sentia, mas não sabia! Eu tinha pequenas cólicas/contrações pela manhã, mas como tudo acabava após eu usar o banheiro, eu ficava tranquila. E pouco antes dele sair de viagem, ele pôs a mão na minha barriga e disse pra Surya:
- Filha, espera o papai chegar pra você nascer, tá!? Fica calminha aí! O papai te ama e quer estar aqui quando você for nascer!
E assim foi até domingo, dia 31/07/2011 as 08h30min, quando ele chegou em casa e deitou na cama. Imediatamente, eu senti aquela “cólica matinal” um pouco mais forte, porém fui ao banheiro e mais uma vez, tudo normal! Voltei pra cama, dormi e lá pelas 10h00min, eu levantei com uma “cólica” chatinha, que foi aumentando rapidamente de intensidade até as 11h00min. Eu tentei caminhar e pegar algo pra comer, mas a dor já era forte! Ficava tipo uns 5 minutos doendo e depois parava. Eu sentia vontade de deitar, me encolher pra ver se melhorava um pouco, mas nada fez passar! Eram elas, as contrações! Meu TP havia começado e as dores já eram fortes! Daí 11h30min, liguei para minha querida doula Patrícia Merlin, que mora em Maringá (a 100 km de Londrina), dizendo que eu estava tendo contrações fortes e achava que tinha começado o TP. Ela pediu que eu marcasse o intervalo entre as contrações e a avisasse, caso persistisse a dor intensa. “Pata”, que é seu apelido, disse também, pelo que eu me lembro, para eu tomar um banho e tentar comer alguma coisa. Comecei a marcar num papel e minhas contrações já estavam em 10 em 10 minutos, porém com duração e dores diferentes. E assim foi até as 13h00min, quando liguei pra Pata de novo, quase chorando, falando pra ela vir pra Londrina naquele instante. E ela falou pra eu continuar contando durante a próxima hora, pois ela já estava indo. Estava chuvoso e muito frio neste dia, e eu fiquei até as 14h00min horas deitada na sala, tentando encontrar posição para melhorar as dores. Daí, eu fui acordar o Silvio, que tava dormindo depois d viajar a noite toda, para me ajudar a cortar um pedaço de maça pra comer. Comi com muito sacrifício, tomei um pouco de água e logo em seguida, vomitei tudo! Daí pra frente eu entrei num transe Saí do meu estado de consciência normal e fui para outro mundo! O mundo mágico das contrações doloridas, mais conhecido como Partolândia... kkkkkkkkkkk!! Eu era a contração, eu era o útero! Não sentia mais o ambiente, era só eu e as contrações! Fiquei praticamente muda, não queria conversar com ninguém. O único som que eu emitia era o gemido de dor quando vinha uma contração. Fiquei de olhos fechados, concentrada no que acontecia comigo e deixando meu corpo agir e não minha mente. E por isso, eu não me lembro da sequência exata dos acontecimentos, só me lembro de “flashes”. Então, precisei da ajuda dos que estavam presentes durante o TP para me contar com mais detalhes como tudo aconteceu.
Bom, vamos lá! Meu marido ligou para as pessoas viriam participar do “grande dia” (amiga Ana, mãe, pai e sogra) e quando já era umas 15h00min horas, a Ana resolveu chamar a Thelma, uma enfermeira obstetra queridíssima, que veio em casa me ver. Ela fez o “toque” pra ver como estava a minha dilatação e ouvir os batimentos do bebê. Ela examinou e disse que eu estava com 4 cm e que a Surya estava bem. Nem a dor do toque eu me lembro de sentir! Fiquei no meu quarto o tempo todo, mas como o chuveiro de lá tava queimado, eu fui até o banheiro social da casa e fiquei na ducha e pelo que me disseram, eu gostei! Kkkkkk. Mas estava muito frio nesse dia e a água do chuveiro era pouca para que eu relaxasse. Aliás, nada me relaxava naquele momento, não achei nenhuma posição para amenizar as dores. Eu vi minha família e eles falavam comigo, mas não me lembro de nada do que conversamos. O Silvio falava com eles passando as informações sobre o andamento do TP.
Mais ou menos às 17h00min, minha doula chegou e ela foi o divisor de águas do meu TP. “Pata” me ensinou a respirar empurrando o ar pra dentro do corpo, até o útero e finalmente, tudo foi melhorando. Sem contar os óleos essenciais, o apoio moral e físico que uma doula dá a sua parturiente! Foi fundamental pra mim! As dores ainda eram fortes, claro, mas se tornaram suportáveis. Eu senti que estava mais consciente do que estava acontecendo. Voltei a me comunicar com palavras e quando a Thelma fez o 2º toque, eu já estava com 6 cm de dilatação! Fiquei animada, pois elas (Pata, Thelma e Ana) falavam que estava sendo rápido o processo! E até agora, o Silvio e a Pata falaram com o obstetra só por telefone, e ele havia pedido que eu fosse ao hospital para realizar o exame de Cardiotoco, porém nós ficamos em casa até as 19h00min, e daí fomos pra lá.
Chegando ao hospital, eu já estava exausta! Sentia muita, muita, muita dor; fui de cócoras no banco de trás do carro com contrações de 3min em 3min! Me lembro que o enfermeiro que nos recebeu puxava papo comigo, perguntado de quantas semanas eu tava, se era menino ou menina e eu não respondia nada, óbvio! Em compensação a Pata dava cada “patada” nele que eu ria por dentro! Kkkkkk. Tipo, respostas monossilábicas num tom bem bravo.. Sim! Menina! 39! rsrsrsrsrs.. muito engraçado! Subimos pra maternidade e lá ficamos por cerca de 40min esperando o obstetra chegar. E enquanto isso eu tive que: tirar a roupa, vestir avental, deitar de barriga pra cima numa cadeira reclinável horrível e esperar até que o exame fosse feito. Tudo isso com contrações fortíssimas e nos intervalos uma e outra, eu quase dormia. Sei que ficamos lá até umas 20h30min e eu, já não aguentando mais, falava:
- Eu quero ficar aqui! Eu não aguento mais! Eu não aguento andar de carro de novo! Alguém me ajuda a acabar com isso! Me dá uma anestesia! Kkkkkkkkkkkk... eu quase entreguei os pontos! E eu já tava na fase final do TP, com 9cm de dilatação, mas como eu nunca tinha passado por isso antes, me desesperei! Mas como eu já sabia que isso iria acontecer, por conhecer o relato de parto da Ana, escrevi em meu Plano de Parto que não era pra me dar nada, nenhum remédio, mesmo se eu pedisse, implorasse! E meu marido e a Pata me davam força o tempo todo, muita força! Silvio ficou comigo o dia todo, me ajudando! Todos diziam, inclusive o obstetra, que já havia realizado os exames, que já estava no final. No final mesmo, porque eu saí do hospital com 9 cm para 10 cm de dilatação. O obstetra ainda falou no ouvido do Silvio:
- Vai rápido pra casa porque o bebê pode nascer a qualquer momento, inclusive no caminho! E liga pra pediatra já! Fala pra ela ir pra casa da Fernanda urgente!
Como estava muito frio, não havia quase carros na rua e chegamos a minha casa em 5 minutos. Daí a doula recomendou que eu fosse pro chuveiro e eu fui, porém fiquei apenas alguns minutos e logo saí. Não queria ficar lá, estava muito frio! Então, fui pro meu quarto e lá fiquei por uns 30 minutos. Eu estava de joelhos apoiada na cama, sobre um travesseiro, quando de repente, senti um calor junto com a contração e saiu sangue. Antes, eu fiquei de roupa o tempo todo, mas a partir desse momento, eu tirei tudo, senti calor e comecei a andar pelo quarto. Não sei quando minha bolsa estourou porque não saiu líquido abundante em nenhuma hora. Foi tudo bem limpinho até. Mas logo voltei a ficar de cócoras apoiada na cama por um bom tempo. Saiu mais sangue e aí me sentei na banqueta de parto que a Pata trouxe. Fui me acomodando nela e por alguns minutos, minhas contrações pararam! Foi quando eu consegui recuperar um pouco das minhas forças, mas como a Surya já estava quase nascendo, a doula apertou um ponto na base da minha coluna que fez com que a contração voltasse na hora com força total! Eu andei um pouco e logo sentei novamente na banqueta de parto e finalmente a equipe teve uma grande ideia: deram-me um espelho pra eu ver o cabelinho da Surya e acreditar que tudo estava acabando! Aquilo me revigorou, mas havia chegado o momento de fazer força e eu estava com muito medo! Eu sentia a sensação de que eu iria explodir se eu fizesse força. Quase chorando eu falava:
- Eu não vou fazer força, vai doer! Kkkkkkkkkkkk.. como se não tivesse doído nada até aquela hora! E a
Pata respondia:
- Parece que vai, mas não vai! Pode acreditar em mim! Faz força!
O obstetra também falava que aquele era o momento, que eu podia ficar calma que daria tudo certo e que minha bebê precisava de mais essa ajuda para nascer!
Então, quando já eram 21h00min, meu marido ficou atrás de mim sentado na cama me segurando pelas axilas e eu fiz força a 1ª vez. Logo senti o Círculo de Fogo! Queimou todo o meu corpo! E no embalo, fiz a 2ª. força e a cabeça da Surya saiu! Daí respirei fundo um tempo e logo fiz força mais 2 vezes e enfim, pela graça divina, a Surya nasceu as 21h18min do dia 31/07/2011! Os parentes entraram no quarto assim que ouviram o choro do bebê. Ela era perfeita, estava limpinha e chorando, (sinal de que ela estava respirando bem)! Peguei-a em meus braços e enquanto meu marido cortava o cordão umbilical, eu dizia chorando emocionada, em extase:
- Eu consegui! Eu consegui!!!!!!!!!!!! Obrigada Deus!!!! Eu consegui!!!
A pediatra examinou nossa pequena ainda nos primeiros momentos de vida, porém com muito respeito. Não foi necessário usar sondas, não foi aplicada nenhuma injeção de vitamina k ou ainda, colírio. Ela apenas ouviu seus batimentos, viu que seus sinais vitais estavam bem e logo me devolveu o bebê. Uns 10 min depois do parto da Surya, a placenta saiu. Eu não senti nada, inclusive a anestesia local para me dar pontos devido a uma pequena laceração do períneo. Tudo acontecendo ali mesmo, em minha cama, e eu não senti nem a picada da agulha! Eu estava eufórica, feliz e muito exausta! Todos choraram muito! A emoção do nascimento é contagiante, é muita ocitocina! E estar em casa nesse momento tão especial foi incrível! Peguei minha filha no colo e dei muitos beijos nela! Olhei bem pro rosto dela pra ver como ela era! Ela era linda, perfeita, saudável! Olhou para todos no quarto assim que ela se acalmou. Logo ela achou meu peito e começou a sugar instantaneamente! Foi lindo demais! A melhor experiência da minha vida! O ato mais heroico que eu já realizei até hoje! Uma maravilha da natureza!
E como num passe de mágica, tudo voltou ao seu estado normal! Eu via as pessoas de novo.. kkkk.. conversei com todos e eles me contaram tudo! Comi um belo prato de comida, tudo em família, tudo delicioso!
Depois de algumas horas, as coisas se acalmaram e fomos todos dormir, com a Surya entre mim e meu marido. Não dormi a noite toda. Qualquer barulhinho que ela fazia, eu abria os olhos pra ver se estava tudo bem. Mãe de 1ª. viagem é assim, tudo é novo!
Quando nasce um bebê, nasce também uma mãe e um pai! É algo transformador para sempre, uma mudança radical! Mas também é a coisa mais linda que um ser humano pode fazer! Que nós mulheres podemos viver intensamente, com respeito ao nosso corpo e às nossas vontades. E principalmente, com respeito ao nosso bebê que está nascendo.
Viva o parto natural humanizado!
Uns 20 minutos após a decolagem, comecei a sentir um pouco de enjoo e quando chegamos a Guarulhos, onde seria feita a conexão, eu e o Silvio encontramos Bianca e Rene no saguão do aeroporto, aguardando o voo para Buenos Aires. Houve um atraso “básico” no embarque e nós ficamos lá por umas 2 horas! E eu ainda estava meio estranha por causa do enjoo, mas isso já havia acontecido comigo antes em aviões. Vendo meu estado, a Bia fez uma pergunta inusitada e crucial:
- Fer, você tá grávida? Eu logo franzi a testa e respondi:
- Não! ... Não que eu saiba! Porém, Bianca tinha algo revelador para me contar, algo que mudaria minha vida para sempre! E então ela começou:
- Sabe por que perguntei? Porque aquele dia no mercado eu senti sua presença, antes de você se aproximar de mim e tapar meus olhos (tipo advinha quem é?)! E quando eu virei pra conversar com você, “vi” uma luz muito intensa ao seu redor e uma menininha de cabelo cacheado, olhos claros e o com o seu “queixinho” brincando de se esconder atrás das suas pernas! Na hora eu gelei e logo em seguida, eu fui contar pro Silvio, que conversava com o Rene. Ele ficou mexido com a história, mas depois conseguiu relaxar.
Depois dessa espera infinita, nosso voo saiu de São Paulo. Meu marido comprou um bilhete de 1ª. classe sem perceber naqueles sites de promoções e seguimos rumo a “ mi Buenos Aires querido”! Mas minha alegria durou pouco, pois minutos após a decolagem, comecei a ter enjoos de novo e dessa vez foi pior porque a viagem era mais longa, umas 2 horas e meia. E eu de 1ª. classe, vendo meu marido comer um jantar super fino e tomando vinho, enjoando sem parar! Eu não tava acreditando naquilo! Kkkkkkkkkkk.. E quando chegamos a Buenos Aires, logo que a gente saiu do aeroporto e eu respirei ao ar livre, meu enjoo passou na hora! Incrível! E correu tudo bem nos 3 dias em que ficamos lá, só a dúvida da possível gravidez que me incomodava um pouco. E pra resumir, a volta para Londrina foi igual à ida, enjoos com direito a turbulência tipo escorregador tobogã e 2 arremetidas por causa do mal tempo!!! Eu quase desmaiei, quase!!! Antes tivesse..kkkkkk..
Chegamos em Londrina e a 1ª coisa que eu fiz quando acordei foi ir numa farmácia e comprar o teste de gravidez para acabar com essa dúvida infinita! E não deu outra, o resultado foi POSITIVO! Eu estava grávida! Fiquei em estado de choque por alguns minutos, pois não planejamos isso, e assim que o Silvio acordou, eu contei pra ele. Ele arregalou os olhos e surpreso disse:
- É? E eu confirmei:
- É, fiz o exame e deu positivo! E nós sorrimos um pro outro e assim iniciei a gestação da Surya!
Nos 3 primeiros meses senti muito enjoo, mas como num passe de mágica, quando eu entrei no 4º mês, tudo passou! E daí pra frente foi tudo maravilhoso, mesmo quando aos 8 meses, tive uma pielonefrite (infecção no rim em decorrência de infecção de urina). Meu obstetra achou melhor me internar, pois havia risco de aborto espontâneo. E eu fiquei no hospital 1 semana e isso foi fundamental para eu optar pelo PD.
Foi aí que eu decidi ter minha filha em casa! Ganhei o livro “Parto com Amor” (autora Luciana Benatti) da minha grande amiga Ana Carolina Franzon, que me apresentou todo o universo do parto natural humanizado, e esse livro conta 9 relatos de parto, onde um deles me chamou muito a atenção por algumas semelhanças entre a mulher e eu, como: mudança de obstetra, mesma idade que eu, 1ª gestação e demorou para decidir. Ela também pensou muito antes de ter seu bebê em casa! Sem contar que eu fiquei internada na ala da maternidade e vi como era o dia-dia no hospital. Eu tinha receio por ser minha 1ª gestação, mas depois dessa experiência, não havia mais dúvida: a Surya vai nascer em casa! E então fui atrás da equipe para me amparar durante o PD e combinei tudo previamente com o obstetra, com a pediatra e com a doula. Todos eles respeitaram a nossa decisão de ter o bebê em casa e se propuseram a ir até lá no dia do parto. E caso ocorresse algo mais sério, eu seria removida para o hospital, que fica há 5 km da minha casa, ou de carro ou de ambulância, mas dentro de mim, eu tinha certeza de que tudo daria certo! Tudo! Eu iria conseguir cumprir essa missão!
Quando eu entrei na 39ª semana, o Silvio precisou viajar no fim de semana do dia 28/07/11 e eu não sentia nada que pudesse dar indícios de TP. Quer dizer, sentia, mas não sabia! Eu tinha pequenas cólicas/contrações pela manhã, mas como tudo acabava após eu usar o banheiro, eu ficava tranquila. E pouco antes dele sair de viagem, ele pôs a mão na minha barriga e disse pra Surya:
- Filha, espera o papai chegar pra você nascer, tá!? Fica calminha aí! O papai te ama e quer estar aqui quando você for nascer!
E assim foi até domingo, dia 31/07/2011 as 08h30min, quando ele chegou em casa e deitou na cama. Imediatamente, eu senti aquela “cólica matinal” um pouco mais forte, porém fui ao banheiro e mais uma vez, tudo normal! Voltei pra cama, dormi e lá pelas 10h00min, eu levantei com uma “cólica” chatinha, que foi aumentando rapidamente de intensidade até as 11h00min. Eu tentei caminhar e pegar algo pra comer, mas a dor já era forte! Ficava tipo uns 5 minutos doendo e depois parava. Eu sentia vontade de deitar, me encolher pra ver se melhorava um pouco, mas nada fez passar! Eram elas, as contrações! Meu TP havia começado e as dores já eram fortes! Daí 11h30min, liguei para minha querida doula Patrícia Merlin, que mora em Maringá (a 100 km de Londrina), dizendo que eu estava tendo contrações fortes e achava que tinha começado o TP. Ela pediu que eu marcasse o intervalo entre as contrações e a avisasse, caso persistisse a dor intensa. “Pata”, que é seu apelido, disse também, pelo que eu me lembro, para eu tomar um banho e tentar comer alguma coisa. Comecei a marcar num papel e minhas contrações já estavam em 10 em 10 minutos, porém com duração e dores diferentes. E assim foi até as 13h00min, quando liguei pra Pata de novo, quase chorando, falando pra ela vir pra Londrina naquele instante. E ela falou pra eu continuar contando durante a próxima hora, pois ela já estava indo. Estava chuvoso e muito frio neste dia, e eu fiquei até as 14h00min horas deitada na sala, tentando encontrar posição para melhorar as dores. Daí, eu fui acordar o Silvio, que tava dormindo depois d viajar a noite toda, para me ajudar a cortar um pedaço de maça pra comer. Comi com muito sacrifício, tomei um pouco de água e logo em seguida, vomitei tudo! Daí pra frente eu entrei num transe Saí do meu estado de consciência normal e fui para outro mundo! O mundo mágico das contrações doloridas, mais conhecido como Partolândia... kkkkkkkkkkk!! Eu era a contração, eu era o útero! Não sentia mais o ambiente, era só eu e as contrações! Fiquei praticamente muda, não queria conversar com ninguém. O único som que eu emitia era o gemido de dor quando vinha uma contração. Fiquei de olhos fechados, concentrada no que acontecia comigo e deixando meu corpo agir e não minha mente. E por isso, eu não me lembro da sequência exata dos acontecimentos, só me lembro de “flashes”. Então, precisei da ajuda dos que estavam presentes durante o TP para me contar com mais detalhes como tudo aconteceu.
Bom, vamos lá! Meu marido ligou para as pessoas viriam participar do “grande dia” (amiga Ana, mãe, pai e sogra) e quando já era umas 15h00min horas, a Ana resolveu chamar a Thelma, uma enfermeira obstetra queridíssima, que veio em casa me ver. Ela fez o “toque” pra ver como estava a minha dilatação e ouvir os batimentos do bebê. Ela examinou e disse que eu estava com 4 cm e que a Surya estava bem. Nem a dor do toque eu me lembro de sentir! Fiquei no meu quarto o tempo todo, mas como o chuveiro de lá tava queimado, eu fui até o banheiro social da casa e fiquei na ducha e pelo que me disseram, eu gostei! Kkkkkk. Mas estava muito frio nesse dia e a água do chuveiro era pouca para que eu relaxasse. Aliás, nada me relaxava naquele momento, não achei nenhuma posição para amenizar as dores. Eu vi minha família e eles falavam comigo, mas não me lembro de nada do que conversamos. O Silvio falava com eles passando as informações sobre o andamento do TP.
Mais ou menos às 17h00min, minha doula chegou e ela foi o divisor de águas do meu TP. “Pata” me ensinou a respirar empurrando o ar pra dentro do corpo, até o útero e finalmente, tudo foi melhorando. Sem contar os óleos essenciais, o apoio moral e físico que uma doula dá a sua parturiente! Foi fundamental pra mim! As dores ainda eram fortes, claro, mas se tornaram suportáveis. Eu senti que estava mais consciente do que estava acontecendo. Voltei a me comunicar com palavras e quando a Thelma fez o 2º toque, eu já estava com 6 cm de dilatação! Fiquei animada, pois elas (Pata, Thelma e Ana) falavam que estava sendo rápido o processo! E até agora, o Silvio e a Pata falaram com o obstetra só por telefone, e ele havia pedido que eu fosse ao hospital para realizar o exame de Cardiotoco, porém nós ficamos em casa até as 19h00min, e daí fomos pra lá.
Chegando ao hospital, eu já estava exausta! Sentia muita, muita, muita dor; fui de cócoras no banco de trás do carro com contrações de 3min em 3min! Me lembro que o enfermeiro que nos recebeu puxava papo comigo, perguntado de quantas semanas eu tava, se era menino ou menina e eu não respondia nada, óbvio! Em compensação a Pata dava cada “patada” nele que eu ria por dentro! Kkkkkk. Tipo, respostas monossilábicas num tom bem bravo.. Sim! Menina! 39! rsrsrsrsrs.. muito engraçado! Subimos pra maternidade e lá ficamos por cerca de 40min esperando o obstetra chegar. E enquanto isso eu tive que: tirar a roupa, vestir avental, deitar de barriga pra cima numa cadeira reclinável horrível e esperar até que o exame fosse feito. Tudo isso com contrações fortíssimas e nos intervalos uma e outra, eu quase dormia. Sei que ficamos lá até umas 20h30min e eu, já não aguentando mais, falava:
- Eu quero ficar aqui! Eu não aguento mais! Eu não aguento andar de carro de novo! Alguém me ajuda a acabar com isso! Me dá uma anestesia! Kkkkkkkkkkkk... eu quase entreguei os pontos! E eu já tava na fase final do TP, com 9cm de dilatação, mas como eu nunca tinha passado por isso antes, me desesperei! Mas como eu já sabia que isso iria acontecer, por conhecer o relato de parto da Ana, escrevi em meu Plano de Parto que não era pra me dar nada, nenhum remédio, mesmo se eu pedisse, implorasse! E meu marido e a Pata me davam força o tempo todo, muita força! Silvio ficou comigo o dia todo, me ajudando! Todos diziam, inclusive o obstetra, que já havia realizado os exames, que já estava no final. No final mesmo, porque eu saí do hospital com 9 cm para 10 cm de dilatação. O obstetra ainda falou no ouvido do Silvio:
- Vai rápido pra casa porque o bebê pode nascer a qualquer momento, inclusive no caminho! E liga pra pediatra já! Fala pra ela ir pra casa da Fernanda urgente!
Como estava muito frio, não havia quase carros na rua e chegamos a minha casa em 5 minutos. Daí a doula recomendou que eu fosse pro chuveiro e eu fui, porém fiquei apenas alguns minutos e logo saí. Não queria ficar lá, estava muito frio! Então, fui pro meu quarto e lá fiquei por uns 30 minutos. Eu estava de joelhos apoiada na cama, sobre um travesseiro, quando de repente, senti um calor junto com a contração e saiu sangue. Antes, eu fiquei de roupa o tempo todo, mas a partir desse momento, eu tirei tudo, senti calor e comecei a andar pelo quarto. Não sei quando minha bolsa estourou porque não saiu líquido abundante em nenhuma hora. Foi tudo bem limpinho até. Mas logo voltei a ficar de cócoras apoiada na cama por um bom tempo. Saiu mais sangue e aí me sentei na banqueta de parto que a Pata trouxe. Fui me acomodando nela e por alguns minutos, minhas contrações pararam! Foi quando eu consegui recuperar um pouco das minhas forças, mas como a Surya já estava quase nascendo, a doula apertou um ponto na base da minha coluna que fez com que a contração voltasse na hora com força total! Eu andei um pouco e logo sentei novamente na banqueta de parto e finalmente a equipe teve uma grande ideia: deram-me um espelho pra eu ver o cabelinho da Surya e acreditar que tudo estava acabando! Aquilo me revigorou, mas havia chegado o momento de fazer força e eu estava com muito medo! Eu sentia a sensação de que eu iria explodir se eu fizesse força. Quase chorando eu falava:
- Eu não vou fazer força, vai doer! Kkkkkkkkkkkk.. como se não tivesse doído nada até aquela hora! E a
Pata respondia:
- Parece que vai, mas não vai! Pode acreditar em mim! Faz força!
O obstetra também falava que aquele era o momento, que eu podia ficar calma que daria tudo certo e que minha bebê precisava de mais essa ajuda para nascer!
Então, quando já eram 21h00min, meu marido ficou atrás de mim sentado na cama me segurando pelas axilas e eu fiz força a 1ª vez. Logo senti o Círculo de Fogo! Queimou todo o meu corpo! E no embalo, fiz a 2ª. força e a cabeça da Surya saiu! Daí respirei fundo um tempo e logo fiz força mais 2 vezes e enfim, pela graça divina, a Surya nasceu as 21h18min do dia 31/07/2011! Os parentes entraram no quarto assim que ouviram o choro do bebê. Ela era perfeita, estava limpinha e chorando, (sinal de que ela estava respirando bem)! Peguei-a em meus braços e enquanto meu marido cortava o cordão umbilical, eu dizia chorando emocionada, em extase:
A pediatra examinou nossa pequena ainda nos primeiros momentos de vida, porém com muito respeito. Não foi necessário usar sondas, não foi aplicada nenhuma injeção de vitamina k ou ainda, colírio. Ela apenas ouviu seus batimentos, viu que seus sinais vitais estavam bem e logo me devolveu o bebê. Uns 10 min depois do parto da Surya, a placenta saiu. Eu não senti nada, inclusive a anestesia local para me dar pontos devido a uma pequena laceração do períneo. Tudo acontecendo ali mesmo, em minha cama, e eu não senti nem a picada da agulha! Eu estava eufórica, feliz e muito exausta! Todos choraram muito! A emoção do nascimento é contagiante, é muita ocitocina! E estar em casa nesse momento tão especial foi incrível! Peguei minha filha no colo e dei muitos beijos nela! Olhei bem pro rosto dela pra ver como ela era! Ela era linda, perfeita, saudável! Olhou para todos no quarto assim que ela se acalmou. Logo ela achou meu peito e começou a sugar instantaneamente! Foi lindo demais! A melhor experiência da minha vida! O ato mais heroico que eu já realizei até hoje! Uma maravilha da natureza!
E como num passe de mágica, tudo voltou ao seu estado normal! Eu via as pessoas de novo.. kkkk.. conversei com todos e eles me contaram tudo! Comi um belo prato de comida, tudo em família, tudo delicioso!
Depois de algumas horas, as coisas se acalmaram e fomos todos dormir, com a Surya entre mim e meu marido. Não dormi a noite toda. Qualquer barulhinho que ela fazia, eu abria os olhos pra ver se estava tudo bem. Mãe de 1ª. viagem é assim, tudo é novo!
Quando nasce um bebê, nasce também uma mãe e um pai! É algo transformador para sempre, uma mudança radical! Mas também é a coisa mais linda que um ser humano pode fazer! Que nós mulheres podemos viver intensamente, com respeito ao nosso corpo e às nossas vontades. E principalmente, com respeito ao nosso bebê que está nascendo.
Viva o parto natural humanizado!
_Fernanda Rocha, mãe de Surya.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Relato: Nascimento de Natália - Parto Domiciliar
Marcela nos contou ontem sobre seu 1o. parto, c/ o Relato: Nascimento de Nahuel. Natural, mas hospitalar. Nos escreveu enviando este relato que postamos hoje, de seu 2o. parto, já domiciliar, e ocorrido neste mês de janeiro, no dia 02. Memória e sensações frescas, Marcela ainda nos alegrou dizendo que tem acompanhado este Especial de Férias, c/ relatos de parto publicados diariamente. Quando sugeriu a publicação deste nascimento pedimos também do 1o. parto. Confiram, então, uma nova história!
Ainda não vi os vídeos e as fotos do nascimento. Acho que muitos detalhes eu já esqueci, mas ainda tenho algumas sensações frescas e nos últimos dias tenho tentado reviver cada momento na minha memória. Começo o relato do nascimento da minha filha usando uma metáfora: "A escalada"...
Eu tinha um mapa, que me mostrava um caminho a percorrer até chegar ao topo de uma montanha muito grande e íngreme. Comecei a seguir as indicações.
Apesar do mapa ser muito detalhado, o caminho parecia muito diferente, e eu não conseguia avistar a alta montanha que o mapa indicava. Quando eu pensava que já estava começando a subir, vinha então uma curva e o caminho descia novamente, me levando de volta ao ponto de partida. Tentei várias vezes seguir o mapa desde o início, dava voltas e voltas e não saia do lugar. Depois de tanto caminhar, comecei a ficar tensa, cansada, frustrada. Chorei, e tive medo de não achar o caminho certo. Precisava me tranquilizar, rever as indicações do mapa e decidi parar. Encontrei uma caverna. Nesta caverna havia uma fogueira que me aqueceu assim que entrei. O cheiro dentro dela era muito agradável, fresco. Tinha algum rio passando ali dentro, e o som das águas me tranquilizava. Entrei na escuridão, me aconcheguei e dormi. Quando acordei, me sentia renovada. Peguei o mapa, que era meu único guia e o joguei no fogo, já não precisava mais dele. Sai da caverna e continuava sem ver montanha nenhuma, mas na minha frente havia uma trilha que entrava numa mata fechada. Fui caminhando por essa trilha, que por vezes era difícil de caminhar, outras, muito fácil e agradável. Fui caminhando, mata adentro, cada vez mais densa, e sem me preocupar em me perder, só seguindo meus pés. Às vezes a trilha se perdia, mas eu continuava, para onde meu corpo queria me levar. Até que lá na frente vi um clarão, algo que indicava que estava próxima ao meu destino. Ao mesmo tempo que aquilo me dava ânimo para continuar, não conseguia acreditar que já estava tão perto. Continuei caminhando em direção àquela luz, o caminho foi ficando mais íngreme e difícil, e nessa hora, eu usava toda minha força para pegar um impulso e escalar com rapidez. E logo após ter subido um ponto difícil, parava para descansar, sem tirar os olhos do clarão. Mais alguns passos, mais alguns impulsos e cheguei ao meu destino: o topo de uma montanha altíssima, majestosa, que me permitia olhar além do que eu imaginava, uma paisagem incrível. Era a minha montanha, e subi-la foi muito mais simples do que eu pensava, era só me deixar levar...
No dia 30, Suely, Thiana e família chegaram na pousada. Almoçamos e acho que nesse mesmo dia a Suely me examinou. Fez o toque e eu estava com seis cm de dilatação. Isso já indicava que faltava pouco, mas eu não sentia nenhuma dor e as contrações que apareciam de vez em quando eram quase imperceptíveis. No dia seguinte, 31 de dezembro, fez calor, e as horas passaram sem grandes novidades. À noite, depois da ceia de ano novo, comecei a sentir algumas pontadas, não eram contrações, eram umas fisgadas bem embaixo. A Suely achou uma boa ideia me examinar, e eu estava com sete ou oito cm de dilatação. Acreditamos que o parto aconteceria naquela madrugada, do dia 1° de Janeiro, e eu comecei a me preparar para as horas de contrações dolorosas. Já tinha convocado minha tia Leone, minha prima Amanda e minha prima agregada Gabriela para ajudarem com as panelas de água, o tambor, o fogo. A Thiana ligou para a Carol, que também participaria do parto. Gonzalo acendeu o fogo e ficamos ali em volta aguardando as contrações. Mas elas estavam muito suaves, indolores e irregulares, longe de serem as contrações que eu esperava/queria... Fiquei caminhando em volta do fogo, passeando pra lá e pra cá. A Amanda tocando tambor, Tia Leone esquentando as águas e enchendo a banheira, Thiana e Carol fazendo massagens pra induzir as contrações, Suely conversando comigo. O tempo passou voando, e nada daquele trabalho de parto que eu tanto esperava, aquela dor que eu tanto me preparei... Já perto das 5:00 da manhã, decidimos ir dormir.
Deitei na cama e me sentia muito elétrica, não conseguia fechar os olhos. Amanheceu, todo mundo foi tomar café, o dia começou, e eu com aquelas contrações fraquinhas, indolores e irregulares. Suely fez mais um toque, e acho que eu já estava com uns oito cm, e segundo ela, a cabeça do bebê estava bem embaixo... Aquilo era muito louco, estava quase com dilatação total, sem dor, sem nenhuma outra sensação e isso às vezes me dava uma sentimento de vulnerabilidade, insegurança...
Quando amanheceu, Suely pediu pra colocar um forró e mandou eu ficar rebolando com o Gonzalo, e isso estimularia o trabalho de parto... As contrações começaram a vir de quatro em quatro minutos, mas sem dor, muito leves... O único incômodo que eu tinha era nas pernas, um tipo de formigamento, que a Thiana e a Carol aliviavam com massagens. Fui ficando cansada, sentei na bola e as contrações se foram. Tentei dormir, descansar, mas não conseguia, seguia elétrica, com a adrenalina lá em cima e cada vez mais tensa. Ficava pensando que não ia conseguir ter as tais contrações e tinha muito medo de que a Suely me mandasse para o hospital. Mas, sempre que ela vinha me examinar, a bolsa continuava perfeita e os batimentos do bebê ótimos! Ela me tranquilizava, explicando que não havia motivo para se preocupar. Era só eu deixar de pensar, parar de querer controlar a situação e permitir que meu corpo trabalhasse.
No fim da tarde, tentei ir dormir mais uma vez. Das 15:00 às 18:00 tive contrações irregulares, indolores, e pra mim, mais uma vez inofensivas...
Até que cheguei à conclusão que precisava dormir de verdade, antes de ficar contanto as contrações... Fui para o quarto, dentei na cama e fiquei rolando de um lado para o outro, sem conseguir relaxar, com a cabeça a mil por hora. Não, o parto não ia acontecer daquela maneira. Anoiteceu, pedi que o Gonzalo me fizesse uma massagem nas costas, que já doíam de tanta tensão. Perto das 23:00, o Gonzalo sugeriu que a Thiana e a Carol me fizessem uma massagem mais completa. Ele aproveitou para dizer a todo mundo (tia e primas) que estava de plantão que fossem dormir. A única que ficou na pousada foi minha mãe. Thiana me mandou entrar no chuveiro, me preparou um escalda pés com sal grosso e fiquei ali, sentada na bola, com os pés no balde. Gonzalo foi se deitar para tentar descansar também. Thiana e Carol prepararam o quarto ao lado, com aromatizante, luz de velas, música relaxante. Deitei num colchão no chão e elas me massagearam, não sei por quanto tempo. Uma delícia, tão relaxante que acho que cochilei. Em algum momento senti uma contração forte, a mais forte que havia sentindo desde então. Senti o sono chegando, senti meus pensamentos lá longe. Percebi que a massagem tinha terminado, mas não percebi elas saindo do quarto. Alguns minutos depois senti mais contrações doloridas, e notei que estavam regulares. Não consegui calcular o tempo entre elas, nem o tempo em que fiquei ali. Elas começaram a ficar mais e mais fortes, e eu fiquei “curtindo” aquela viagem, inspirando fundo, expirando com a boca aberta, como a Thiana tinha me ensinado nas aulas de Yoga. Aproveitei para sonorizar a dor. Inspirava fundo, expirava dizendo “ahhhhhhhhhhh”. Me concentrava no som que saia e isso era muito agradável, tornando as dores muito suportáveis... Agora tinha certeza que a hora tinha chegado. Chamei o Gonzalo, que foi avisar a Suely e as meninas. Não consigo me lembrara exatamente o que acontecia enquanto eu fazia “ahhhhhh”, mas me lembro muito bem das cenas quando as dores davam uma pausa: Suely mandando Gonzalo ir esquentar as águas para a banheira; Thiana me massageando forte na região lombar; Carol me dando algo para tomar; Me lembro do gato observando tudo ao meu lado. Suely perguntando onde doía, me examinado, depois ela chamou o Gonzalo e disse pra ele desencanar das águas, não daria tempo de entrar na banheira, eu já ia ter vontade de fazer força.
-Fazer força? Daqui umas 3 horas, não? – perguntei.
-Não, já já – Suely respondeu.
Escutei o galo cantando e me assustei: “já amanheceu?”.
-Não, o galo é que está cantando antes da hora - me esclareceu Thiana.
Prepararam o quarto, me levantei entre uma contração e outra e me sentei no colo do Gonzalo. Na minha frente, 3 anjos...
Por um lado, me sentia incrivelmente feliz, porque a hora tinha chegado. Por outro lado, não conseguia acreditar que já estávamos no fim, porque me preparava para o momento em que a dor seria insuportável, em que eu não fosse conseguir dar conta, o momento em que iria implorar por anestesia. Este momento nunca chegava, nunca chegou. As contrações eram fortes, mas me pareceram curtas e o intervalos entre elas longas o suficiente para respirar e me preparar para a próxima. Então senti a pressão, a vontade de empurrar, fiz força. Gritei várias vezes, pra mim, um grito de bicho. A contração ia embora e eu dizia alguma coisa. Ela voltava e eu gritava com gosto.
A Suely disse que o bebê era cabeludo, coloquei a mão e senti algo muito estranho entre minhas pernas. Suely pediu um espelho, a bolsa ainda estava intacta e era uma imagem incrível. A contração deu uma pausa e pude dizer:
-Nossa, parece uma lichia...
-Sim, parece uma lichia... a bolsa vai estourar a qualquer momento – nos preparava Suely.
Quanto mais minha filha se aproximava, mais vontade eu tinha de empurrar. Elas começaram a cantar algo em espanhol. Me lembro de ter escutado aquela música em algum lugar, tenho que perguntar ainda que canção era aquela - Rosa Zaragoza, em Sabemos Parir. Agarrei no pescoço do Gonzalo, agarrei na perna do Gonzalo, agarrei na minha perna e gritei. Senti ela descendo. Mais uma vez, mais uma vez e a cabeça saiu. A próxima contração veio e empurrei por última vez, e o corpinho deslizou.
Olhei para baixo e a vi, nas mãos da Suely. Que vontade de gritar mais uma vez, de alegria... Gonzalo me dizia que eu tinha conseguido. Ficamos ali hipnotizados.
Alguns instantes depois, ela veio para o meu colo e foi maravilhoso. E ela veio direto para o meu peito. Mamou forte. A placenta saiu, Gonzalo cortou o cordão. Ficamos ali curtindo nossa filha.
Ela é perfeita, forte, linda!
Parece que desde o momento que as contrações doloridas começaram até a hora do nascimento se passou menos de uma hora. Mas, todo o processo de trabalho de parto foi longo, lento, cheio de inícios, pausas e grilos, muito diferente, mas muito melhor do que eu imaginei. Foi mágico! Foi um dos momentos mais intensos da minha vida.
Foram avisar a minha mãe, que também não conseguia relaxar nos últimos dias e estava de plantão. Ela chegou trazendo um leite com aveia e muitas lágrimas. E, então, fomos dormir na nossa cama. O Gonzalo trouxe o Nahuel, que quando deitou ao lado da irmã, abriu os olhos e lhe fez uma carícia na cabecinha: o bebê da barriga da mamãe tinha finalmente chegado.
OBS: Tínhamos escolhido o nome Tainah, caso fosse menina, mas poucos dias antes do parto tive um sonho onde chamava por minha filha, e, no sonho, seu nome era Natália. Assim ficou...
Natália nasceu com apgar 10/10. Peso: 3,375gm. Tamanho: 50cm.
_Marcela Mölk, Designer de Interiores, mãe de Nahuel e de Natália.
Ainda não vi os vídeos e as fotos do nascimento. Acho que muitos detalhes eu já esqueci, mas ainda tenho algumas sensações frescas e nos últimos dias tenho tentado reviver cada momento na minha memória. Começo o relato do nascimento da minha filha usando uma metáfora: "A escalada"...
Eu tinha um mapa, que me mostrava um caminho a percorrer até chegar ao topo de uma montanha muito grande e íngreme. Comecei a seguir as indicações.
Apesar do mapa ser muito detalhado, o caminho parecia muito diferente, e eu não conseguia avistar a alta montanha que o mapa indicava. Quando eu pensava que já estava começando a subir, vinha então uma curva e o caminho descia novamente, me levando de volta ao ponto de partida. Tentei várias vezes seguir o mapa desde o início, dava voltas e voltas e não saia do lugar. Depois de tanto caminhar, comecei a ficar tensa, cansada, frustrada. Chorei, e tive medo de não achar o caminho certo. Precisava me tranquilizar, rever as indicações do mapa e decidi parar. Encontrei uma caverna. Nesta caverna havia uma fogueira que me aqueceu assim que entrei. O cheiro dentro dela era muito agradável, fresco. Tinha algum rio passando ali dentro, e o som das águas me tranquilizava. Entrei na escuridão, me aconcheguei e dormi. Quando acordei, me sentia renovada. Peguei o mapa, que era meu único guia e o joguei no fogo, já não precisava mais dele. Sai da caverna e continuava sem ver montanha nenhuma, mas na minha frente havia uma trilha que entrava numa mata fechada. Fui caminhando por essa trilha, que por vezes era difícil de caminhar, outras, muito fácil e agradável. Fui caminhando, mata adentro, cada vez mais densa, e sem me preocupar em me perder, só seguindo meus pés. Às vezes a trilha se perdia, mas eu continuava, para onde meu corpo queria me levar. Até que lá na frente vi um clarão, algo que indicava que estava próxima ao meu destino. Ao mesmo tempo que aquilo me dava ânimo para continuar, não conseguia acreditar que já estava tão perto. Continuei caminhando em direção àquela luz, o caminho foi ficando mais íngreme e difícil, e nessa hora, eu usava toda minha força para pegar um impulso e escalar com rapidez. E logo após ter subido um ponto difícil, parava para descansar, sem tirar os olhos do clarão. Mais alguns passos, mais alguns impulsos e cheguei ao meu destino: o topo de uma montanha altíssima, majestosa, que me permitia olhar além do que eu imaginava, uma paisagem incrível. Era a minha montanha, e subi-la foi muito mais simples do que eu pensava, era só me deixar levar...
No dia 30, Suely, Thiana e família chegaram na pousada. Almoçamos e acho que nesse mesmo dia a Suely me examinou. Fez o toque e eu estava com seis cm de dilatação. Isso já indicava que faltava pouco, mas eu não sentia nenhuma dor e as contrações que apareciam de vez em quando eram quase imperceptíveis. No dia seguinte, 31 de dezembro, fez calor, e as horas passaram sem grandes novidades. À noite, depois da ceia de ano novo, comecei a sentir algumas pontadas, não eram contrações, eram umas fisgadas bem embaixo. A Suely achou uma boa ideia me examinar, e eu estava com sete ou oito cm de dilatação. Acreditamos que o parto aconteceria naquela madrugada, do dia 1° de Janeiro, e eu comecei a me preparar para as horas de contrações dolorosas. Já tinha convocado minha tia Leone, minha prima Amanda e minha prima agregada Gabriela para ajudarem com as panelas de água, o tambor, o fogo. A Thiana ligou para a Carol, que também participaria do parto. Gonzalo acendeu o fogo e ficamos ali em volta aguardando as contrações. Mas elas estavam muito suaves, indolores e irregulares, longe de serem as contrações que eu esperava/queria... Fiquei caminhando em volta do fogo, passeando pra lá e pra cá. A Amanda tocando tambor, Tia Leone esquentando as águas e enchendo a banheira, Thiana e Carol fazendo massagens pra induzir as contrações, Suely conversando comigo. O tempo passou voando, e nada daquele trabalho de parto que eu tanto esperava, aquela dor que eu tanto me preparei... Já perto das 5:00 da manhã, decidimos ir dormir.
Deitei na cama e me sentia muito elétrica, não conseguia fechar os olhos. Amanheceu, todo mundo foi tomar café, o dia começou, e eu com aquelas contrações fraquinhas, indolores e irregulares. Suely fez mais um toque, e acho que eu já estava com uns oito cm, e segundo ela, a cabeça do bebê estava bem embaixo... Aquilo era muito louco, estava quase com dilatação total, sem dor, sem nenhuma outra sensação e isso às vezes me dava uma sentimento de vulnerabilidade, insegurança...
Quando amanheceu, Suely pediu pra colocar um forró e mandou eu ficar rebolando com o Gonzalo, e isso estimularia o trabalho de parto... As contrações começaram a vir de quatro em quatro minutos, mas sem dor, muito leves... O único incômodo que eu tinha era nas pernas, um tipo de formigamento, que a Thiana e a Carol aliviavam com massagens. Fui ficando cansada, sentei na bola e as contrações se foram. Tentei dormir, descansar, mas não conseguia, seguia elétrica, com a adrenalina lá em cima e cada vez mais tensa. Ficava pensando que não ia conseguir ter as tais contrações e tinha muito medo de que a Suely me mandasse para o hospital. Mas, sempre que ela vinha me examinar, a bolsa continuava perfeita e os batimentos do bebê ótimos! Ela me tranquilizava, explicando que não havia motivo para se preocupar. Era só eu deixar de pensar, parar de querer controlar a situação e permitir que meu corpo trabalhasse.
No fim da tarde, tentei ir dormir mais uma vez. Das 15:00 às 18:00 tive contrações irregulares, indolores, e pra mim, mais uma vez inofensivas...
Até que cheguei à conclusão que precisava dormir de verdade, antes de ficar contanto as contrações... Fui para o quarto, dentei na cama e fiquei rolando de um lado para o outro, sem conseguir relaxar, com a cabeça a mil por hora. Não, o parto não ia acontecer daquela maneira. Anoiteceu, pedi que o Gonzalo me fizesse uma massagem nas costas, que já doíam de tanta tensão. Perto das 23:00, o Gonzalo sugeriu que a Thiana e a Carol me fizessem uma massagem mais completa. Ele aproveitou para dizer a todo mundo (tia e primas) que estava de plantão que fossem dormir. A única que ficou na pousada foi minha mãe. Thiana me mandou entrar no chuveiro, me preparou um escalda pés com sal grosso e fiquei ali, sentada na bola, com os pés no balde. Gonzalo foi se deitar para tentar descansar também. Thiana e Carol prepararam o quarto ao lado, com aromatizante, luz de velas, música relaxante. Deitei num colchão no chão e elas me massagearam, não sei por quanto tempo. Uma delícia, tão relaxante que acho que cochilei. Em algum momento senti uma contração forte, a mais forte que havia sentindo desde então. Senti o sono chegando, senti meus pensamentos lá longe. Percebi que a massagem tinha terminado, mas não percebi elas saindo do quarto. Alguns minutos depois senti mais contrações doloridas, e notei que estavam regulares. Não consegui calcular o tempo entre elas, nem o tempo em que fiquei ali. Elas começaram a ficar mais e mais fortes, e eu fiquei “curtindo” aquela viagem, inspirando fundo, expirando com a boca aberta, como a Thiana tinha me ensinado nas aulas de Yoga. Aproveitei para sonorizar a dor. Inspirava fundo, expirava dizendo “ahhhhhhhhhhh”. Me concentrava no som que saia e isso era muito agradável, tornando as dores muito suportáveis... Agora tinha certeza que a hora tinha chegado. Chamei o Gonzalo, que foi avisar a Suely e as meninas. Não consigo me lembrara exatamente o que acontecia enquanto eu fazia “ahhhhhh”, mas me lembro muito bem das cenas quando as dores davam uma pausa: Suely mandando Gonzalo ir esquentar as águas para a banheira; Thiana me massageando forte na região lombar; Carol me dando algo para tomar; Me lembro do gato observando tudo ao meu lado. Suely perguntando onde doía, me examinado, depois ela chamou o Gonzalo e disse pra ele desencanar das águas, não daria tempo de entrar na banheira, eu já ia ter vontade de fazer força.
-Fazer força? Daqui umas 3 horas, não? – perguntei.
-Não, já já – Suely respondeu.
Escutei o galo cantando e me assustei: “já amanheceu?”.
-Não, o galo é que está cantando antes da hora - me esclareceu Thiana.
Prepararam o quarto, me levantei entre uma contração e outra e me sentei no colo do Gonzalo. Na minha frente, 3 anjos...
Por um lado, me sentia incrivelmente feliz, porque a hora tinha chegado. Por outro lado, não conseguia acreditar que já estávamos no fim, porque me preparava para o momento em que a dor seria insuportável, em que eu não fosse conseguir dar conta, o momento em que iria implorar por anestesia. Este momento nunca chegava, nunca chegou. As contrações eram fortes, mas me pareceram curtas e o intervalos entre elas longas o suficiente para respirar e me preparar para a próxima. Então senti a pressão, a vontade de empurrar, fiz força. Gritei várias vezes, pra mim, um grito de bicho. A contração ia embora e eu dizia alguma coisa. Ela voltava e eu gritava com gosto.
A Suely disse que o bebê era cabeludo, coloquei a mão e senti algo muito estranho entre minhas pernas. Suely pediu um espelho, a bolsa ainda estava intacta e era uma imagem incrível. A contração deu uma pausa e pude dizer:
-Nossa, parece uma lichia...
-Sim, parece uma lichia... a bolsa vai estourar a qualquer momento – nos preparava Suely.
Quanto mais minha filha se aproximava, mais vontade eu tinha de empurrar. Elas começaram a cantar algo em espanhol. Me lembro de ter escutado aquela música em algum lugar, tenho que perguntar ainda que canção era aquela - Rosa Zaragoza, em Sabemos Parir. Agarrei no pescoço do Gonzalo, agarrei na perna do Gonzalo, agarrei na minha perna e gritei. Senti ela descendo. Mais uma vez, mais uma vez e a cabeça saiu. A próxima contração veio e empurrei por última vez, e o corpinho deslizou.
Olhei para baixo e a vi, nas mãos da Suely. Que vontade de gritar mais uma vez, de alegria... Gonzalo me dizia que eu tinha conseguido. Ficamos ali hipnotizados.
Alguns instantes depois, ela veio para o meu colo e foi maravilhoso. E ela veio direto para o meu peito. Mamou forte. A placenta saiu, Gonzalo cortou o cordão. Ficamos ali curtindo nossa filha.
Ela é perfeita, forte, linda!
Parece que desde o momento que as contrações doloridas começaram até a hora do nascimento se passou menos de uma hora. Mas, todo o processo de trabalho de parto foi longo, lento, cheio de inícios, pausas e grilos, muito diferente, mas muito melhor do que eu imaginei. Foi mágico! Foi um dos momentos mais intensos da minha vida.
Foram avisar a minha mãe, que também não conseguia relaxar nos últimos dias e estava de plantão. Ela chegou trazendo um leite com aveia e muitas lágrimas. E, então, fomos dormir na nossa cama. O Gonzalo trouxe o Nahuel, que quando deitou ao lado da irmã, abriu os olhos e lhe fez uma carícia na cabecinha: o bebê da barriga da mamãe tinha finalmente chegado.
OBS: Tínhamos escolhido o nome Tainah, caso fosse menina, mas poucos dias antes do parto tive um sonho onde chamava por minha filha, e, no sonho, seu nome era Natália. Assim ficou...
Natália nasceu com apgar 10/10. Peso: 3,375gm. Tamanho: 50cm.
_Marcela Mölk, Designer de Interiores, mãe de Nahuel e de Natália.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
Relato: Nascimento de Luna - Parto domiciliar
* Post republicado *
Não Sei..
Não sei se a vida é curta ou longa demais pra nós,
mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.
Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve,
palavra que conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia,
lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.
E isso não é coisa de outro mundo. É o que dá sentido à vida!
É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais,
mas que seja intensa, verdadeira, pura, enquanto durar...
Cora Coralina
Conto hoje uma linda história, de uma pequena garotinha chamada Cora, que pode vivenciar o nascimento de outra pequenina, a Luna, em sua casa, em um grande e delicioso susto!
No dia 07 de janeiro Flávia entrou em trabalho de parto. Contando com a presença de sua doula Gisele, mãe de Cora, recebeu a cria junto de seu companheiro Leandro sem conseguir há tempo ir para o Hostital Santa Martha, em Niterói, local programado para o parto. De doula, Gisele passou a aprendiz de parteira, pegando em seus braços este novo serzinho que por aqui aterriza!

Luz de Luna!
Cora desenhou este mágico momento com uma sensibilidade de tirar o fôlego. Muitos suspiros!
Dois sóis, muitos corações, espirais energéticas, a mãe com o ventre todo decorado, ao lado da filhota, junto de um terceiro elemento, em um ninho de muito, muito amor!
Pura ocitocina no ar!
Abaixo o desenho da pequena que desde cedo experimenta o sagrado feminino e o relato de Gisele, compartilhado por email após o parto!

"Querid@s, agradeço a ajuda de todos durante o trabalho de parto da Flávia. Ela desejava um parto domiciliar, mas não tinha condições finaceiras para tal e optou pelo parto hospitalar, com o acompanhamento do Rodrigo Vianna (em Niterói, local que o plano cobria o parto) e eu como doula. Como Flávia mora no Rio e não tem carro, quis vir aqui pra casa há dois dias, quando começou a sair o tampão, para aguardar o TP. Assim foi e ela veio na quarta. A fase latente (fase inicial do TP) começou ontem e era dia de consulta com o Rodrigo. Lá ele disse que tava muito no início e para ela ficar tranquila e que provavelmente ainda demoraria. Por volta das 22h o humor mudou e ela começou a ter umas contraçõeszinhas mais chatas, mas sempre falante. Por volta de meia noite ela estava com sangramento no momento das contrações e aí veio a dúvida. Para mim, ela estava em início de trabalho de parto. Tinha contrações de cinco em cinco minutos e com intervalo às vezes maior. E só duravam 30 segundos. Não passou disso. E aí quis perguntar a alguns conhecidos mais experientes se era normal sangrar assim na fase latente. Ela se queixava que era forte e que sentia vontade de empurrar. Mas, dizia também que não sabia se era vontade de fazer cocô. Como os TPs que acompanhei a fase ativa era bem "punk", para mim ela estava realmente no início e nem dei muita "trela". Ficava junto, mas levantava, fazia coisas e ela reclamando um pouco, mas dando conta das contrações, sentada na poltrona da sala. Ficou assim o TP todo. Só levantava pra ir ao banheiro achando que ia fazer cocô. Como ela estava insegura com o sangramento (que era pouco) e combinei de esperarmos amanhecer para irmos para maternidade. Ela topou. Só que às 3 e meia (mais ou menos), ela foi ao banheiro e sangrou bastante e eu só tinha visto assim em fase de expulsivo. Liguei pro Rodrigo, expliquei e disse que as contrações eram curtas e irregulares. Ele disse que podia ser normal, mas que era melhor avaliar e combinamos de ir ao hospital. Quando desliguei ela estava acocorada no chuveiro empurrando e dizendo que queria ir pro vaso e que tava sentindo a cabeça da neném. Olhei pra vulva e vi aquela bola preta se apresentando! Gelei! Disse pra não empurrar e pro marido tirar ela do vaso. Colocamos ele sentando no vaso e ela sentada em cima dele, bem aberta, bem entregue. Corri e busquei uma luva estéril, que resolvi comprar quando rolou uma discussão na lista de doulas sobre "a bolsa da doula" e Ana Cris (parteira) postou que achava importante porque já tinha usado 12 vezes em sua carreira de doula (12 partos emergenciais). E me coloquei de cócoras, a esperar pela Luna, aprontando uma "caminha" no chão. Tive receio de uma intercorrência após o nascimeto. Foi o único medo que senti, pois do jeito que aquela bebê estava vindo, percebi que não teríamos problemas no parto. E eu disse: não faz força, Flavinha. Não vamos ajudar (brincando um pouco e um pouco nervosa). Se ela tiver que vir em casa, vai vir sozinha! E assim foi. Flávia se abriu na contração sem fazer nada e começou a sair a cabeça. Ela se queixou e perguntei se tava ardendo, ela respondeu que sim e eu disse que já ia passar, que era o "círculo de fogo". Ela se tranquilizou, abriu mais as pernas e saiu a cabeça, daquele jeito clássico, "olhando pro lado", igual nos filmes (risos) e com muito líquido (até então não notamos a ruptura da bolsa). E ficou lá, assim, por alguns minutos. E Flávia, tranquila, começou a acariciar a cabeça e falar com a nenén. E quando notou que ela se mexia (dentro do corpo dela), sorriu e eu disse pra aguardar a próxima contração que ela sairia. E quando veio, Flávia gemeu e eu disse pra vocalizar, não forçar. Ela vocalizou e a bebê nasceu todinha, fazendo o giro perfeito dos ombros e vindo toda nas minhas mãos. Entreguei ao casal, ela logo chorou forte, muito vigorosa e reativa. Nem lembramos de ver a hora! Depois fizemos as contas e achamos que foi às 4h10 da manhã. Foi muito lindo! Liguei pro Rodrigo que me ensinou o que fazer quanto a amarração do cordão e fizemos com fio dental. Cortamos depois de um tempo e a placenta demorou mais de uma hora e meia para sair. Isso preocupou a Flavinha e combinamos de ir ao hospital encontrar com o Rodrigo por conta disso e por conta da Declaração de Nascido Vivo (DNV). Lembrei da oração de Santa Margarida para a placenta e fizemos. Logo depois a placenta saiu! A felicidade foi completa! Agora estamos tod@s felizes! Luna mama muito, já fez muiiiito cocô e dorme bem. Grande abraço e muitos agradecimentos (ocitocinados) pelas boas energias de tod@s. Com Amor."
Gisele Muniz

TP - Cora atuando em sua 1a. massagem para o parto.
Conheça o blog Mar de Mães de Gisele, também educadora perinatal - http://giselemuniz.blogspot.com/2011/01/luna-chegou.html#comments.
Gratidão por compartilhar outras possibilidades de parir e nascer, com carinho e respeito! Depoimentos como estes impulsionam ainda mais nossos sonhos!
* Fotos Acervo Pessoal de Gisele Muniz.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
Relato: Nascimento de Joana Vitória - Parto Domiciliar
Era véspera do meu aniversário e estávamos organizando os preparativos para um churrasco
No dia seguinte estava marcado um encontro do grupo de grávidas que eu organizava. O local era um pouco distante de onde morávamos e meu esposo Wellington achou melhor eu ir com uma amiga, pois ele e nosso filho Ernesto iriam para o clube organizar as coisas por lá.
A reunião foi tranqüila e o tema discutido foi “intervenções no trabalho de parto e parto”. Minha doula também estava presente. Ela veio a Brasília a nosso convite para me acompanhar e eu estava bem confiante de que nos próximos dias entraria em trabalho de parto. A reunião começou às 9h e, com um atraso habitual, terminou quase ao meio dia. Nesse intervalo, senti umas três contrações, mas não dei muita atenção. Eu estava me sentindo bem. Ao final do encontro seguimos para o clube e no percurso de meia hora senti mais umas três contrações. Chegando ao clube continuei sentindo contrações, mas nada tão dolorido. Pensei: será hoje o dia de Joana?
Chegando lá, já haviam chegado algumas pessoas, mas o churrasco ainda não estava pronto. Comecei a cortar verduras para fazer a salada, conversei com o pessoal, ganhei presentes, ri, almocei. Senti que as contrações estavam ficando mais regulares, mas continuei sem dar muito crédito. Quando pedi para Wellington marcar no relógio elas estavam de três em três minutos! Ele decidiu ligar para a parteira e deixá-la avisada. Minha doula que foi convidada, ainda não tinha chegado. Tentei manter a tranqüilidade, comecei a rebolar, caminhar, mudar o foco da dor, lembrando das aulas de yoga, da respiração. Quando eu rebolava o quadril sentia como se minha pelve estivesse dando estalos, como se a cabeça de Joana estivesse lá embaixo e cheguei a comentar isso com uma amiga. Resolvi tomar banho de piscina, mas precisava fazer o exame de pele para ser liberada. Fui ao banheiro, troquei de roupa, senti uma contração bastante dolorida, mas fui fazer o exame. Torcia para não sentir outra contração na frente da médica, senão seria reprovada. A contração não veio. Fui até a piscina, deixei a água de um dos chuveiros cair nas minhas costas imaginando que iria relaxar, mas foi pior: as dores aumentaram. Resolvi sair da piscina e disse a Wellington que deveríamos ir para casa. Nem me despedi dos convidados, fiquei caminhando, dando voltas ao redor de uma árvore e tentando lidar com as contrações. Nesse momento, minha doula chegou. Eu disse a ela que estavam começando a ficar insuportáveis as contrações e que iríamos para casa. Wellington deixou Ernesto com um casal amigo nosso e avisou que depois ligaria. Todos ficaram lá no clube, comendo churrasco e se divertindo sem entender direito o que estava acontecendo.
Entrei no carro e tentei relaxar no banco de trás. Saímos rapidamente, pedi que Wellington corresse para casa, pois as contrações estavam intensas. Assim que saímos senti um estalo e pensei: a bolsa estourou! No caminho eu conseguia sentir a cabecinha dela no canal de parto e quando as contrações vinham eu fechava as pernas, com medo que ela nascesse ali, no carro. De lá para casa foi uma eternidade, apesar de o percurso ser curto e durar, no máximo, cinco minutos! Eu pedia para Wellington acelerar e logo depois andar mais devagar. Comecei a gritar, chamar palavrões, pedir para ele correr. Corre! Devagar nas curvas! O sinal fechou e eu me desesperei! As contrações estavam uma atrás da outra e a minha filhinha não podia nascer no carro. Enfim, chegamos ao estacionamento do prédio, saí do carro, coloquei a mão no banco, procurando, mas não senti nada úmido. A bolsa não tinha estourado! Peguei a chave da mão da doula e pedi a Deus para não sentir contrações quando subisse as escadas. Será horrível! Chegamos ao 2º andar, abri rapidamente a porta e senti uma contração enorme. Soltei um grito, quase um uivo! Ouvi a doula dizer: É agora! Vai nascer!
Imediatamente, tentei tirar a roupa, mas era difícil. Senti uma pressão. Fiquei de cócoras e ela chegou! Gritei de alívio! Numa jorrada de líquidos, vi Joana no chão. Eu estava na porta do banheiro e pensei: será que ela caiu no chão? Será que ela bateu a cabecinha?
Não ouvi o choro. Mal conseguia vê-la direito, pois a roupa nem chegou a passar do joelho. A doula me apoiou pelas costas, Wellington a pegou no chão e colocou no meu colo. Ela chorou! Quando eu a peguei vi que ela era pequenininha. Tão pequenininha. O cordão era curto e eu mal consegui coloca-la no colo. Fiquei lá, imóvel. Tentaram cortar a roupa que eu usava para dar mais espaço, pois estava deixando o cordão mais curto ainda. Ela fez seu primeiro xixi sobre mim e ficou lá, quietinha. Trouxeram uma toalha e a envolveram. Coloquei-a para sugar meu seio e ela aceitou rapidamente.
Resolvemos ir para o quarto, tentar ficar de cócoras em algum lugar para a placenta sair. A parteira chegou 10 minutos depois do nascimento de Joana. Ela nasceu às 14:45. Resolvemos ir para o banheiro sentar no vaso sanitário para a fase de dequitação de a placenta ser feita. Estava demorando e a doula sugeriu que fizéssemos a Oração de Santa Margarida.
Minha Santa Margarida
Não estou prenha nem estou parida
Tira essa carne morta
De dentro da minha barriga
Rezamos com fé, todos, no banheiro, por duas vezes e a placenta saiu cerca de 40 minutos depois de Joana ter nascido. A parteira examinou a placenta que se apresentava normal. Wellington cortou o cordão umbilical, como havíamos planejado. Fomos para o quarto, deitei na cama, continuei com Joana no colo sugando o colostro. Devido à rapidez do expulsivo tive alguns pontos no períneo.
Ernesto chegou trazido pelo casal amigo. Eles ficaram impressionados e demonstravam não acreditar que Joana tinha nascido ali, em nossa casa, tão rapidamente.
Ernesto estava radiante de alegria. Queria tocar Joana, pega-la, sentir a irmãzinha que horas atrás estava na barriga da mamãe
Ela foi pesada e medida:
Brindamos sua chegada com licor de amarula!
Mais uma vez, não tivemos um parto na água e, dessa vez, a piscina nem chegou a ser inflada. Apesar do parto não ter ocorrido segundo nosso plano de parto, ficamos muito felizes porque ela chegou naturalmente e foi o maior presente que eu poderia ter recebido no meu aniversário!
No total foram cerca de 3 horas de trabalho de parto intenso e tivemos a certeza de que Joana chegou na hora dela, em casa, num parto quase que desassistido, mas com muito amor!
Bem vinda, Joana!
20 de fevereiro de 2010.
_Sylvana, mãe de Ernesto e Joana.
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Relato de Parto
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Relato: Nascimento de Pedro - Parto Domiciliar
Meu nome é Aline, tenho 30 anos, sou casada com o Rodrigo, mãe do Davi (2 anos e meio, parto normal hospitalar) e do Pedro (4 meses, parto domiciliar). Participo da lista Parto Nosso como leitora desde a segunda metade da gravidez do Pedro. No final da gestação lia absolutamente tudo e aprendi muito sobre trabalho de parto, parto, conceitos, opções, mas especialmente aprendi com as experiências das pessoas.
Agradeço muito a vocês por manterem este espaço. O parto do Pedro foi um sucesso e sei que eu estava preparada para ele, portanto ter aprendido com vocês e com o grupo MaternaMente, grupo de apoio ao parto ativo no ABC (São Paulo), apoiado pela Parto do Princípio. Aproveito para encaminhar o link de uma matéria que saiu num jornal local, da qual participamos.
Numa tarde chuvosa de segunda-feira, com uns sete meses de gravidez, eu e o Davi, nosso filho de 2 anos, recebemos duas visitas queridas. Uma delas veio me ajudar a relembrar respiração e relaxamento para o trabalho de parto, a outra veio trazer um mosaico com o nome do Pedro. Tinha torta de banana com chocolate e um chazinho. Estava um clima muito gostoso, mas só me dei conta dele quando escutei: “que delícia aqui, tá... um cheiro de lar!”. Fiquei muito feliz e emocionada, porque eu sabia exatamente o que era isso, de tantas vezes ter sentido em casas de avós - em lares de avós.
Posso dizer que foi aí que eu me rendi ao parto domiciliar. Eu não percebi na hora, mas foi esse momento que me fez passar a desejar que o Pedro nascesse aquiem casa. Alguns dias depois, na consulta com a homeopata da família, que recomendava o parto domiciliar desde o início da gestação, se assim quiséssemos, perguntei muito e me pus a chorar. Estava convencida. Os próximos dias foram para ir revelando ao Rodrigo, meu amado esposo, que eu já tinha uma decisão, já tinha elegido um plano A dentre as várias opções que havíamos desenhado. Por amor ele me ouviu, por amor ele se abriu, por amor ele e eu continuamos avaliando os prós e contras. Até que a decisão passou a ser nossa.
Retomamos contato com a parteira que já havíamos conhecido há alguns meses e fizemos mais mil perguntas a nossa homeopata, que se dispôs a acompanhar o parto também. Ficamos ainda mais confortáveis com tudo. Preferimos não revelar nossas intenções à família, apenas minha mãe e meu pai souberam antes do dia D. Imaginávamos que as tensões e medos de todos poderiam interferir no conforto da decisão. Não sei se teria sido assim. Depois que o Pedro nasceu à ideia foi tão bem recebida, os familiares e amigos ficaram tão tocados, tão admirados e tão agradecidos! Mas, desde o nascimento do Davi, parto normal hospitalar, achamos mais confortável evitar as pressões que acabam acontecendo perto da hora P.
O Pedro tem o nome do meu avô, uma homenagem. A data prevista para o parto era quatro de novembro e eu queria muito que ele nascesse no dia cinco, data natalícia do meu outro avô. Mas, pelas minhas contas as 40 semanas se completariam dia sete.
Estava combinado com meu GO que, se “nada acontecesse” até dia 4, eu deveria ligar para ele. Dia quatro fiz uma bela caminhada, dia cinco caminhei de manhã e só liguei para ele à tarde. Ele disse que eu fosse à maternidade para uma amnioscopia. Não gostei nada da ideia: já sabia que estava com dilatação de três para quatro dedos (porque minha parteira tinha verificado), talvez quisessem me segurar por lá. Além disso, não me convenci da necessidade desse exame. E foi a sorte, porque houve mecônio no nascimento, e se já houvesse no momento do exame, poderia apavorar a equipe e pôr em risco inclusive um parto normal. Não fui. Andei por mais uma hora no entardecer do dia cinco. Nesses últimos dias, de vez em quando eu tinha umas contrações doloridinhas.
Dia seis, sexta-feira, amanheci decidida a conversar com meu GO. Liguei para ele e disse que não ficasse na expectativa da minha amnioscopia, porque eu não iria. Falei também que queria muito entrar em trabalho de parto em casa e que se tudo estivesse bem, poderia ficar por aqui mesmo e dar à luzem casa. Ele estava esperando assistir ao parto no hospital em conjunto com a parteira. Foi uma conversa muito boa, pude agradecer sua atenção e cuidado durante o pré-natal e antes de desligar perguntei se poderia passar no consultório na segunda-feira, caso nada acontecesse. Na verdade foi um telefonema libertador e acho que a partir daí as coisas engrenaram mesmo.
Fui ao parque com minha mãe e o Davi. Eles ficaram jogando bola e eu andando com o Pedro na barriga. Foi um momento inesquecível, delicioso, lindo. Quando pensava em parar, eu dava uma volta mais. Enquanto andava eu cantava baixinho:
Depois fiquei alongando, soltando o quadril, como minha parteira tinha me ensinado. Passamos à tarde na casa da minha mãe, brinquei muito com o Davi no quintal, com o barrigão de fora, agachando para aliviar as contrações. Uma delícia não ter nenhum problema em “exagerar”, “carregar peso” etc: já estava na hora de nascer, mesmo...
Algumas contrações pareciam mais “definidas”, eu liguei para minha parteira umas duas ou três vezes, um pouco preocupada com o trânsito do horário de pico. Ela me disse que daria tempo e que eu não ficasse racionalizando, medindo as contrações, mas que deixasse meu corpo se entregar, que eu iria perceber a evolução mesmo sem cronometrar. Segui a risca essa sugestão. Estava um dia bem quente, no início da noite fui tomar banho, pensando “será o último banho grávida?”. Umas oito e pouco tive uma contração definida e senti uma umidade, não sei bem o que era. Estava meio alheia às conversas da família, na sala. O Rodrigo chegou para nos buscar. Eu tinha ido dirigindo, mas fui falando com ele à tarde por telefone e decidimos deixar o carro lá e pegar no dia seguinte (rsrs, o carro ficou lá por um bom tempo!).
Fui embora certa de que o Pedro nasceria naquela noite. O Davi dormiu no carro. Ao chegar em casa, separei umas fraldas, toalhas, e deixei em cima da mesa. Parecia tudo pronto. Na verdade, ainda tinha muita coisa para ser feita, mas é como se nada importasse, o essencial estava lá. Assisti um pouco de televisão, era tão estranho pensar que supostamente alguns instantes antes do parto tudo estava tão normal, sem cerimônia nenhuma... brinquedos no chão, roupas espalhadas, louça na cozinha (até que a casa estava arrumadinha, porque passamos o dia fora!). E por outro lado não havia escândalo nenhum nisso. É o fluxo da vida mesmo.
As contrações silenciaram. Fui deitar por volta das dez com uma sensação de “parou“. Liguei para minha mãe dizendo que dormisse tranqüila, porque pelo jeito não estava acontecendo mais nada. Fiquei deitada, mas não peguei no sono logo, fiquei rezando e adormeci mais de onze horas. Meia noite e vinte acordei com uma contraçãaaaao. Fui ao banheiro, voltei e deitei mais um pouquinho para descansar, mas não cairia no erro de ficar deitada como fiz durante o trabalho de parto do Davi (como era madrugada, minha intenção era dormir entre as contrações). Como mudei nesses dois anos! Como aprendi sobre gestação, parto, nascimento, e sobre mim!
Tentei ir para a sala, mas o resto da casa me parecia “impessoal”, quis ficar no quarto mesmo. Fui para a cozinha e comi alguma coisa, voltei para o quarto com a bola suíça. Fiquei sentada na bola rebolando, com o rosto apoiado na cama, numa almofadinha. Fui ao banheiro várias vezes.
Por volta da 1:30 chamei o Rodrigo e decidimos ligar para a parteira. Ele foi buscar o telefone, eu mesma falei. Ela me perguntou a freqüência das contrações e eu disse “mas, você me falou para não medir...”. Ela me orientou a ir para o chuveiro e eu perguntei se isso não relaxaria e faria as contrações pararem. Ela falou bem sério comigo perguntando o que eu queria. Em nenhum momento eu tive dúvidas de que ficaria em casa, na verdade para mim já estava acontecendo e assim continuaria, mas entendo esse questionamento dela como mais um convite a parar de racionalizar (se no chuveiro o processo parasse, era porque não era trabalho de parto, senão continuaria e pronto. Deixa fluir.). Nem registrei detalhes da conversa, porque as contrações estavam fortes. Quando vi que ela ia desligar, eu disse que durante o telefonema tinha tido três contrações (tempos depois, quando a conta de telefone chegou, vi que essa chamada teve quatro minutos e
20! E eu tive três contrações! Foi bom mesmo não ter medido).
Fui para o chuveiro. Muitas vezes, quando eu imaginava o trabalho de parto, pensava que seria bem humorado subir na balança imediatamente antes e imediatamente depois do parto. Mas naquela hora olhei para a balança e não tive humor nenhum para fazer isso, rsrs... Engraçado que pensei “daqui a pouco, quando a dor melhorar, eu subo”. Até parece...
Fiquei em pé com a água morna caindo nas minhas costas por um tempo. Foi bom porque aliviou o calor, mas logo comecei a ficar com frio. O Rodrigo fechou a janela do banheiro e começou a derreter... Resolvi ficar de quatro, rebolando, no chão da banheira, mas logo meus joelhos e cotovelos começaram a doer bastante por causa do meu peso. O Rodrigo foi buscar o tapete de EVA do Davi para eu me apoiar, mas não deu muito certo porque as partes começaram a boiar e ficar arrumando me irritava. Pedi umas toalhas de rosto e o Rodrigo me ajudou a colocá-las sob os braços e joelhos. Aliviou por pouco tempo, mas em alguns momentos essa dor era mais incômoda do que as próprias contrações. Lembrei que soltando a mandíbula a gente solta a pelve também e comecei a abrir e fechar a boca, emitindo um gemido como um /gzangzangzan/ mal articulado, especialmente durante as contrações.
“Daqui a pouco” escutei a voz da minha parteira, Vilma: “pra frente e pra trás” (minha tendência era sempre rebolar para os lados). Eu sorri, disse “oooi”. Perguntei as horas, eram 2:30. Não acreditei que uma hora havia se passado, parecia muito menos! Perguntei se ela queria que eu avisasse sobre as contrações, e eu logo disse “acabou de acabar uma” e uns cinco segundos depois “não, só está acabando agora”, ela riu. Eu mesma não ia conseguir avisar e logo percebi que com a experiência dela ficava mais do que nítido quando começava e acabava a contração, então desisti. A Vilma perguntou se tínhamos ligado para a médica, então eu pedi que ela fizesse isso. Ao voltar ela não disse nada. Depois perguntou se eu queria verificar a dilatação. Eu aceitei. Tive que mudar de posição na banheira para me aproximar dela e percebi como estava difícil comandar meus movimentos. Sete centímetros! Que alegria! Fiquei muitosatisfeita, comemorei com o Rodrigo, “uaaau!”, mas logo pensei “ai, e os outros três?!”.
Uma vez, conversamos sobre nossa vontade de que o Pedro nascesse na água. A Vilma fechou a tampinha da banheira para já ir enchendo, acho que ela viu que estava progredindo rápido. Fiquei mais um pouco ali, rebolando, movimentando a mandíbula, gemendo. A sensação térmica indefinida e variável estava muito incômoda. Por causa da dor nos apoios, fiquei em pé novamente, embaixo do chuveiro, com a cabeça tombada para o lado direito. A Vilma me sugeriu retificar a cabeça e perguntou se eu estava evitando molhar o cabelo. Não era isso, eu não sei por que estava torta, mas era muito custoso comandar o movimento de arrumar a cabeça.
Em algum momento perguntei se eles tinham conseguido falar com a médica, só para ter uma ideia de quando ela chegaria, mas a Vilma disse que não. Eu estranhei e ela disse que o celular deu caixa postal, se estava tudo bem pra mim. Olhei pro Rodrigo e fiz que sim com a cabeça, na verdade na hora não me importei nem um pouco com isso, não dei espaço para me importar, quis “continuar meu trabalho” sem gastar energia lidando com esse inesperado.
Não consigo lembrar com exatidão a cronologia desse pedaço, mas sei que quando eu estava mergulhada na água da banheira senti vontade de ir ao banheiro. Com muita dificuldade (começar a falar era difícil também) disse isso. A Vilma disse que eu podia fazer ali mesmo, depois era só remover. Num instante vi o Rodrigo chegar no banheiro com um balde e uma pazinha de lixo. Ri, olhei para a Vilma e ela riu também.
Achei isso lindo, essa passagem tão boba ilustra muito bem como o Rodrigo estava ali presente, completamente disponível. Mas eu ainda estava tentando entender se era mesmo vontade de ir ao banheiro.
A Vilma disse “depois a gente troca a água”, mas aquilo me deu uma preguiça tremenda, encher tudo de novo? Ia demorar, minha vontade era “agilizar”. Não falei nada, acho que só acenei “não” com a cabeça. Ela me disse para não segurar a vontade, porque quem segura uma coisa segura outra – no caso, o bebê! – também.
Então eu me superei e saí dali, apoiada pelo Rodrigo. Sentei no vaso e a pressão foi muito forte, como se estivesse sentando numa cadeira. Eles colocaram uma toalha nas minhas costas, porque o frio aumentou muito nessa hora. Vi que não ia acontecer nada e resolvi ficar de cócoras no chão. Segurei bem firme na pia e comecei a transferir o peso de uma perna para outra, com o quadril bem baixo.
A parteira tinha escutado o coraçãozinho do Pedro umas duas vezes na banheira e nesse momento escutamos de novo e ela me mostrou como estava posicionando o aparelho bem mais para baixo, sinal que ele estava encaixando cada vez mais. Ouvimos o coraçãozinho dele por um bom tempo, perguntei se estava tudo bem, ela me garantiu que estava tudo ótimo e que seria a primeira a dizer caso não gostasse de alguma coisa. A partir daí nem pensei em me preocupar com isso, apenas confiei.
Foi muito bom sair da banheira, acho que estava cansada da posição. Mas a dor continuava muito forte, só a posição estava melhor. Quando eu estava de cócoras foi a única vez que fiquei contrariada pelo fato da médica não estar lá, porque me lembrei que tínhamos providenciado uns remédios homeopáticos para o parto e certamente algum deles poderia aliviar aquela dor. Dias depois comentei isso com a parteira e ela falou que eu podia ter dito isso a ela; realmente podia, mas falar dava tanto trabalho...
O Rodrigo ficou sentado na tampa do vaso, atrás de mim, me sustentando pelas axilas. E eu balançando de cócoras. O contato físico com o Rodrigo durante o trabalho de parto foi impressionantemente confortável.
O toque da Vilma também; os dois não ficaram pegando em mim o tempo todo, mas os momentos em que me lembro de ter sentido o toque deles foram de muito alívio. Sempre que eu “aconselho” alguma amiga grávida, eu faço questão de dizer como é fundamental o contato físico do marido no trabalho de parto.
De vez em quando eu choramingava alto, não queria gritar para não acordar o Davi, mas nem senti mesmo vontade de gritar. Estava bem dolorido, nos intervalos entre as contrações doía também, como se houvesse uma dor contínua e picos de dor sobrepostos a ela. Nessa hora me lembrei de Nossa Senhora. Tudo pareceu ficar mais fresco e mais claro. Veio a inspiração de cantar e eu comecei, com uma afinação que não era minha:
Tudo ao redor pareceu parar. Experimentei um alívio muito profundo enquanto cantava. Depois disso, entre as contrações eu simplesmente repousava. Vinha a dor, forte, dura, e depois eu só sentia conforto e paz. Estava num colo de Mãe, no colo de uma Mãe que, há dois mil anos, numa estrebaria, deu à luz a Luz.
A Vilma me perguntou se eu queria comer. Lembrei que tinha lido sobre mel no trabalho de parto e tinha providenciado para essa hora. Pedi ao Rodrigo, mas a Vilma perguntou se eu não queria alguma coisa salgada que tivesse em casa ou uma fruta. Eu pedi manga “cortada” – como se ele fosse e trazer uma inteira... rsrs. Comi uns pedaços e falei “preciso passar fio dental”. A Vilma arregalou os olhinhos, haha, não cheguei nem perto de expressar que estava brincando.
Em algum momento dessa etapa em que eu estava entre vaso/chão, por volta de umas 3:00, o Davi chorou. Lembro que o Rodrigo não estava no banheiro, então acho que ele tinha ido buscar a manga, e eu pedi à Vilma que verificasse se ele tinha ouvido o Davi. Foi muito ruim ficar sozinha. O Rodrigo atendeu o Davi, que dormiu num instante, e voltou.
De vez em quando a Vilma abaixava para olhar entre minhas pernas, e eu pensava “o que ela está fazendo, não sabe que ainda vai demorar?!”. Ela comentou que eu estava na transição para o expulsivo e eu disse “não, não é assim a transição!” Hahaha, acho que minha expectativa era de uma “solenidade” nessa hora, como se aparecesse um luminoso em algum lugar anunciando a transição. Depois de um tempo resolvi perguntar se estava na transição, só para ouvir de novo, e ela disse que já estava no expulsivo. Muito estranho como é mesmo uma divisão didática, não foi nada “definido”.
Ela viu que meus pés estavam ficando roxos e me sugeriu esticar as pernas ali no chão mesmo (acho que tinham estendido uma toalha antes de eu sair da banheira). Eu demorei muito para responder. Tinha a impressão de que não conseguiria, porque era muita pressão embaixo, parecia que não poderia fechar as pernas para a “manobra”. Comentei que queria deitar na cama, mas um pouco descrente que aquilo fosse possível. Recebi o maior incentivo, a Vilma disse que eu poderia tentar dormir um pouco e o Rodrigo praticamente me carregou, eu fui bem curvada e fiquei de quatro na cama (suíte).
A Vilma foi arrumando uns travesseiros sob minha barriga e me cobriu, o que foi muito ruim, porque nessa hora eu estava com calor. Mas eu não conseguia expressar isso, não estava entendendo direito se tinha algum motivo para me cobrir, até que perguntei se precisava ficar coberta e a Vilma entendeu e tirou as cobertas. Continuei rebolando e fazendo aquele som durante as contrações, mas estava tensa depois da “mudança” para a cama. Tomei consciência disso e tentei relaxar, lembrei que Deus estava cuidando de mim e da presença de Nossa Senhora. Soltei muito meus ombros e meu rosto, de bruços sobre o travesseiro, deu certo, foi muito bom, expirei tranqüila algumas vezes, é como se esses breves momentos de relaxamento entre as contrações tivessem a qualidade de um cochilo. Na dor eu choramingava, nessa hora foi mais alto, e optei por não me preocupar em acordar o Davi, como se tivesse uma clareza que agora ele não acordaria.
A Vilma me pediu para deitar de lado, para que ela pudesse colocar o lençol descartável na cama. O outro lado da cama estava forrado com plástico há algumas semanas, para quando a bolsa estourasse, mas a lucidez desses detalhes não combina com trabalho de parto, eu até pensei nisso, mas deixei pra lá. Continuei deitada do lado esquerdo e pedi a bola para apoiar minha perna direita, estava pesando muito. O Rodrigo deitou atrás de mim, bem pertinho, com a mão meu ombro e me lembrando de abaixar o queixo (minha tendência era hiperestender o pescoço). Sentir o toque do corpo dele foi novamente muito confortante, disse isso e ele se aproximou mais. Tiramos a bola.
Pedi pra Vilma “fala que eu vou conseguir?” e ela imediatamente: “mas você já tá conseguindo! Tá nascendo!”. Perguntou se queria que apagasse a luz, eu aceitei, foi ótimo, porque eu não teria me lembrado disso e ficou muito acolhedor o ambiente com a luz do banheiro acesa e a do quarto apagada.
Então ela disse que quando eu tivesse vontade poderia fazer força. Que bom que ela falou isso, porque pode parecer maluco, mas eu tinha esquecido completamente da força. Até aquele momento nem tinha me passado pela cabeça fazer força! E eu pensava que, indo tudo tão natural assim, seria uma vontade natural também. Na verdade em momento nenhum eu senti os puxos, e, como no parto do Davi - com ocitocina sintética - eles formam muito definidos e intrusos, acho que estava esperando algo assim. Bem, tentei fazer uma força só para ver o que acontecia e o interessante foi que no fim da força, aí sim dava vontade de fazer uma força ainda maior e eu sentia o Pedro descendo.
Não sei quantas forças fiz, acho que umas oito ou 10, talvez mais. A bolsa literalmente explodiu numa força, eu e o Rodrigo tivemos a impressão de ver o contorno do líquido no ar, como nos filmes em câmera lenta. A Vilma ficou toda molhada e eu pedi desculpas, hahaha. Foi gostoso quando toda aquela água quentinha saiu, como se a pressão diminuísse.
A Vilma sugeriu baixinho para eu chamar o Pedro; eu fiquei relutante por uns segundos e quando comecei não parei mais: “Vem, Pedro, vem com a mamãe, filhinho, vem no colo da mamãe!”.
Esse momento na cama deve ter durado uma meia hora. A Vilma insistiu para eu pôr a mão na cabecinha do Pedro quando ele coroou, eu só queria empurrar, queria que nascesse logo; eu estava segurando a minha perna e era muito trabalhoso comandar o movimento do braço para tocar a cabecinha do Pedro. O Rodrigo levou minha mão e eu senti o cabelinho dele. Continuei fazendo força e senti um ardor e só nessa hora lembrei da possibilidade de laceração, mas não dei a menor importância para isso, o ardor ia aumentando e eu fazendo mais força, não tomei cuidado nenhum.
Senti a cabecinha sair, o maior alívio do mundo, uma sensação muito agradável, a Vilma desenrolou uma circular de cordão rapidinho (eu nem percebi direito) e depois mais forças e o corpinho saindo, deu para perceber o corpinho dele “afinando” do bumbunzinho para os pés. 3:56h. Ele fez “ihiii”, baixinho, não chorou. Imediatamente ela o colocou em meu colo, eu disse: “que pequenininho!” e eles dois “não, não é pequenininho não!”. Eu sentia o cordão esticado por fora da minha barriga. A Vilma ajudou o Pedro a abocanhar o peito e ali ele ficou, conectado comigo, mamando, deitado no meu braço esquerdo enquanto eu segurava o bumbunzinho molhado dele com a outra mão. Aquele cheiro de filho, tão especial, que eu sinto agora ao escrever. Não chorei na hora, foi um êxtase, parece que a emoção passou do ponto que faz chorar.
A Vilma colocou uma fralda de pano e uma toalhinha de capuz, bordada pela minha sogra, cobrindo o Pedro no meu colo. Falei um pouquinho com ele, nós três adultos ficamos conversando um pouco. Sem a menor pressa a Vilma pegou a tesoura para cortar o cordão. Deitei de costas, com muito custo. O Rodrigo nunca pensou em cortar o cordão, estava decidido que não cortaria e eu não ia questionar. Mas nessa hora ele tomou a iniciativa como se fosse a coisa mais clara do mundo e cortou. Disse que ficou impressionado com a dureza do cordão.
Só a partir dessa hora lembramos de fotografar. Queria muito ter mais fotos. As que temos não estão estéticas. Mas as lembranças são tão lindas!
Percebi uma movimentação da Vilma e lembrei da placenta... Falei “ah, deixa a placenta pra lá, não quero mais!”, mas não tinha jeito... Enquanto o Pedro mamava senti uma bola saindo, foi gostoso, fiquei animada achando que tinha sido a placenta, mas foi só um coágulo, beeem mais fácil. Fiz uma força e senti uma cólica, a placenta saiu aquela sensação tão boa de alívio, embora a laceração de grau 2, de uns3 cm , estivesse ardendo. Pedi para ver a placenta, coisa que queria desde o parto do Davi, quando meu pedido, idêntico a esse, foi simplesmente ignorado. A Vilma explicou e mostrou tudinho. Na penumbra não consegui ver com nitidez, mas fiquei satisfeita. Achei a placenta linda. Ela ficou guardada na geladeira e no dia seguinte minha mãe a enterrou num vaso grande onde está plantado um jasmim viçoso e cheiroso. Com o cordão umbilical minha mãe montou um formato de coração.
A Vilma deu uma arrumada na bagunça do quarto, perguntou se estava tudo bem e foi para a sala, para que pais e filho curtissem o momento com privacidade. O Pedro não parava de mamar. Eu e o Rodrigo ficamos reconstituindo tudo, tentando lembrar como tinha acontecido, o Pedro era parte da cena, era estranho falar dele com ele ali, mas ele estar “do lado de fora” era apenas a conseqüência, foi tudo um contínuo. Eu estava eufórica, acordadíssima, aquele momento pós-parto imediato poderia ter durado muito mais. Se não me engano foi nesse período que o Davi deu sua segunda acordada da noite, eu até me animei pensando que ele conheceria o irmãozinho, mas o Rodrigo foi atendê-lo e ele dormiu instantaneamente.
Quando a Vilma voltou, ficou espantada pelo Pedro ainda estar mamando sem parar. Tinham se passado 50 minutos desde que ela saíra. Então ela pediu licença para pesá-lo e vesti-lo. Para isso, o Rodrigo o segurou pela primeira vez. Eu fiquei muito emocionada, chorei rindo, queria abraçá-los, mas não conseguia nem me mexer. Tirei umas fotos borradas, a Vilma tirou umas fotos borradas da gente, sem flash, eu toda esparramada.
Pesamos o Pedro duas vezes, porque esquecemos de tirar foto na primeira pesagem, hahah... parecia que eu queria descontar as fotos perdidas... 3,680g. Ele chorou na segunda vez, foi muito legal ouvi-lo. A Vilma perguntou onde estava a roupinha que o Pedro vestiria e ela estava na mala “da maternidade”, rsrs, que ficou por semanas no quarto dos meninos. Por um instante pensamos que o Davi acordaria, mas lembrei que antes de deitar eu a trouxe para o nosso quarto. O Rodrigo encontrou lá dentro da mala: body e mijão amarelinho com balinhas e docinhos desenhados em laranja, macacão amarelo com cavalinho “upa, upa!”, escolhido pelo papai, já usado pelo Davi, gorrinho de lã amarelinho. Este deu um pouquinho mais de trabalho para encontrar na mala... A fraldinha descartável minúscula que ele usou, a Vilma disse, rindo, que não daria nem por uma semana. Eu tinha imaginado vestir o Pedro, mas nem considerei essa possibilidade na hora, tinha sido muito exigida fisicamente.
A Vilma perguntou se precisávamos de alguma coisa ou se podia ir, deu algumas orientações, “Aline, descansa, você pariu” (que delícia ouvir isso!). Disse que voltaria no dia seguinte, ou que ligássemos se precisássemos dela à noite. Eram umas 5:30h.
Quando o Pedro voltou para o meu colo, dormiu. O colocamos ao meu lado, na cama, foi aí que eu vi o rostinho dele pela primeira vez. Na verdade, só no meio do dia vi direitinho, mas parecia um rosto tão misterioso, tão desconhecido, tão diferente do meu “parâmetro” (o rosto do Davi), me atraía para examinar cada detalhe, para olhar mais e mais. O Rodrigo não ficou à vontade em ficar deitado na cama, acho que teve medo de “atropelar” o Pedro, e foi para a sala. Logo o Pedro chorou e eu o “arrastei” para meu peito, foi bem difícil ajudá-lo a abocanhar, porque eu não conseguia levantar a minha cabeça, mas nem precisou: ele deitou em mim e dormiu. Lembro nitidamente do sonzinho da sua respiração irregular.
Dei umas cochiladas, mas logo fiquei com vontade de fazer xixi; muita dor nas costas, muita dificuldade para levantar, desisti. Tentei chamar o Rodrigo algumas vezes, mas não queria acordar o Davi. Quando escutei o Davi acordar, por volta das 7:00h., achei ótimo poder chamar bem alto o Rodrigo.
O Davi pediu água de côco e enquanto o pai foi buscar, ele saiu do quarto, coisa que nunca faz. Passou pela porta do meu quarto e eu disse “Davi, sabe o que aconteceu? Olha quem tá aqui!” E ele: “Ah, o Pido! Quero essa água de côco aqui!” (apontando para o cabelinho do irmão). Então eu fiz de conta que entreguei um copo a ele, a partir da cabecinha do Pi, que então já estava sem o gorro, bem quentinho no peito da mamãe. Ele recusou o “copinho”: “Nãaao!” Ficou na pontinha dos pés e fez um carinho na cabecinha do Pi. Saiu correndo atrás de sua água de côco.
Eu poderia continuar relatando os acontecimentos um atrás do outro. Uma das coisas mais impressionantes dessa experiência natural foi a quão contínua ela foi. Até hoje, dia em que o Pedro comemora seus quatro meses, um fato atrás do outro, uma emoção atrás da outra, um desafio atrás do outro, sem interrupções. Nesses quatro meses, os que passaram mais rápido em todos os meus trinta anos foram ficando mais nítido a cada dia como a vida é feita de imprevistos e como as coisas acontecem “apesar” de nossas previsões: a realidade se impõe.
Agradeço muito a Deus pela nossa saúde; a Nossa Senhora, por ter me acompanhado tão maternalmente; ao Rodrigo, por confiar em mim, por nos amar e querer o melhor para nós; ao Pedro, por ter feito seu trabalho com tanta simplicidade e continuar assim até hoje; ao Davi, pela forma carinhosa como recebeu o irmãozinho e sempre o tratou; a Vilma Nishi pela sensibilidade de fazer apenas o necessário, com tanto respeito.
Escrever este relato foi surpreendentemente bom.
Agradeço muito a vocês por manterem este espaço. O parto do Pedro foi um sucesso e sei que eu estava preparada para ele, portanto ter aprendido com vocês e com o grupo MaternaMente, grupo de apoio ao parto ativo no ABC (São Paulo), apoiado pela Parto do Princípio. Aproveito para encaminhar o link de uma matéria que saiu num jornal local, da qual participamos.
Numa tarde chuvosa de segunda-feira, com uns sete meses de gravidez, eu e o Davi, nosso filho de 2 anos, recebemos duas visitas queridas. Uma delas veio me ajudar a relembrar respiração e relaxamento para o trabalho de parto, a outra veio trazer um mosaico com o nome do Pedro. Tinha torta de banana com chocolate e um chazinho. Estava um clima muito gostoso, mas só me dei conta dele quando escutei: “que delícia aqui, tá... um cheiro de lar!”. Fiquei muito feliz e emocionada, porque eu sabia exatamente o que era isso, de tantas vezes ter sentido em casas de avós - em lares de avós.
Posso dizer que foi aí que eu me rendi ao parto domiciliar. Eu não percebi na hora, mas foi esse momento que me fez passar a desejar que o Pedro nascesse aqui
Retomamos contato com a parteira que já havíamos conhecido há alguns meses e fizemos mais mil perguntas a nossa homeopata, que se dispôs a acompanhar o parto também. Ficamos ainda mais confortáveis com tudo. Preferimos não revelar nossas intenções à família, apenas minha mãe e meu pai souberam antes do dia D. Imaginávamos que as tensões e medos de todos poderiam interferir no conforto da decisão. Não sei se teria sido assim. Depois que o Pedro nasceu à ideia foi tão bem recebida, os familiares e amigos ficaram tão tocados, tão admirados e tão agradecidos! Mas, desde o nascimento do Davi, parto normal hospitalar, achamos mais confortável evitar as pressões que acabam acontecendo perto da hora P.
O Pedro tem o nome do meu avô, uma homenagem. A data prevista para o parto era quatro de novembro e eu queria muito que ele nascesse no dia cinco, data natalícia do meu outro avô. Mas, pelas minhas contas as 40 semanas se completariam dia sete.
Estava combinado com meu GO que, se “nada acontecesse” até dia 4, eu deveria ligar para ele. Dia quatro fiz uma bela caminhada, dia cinco caminhei de manhã e só liguei para ele à tarde. Ele disse que eu fosse à maternidade para uma amnioscopia. Não gostei nada da ideia: já sabia que estava com dilatação de três para quatro dedos (porque minha parteira tinha verificado), talvez quisessem me segurar por lá. Além disso, não me convenci da necessidade desse exame. E foi a sorte, porque houve mecônio no nascimento, e se já houvesse no momento do exame, poderia apavorar a equipe e pôr em risco inclusive um parto normal. Não fui. Andei por mais uma hora no entardecer do dia cinco. Nesses últimos dias, de vez em quando eu tinha umas contrações doloridinhas.
Dia seis, sexta-feira, amanheci decidida a conversar com meu GO. Liguei para ele e disse que não ficasse na expectativa da minha amnioscopia, porque eu não iria. Falei também que queria muito entrar em trabalho de parto em casa e que se tudo estivesse bem, poderia ficar por aqui mesmo e dar à luz
Fui ao parque com minha mãe e o Davi. Eles ficaram jogando bola e eu andando com o Pedro na barriga. Foi um momento inesquecível, delicioso, lindo. Quando pensava em parar, eu dava uma volta mais. Enquanto andava eu cantava baixinho:
“Espero por Ti / Sou sede de Ti / Ouve meu grito / Quero liberdade/ Quero meu pé na estrada que me leva a Ti...”
e
e
“A voz do anjo sussurrou no meu ouvido / E eu não duvido, já escuto teus sinais / Que tu virias num amanhã de domingo / Eu te anuncio nos sinos das catedrais / Tu vens, tu vens, eu já escuto teus sinais”.
Depois fiquei alongando, soltando o quadril, como minha parteira tinha me ensinado. Passamos à tarde na casa da minha mãe, brinquei muito com o Davi no quintal, com o barrigão de fora, agachando para aliviar as contrações. Uma delícia não ter nenhum problema em “exagerar”, “carregar peso” etc: já estava na hora de nascer, mesmo...
Algumas contrações pareciam mais “definidas”, eu liguei para minha parteira umas duas ou três vezes, um pouco preocupada com o trânsito do horário de pico. Ela me disse que daria tempo e que eu não ficasse racionalizando, medindo as contrações, mas que deixasse meu corpo se entregar, que eu iria perceber a evolução mesmo sem cronometrar. Segui a risca essa sugestão. Estava um dia bem quente, no início da noite fui tomar banho, pensando “será o último banho grávida?”. Umas oito e pouco tive uma contração definida e senti uma umidade, não sei bem o que era. Estava meio alheia às conversas da família, na sala. O Rodrigo chegou para nos buscar. Eu tinha ido dirigindo, mas fui falando com ele à tarde por telefone e decidimos deixar o carro lá e pegar no dia seguinte (rsrs, o carro ficou lá por um bom tempo!).
Fui embora certa de que o Pedro nasceria naquela noite. O Davi dormiu no carro. Ao chegar em casa, separei umas fraldas, toalhas, e deixei em cima da mesa. Parecia tudo pronto. Na verdade, ainda tinha muita coisa para ser feita, mas é como se nada importasse, o essencial estava lá. Assisti um pouco de televisão, era tão estranho pensar que supostamente alguns instantes antes do parto tudo estava tão normal, sem cerimônia nenhuma... brinquedos no chão, roupas espalhadas, louça na cozinha (até que a casa estava arrumadinha, porque passamos o dia fora!). E por outro lado não havia escândalo nenhum nisso. É o fluxo da vida mesmo.
As contrações silenciaram. Fui deitar por volta das dez com uma sensação de “parou“. Liguei para minha mãe dizendo que dormisse tranqüila, porque pelo jeito não estava acontecendo mais nada. Fiquei deitada, mas não peguei no sono logo, fiquei rezando e adormeci mais de onze horas. Meia noite e vinte acordei com uma contraçãaaaao. Fui ao banheiro, voltei e deitei mais um pouquinho para descansar, mas não cairia no erro de ficar deitada como fiz durante o trabalho de parto do Davi (como era madrugada, minha intenção era dormir entre as contrações). Como mudei nesses dois anos! Como aprendi sobre gestação, parto, nascimento, e sobre mim!
Tentei ir para a sala, mas o resto da casa me parecia “impessoal”, quis ficar no quarto mesmo. Fui para a cozinha e comi alguma coisa, voltei para o quarto com a bola suíça. Fiquei sentada na bola rebolando, com o rosto apoiado na cama, numa almofadinha. Fui ao banheiro várias vezes.
Por volta da 1:30 chamei o Rodrigo e decidimos ligar para a parteira. Ele foi buscar o telefone, eu mesma falei. Ela me perguntou a freqüência das contrações e eu disse “mas, você me falou para não medir...”. Ela me orientou a ir para o chuveiro e eu perguntei se isso não relaxaria e faria as contrações pararem. Ela falou bem sério comigo perguntando o que eu queria. Em nenhum momento eu tive dúvidas de que ficaria em casa, na verdade para mim já estava acontecendo e assim continuaria, mas entendo esse questionamento dela como mais um convite a parar de racionalizar (se no chuveiro o processo parasse, era porque não era trabalho de parto, senão continuaria e pronto. Deixa fluir.). Nem registrei detalhes da conversa, porque as contrações estavam fortes. Quando vi que ela ia desligar, eu disse que durante o telefonema tinha tido três contrações (tempos depois, quando a conta de telefone chegou, vi que essa chamada teve quatro minutos e
20! E eu tive três contrações! Foi bom mesmo não ter medido).
Fui para o chuveiro. Muitas vezes, quando eu imaginava o trabalho de parto, pensava que seria bem humorado subir na balança imediatamente antes e imediatamente depois do parto. Mas naquela hora olhei para a balança e não tive humor nenhum para fazer isso, rsrs... Engraçado que pensei “daqui a pouco, quando a dor melhorar, eu subo”. Até parece...
Fiquei em pé com a água morna caindo nas minhas costas por um tempo. Foi bom porque aliviou o calor, mas logo comecei a ficar com frio. O Rodrigo fechou a janela do banheiro e começou a derreter... Resolvi ficar de quatro, rebolando, no chão da banheira, mas logo meus joelhos e cotovelos começaram a doer bastante por causa do meu peso. O Rodrigo foi buscar o tapete de EVA do Davi para eu me apoiar, mas não deu muito certo porque as partes começaram a boiar e ficar arrumando me irritava. Pedi umas toalhas de rosto e o Rodrigo me ajudou a colocá-las sob os braços e joelhos. Aliviou por pouco tempo, mas em alguns momentos essa dor era mais incômoda do que as próprias contrações. Lembrei que soltando a mandíbula a gente solta a pelve também e comecei a abrir e fechar a boca, emitindo um gemido como um /gzangzangzan/ mal articulado, especialmente durante as contrações.
“Daqui a pouco” escutei a voz da minha parteira, Vilma: “pra frente e pra trás” (minha tendência era sempre rebolar para os lados). Eu sorri, disse “oooi”. Perguntei as horas, eram 2:30. Não acreditei que uma hora havia se passado, parecia muito menos! Perguntei se ela queria que eu avisasse sobre as contrações, e eu logo disse “acabou de acabar uma” e uns cinco segundos depois “não, só está acabando agora”, ela riu. Eu mesma não ia conseguir avisar e logo percebi que com a experiência dela ficava mais do que nítido quando começava e acabava a contração, então desisti. A Vilma perguntou se tínhamos ligado para a médica, então eu pedi que ela fizesse isso. Ao voltar ela não disse nada. Depois perguntou se eu queria verificar a dilatação. Eu aceitei. Tive que mudar de posição na banheira para me aproximar dela e percebi como estava difícil comandar meus movimentos. Sete centímetros! Que alegria! Fiquei muitosatisfeita, comemorei com o Rodrigo, “uaaau!”, mas logo pensei “ai, e os outros três?!”.
Uma vez, conversamos sobre nossa vontade de que o Pedro nascesse na água. A Vilma fechou a tampinha da banheira para já ir enchendo, acho que ela viu que estava progredindo rápido. Fiquei mais um pouco ali, rebolando, movimentando a mandíbula, gemendo. A sensação térmica indefinida e variável estava muito incômoda. Por causa da dor nos apoios, fiquei em pé novamente, embaixo do chuveiro, com a cabeça tombada para o lado direito. A Vilma me sugeriu retificar a cabeça e perguntou se eu estava evitando molhar o cabelo. Não era isso, eu não sei por que estava torta, mas era muito custoso comandar o movimento de arrumar a cabeça.
Em algum momento perguntei se eles tinham conseguido falar com a médica, só para ter uma ideia de quando ela chegaria, mas a Vilma disse que não. Eu estranhei e ela disse que o celular deu caixa postal, se estava tudo bem pra mim. Olhei pro Rodrigo e fiz que sim com a cabeça, na verdade na hora não me importei nem um pouco com isso, não dei espaço para me importar, quis “continuar meu trabalho” sem gastar energia lidando com esse inesperado.
Não consigo lembrar com exatidão a cronologia desse pedaço, mas sei que quando eu estava mergulhada na água da banheira senti vontade de ir ao banheiro. Com muita dificuldade (começar a falar era difícil também) disse isso. A Vilma disse que eu podia fazer ali mesmo, depois era só remover. Num instante vi o Rodrigo chegar no banheiro com um balde e uma pazinha de lixo. Ri, olhei para a Vilma e ela riu também.
Achei isso lindo, essa passagem tão boba ilustra muito bem como o Rodrigo estava ali presente, completamente disponível. Mas eu ainda estava tentando entender se era mesmo vontade de ir ao banheiro.
A Vilma disse “depois a gente troca a água”, mas aquilo me deu uma preguiça tremenda, encher tudo de novo? Ia demorar, minha vontade era “agilizar”. Não falei nada, acho que só acenei “não” com a cabeça. Ela me disse para não segurar a vontade, porque quem segura uma coisa segura outra – no caso, o bebê! – também.
Então eu me superei e saí dali, apoiada pelo Rodrigo. Sentei no vaso e a pressão foi muito forte, como se estivesse sentando numa cadeira. Eles colocaram uma toalha nas minhas costas, porque o frio aumentou muito nessa hora. Vi que não ia acontecer nada e resolvi ficar de cócoras no chão. Segurei bem firme na pia e comecei a transferir o peso de uma perna para outra, com o quadril bem baixo.
A parteira tinha escutado o coraçãozinho do Pedro umas duas vezes na banheira e nesse momento escutamos de novo e ela me mostrou como estava posicionando o aparelho bem mais para baixo, sinal que ele estava encaixando cada vez mais. Ouvimos o coraçãozinho dele por um bom tempo, perguntei se estava tudo bem, ela me garantiu que estava tudo ótimo e que seria a primeira a dizer caso não gostasse de alguma coisa. A partir daí nem pensei em me preocupar com isso, apenas confiei.
Foi muito bom sair da banheira, acho que estava cansada da posição. Mas a dor continuava muito forte, só a posição estava melhor. Quando eu estava de cócoras foi a única vez que fiquei contrariada pelo fato da médica não estar lá, porque me lembrei que tínhamos providenciado uns remédios homeopáticos para o parto e certamente algum deles poderia aliviar aquela dor. Dias depois comentei isso com a parteira e ela falou que eu podia ter dito isso a ela; realmente podia, mas falar dava tanto trabalho...
O Rodrigo ficou sentado na tampa do vaso, atrás de mim, me sustentando pelas axilas. E eu balançando de cócoras. O contato físico com o Rodrigo durante o trabalho de parto foi impressionantemente confortável.
O toque da Vilma também; os dois não ficaram pegando em mim o tempo todo, mas os momentos em que me lembro de ter sentido o toque deles foram de muito alívio. Sempre que eu “aconselho” alguma amiga grávida, eu faço questão de dizer como é fundamental o contato físico do marido no trabalho de parto.
De vez em quando eu choramingava alto, não queria gritar para não acordar o Davi, mas nem senti mesmo vontade de gritar. Estava bem dolorido, nos intervalos entre as contrações doía também, como se houvesse uma dor contínua e picos de dor sobrepostos a ela. Nessa hora me lembrei de Nossa Senhora. Tudo pareceu ficar mais fresco e mais claro. Veio a inspiração de cantar e eu comecei, com uma afinação que não era minha:
“Ó minha Senhora e também minha mãe
Eu me ofereço inteiramente toda a Vós
E em prova da minha devoção eu hoje vos dou meu coração
Consagro a Vós meus olhos, meus ouvidos, minha boca
Tudo o que sou desejo que a Vós pertença
Incomparável Mãe, guardai-me e defendei-me como filha e propriedade vossa. Amém”
Eu me ofereço inteiramente toda a Vós
E em prova da minha devoção eu hoje vos dou meu coração
Consagro a Vós meus olhos, meus ouvidos, minha boca
Tudo o que sou desejo que a Vós pertença
Incomparável Mãe, guardai-me e defendei-me como filha e propriedade vossa. Amém”
Tudo ao redor pareceu parar. Experimentei um alívio muito profundo enquanto cantava. Depois disso, entre as contrações eu simplesmente repousava. Vinha a dor, forte, dura, e depois eu só sentia conforto e paz. Estava num colo de Mãe, no colo de uma Mãe que, há dois mil anos, numa estrebaria, deu à luz a Luz.
A Vilma me perguntou se eu queria comer. Lembrei que tinha lido sobre mel no trabalho de parto e tinha providenciado para essa hora. Pedi ao Rodrigo, mas a Vilma perguntou se eu não queria alguma coisa salgada que tivesse em casa ou uma fruta. Eu pedi manga “cortada” – como se ele fosse e trazer uma inteira... rsrs. Comi uns pedaços e falei “preciso passar fio dental”. A Vilma arregalou os olhinhos, haha, não cheguei nem perto de expressar que estava brincando.
Em algum momento dessa etapa em que eu estava entre vaso/chão, por volta de umas 3:00, o Davi chorou. Lembro que o Rodrigo não estava no banheiro, então acho que ele tinha ido buscar a manga, e eu pedi à Vilma que verificasse se ele tinha ouvido o Davi. Foi muito ruim ficar sozinha. O Rodrigo atendeu o Davi, que dormiu num instante, e voltou.
De vez em quando a Vilma abaixava para olhar entre minhas pernas, e eu pensava “o que ela está fazendo, não sabe que ainda vai demorar?!”. Ela comentou que eu estava na transição para o expulsivo e eu disse “não, não é assim a transição!” Hahaha, acho que minha expectativa era de uma “solenidade” nessa hora, como se aparecesse um luminoso em algum lugar anunciando a transição. Depois de um tempo resolvi perguntar se estava na transição, só para ouvir de novo, e ela disse que já estava no expulsivo. Muito estranho como é mesmo uma divisão didática, não foi nada “definido”.
Ela viu que meus pés estavam ficando roxos e me sugeriu esticar as pernas ali no chão mesmo (acho que tinham estendido uma toalha antes de eu sair da banheira). Eu demorei muito para responder. Tinha a impressão de que não conseguiria, porque era muita pressão embaixo, parecia que não poderia fechar as pernas para a “manobra”. Comentei que queria deitar na cama, mas um pouco descrente que aquilo fosse possível. Recebi o maior incentivo, a Vilma disse que eu poderia tentar dormir um pouco e o Rodrigo praticamente me carregou, eu fui bem curvada e fiquei de quatro na cama (suíte).
A Vilma foi arrumando uns travesseiros sob minha barriga e me cobriu, o que foi muito ruim, porque nessa hora eu estava com calor. Mas eu não conseguia expressar isso, não estava entendendo direito se tinha algum motivo para me cobrir, até que perguntei se precisava ficar coberta e a Vilma entendeu e tirou as cobertas. Continuei rebolando e fazendo aquele som durante as contrações, mas estava tensa depois da “mudança” para a cama. Tomei consciência disso e tentei relaxar, lembrei que Deus estava cuidando de mim e da presença de Nossa Senhora. Soltei muito meus ombros e meu rosto, de bruços sobre o travesseiro, deu certo, foi muito bom, expirei tranqüila algumas vezes, é como se esses breves momentos de relaxamento entre as contrações tivessem a qualidade de um cochilo. Na dor eu choramingava, nessa hora foi mais alto, e optei por não me preocupar em acordar o Davi, como se tivesse uma clareza que agora ele não acordaria.
A Vilma me pediu para deitar de lado, para que ela pudesse colocar o lençol descartável na cama. O outro lado da cama estava forrado com plástico há algumas semanas, para quando a bolsa estourasse, mas a lucidez desses detalhes não combina com trabalho de parto, eu até pensei nisso, mas deixei pra lá. Continuei deitada do lado esquerdo e pedi a bola para apoiar minha perna direita, estava pesando muito. O Rodrigo deitou atrás de mim, bem pertinho, com a mão meu ombro e me lembrando de abaixar o queixo (minha tendência era hiperestender o pescoço). Sentir o toque do corpo dele foi novamente muito confortante, disse isso e ele se aproximou mais. Tiramos a bola.
Pedi pra Vilma “fala que eu vou conseguir?” e ela imediatamente: “mas você já tá conseguindo! Tá nascendo!”. Perguntou se queria que apagasse a luz, eu aceitei, foi ótimo, porque eu não teria me lembrado disso e ficou muito acolhedor o ambiente com a luz do banheiro acesa e a do quarto apagada.
Então ela disse que quando eu tivesse vontade poderia fazer força. Que bom que ela falou isso, porque pode parecer maluco, mas eu tinha esquecido completamente da força. Até aquele momento nem tinha me passado pela cabeça fazer força! E eu pensava que, indo tudo tão natural assim, seria uma vontade natural também. Na verdade em momento nenhum eu senti os puxos, e, como no parto do Davi - com ocitocina sintética - eles formam muito definidos e intrusos, acho que estava esperando algo assim. Bem, tentei fazer uma força só para ver o que acontecia e o interessante foi que no fim da força, aí sim dava vontade de fazer uma força ainda maior e eu sentia o Pedro descendo.
Não sei quantas forças fiz, acho que umas oito ou 10, talvez mais. A bolsa literalmente explodiu numa força, eu e o Rodrigo tivemos a impressão de ver o contorno do líquido no ar, como nos filmes em câmera lenta. A Vilma ficou toda molhada e eu pedi desculpas, hahaha. Foi gostoso quando toda aquela água quentinha saiu, como se a pressão diminuísse.
A Vilma sugeriu baixinho para eu chamar o Pedro; eu fiquei relutante por uns segundos e quando comecei não parei mais: “Vem, Pedro, vem com a mamãe, filhinho, vem no colo da mamãe!”.
Esse momento na cama deve ter durado uma meia hora. A Vilma insistiu para eu pôr a mão na cabecinha do Pedro quando ele coroou, eu só queria empurrar, queria que nascesse logo; eu estava segurando a minha perna e era muito trabalhoso comandar o movimento do braço para tocar a cabecinha do Pedro. O Rodrigo levou minha mão e eu senti o cabelinho dele. Continuei fazendo força e senti um ardor e só nessa hora lembrei da possibilidade de laceração, mas não dei a menor importância para isso, o ardor ia aumentando e eu fazendo mais força, não tomei cuidado nenhum.
Senti a cabecinha sair, o maior alívio do mundo, uma sensação muito agradável, a Vilma desenrolou uma circular de cordão rapidinho (eu nem percebi direito) e depois mais forças e o corpinho saindo, deu para perceber o corpinho dele “afinando” do bumbunzinho para os pés. 3:56h. Ele fez “ihiii”, baixinho, não chorou. Imediatamente ela o colocou em meu colo, eu disse: “que pequenininho!” e eles dois “não, não é pequenininho não!”. Eu sentia o cordão esticado por fora da minha barriga. A Vilma ajudou o Pedro a abocanhar o peito e ali ele ficou, conectado comigo, mamando, deitado no meu braço esquerdo enquanto eu segurava o bumbunzinho molhado dele com a outra mão. Aquele cheiro de filho, tão especial, que eu sinto agora ao escrever. Não chorei na hora, foi um êxtase, parece que a emoção passou do ponto que faz chorar.
A Vilma colocou uma fralda de pano e uma toalhinha de capuz, bordada pela minha sogra, cobrindo o Pedro no meu colo. Falei um pouquinho com ele, nós três adultos ficamos conversando um pouco. Sem a menor pressa a Vilma pegou a tesoura para cortar o cordão. Deitei de costas, com muito custo. O Rodrigo nunca pensou em cortar o cordão, estava decidido que não cortaria e eu não ia questionar. Mas nessa hora ele tomou a iniciativa como se fosse a coisa mais clara do mundo e cortou. Disse que ficou impressionado com a dureza do cordão.
Só a partir dessa hora lembramos de fotografar. Queria muito ter mais fotos. As que temos não estão estéticas. Mas as lembranças são tão lindas!
Percebi uma movimentação da Vilma e lembrei da placenta... Falei “ah, deixa a placenta pra lá, não quero mais!”, mas não tinha jeito... Enquanto o Pedro mamava senti uma bola saindo, foi gostoso, fiquei animada achando que tinha sido a placenta, mas foi só um coágulo, beeem mais fácil. Fiz uma força e senti uma cólica, a placenta saiu aquela sensação tão boa de alívio, embora a laceração de grau 2, de uns
A Vilma deu uma arrumada na bagunça do quarto, perguntou se estava tudo bem e foi para a sala, para que pais e filho curtissem o momento com privacidade. O Pedro não parava de mamar. Eu e o Rodrigo ficamos reconstituindo tudo, tentando lembrar como tinha acontecido, o Pedro era parte da cena, era estranho falar dele com ele ali, mas ele estar “do lado de fora” era apenas a conseqüência, foi tudo um contínuo. Eu estava eufórica, acordadíssima, aquele momento pós-parto imediato poderia ter durado muito mais. Se não me engano foi nesse período que o Davi deu sua segunda acordada da noite, eu até me animei pensando que ele conheceria o irmãozinho, mas o Rodrigo foi atendê-lo e ele dormiu instantaneamente.
Quando a Vilma voltou, ficou espantada pelo Pedro ainda estar mamando sem parar. Tinham se passado 50 minutos desde que ela saíra. Então ela pediu licença para pesá-lo e vesti-lo. Para isso, o Rodrigo o segurou pela primeira vez. Eu fiquei muito emocionada, chorei rindo, queria abraçá-los, mas não conseguia nem me mexer. Tirei umas fotos borradas, a Vilma tirou umas fotos borradas da gente, sem flash, eu toda esparramada.
Pesamos o Pedro duas vezes, porque esquecemos de tirar foto na primeira pesagem, hahah... parecia que eu queria descontar as fotos perdidas... 3,680g. Ele chorou na segunda vez, foi muito legal ouvi-lo. A Vilma perguntou onde estava a roupinha que o Pedro vestiria e ela estava na mala “da maternidade”, rsrs, que ficou por semanas no quarto dos meninos. Por um instante pensamos que o Davi acordaria, mas lembrei que antes de deitar eu a trouxe para o nosso quarto. O Rodrigo encontrou lá dentro da mala: body e mijão amarelinho com balinhas e docinhos desenhados em laranja, macacão amarelo com cavalinho “upa, upa!”, escolhido pelo papai, já usado pelo Davi, gorrinho de lã amarelinho. Este deu um pouquinho mais de trabalho para encontrar na mala... A fraldinha descartável minúscula que ele usou, a Vilma disse, rindo, que não daria nem por uma semana. Eu tinha imaginado vestir o Pedro, mas nem considerei essa possibilidade na hora, tinha sido muito exigida fisicamente.
A Vilma perguntou se precisávamos de alguma coisa ou se podia ir, deu algumas orientações, “Aline, descansa, você pariu” (que delícia ouvir isso!). Disse que voltaria no dia seguinte, ou que ligássemos se precisássemos dela à noite. Eram umas 5:30h.
Quando o Pedro voltou para o meu colo, dormiu. O colocamos ao meu lado, na cama, foi aí que eu vi o rostinho dele pela primeira vez. Na verdade, só no meio do dia vi direitinho, mas parecia um rosto tão misterioso, tão desconhecido, tão diferente do meu “parâmetro” (o rosto do Davi), me atraía para examinar cada detalhe, para olhar mais e mais. O Rodrigo não ficou à vontade em ficar deitado na cama, acho que teve medo de “atropelar” o Pedro, e foi para a sala. Logo o Pedro chorou e eu o “arrastei” para meu peito, foi bem difícil ajudá-lo a abocanhar, porque eu não conseguia levantar a minha cabeça, mas nem precisou: ele deitou em mim e dormiu. Lembro nitidamente do sonzinho da sua respiração irregular.
Dei umas cochiladas, mas logo fiquei com vontade de fazer xixi; muita dor nas costas, muita dificuldade para levantar, desisti. Tentei chamar o Rodrigo algumas vezes, mas não queria acordar o Davi. Quando escutei o Davi acordar, por volta das 7:00h., achei ótimo poder chamar bem alto o Rodrigo.
O Davi pediu água de côco e enquanto o pai foi buscar, ele saiu do quarto, coisa que nunca faz. Passou pela porta do meu quarto e eu disse “Davi, sabe o que aconteceu? Olha quem tá aqui!” E ele: “Ah, o Pido! Quero essa água de côco aqui!” (apontando para o cabelinho do irmão). Então eu fiz de conta que entreguei um copo a ele, a partir da cabecinha do Pi, que então já estava sem o gorro, bem quentinho no peito da mamãe. Ele recusou o “copinho”: “Nãaao!” Ficou na pontinha dos pés e fez um carinho na cabecinha do Pi. Saiu correndo atrás de sua água de côco.
Eu poderia continuar relatando os acontecimentos um atrás do outro. Uma das coisas mais impressionantes dessa experiência natural foi a quão contínua ela foi. Até hoje, dia em que o Pedro comemora seus quatro meses, um fato atrás do outro, uma emoção atrás da outra, um desafio atrás do outro, sem interrupções. Nesses quatro meses, os que passaram mais rápido em todos os meus trinta anos foram ficando mais nítido a cada dia como a vida é feita de imprevistos e como as coisas acontecem “apesar” de nossas previsões: a realidade se impõe.
Agradeço muito a Deus pela nossa saúde; a Nossa Senhora, por ter me acompanhado tão maternalmente; ao Rodrigo, por confiar em mim, por nos amar e querer o melhor para nós; ao Pedro, por ter feito seu trabalho com tanta simplicidade e continuar assim até hoje; ao Davi, pela forma carinhosa como recebeu o irmãozinho e sempre o tratou; a Vilma Nishi pela sensibilidade de fazer apenas o necessário, com tanto respeito.
Escrever este relato foi surpreendentemente bom.
_Aline Elise Gerbelli Belini, mãe de Davi e Pedro.
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parto domiciliar,
Relato de Parto
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
Relato: Nascimento de Rudá - VBAC domiciliar
Republicando o post http://www.partonobrasil.com.br/2010/01/relato-de-parto-natural-domiciliar-apos.html


_Na voz da mãe
"Há uma semana atrás tinha em meus braços o rebento que tanto aguardei chegar, depois de um processo de 32 horas, aproximadamente, de esforço e resgate que começou na noite de sexta-feira, dia 21 de agosto, às 20h30min quando entrei em trabalho de parto, fase latente, com contrações regulares e dolorosas de aproximadamente 10 em 10 minutos; no início da semana meu tampão mucoso já tinha saído e estava com um dedo de dilatação, o que indicava que meu colo uterino estava amadurecendo, se afinando, para conceber Rudá nesse mundão! As últimas semanas foram de muita ansiedade, barrigão grande e pesado; a cada mudança de lua pensava que estava chegando nossa “boa hora”, pois nunca deixei de acreditar e confiar que tudo daria certo e que depois de uma cesária desnecessária de minha primeira gestação, há sete anos atrás, quando Ícaro nasceu, nosso tão desejado e clamado parto domiciliar seria vitorioso, já que minha gravidez era de baixo risco, mesmo assim fortalecer o pensamento já era o início desse parir, pois muitas pessoas estavam me desestimulando e me chamando de “louca” por ter feito essa escolha. Nessas 39 semanas me empoderei de muitas informações sobre o parto natural e humanizado em livros de referência ao assunto e nas listas e sites de discussão que circulam na internet, caminhos de descoberta, de lágrimas a cada relato lido, de medos e de um coração que pedia às forças da Mãe Terra que nos provêm e nutre de que Rudá seria recebido com amor e respeito, sem intervenções e medicalização, e como nada nessa vida é por acaso encontrei nesse trilhar, através do Blog Bebedubem, Flavia Penido que me apresentou (virtualmente, risos) Kátia Z. Assumpção Pedroso, um ser que teve as asas tiradas quando desceu a Terra, mas que não deixou de exercer sua vocação com aquelas lindas mãos pequeninas que amparou meu filhote na madrugada de domingo, dia 23, a ela nossa eterna gratidão, querida parteira! Como narrava acima depois de ter passado a noite toda de sexta-feira com contrações dolorosas recebemos Kátia na manhã de sábado, já que estávamos cerca de 400 quilômetros de distância, pois moramos em Cananéia, no Vale do Ribeira, uma remota ilha no extremo litoral sul paulista e Kátia no Vale do Paraíba, em São José dos Campos, mas como imaginava que esse trabalho de parto poderia ser demorado confiamos em esperar a parteira chegar. Assim que ela chegou me examinou, pressão arterial ok, batimentos fetais também, com dois dedos de dilatação, em seguida me pediu para caminhar, imagina, com tantas dores, mas apesar de ser teimosa fui com meu companheiro Juliano até à padaria, uns quatro quarteirões de casa, o que levou uns 30 minutos daquela manhã chuvosa. Quando retornamos iniciamos os “hots”: chazinhos de camomila, bola de Pilates, banhos quentes, massagens, posições verticalizadas e em pouco tempo evoluí para cinco dedos de colo dilatado, Kátia disse a Juliano e Silmara, minha comadre que acompanhou meu parto e que mesmo não sendo doula soube me encorajar e acalentar, que até o início da noite Rudá nasceria! Oras e a noite passou... Lembro-me que até os sete dedos as dores eram suportáveis, apesar de intensas e que os banhos quentes eram maravilhosos, dado o relaxamento que me permitiam, mas depois disso confesso que era preciso garra para suportá-las e o tempo, que já não existia para mim, não passava! A madrugada já tinha iniciado e o cansaço tomava conta de todos, mesmo assim essa equipe não tardava em ajudar, nesse aspecto não dá para deixar de comentar quanto é importante ter ao lado da parturiente pessoas especiais nesse momento, que tenham calma, que saibam doar; sempre comentava que imaginava que Juliano fosse ficar nervoso, mesmo porque quando vim com a idéia de ter nosso filho em casa ele logo disse: “Não me venha com essa idéia de antropóloga hein!”, porém sua devoção me espantou, tanto cuidado e zelo que foram primordiais para que eu também me mantesse confiante! Fortes dores, cansaço de duas noites sem dormir praticamente, contrações bem próximas uma da outra, como ondas que vinham, atingiam seu zênite e iam embora, permitindo que eu respirasse, quase não conseguia gritar nesse estágio, alguns gemidos e pensamento firme, mentalizando que o útero estava se abrindo, permitindo passagem para Rudá que no seu tempo se despediria do local que lhe abrigou todos esses meses. No entanto, essas últimas quinze horas de trabalho de parto ativo já estavam me esgotando, pensava comigo: “Porque ele não nasce?” e minha bolsa de águas nem tinha rompido ainda, o que era ótimo, pois o bebê estava protegido, mas caso isso ocorresse o processo também aceleraria. Mas, tudo tem mesmo seu tempo! A bolsa rompeu! Ufa! E as contrações se intensificaram progressivamente. Já estava com o colo todo dilatado, 10 dedos, só tínhamos que esperar, foi quando resolvi tomar mais uma chuveirada, pois estava difícil suportar a intensidade da dor, de qualquer maneira penso que vivenciar, sentir essas dores foram um resgate em minha vida, resgate como filha, mãe e mulher, apesar dessa reta final já estar em outro estágio de consciência; me contavam piadas, me perguntavam se eu já havia visto algum animal parir (sim, minha gata!), como meu companheiro e eu tínhamos nos conhecido, como era nossa história, mas já não era eu que estava lá! Depois desse último banho voltei para o colchão que estava no chão de nosso quarto e me pus de quatro, pois era como me sentia melhor, deitada era impossível! Senti uma dor muito forte, fiz uma força instintiva junto com a contração e quando pensei que Rudá estava para nascer Kátia me disse que eu havia feito coco, o que me aliviou muito, pois tive muito incômodo no reto, dado que essas fezes deviam estar atrapalhando. Em pouco tempo outras contrações, muito líquido amniótico saindo, como um rio caudaloso e escutava: “Rudá está vindo! Olha a cabecinha dele!”, nessa hora os gritos eram guturais, primitivos, vinham de dentro dessa mamífera que como um animal estava para parir, naturalmente, sem drogas alopáticas ou anestésicos. Rudá coroou! Círculo de fogo, nossa... como queimava! Depois de sair sua cabecinha o corpo veio rapidamente, pura ocitocina! E nossa cria nasceu! Não dá para descrever esse momento... mágico, divino, abençoado! Kátia o passou pelo meio de minhas pernas, mas eu tremia, assim Juliano o pegou e o deu em meus braços, ahhhhhhhhhhhhhhh, coisa linda! Aquela energia que circulava naquele lugar era cósmica, celestial! Em seguida, ainda com o cordão umbilical pulsando o coloquei em meu seio, depois de uns 20 minutos o pai cortou o cordão e ficamos juntinhos, corpo a corpo, olhos abertos para descobrir a aventura de viver! Minha placenta não saiu, só pela manhã que consegui expulsá-la no banho, ainda tinha dores como cólicas, Kátia informou que um coágulo poderia ter se formado, por isso que ela não saia, quando finalmente senti a última contração e pude expelir de dentro de mim aquela que protegeu meu filhote, frondosa como uma árvore que surtiu seu fruto! Ah! Parir, partejar, dividir, e ficar na sua cama, com sua família, no seu lar, nem dá para comparar com ter um filho num ambiente hospitalar... inóspito, frio, impessoal. Faria tudo novamente! E naquela Lua Nova um novo trilhar se iniciou em nossos caminhos, um novo ciclo! Nesse feriado de sete de setembro plantaremos a placenta em nosso quintal, com a vinda dos avós de Rudá e comemoraremos mais um dia essa sementinha que brotou, devolvendo a terra e a Natureza o que o fortaleceu em meu ventre!"
Bianca C. Magdalena
Bianca C. Magdalena
* Texto redigido em 30 de agosto de 2009.
_Na voz da parteira
Ontem e essa madrugada minha cabeça revivia o tempo com você e seu marido e a Sil. De madrugada acordava e agradecia a Deus por tudo o que aconteceu. Sabe, eu quase desisti de ir; pensei:"É muita loucura...", mas não ficava sossegada com o meu não. Então, fiz o que faço sempre: conversei com Deus e pedi que fosse conduzindo tudo, abrindo os caminhos e me mostrando o que era melhor fazer. Na verdade, desde o seu primeiro contato, eu me comprometi. Eu não queria saber a distância, eu queria poder proporcionar a mais uma mãe o direito de ter seu filho naturalmente, sem intervenções. Eu dirigi a madrugada toda pra chegar aí, parei umas três vezes pra checar se estava certa e outras duas pra lavar o rosto. Durante a viagem, sem rádio eu sozinha o que eu fazia, cantarolava e orava a Deus; pedia por você, por Rudá, pelo seu marido e por mim. É eu tenho provado e visto o quanto Deus é maravilhoso e o quanto Ele age em minha vida, desde a minha gestação, que foi uma surpresa inesperada e que Ele me prometeu que eu veria o milagre que eu sonhara acontecer e foi assim, você deve ter lido contrariando todos as razões da lógica eu pari e em casa, e olha, um dia te conto os detalhes, foi mesmo milagre, ou melhor milagres. Eu pedi muito a Deus que me permitisse sentir as dores e as contrações para poder fortalecer as mulheres que pudessem passar por mim, e foi assim com você, eu sabia a intensidade da dor, eu não só imaginava, eu tinha a real experiência do que você sentia e sabia que você seria capaz. Quando eu cheguei pedi a Deus que me abençoasse e que me mostrasse claramente se algo não estivesse indo bem e olha o que aconteceu; o tempo todo o coração de Rudá ficou ótimo, ele conversava conosco e dizia que estava tudo bem. Não posso esquecer sua expressão quando te vi e você disse de sua alegria por eu ter ido, por não ter desistido. É... foi um dos partos mais lindos de que já participei, tudo a seu tempo: você foi muito forte, em momento algum chutou o balde e pediu analgesia, a garra de uma guerreira veio à tona e Deus mais uma vez me ouviu: te fortaleceu. Eu vibrei tanto de alegria quando Rudá nasceu, veio de novo em mim a mesma emoção de quando pari minha filha, uma explosão de alegria e muita ocitocina. Minha mama já estava cheia, na hora desceu mais leite. Muito lindo!!! Só pode vir de Deus algo tão perfeito, emocionante e transformador como é o nascimento natural. Eu costumo dizer que cada parto me transforma, e que cada parto me faz renascer; cada parto transforma a mãe em mais mulher e mais mãe e mais ser humano, e cada pai de igual forma!!! Eu voltei, estava exausta na segunda-feira no estágio, meu corpo dolorido, as pernas doendo do movimento de dirigir tanto em tão pouco tempo, mas a alegria e satisfação recompensaram tudo. Valeu à pena ter conhecido você e ter ido à Cananéia, agora, nossas vidas estão interligadas pelo nascimento tão lindo de Rudá. Um grande abraço e parabéns por essa experiência tremenda que é o parto.
Kátia Z. A. Pedroso
_Na voz da dinda
Quem sou eu para escrever sobre a vinda de um serzinho a este mundo, sendo que eu mesma ainda não exerço o belo papel de mãe? Sou a madrinha, fotógrafa oficial da gravidez e parto, doula amadora e amiga-irmã da mãe da criança. Por isso, aí vai... Para relatar minha emoção em estar presente no grande momento do nascimento de Rudá vou precisar me constextualizar um bocado, relembrar momentos e só então contar como foram os momentos que passei junto ao casal de amigos queridos naqueles 22 e 23 de agosto de 2009. Minha amizade com “os gordinhos”, como são chamados carinhosamente pelos amigos, iniciou-se aos poucos, sem muito alarde ou emoção. Tudo foi acontecendo aos poucos, fomos nos descobrindo, entendo nossas afinidades e mais do que tudo respeitando nossas diferenças que não são poucas. E as coisas foram fluindo... Até que pela primeira vez nos tornamos cumpadres em meu casamento e de lá para cá somos uma família. Sim, a de sangue está distante, mas a de alma está sempre por perto. E de tão próximos, posso dizer que desde o princípio da amizade eu me lembro da Bianca achando estar grávida em quase todos os meses. Sua menstruação nem atrasava e ela já ficava toda preocupada. E quanto dávamos risada com isso... A preocupação era sempre em vão. Até que em dezembro de 2008, no mês que ela nem esquentou a cabeça, a menstruação atrasou!!! Foram dias crendo que em algum momento menstruaria, mas isso não aconteceu e uma tarde eu liguei para ela e recebi a seguinte informação: “é amiga, você vai ser tia”. Meu Deus, que misto de alegria e preocupação... Grana curta, Codorninha na faculdade, Bi sem emprego fixo e os amigos tão duros quanto! Como ajudar? Dando apoio, afinal, eu ia ser tia agregada! Nunca me esqueço que na noite do mesmo dia da notícia nos encontramos e ela me disse: “um filho é uma benção, sempre!”. Guerreira! Avesso! Durante sua gravidez não estive muito presente, ela precisou se ausentar da cidade em que vivemos, mas mesmo com a distância os pensamentos eram sempre voltados a ela. Sofri quando ela disse que faria o parto longe daqui por achar mais seguro, já que vivemos numa ilha e o hospital mais próximo fica a 40 minutos. E sou grata a ela por ter mudado de idéia. Em maio de 2009 ela voltou para a terra do marzão e das montanhas encantadas e disse que teria o bebê em casa, num parto humanizado. Pirei! Amei! E dei o maior apoio. Desde minha adolescência eu dizia que se um dia fosse mãe, meus filhos nasceriam em casa, mas achava que isso não seria possível, achava que ninguém mais fazia isso... O bom é que quando ela me contou sua escolha eu já estava mais informada sobre a “humanização do parto” por outra amiga que também já tinha feito essa escolha e pude apoiá-la. Enquanto a maioria absoluta a chamava de louca, eu a admirava cada dia mais, ficava ouvindo-a por horas contar sobre suas leituras e pesquisas na internet sobre o assunto. Me preocupava sim, mas quanto mais ela me munia de informações, mais eu acreditava no poder da natureza de Deus. Minha mãe teve seis filhos, todos de parto normal (a primeira nasceu em casa) e sempre se indignou com o número abusivo de cesárias no Brasil. A educação que recebi dela me fez acreditar que a Bianca conseguiria. E assim tudo foi se encaminhando e quando chegou agosto – o possível mês de nascimento do Rudá, já que ele poderia também nascer em setembro - eu “falhei” em alguns momentos e espero que a Bi não tenha sofrido demais com minhas falhas de madrinha de primeira viagem. Estava tão ansiosa quanto ela e por várias vezes minha falta de maturidade no assunto não me permitiu ajudá-la corretamente. Eu dizia que sentia (quem era eu pra sentir alguma coisa?) que já estava chegando a hora, que ele ia nascer em breve, enfim, fui infantil! A gota d'água foi um almoço em casa no qual ela achou que a bolsa pudesse ter estourado porque tinha sentido alguma coisa úmida na calcinha... Pronto! Eu já fiquei falando que ela estava com 5 dedos de dilatação, que ia nascer, que precisávamos ligar para a parteira... mais uma vez, infantil! Fomos para o pronto-socorro da cidade e o médico disse que ela estava com nenhum dedo de dilatação. Me lembro do seu semblante ao sair do hospital, triste e cabisbaixa. Foi naquele momento que percebi que ela precisava que eu me acalmasse. E foi o que eu fiz! Tentei levá-la para caminhar algumas vezes, mas só consegui numa segunda-feira 17 de agosto, e nesse dia ela me contou que o tampão havia saído e que estava chegando a hora. A Silmara de alguns dias atrás faria tudo aquilo novamente, mas eu me comportei como a mulher de quase 30 que sou e não fiz um carnaval com a notícia. Fiquei feliz, mas de uma forma mais comportada. Durante essa semana que o tampão saiu eu não apareci muito, não queria ficar pressionando-a, me lembro só de ter levado o casal ao médico e de ter recebido a notícia do 1 dedo de dilatação. Felicidade! E fomos conversando pela internet todos os dias. Até que na sexta-feira, 21 de agosto o Codorna passou em casa, tarde da noite e me disse: “Sil, está acontecendo, a Bi tem tido contrações de 10 em 10 minutos e já ligamos para a parteira”. Fiquei parada, sem reação... Esperei tanto aquele momento e não sabia o que fazer. A Bianca já havia me dito que gostaria que eu estivesse presente no momento do parto, mas eu não soube como reagir. O Codorna me disse que achava que ainda demoraria e que qualquer coisa eles me ligavam. Por mim eu já ia pra casa dela naquele momento, mas precisei mais uma vez não agir por impulso. Foi duro pegar no sono aquela noite... Acordei antes das seis e fui correndo para a internet ver se tinha novidades. Que inocência a minha achar que uma mãe prestes a parir vai parar para escrever na internet, mas enfim, eu queria notícias. E fui atrás dela, liguei para o Codorna e ele me disse que estava tudo bem, que a parteira havia chegado e já estava fazendo os exames... Alívio, a parteira chegou! Veio de São José dos Campos especialmente para o nascimento do Rudá. Um anjo! Umas duas horas depois a Bianca me ligou avisando que estava com dois dedos de dilatação e que a parteira havia pedido que ela caminhasse um pouco para acelerar as contrações. Mais uma vez vontade absurda de ir até lá, mas com medo de atrapalhar. Toquei meu sábado, fiz várias coisas e chegou uma hora que eu não aguentei e fui para lá. Eram umas duas da tarde. Levei bolsas de água quente e uma vontade imensa de ajudar e estar perto dos amigos. Quando cheguei a parteira estava no computador, o Codorna fazendo comida e um clima que não era de parto. Fiquei meio perdida. Na minha cabeça a Bianca estaria deitada na cama, gritando bastante, nós todos ficaríamos em volta falando faz força, ele está vindo, está vindo, nasceu! Nada a ver... Quando cheguei, a parteira, muuuito fofa, me disse que estava feliz que teria alguém para fotografar. Apaixonei por ela na hora, ela não tinha noção para quem estava falando isso!!! A Bi estava no chuveiro, aliás, onde passou a maior parte do trabalho de parto e não me viu chegar. Quando saiu foi fazer o exame de toque e já estava com 5 centímetros de dilatação. Alegria geral! Kátia, a parteira, acreditava que Rudá nasceria até às 18h do dia 22 de agosto e seria, para pânico da mãe, um leonino, assim como o pai. Mas não, ele queria agradar a mãe e fazer o que ela tanto pediu, nascer um virginiano organizado no primeiro dia do signo aos 23 dias de agosto e foi o que ele fez, mas até lá ainda tem muita história... Esse exame de toque foi feito por volta das três da tarde e o próximo às 17h50. Nesse meio tempo vi a Bianca sofrer muito com as dores... o pai, a parteira e eu fizemos compressas com a bolsa de água quente, chá, massagens, etc. e acreditávamos que o momento estava chegando, mas neste segundo exame foi descoberto que ela ainda estava com 6 dedos e teria chão pela frente. Os amigos que estavam reunidos aguardando notícias me ligavam sem parar, minha família de Itu também e eu conversava com uma grande amiga da Bianca que também tinha optado pelo parto natural, pela internet, ela dava dicas para eu repassar para a mãe em trabalho de parto. Modernidade misturada à tradição, ao natural, ao “antigo”... E assim foi entrando a noite. O pai visivelmente cansado e a cumadre também. Assistir ao sofrimento dela despertava em nós uma espécie de dor solidária. Um cansaço de vê-la sofrer... Certa hora da noite o Codorna olhou pra mim e disse: “Estou cansado de vê-la sofrer assim”... Lindo! E dá-lhe massagens, e dá-lhe pontos de acupuntura para aliviar a dor e para acelerar as contrações... Um trabalho em equipe! Equipe esta composta por mãe, filho, pai, parteira e cumadre, movidos pelo amor. A bolsa não estourava e mais uma vez eu vivia um misto de alegria e preocupação... Alegria porque isso queria dizer que Rudá estava protegido no útero da mãe e preocupação porque na minha cabeça quanto mais demorasse para estourar, mais tempo duraria. E foi então que às 23h27 a bolsa estourou. Me lembro que a Bi estava em pé, ao lado da cama com as mãos sobre a mesma e disse: “agora estourou”; e foi o que realmente aconteceu. Gritamos viva e abraçamos a mamãe. Nesse momento me emocionei, ela agradeceu nossa presença e disse que só estava conseguindo porque estávamos lá... Tão lindo! Daí pra frente as dores foram mais intensas e posso dizer isso porque vi o sofrimento dela aumentar. Ela pedia muito para o Rudá nascer, mas ele ainda esperou mais quatro horas e meia para nascer. E noite a dentro continuei minha função de amiga e cumadre: massagem, chá, bolsa de água quente... Em um determinado momento ela estava deitada num colchão no chão, o Codorna estava amparando sua cabeça, a parteira fazendo massagem em seus pés e eu com uma bolsa de água quente em suas costas. Nessa hora eu e meus companheiros já não conversávamos como antes, estávamos cansados e eu pensava até quando ela ficaria sofrendo daquele jeito e mais ou menos nesse momento ela se levantou ficou de joelho no colchão e abraçou meu quadril (eu estava sentada na cama)... Naquele momento eu senti o quanto nossa amizade era verdadeira. Meus olhos se encheram de lágrimas e me pus a fazer massagens em suas costas. Achei que era hora de interceder pela Bi junto ao Rudá e comecei a cantar: continue a nadar, continue a nadar, vamos Rudá, continue a nadar... Depois disso ela resolveu ir para o chuveiro e lá ficou por poucos minutos, não mais como antes quando ficava por muito tempo. E quando voltou se colocou de quatro no colchão, fiquei novamente com a função da bolsa quente em suas costas e alguns minutos depois a Kátia falou que estava sentindo o cheiro do líquido amniótico, pediu que eu segurasse uma vela e me mostrou a cabeça do Rudá se aproximando... Quanta emoção! Corri pegar a máquina fotográfica, pois se tinha um pedido da mãe era que eu fotografasse o momento do “coroamento” e foi o que fiz. Foram várias fotos e ao mesmo tempo ajudando a Kátia e seguindo suas instruções... O pai parecia um bicho, olhava a cria nascendo e voltava correndo consolar a mulher... E às 3h56 do dia 23 de agosto de 2009 ele nasceu! Depois de 32 horas de trabalho de parto. Eu estava tensa, enquanto o Rudá não abriu os olhos eu não fiquei bem... Me deu um pavor ele nascer e não abrir os olhos, não chorar, não se mover... Mas quando seus olhos se abriram e um chorinho bem leve tomou conta do quarto, foi só alegria! Ele foi passado por baixo da mãe, o pai amparou-o e enfim ela o pegou em seus braços... E dá-lhe fotos! Nessa hora eu já estava em prantos! Emoção sem igual! Meu sonho de assistir um parto enfim estava realizado e da forma mais natural possível. Logo depois que ele nasceu, que a Bianca levantou do chão, sentou-se, ficou com ele pertinho de si, que enviei mensagens aos amigos avisando do seu nascimento, que o cordão foi cortado pelo pai, comecei a sentir uma cólica muito forte e minha menstruação desceu. Coisa louca esse mundo da natureza, esse mundo de Deus! Acabei não podendo ajudá-la muito depois do parto, pois estava com muita dor, com uma cólica que há tempos eu não sentia. Mas mesmo assim fui até minha casa buscar aveia para que a Kátia pudesse preparar um mingau para ela e nesse momento meu marido foi até lá comigo, com a dor que estava sentindo nem conseguia mais dirigir. Fui sair da casa dela o dia já estava clareando e eu, assim como todos da “equipe”, precisávamos descansar. Me lembro de ter chegado em casa, tomado um banho e ter ido deitar em minha cama pensando em como a vida é mesmo um misto de sentimentos. Mais uma vez eles se mesclavam em mim... alegria e dor. Dor porque a cólica estava realmente forte e alegria porque... ah... eu preciso mesmo explicar a razão da alegria?
Silmara Guerreiro
Silmara Guerreiro
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