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terça-feira, 29 de outubro de 2013

9o. Congresso Internacional de Parteiras Tradicionais, em Pernambuco

É com grande alegria que divulgamos este congresso, que acontece neste início de novembro, em Pernambuco, sendo um encontro fechado para convidad@s, entre elas parteiras tradicionais, aprendizes e doulas na Tradição, organizado pelo CAIS do Parto

Mais informações, abaixo! 

Quem puder contribuir, doações estão sendo aceitas, já que o evento não conta com recursos de editais, ou outros tipos de financiamento.


O 9º Congresso Internacional de Parteiras Tradicionais, de 3 a 8 de novembro de 2013 reunirá parteiras tradicionais de vários países da América Latina como México, Colômbia, Chile, Bolívia, Argentina, Uruguai, parteiras aprendizes de São Paulo, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Ceará, Pernambuco, Bahia, Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Goiás, Paraíba.

Na programação o congresso realizará o I Encontro Nacional de Doulas na Tradição. A reunião das escolas de parteiras da América Latina promoverá um grande impacto para a ressignificação da assistência ao parto e nascimento. Participarão parteiras de seis etnias indígenas, de quatro estados do nordeste e parteiras quilombolas da Paraíba.



O CAIS do Parto solicita doações de recursos econômicos para as despesas de hospedagem, alimentação, transportes locais, blusas e bolsas para 30 parteiras na Tradição que não podem pagar sua inscrição. Não contamos com financiamento, estamos construindo um outro formato de congresso que possa atender as necessidades verdadeiramente e ao final tenhamos atingido todas os objetivos com propostas factíveis e que possamos vislumbrar uma transformação real e efetiva.

Gratidão,

Suely Carvalho - Parteira Tradicional

Para doações:

BANCO DO BRASIL
AGÊNCIA 2365-5 - VARIAÇÃO 51 (POUPANÇA)
CONTA 31413-7
SUELY CARVALHO/CPF 316751239-34


Fonte: http://caisdoparto.blogspot.com.br/2013/10/ix-congresso-internacional-de-parteiras.html

sexta-feira, 5 de julho de 2013

22 anos atendendo a gestação, parto e puérpeio, em Olinda/PE

Hoje é dia de festa!

CAIS do Parto completa 22 anos!



O início de sua história pode ser lida aqui, no blog que acaba de ganhar uma nova roupagem, 
mas que está no ar desde 2005. 

ACESSEM:



Rodas de Casais Grávidos, Doulagem, Partería Tradicional com as parteiras Suely Carvalho e Marcelly Carvalho, Formação de Doulas na Tradição e de Aprendizes de Parteira, além de acompanhamento de pré-natal e terapias complementares, em Olinda/PE.

Neste mês temos mais um curso de Doulas na Tradição, c/ Marcelly Carvalho e Marla Carvalho, em parceria com o CAIS da Luz.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Relato: Nascimento de Natália - Parto Domiciliar

Marcela nos contou ontem sobre seu 1o. parto, c/ o Relato: Nascimento de Nahuel. Natural, mas hospitalar. Nos escreveu enviando este relato que postamos hoje, de seu 2o. parto, já domiciliar, e ocorrido neste mês de janeiro, no dia 02. Memória e sensações frescas, Marcela ainda nos alegrou dizendo que tem acompanhado este Especial de Férias, c/ relatos de parto publicados diariamente. Quando sugeriu a publicação deste nascimento pedimos também do 1o. parto. Confiram, então, uma nova história!

Ainda não vi os vídeos e as fotos do nascimento. Acho que muitos detalhes eu já esqueci, mas ainda tenho algumas sensações frescas e nos últimos dias tenho tentado reviver cada momento na minha memória. Começo o relato do nascimento da minha filha usando uma metáfora: "A escalada"...

Eu tinha um mapa, que me mostrava um caminho a percorrer até chegar ao topo de uma montanha muito grande e íngreme. Comecei a seguir as indicações.
Apesar do mapa ser muito detalhado, o caminho parecia muito diferente, e eu não conseguia avistar a alta montanha que o mapa indicava. Quando eu pensava que já estava começando a subir, vinha então uma curva e o caminho descia novamente, me levando de volta ao ponto de partida. Tentei várias vezes seguir o mapa desde o início, dava voltas e voltas e não saia do lugar. Depois de tanto caminhar, comecei a ficar tensa, cansada, frustrada. Chorei, e tive medo de não achar o caminho certo. Precisava me tranquilizar, rever as indicações do mapa e decidi parar. Encontrei uma caverna. Nesta caverna havia uma fogueira que me aqueceu assim que entrei. O cheiro dentro dela era muito agradável, fresco. Tinha algum rio passando ali dentro, e o som das águas me tranquilizava. Entrei na escuridão, me aconcheguei e dormi. Quando acordei, me sentia renovada. Peguei o mapa, que era meu único guia e o joguei no fogo, já não precisava mais dele. Sai da caverna e continuava sem ver montanha nenhuma, mas na minha frente havia uma trilha que entrava numa mata fechada. Fui caminhando por essa trilha, que por vezes era difícil de caminhar, outras, muito fácil e agradável. Fui caminhando, mata adentro, cada vez mais densa, e sem me preocupar em me perder, só seguindo meus pés. Às vezes a trilha se perdia, mas eu continuava, para onde meu corpo queria me levar. Até que lá na frente vi um clarão, algo que indicava que estava próxima ao meu destino. Ao mesmo tempo que aquilo me dava ânimo para continuar, não conseguia acreditar que já estava tão perto. Continuei caminhando em direção àquela luz, o caminho foi ficando mais íngreme e difícil, e nessa hora, eu usava toda minha força para pegar um impulso e escalar com rapidez. E logo após ter subido um ponto difícil, parava para descansar, sem tirar os olhos do clarão.  Mais alguns passos, mais alguns impulsos e cheguei ao meu destino: o topo de uma montanha altíssima, majestosa, que me permitia olhar além do que eu imaginava, uma paisagem incrível. Era a minha montanha, e subi-la foi muito mais simples do que eu pensava, era só me deixar levar...

No dia 30, Suely, Thiana e família chegaram na pousada. Almoçamos e acho que nesse mesmo dia a Suely me examinou. Fez o toque e eu estava com seis cm de dilatação. Isso já indicava que faltava pouco, mas eu não sentia nenhuma dor e as contrações que apareciam de vez em quando eram quase imperceptíveis. No dia seguinte, 31 de dezembro, fez calor, e as horas passaram sem grandes novidades. À noite, depois da ceia de ano novo, comecei a sentir algumas pontadas, não eram contrações, eram umas fisgadas bem embaixo. A Suely achou uma boa ideia me examinar, e eu estava com sete ou oito cm de dilatação. Acreditamos que o parto aconteceria naquela madrugada, do dia 1° de Janeiro, e eu comecei a me preparar para as horas de contrações dolorosas. Já tinha convocado minha tia Leone, minha prima Amanda e minha prima agregada Gabriela para ajudarem com as panelas de água, o tambor, o fogo. A Thiana ligou para a Carol, que também participaria do parto. Gonzalo acendeu o fogo e ficamos ali em volta aguardando as contrações. Mas elas estavam muito suaves, indolores e irregulares, longe de serem as contrações que eu esperava/queria... Fiquei caminhando em volta do fogo, passeando pra lá e pra cá. A Amanda tocando tambor, Tia Leone esquentando as águas e enchendo a banheira, Thiana e Carol fazendo massagens pra induzir as contrações, Suely conversando comigo. O tempo passou voando, e nada daquele trabalho de parto que eu tanto esperava, aquela dor que eu tanto me preparei... Já perto das 5:00 da manhã, decidimos ir dormir.
Deitei na cama e me sentia muito elétrica, não conseguia fechar os olhos. Amanheceu, todo mundo foi tomar café, o dia começou, e eu com aquelas contrações fraquinhas, indolores e irregulares. Suely fez mais um toque, e acho que eu já estava com uns oito cm, e segundo ela, a cabeça do bebê estava bem embaixo... Aquilo era muito louco, estava quase com dilatação total, sem dor, sem nenhuma outra sensação e isso às vezes me dava uma sentimento de vulnerabilidade, insegurança...
Quando amanheceu, Suely pediu pra colocar um forró e mandou eu ficar rebolando com o Gonzalo, e isso estimularia o trabalho de parto... As contrações começaram a vir de quatro em quatro minutos, mas sem dor, muito leves... O único incômodo que eu tinha era nas pernas, um tipo de formigamento, que a Thiana e a Carol aliviavam com massagens. Fui ficando cansada, sentei na bola e as contrações se foram. Tentei dormir, descansar, mas não conseguia, seguia elétrica, com a adrenalina lá em cima e cada vez mais tensa. Ficava pensando que não ia conseguir ter as tais contrações e tinha muito medo de que a Suely me mandasse para o hospital. Mas, sempre que ela vinha me examinar, a bolsa continuava perfeita e os batimentos do bebê ótimos! Ela me tranquilizava, explicando que não havia motivo para se preocupar. Era só eu deixar de pensar, parar de querer controlar a situação e permitir que meu corpo trabalhasse.
No fim da tarde, tentei ir dormir mais uma vez. Das 15:00 às 18:00 tive contrações irregulares, indolores, e pra mim, mais uma vez inofensivas...
Até que cheguei à conclusão que precisava dormir de verdade, antes de ficar contanto as contrações... Fui para o quarto, dentei na cama e fiquei rolando de um lado para o outro, sem conseguir relaxar, com a cabeça a mil por hora. Não, o parto não ia acontecer daquela maneira. Anoiteceu, pedi que o Gonzalo me fizesse uma massagem nas costas, que já doíam de tanta tensão. Perto das 23:00, o Gonzalo sugeriu que a Thiana e a Carol me fizessem uma massagem mais completa. Ele aproveitou para dizer a todo mundo (tia e primas) que estava de plantão que fossem dormir.  A única que ficou na pousada foi minha mãe. Thiana me mandou entrar no chuveiro, me preparou um escalda pés com sal grosso e fiquei ali, sentada na bola, com os pés no balde. Gonzalo foi se deitar para tentar descansar também. Thiana e Carol prepararam o quarto ao lado, com aromatizante, luz de velas, música relaxante. Deitei num colchão no chão e elas me massagearam, não sei por quanto tempo. Uma delícia, tão relaxante que acho que cochilei. Em algum momento senti uma contração forte, a mais forte que havia sentindo desde então. Senti o sono chegando, senti meus pensamentos lá longe. Percebi que a massagem tinha terminado, mas não percebi elas saindo do quarto. Alguns minutos depois senti mais contrações doloridas, e notei que estavam regulares. Não consegui calcular o tempo entre elas, nem o tempo em que fiquei ali. Elas começaram a ficar mais e mais fortes, e eu fiquei “curtindo” aquela viagem, inspirando fundo, expirando com a boca aberta, como a Thiana tinha me ensinado nas aulas de Yoga. Aproveitei para sonorizar a dor. Inspirava fundo, expirava dizendo “ahhhhhhhhhhh”. Me concentrava no som que saia e isso era muito agradável, tornando as dores muito suportáveis... Agora tinha certeza que a hora tinha chegado. Chamei o Gonzalo, que foi avisar a Suely e as meninas. Não consigo me lembrara exatamente o que acontecia enquanto eu fazia “ahhhhhh”, mas me lembro muito bem das cenas quando as dores davam uma pausa: Suely mandando Gonzalo ir esquentar as águas para a banheira; Thiana me massageando forte na região lombar; Carol me dando algo para tomar; Me lembro do gato observando tudo ao meu lado. Suely perguntando onde doía, me examinado, depois ela chamou o Gonzalo e disse pra ele desencanar das águas, não daria tempo de entrar na banheira, eu já ia ter vontade de fazer força.
-Fazer força? Daqui umas 3 horas, não? – perguntei.
-Não, já já – Suely respondeu.
Escutei o galo cantando e me assustei: “já amanheceu?”.
-Não, o galo é que está cantando antes da hora - me esclareceu Thiana.
Prepararam o quarto, me  levantei entre uma contração e outra e me sentei no colo do Gonzalo. Na minha frente, 3 anjos...


Por um lado, me sentia incrivelmente feliz, porque a hora tinha chegado. Por outro lado, não conseguia acreditar que já estávamos no fim, porque me preparava para o momento em que a dor seria insuportável, em que eu não fosse conseguir dar conta, o momento em que iria implorar por anestesia. Este momento nunca chegava, nunca chegou. As contrações eram fortes, mas me pareceram curtas e o intervalos entre elas longas o suficiente para respirar e me preparar para a próxima. Então senti a pressão, a vontade de empurrar, fiz força. Gritei várias vezes, pra mim, um grito de bicho. A contração ia embora e eu dizia alguma coisa. Ela voltava e eu gritava com gosto.
A Suely disse que o bebê era cabeludo, coloquei a mão e senti algo muito estranho entre minhas pernas. Suely pediu um espelho, a bolsa ainda estava intacta e era uma imagem incrível. A contração deu uma pausa e pude dizer:
-Nossa, parece uma lichia...
-Sim, parece uma lichia... a bolsa vai estourar a qualquer momento – nos preparava Suely.
Quanto mais minha filha se aproximava, mais vontade eu tinha de empurrar. Elas começaram a cantar algo em espanhol. Me lembro de ter escutado aquela música em algum lugar, tenho que perguntar ainda que canção era aquela - Rosa Zaragoza, em Sabemos Parir. Agarrei no pescoço do Gonzalo, agarrei na perna do Gonzalo, agarrei na minha perna e gritei. Senti ela descendo. Mais uma vez, mais uma vez e a cabeça saiu. A próxima contração veio e empurrei por última vez, e o corpinho deslizou.
Olhei para baixo e a vi, nas mãos da Suely. Que vontade de gritar mais uma vez, de alegria... Gonzalo me dizia que eu tinha conseguido. Ficamos ali hipnotizados.
Alguns instantes depois, ela veio para o meu colo e foi maravilhoso. E ela veio direto para o meu peito. Mamou forte. A placenta saiu, Gonzalo cortou o cordão. Ficamos ali curtindo nossa filha.

Ela é perfeita, forte, linda!
Parece que desde o momento que as contrações doloridas começaram até a hora do nascimento se passou menos de uma hora. Mas, todo o processo de trabalho de parto foi longo, lento, cheio de inícios, pausas e grilos, muito diferente, mas muito melhor do que eu imaginei. Foi mágico! Foi um dos momentos mais intensos da minha vida.
Foram avisar a minha mãe, que também não conseguia relaxar nos últimos dias e estava de plantão. Ela chegou trazendo um leite com aveia e muitas lágrimas. E, então, fomos dormir na nossa cama. O Gonzalo trouxe o Nahuel, que quando deitou ao lado da irmã, abriu os olhos e lhe fez uma carícia na cabecinha: o bebê da barriga da mamãe tinha finalmente chegado.

OBS: Tínhamos escolhido o nome Tainah, caso fosse menina, mas poucos dias antes do parto tive um sonho onde chamava por minha filha, e, no sonho, seu nome era Natália. Assim ficou...

Natália nasceu com apgar 10/10. Peso: 3,375gm. Tamanho: 50cm.

_Marcela Mölk, Designer de Interiores, mãe de Nahuel e de Natália.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A água nas tradições culturais brasileiras - Relato da parteira tradicional Suely Carvalho



Meu prazer de ser parteira está na possibilidade de ensinar às mães e pais a cuidarem de suas crianças. Toda criança que chega vem da luz, traz nova esperança, e os pais devem cuidar dessas crianças. A família é sagrada, o amor de mãe e pai são sagrados.

Mesmo contra a vontade de muitas pessoas que nos discriminam, nós, parteiras tradicionais, continuamos existindo. Nós tivemos uma inquisição que dizimou milhões de parteiras na Europa e no Ocidente. Nós transmitimos o nosso saber por meio da oralidade. Eu me sinto honrada por ser herdeira das minhas antepassadas, em que muitas são parteiras. Eu tenho uma filha que é parteira e uma neta de 20 anos que é aprendiz de parteira. É assim que nós passamos a nossa tradição, de avó pra neta, de mãe pra filha. Nas cidades grandes, esse é um ofício que não é valorizado, e as mulheres que tem o dom de ser parteiras não descobrem esse dom.

Nós viemos da água. O ventre materno é sagrado porque todo ser humano passou pelo ventre de uma mulher. Portanto, todas as pessoas devem respeitar isso. A mulher precisa respeitar o seu próprio ventre. Se o trabalho de parto for bem feito, sem intervenções desnecessárias, a criança pode nascer dentro da bolsa das águas. É lamentável que os médicos rompem as bolsas das águas, seja em partos normais seja em partos cesáreos.

A mulher tem o corpo perfeito para a gestação e para o parto. Os partos em hospitais não são saudáveis, as pessoas devem nascer e morrer junto com seus familiares. Eu desejo que as águas do parto sejam respeitadas”.

Por Suely Carvalho, parteira tradicional e fundadora do CAIS do Parto, em Olinda/PE.

Fonte: http://acervodesaberes.wordpress.com/2012/10/05/a-agua-nas-tradicoes-culturais-brasileiras/

Foto: Acervo de Bianca Lanu, julho de 2010.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Obstetrícia Intercultural: uma experiência mexicana

Depois de conhecer ontem o trabalho de Las Casildas, da Argentina, bora ver está rica fusão de saberes, no México!

Em janeiro de 2012, alunos do Programa de Treinamento do Governo credenciado pela Obstetrícia viajou para aldeias no Estado de Quintana Roo, para estudar com parteiras tradicionais maias.

Lá, os alunos da Escola de Parteiras CASA estudou práticas das parteiras indígenas, incluindo massagem uterina, ao mesmo tempo educaram parteiras tradicionais sobre como lidar com emergências de um nascimento. Este intercâmbio cultural integrado melhora as práticas de cuidados de saúde indígena enraizada no tradicional, em regiões isoladas e empobrecidas com a profissionalização dos cuidados de maternidade, com base em evidências, e é parte de uma tendência da Obstetrícia no México.

Alice Proujansky Photography registrou lindas imagens disponíveis em:


http://aliceproujansky.com/a/galleries/intercultural-midwifery/

* Grata a Ligia M. Sena, do blog Cientista que virou mãe por compartilhar via Facebook este trabalho inspirador!

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Conheça o Projeto Mulheres da Terra


O Blog Parto no Brasil divulga hoje, c/ mais detalhes, o Projeto Mulheres da Terra, comentado em maio deste ano, no post - Mulheres da Terra. Conheça sua história, seu propósito, sua atuação e lindas imagens - outros dados aqui!

Francisquinha, parteira tradicional indígena, do Amazonas, por Isadora Carneiro.

- A Concepção -

Mulheres da Terra foi concebido com o interesse de aprofundar questões que envolvem o processo de nascimento do ser humano. Dentro da Antropologia, o nascer é tido como um ritual de passagem, um evento universal que todos nós atravessamos, e cuja forma e circunstâncias variam de acordo com cada cultura e a região onde se está inserido.

De que maneira o processo de nascimento, a forma como chegamos a esse mundo, pode interferir em nossas vidas? Quais impactos isto traz aos nossos comportamentos e ações? Em suma, de que modo o cuidado com a vida intra-uterina e com a experiência do parto e nascimento representam um cuidado essencial para com o mundo, e, portanto, tem o potencial de transformá-lo?

Na medida em que a vida humana caminha em direção aos avanços tecnológicos, cada vez mais sofisticados, conquistamos progressos até antes inimagináveis. Porém, não é difícil perceber que, gradativamente, estamos perdendo o interesse por alguns detalhes muito importantes da vida, especialmente no que concerne à conexão das pessoas com a natureza, e seus ciclos sazonais e fisiológicos.

Visando a compreensão de que um nascimento digno é o primeiro direto do ser humano, ressaltamos o fato de que o Brasil alcança, hoje, o maior índice de cesarianas do planeta, e questionamos quais serão as consequências disso para a saúde das mulheres e das crianças que estão nascendo.

França, parteira tradicional, por Camila Reis Colonhesi.

 - O Nascimento -

O trabalho realizado pelas parteiras tradicionais é uma das atividades mais antigas exercidas na história da humanidade, e está inserido nas raízes de todos os povos e suas culturas específicas, que já existiram, e que ainda existem.

O projeto Mulheres da Terra nasceu à partir do contato com parteiras tradicionais do Brasil, e se estende por pesquisas e encontros com parteiras em outros países e continentes, revelando ensinamentos poéticos e profundos tão ancestrais quanto contemporâneos.

Por mais distantes que estejam umas das outras ou por mais distintas que sejam suas culturas, as parteiras trazem a compreensão de que gestar, parir e nascer são processos sagrados da experiência e da vida humana, e por isso, requerem muita atenção e cuidado.

Mulheres da Terra reúne histórias que transmitem a simplicidade e os valores de sábias mulheres ao redor do mundo. Dedicando suas vidas para ajudar ao próximo, elas vem acolhendo com amor as gerações ao longo dos tempos.

Coletivo de parteiras tradicionais Gandharbas, de Banzar/Nepal, por Isadora Carneiro.

Por que Mulheres da Terra?

Quando os antigos viviam em harmonia com os ciclos da natureza, eles respeitavam a Terra como a grande Mãe de todos os seres vivos. A generosidade da Mãe-Terra era reconhecida por nutrir e alimentar a vida, e quando essa vida se transformava, eles compreendiam que todos os seres, um dia, voltariam à ela.

Desde o início da existência humana, as mulheres doaram seus corpos para conceber e gerar a vida. Nas palavras de Suely Carvalho, parteira tradicional: “O útero é a matriz da humanidade, e todo ser humano passou por dentro de uma mulher. É preciso que a gente dignifique a vida como um milagre.

Mulheres da Terra vem para resgatar o contato mais íntimo entre o ser humano e sua verdadeira natureza, disseminando informações e conhecimentos que estimulem escolhas mais conscientes nas experiências tão vitais e significativas que são a concepção, a gestação, o parto e o nascimento.

Em Deserto do Thar, por Mariana Kuroyama.

Conheça a Fanpage Mulheres da Terra no Facebook
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Na USP Leste, na EACH, em São Paulo capital, acontece a Exposição Mulheres da Terra, c/ belíssimas imagens de parteiras tradicionais, até dia 06 de julho. Mais informações aqui!

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Dia da Parteira e seus múltiplos - III

Por Suely Carvalho

5 DE MAIO DIA MUNDIAL DA PARTEIRA
Como Parteira Tradicional, missão e Dom herdado das minhas ancestrais avós e bisavós parteiras as quais honro hoje e sempre, quero falar para minhas colegas companheiras de ofício para as queridas aprendizes e também falar sobre nós parteiras oportunamente neste momento de celebrações, reivindicações e denúncias que se ancora no decorrer do mês de maio.
Durante centenas de anos as parteiras atuavam como sempre fizeram desde que a humanidade existe e sequer entendiam o quanto era importante. Diferente da maioria das profissões ser parteira é muito mais do que estar presente na hora do parto e nascimento ajudar a mulher e aparar o bebê. Não escolhemos esta profissão assim como as demais profissões onde as pessoas escolhem prestam vestibular e se aprovados cursam alguns anos recebem um título e acreditam estar prontas para exercer, torna-se profissional antes de ter a experiência apenas com a teoria e no máximo algum tempo de estágio. No ofício de parteira sentimos o chamado de alguma forma e geralmente nos aproximamos da prática seja com nosso próprio corpo ou com outras mulheres ou ajudando alguma parteira. Nascemos com o DOM, é missão de vida. Entendo que alguns outros ofícios também nascem com a pessoa. Dom é diferente de talento. 
Algumas parteiras se referem ao acaso, aconteceu de uma mulher vizinha ou parente começou o parto sozinha sem ter ninguém para ajudar e chamou, ou a que teve coragem chegou e ajudou seguindo a intuição, neste momento sentiu medo e alegria algo inexplicável. Aconteceu mais uma ou duas vezes e pronto ela ouviu o chamado e sabia que tinha o Dom de parteira mesmo necessitando de muito tempo e muito mais conhecimentos e experiências mas, estava iniciada. Outras parteiras aconteceu com seu corpo ao ter seus próprios partos fez quase tudo sozinha e sentiu claramente que era capaz e naturalmente as grávidas foram chegando e os bebês nascendo com sua ajuda. No seu dia a dia a parteira não fica em um consultório ou hospital cumprindo um horário de atendimento ela está fazendo outras coisas naturalmente e quando chega alguém chamando tudo passa para o segundo plano e a prioridade é a gestante em trabalho de parto sem ter hora para voltar para sua casa. Disponibilidade, dedicação e compromisso são combustíveis que mobilizam a parteira, quando volta prá casa está cansada algumas vezes sem o devido reconhecimento, mas leva paz na consciência gratidão no espírito e emoção no coração. Sensação de dever cumprido. 
A cada parto aprendemos mais e mais por isso, quanto mais antiga mais experiente e mais sábia é a parteira. Diferente das profissões modernas que se dá todo mérito aos recém-formados no nosso caso de parteira o tempo e a experiência qualificam a profissional assim quando já idosa com muitas décadas de experiências não precisa mais estar nos partos, é mestra para ensinar e contar as histórias de vida e morte, de dor e alegrias, de bebês que se fizeram gente grande, de reconhecimentos e injustiças. Se ela formou aprendizes herdeiras do seu saber estas seguidoras irão beber dessa fonte e com segurança e determinação dar continuidade a essa tradição milenar honrando sua mestra e as ancestrais ante passadas.
Nos últimos anos em vários países, e o Brasil se inclui fortemente, estamos numa fase de emersão conquistamos visibilidade. Historicamente é cíclico que a existência e prática das parteiras emergem nas diferentes sociedades galgam visibilidade reconhecimento depois vem as tentativas de mudanças de descréditos por parte dos sistemas vigentes e de grupos sociais específicos, voltam as perseguições as iniquidades e as injustiças. Mais uma vez as parteiras voltam ao estado latente porém sem nunca deixar de atuar seguem na invisibilidade partejando silenciosamente e solitariamente como forma de cumprir a missão de sobreviver e continuar existindo. Embora muitas pessoas em diferentes sociedades acreditem que as parteiras não existem mais ou estão em extinção como parte da natureza, o elo jamais foi rompido, sobrevivemos a caça às bruxas no obscuro período da inquisição, sobrevivemos a hegemonia hospitalocêntrica criando a cultura da cesariana desnecessária e aqui estamos queridas amigas e companheiras parteiras, existimos porque resistimos, somos nós mesmas parteiras que sabemos o que fazer e como atuar nas horas de escuridão e injustiças, sabemos também que nas fases de euforia e modismos precisamos cuidar do que nos é mais precioso nosso Saber e prática repassado de geração em geração entre mulheres e homens de espírito feminino. Aqui estamos, em todos os lugares deste planeta presentes no momento sagrado em que um novo Ser brota da Pachamama saindo de dentro de uma mulher trazendo luz e esperança.
Hoje, 5 de maio de 2012 dia mundial da parteira, estou num lugar distante onde a natureza é uma explosão de vida força e beleza no alto da serra dos papagaios nas Minas Gerais, esperando o parto de uma jovem obstetriz, aprendiz de parteira do CAIS do Parto minha aluna. O bebê já está quase chegando. Hoje dia da parteira e é também a maior lua cheia do ano assim que nascer a Lua cheia de Budha faremos uma grande fogueira no quintal da casa desta mulher prestes a dar a Luz iremos celebrar a vida nova que chega plena de fé esperança e possibilidades, junto ao fogo iremos celebrar nossas ancestrais antepassadas parteiras que foram queimadas na fogueira da intolerância fogueira das vaidades fogueira das injustiças conhecida como inquisição. Iremos chamar a força dessas mulheres sábias ancestrais que antes de nós prepararam o caminho e cuidaram de preservar a cultura e a tradição, vamos honrar a existência delas e vamos honrar nossa própria existência para que tenhamos a mesma força e sabedoria de seguir na missão de parteira tradicional, para cumprir esse compromisso nascemos e aqui estamos. 
Com o coração cheio de gratidão e amor abraço todas, comadres e compadres, alunas, companheiras, mestras, afilhadas e afilhados.

Axé, namastê, I hei yá, que a grande Mãe nos abençoe.

Suely Carvalho –  61 anos, 39 anos de ofício de parteira tradicional, duas filhas, um filho, 11 netos e netas, uma bisneta. Fundadora do C.A.I.S. do Parto - 1991, coordenadora da Rede Nacional de Parteiras Tradicionais do Brasil, cofundadora da REHUNA (Rede pela Humanização do Parto e Nascimento), cofundadora da RELACAHUPAN (Rede Latino Americana pela Humanização do Parto e Nascimento), vice-presidente da ALAPAR (Aliança Latino Americana de Parteiras - México), Assessora da ASOPARUPA (Associação de Parteiras Unidas do Pacífico - Colômbia), Rede de Escolas de Parteiras -Argentina, Instrutora da formação de aprendizes de parteiras tradicionais do CAIS do Parto, Griô, leitora de aura, rezadeira, curandeira xamânica.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Entrevista c/ a parteira tradicional Suely Carvalho

O Blog Parto no Brasil compartilha hoje uma entrevista c/ a parteira tradicional Suely Carvalho, por Say Adinkra, que nos trás a beleza do Chamado e da sacralidade feminina, numa perspectiva holística guiada pela Tradição dos povos, além da história do CAIS do Parto, em Olinda/PE, que todas às terças-feiras, há 22 anos realiza rodas de casais grávid@s, no Centro Cultural Luiz Freire, às 19h30,  na R. 27 de janeiro, 169, Carmo.




sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Temporariamente offline

Bom dia,
Hoje venho compartilhar que ficarei temporariamente afastada do blog. O motivo? Percorrer trechos do sertão pernambucano p/ conhecer algumas parteiras tradicionais!
A contadora de histórias aqui está imensamente feliz!
Os dias tão esperados estão à vista! Amanhã embarco rumo ao Recife, apesar de subir hj p/ a capital paulista, e, pela 1a. vez, depois de dois anos e dois meses me separo da cria. A felicidade é grande, mas o aperto no coração tb!
Aiai... Dá até um nozinho no estômago, rs.
Rudá ainda mama, e, não sei como será ficar alguns dias s/ amamentar... Mas, as mães tb precisam de um tempo somente p/ elas, não é?!
Podem aguardar muitas novidades, mas como ficarei s/ acesso a internet, não conseguirei manter a periodicidade das postagens, apesar de ter programado algumas.
Enfim, tb sentirei saudades das manhãs, ou madrugadas por aqui!
Inté!

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Agenda Parto no Brasil

Confiram os eventos e programações na Agenda Parto no Brasil desta semana!
Em São Paulo, amanhã, dia 25, Partos Naturais sob à Sabedoria e Cura da Floresta com a Parteira Tradicional Dona Francisca, a partir das 20 horas. Valor: R$ 30,00.
Neste encontro, Dona Francisca compartilhará sábia, espiritual e doce presença, trocando informações sobre os métodos naturais de acompanhamento de partos, nos banhando com os conhecimentos ancestrais e suas medicinas na arte do parto natural, além do conhecimento sobre diversas plantas que auxiliam o parto, como a Ayuascha; conhecimentos estes perdidos e não aplicados no atual sistema médico dominante e responsável pelo altíssimo índice de cesarianas.
Dona Francisca é Parteira Tradicional, habita o seio da Floresta Amazônica no vale do Juruá, onde lida com as ervas e prepara medicinas naturais e florais de cura. Mãe de 11 filhos e avó de 10 netos ( todos nascidos pela sua mão). Aprendeu com o pai Pajé, com a mãe e avós o uso medicinal das plantas e o acompanhamento da gestação.
Dona Francisca das Chagas, índia Shawã, desde cedo presta atendimentos diversos contribuindo com a melhora da saúde e da qualidade de vida tanto das gestantes como dos demais membros de sua comunidade. Em 2002, participou do curso de Formação de Agentes de Saúde da Medicina da Floresta, em Cruzeiro do Sul/AC, e, em 2004, participou da Oficina Participativa de Fitoterápicos e Fitocosméticos, realizada na Fundação de Tecnologia do Estado do Acre. Desde 2006, Dona Francisca vem a São Paulo p/ divulgar seu trabalho e suas experiências. Em 2007, acabou, inclusive, assistindo na capital o nascimento de mais duas crianças.
Informações e inscrições na Morada da Floresta - R. Diogo do Couto, 47 - Jd. Bonfiglioli - Tel.: (11) 3735-4085; 2053-0046; 2503-0038 - www.moradadafloresta.org.br - contato@moradadafloresta.org.br



Módulo Aleitamento Materno 2011: Apoio, manejo e promoção
Tendo como objetivo capacitar e desenvolver habilidades clínicas e interpessoais para o manejo, apoio, aconselhamento e promoção em aleitamento materno e fornecer conhecimento teórico e prático para profissionais que desejem aperfeiçoar sua atuação junto à gestantes, parturientes, puérperas, mães e bebês em diferentes contextos, propiciando ligações com a prática clínica e institucional de forma a ampliar o olhar sobre a mesma.
Para profissionais e estudantes de saúde e educação interessados no trabalho junto à gestantes, parturientes, puérperas, mães, bebês e famílias, em diferentes contextos clínicos e institucionais.
Carga Horária: 20 horas
Dias:
09/set - Das 8 às 22 horas;
10 e 11/set - Das 8 às 17h30.
VAGAS LIMITADAS!
Inscrições: atende@institutogerar.com.br
Matrícula: R$ 54,00 - Curso: R$ 540,00 (Até o dia 31/ago - desconto de 5%)
Na R. Jericó, 255 - Térreo (próximo ao Fórum) - Vila Madalena
Receberão certificado os participantes que tenham frequência mínima de 75% das aulas.
Professores:
* Daniela de A. Andretto (Coordenação) - Psicóloga, Doula, Mestranda da Faculdade de Saúde Pública FSP/USP - Departamento Materno Infantil, Especialista em Estudos e Intervenções com Famílias - Univ. Lisboa/Portugal, Especialista em Psicologia Hospitalar - INCOR-USP, Conselheira em Aleitamento Materno - OMS/Unicef, Consultora Método Canguru - Min. da Saúde/BR - www.gestamater.com.br
INSTITUTO GERAR DE PSICOLOGIA PERINATAL - R. Ferreira de Araújo, 221 - Pinheiros - São Paulo/SP - CEP: 05428-000 - Tel./Fax: (11) 3032-6905 ou 7338-3974

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O estado das parteiras no mundo


Angelina, por Rebecca Plummer Rohloff
Compatilho hoje alguns documentos que nos mostram como está a atuação das parteiras pelo mundo afora, entre eles um documento da UNFPA, de 2011, e a relação de nascidos vivos, em São Paulo, de maio de 2010, onde podem ser vistos a quantidade de partos domicilares assistidos e não assistidos, além de muitas outras informações mais detalhadas, do SINASC, pelo Boletim CEInfo.
Como podem perceber estou numa imersão sobre o mundo da partería. Este fim de semana vi alguns documentários de nossas parteiras tradicionais, especialmente as ribeirinhas do Amazonas. Para quem não baixou a dica de nosso audiovisual deste último sábado, não deixem de assistir (aqui!). Fé, crença na fisiologia do parto e na capacidade feminina, em um misto de coragem e resignação. Sábias e nobres parteiras, que buscam nos iguarapés a cura p/ muitos males! E, assim o mundo se fez povoado, pelas mãos dessas mulheres-mães!

sábado, 16 de julho de 2011

Multimídia Parto no Brasil - As Parteiras da Amazônia

Nossa sessão audiovisual deste sábado compartilha um link p/ baixar o documentário de Stephanie Pommez - As Parteiras da Amazônia, fruto de suas incursões pelas comunidades ribeirinhas para fotografar e filmar essas sábias mulheres da floresta, que atuam não apenas no atendimento obstétrico, mas também como líderes comunitárias.
O endereço foi encontrado aqui e o site p/ fazer o download é este - http://www.megaupload.com/?d=BASR4ILS
* Clic em Download Comum
Uma exposição c/ lindas imagens foi realizada em São Paulo/SP, no Sesc Pompéia, em maio e junho passados. O blog Parto no Brasil noticiou o evento e este por lá! Para saber mais acessem:
http://www.stephaniepommez.com/index.html
http://partonobrasil.blogspot.com/2011/04/maes-de-umbigo-parteiras-da-amazonia.html
http://partonobrasil.blogspot.com/2011/05/dia-mundial-da-parteira-e-seus.html
De encher os olhos!

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Mulheres da floresta


Por Patrícia Schleumer
Uma mulher de longos cabelos negros acompanha a filha que acaba de menstruar até a beira do rio para um ritual de passagem. São índias da etnia Arara Shawãdawa, uma aldeia situada nas entranhas da Floresta Amazônica, no Acre. Em sua primeira menstruação, as jovens aprendem que devem devolver esse sangue para a Terra e para a água, a fim de reverenciar a sintonia dos seus ciclos com a natureza. Diz a sabedoria da floresta que, dessa forma, elas ficam protegidas de cólicas e garantem um bom parto. As índias usam um pano – como os absorventes ecológicos ainda pouco usados pelas mulheres da cidade – e durante os seus ciclos lavam o pano no rio: “A índia primeiro oferece o sangue para a Terra e depois devolve o resto para a água, onde ela lava o pano e guarda para usar sempre que menstruar. Meu avô, que foi pajé, falava que a mulher não pode usar nada a não ser um pano limpo, de algodão, para ser saudável e não pegar uma inflamação ou uma doença no útero”, explica dona Francisca das Chagas, parteira, com experiência em mais de mil partos naturais na sua aldeia e em vários locais do Brasil. Dona Francisca é uma das representantes brasileiras que participa das atividades do Conselho Internacional das Treze Avós Indígenas, organizado pela ONU, que reúne anciãs de várias etnias indígenas para trocar experiências e preservar as tradições de seus povos. Elas se declaram representantes de uma aliança de prece, educação e cura para a Mãe Terra, para todos seus habitantes e para as próximas sete gerações. Dona Francisquinha, como é mais conhecida, mãe de 12 filhos e avó de 13 netos, também nasceu em uma família grande, com doze irmãos: – O mais velho foi o Manuel, depois veio a Nair, depois a Nedina, depois o Francisco, depois o Nalésio, o Raimundo, aí veio a …” Ela para para lembrar e percebemos, rindo, que finalmente era ela: a Francisca, nascida pelas mãos da tia da mãe e do próprio pai que era parteiro e pajé. O pajé é o conselheiro e o curandeiro da aldeia. Ele aprende com o pai, que aprendeu com o avô etc., seguindo uma tradição oral que passa ensinamentos como a medicina da floresta, de geração em geração. Com um tom de voz calmo e olhar sereno, sem a pressa que costumamos ter nas grandes cidades, ela explica: – O pajé sabe tudo, das coisas da matéria e, principalmente, do espírito. Ele conversa e fala o que você precisa ouvir, é muito sábio. A mulher ou filha do pajé também sabe muito. Eu aprendi muito com meu pai e minha mãe, que também era parteira; quando tinha um parto na aldeia, minha mãe dizia que não era bom me levar, porque a cena era muito forte. E meu pai respondia: “Não, ela tem de ir porque ela tem de aprender, ela vai ser parteira, não tem nada forte para minha filha, ela vai aprender tudo.” Desde pequena ouço meu pai dizer: “Minha filha, você deve ter amor por você; se você tem amor por você, você tem amor pela humanidade.” E a profecia do pajé se cumpriu. Além de dona Francisca ter se tornado uma parteira conhecida e requisitada fora dos limites de sua aldeia, ela também se tornou uma das guardiãs da cultura e da sabedoria de seus ancestrais. Vivendo no ritmo da própria natureza Muitas mulheres da cidade procuram dona Francisca para tratamentos de saúde ou para se prepararem para o parto. Seus remédios são feitos com as plantas, raízes, folhas e flores da floresta amazônica. Perguntei o que ela achava sobre a dificuldade que muitas mulheres têm para engravidar ou para parir naturalmente; ela me disse: – As mulheres que vivem na cidade trabalham muito para pagar contas e perdem a tranquilidade e o amor de dentro delas. Elas pensam em ganhar mais dinheiro e o tempo passa; quando param e querem filhos com a idade avançada, fica mais difícil. Diante da simplicidade de sua sabedoria, concluo que o estresse da mulher urbana a desconecta de sua própria natureza e essência feminina, dificultando a possibilidade de uma gravidez e pergunto sobre como é o ritmo de trabalho das índias: – Na aldeia, as índias também trabalham muito na cultura, fazendo remédios, mas elas trabalham vendo o que está acontecendo com os filhos e com elas, com a própria matéria e o espírito porque elas estão pisando na terra, sentindo a Mãe Terra, sentindo a floresta o tempo todo. Elas trabalham muito para plantar, para alimentar os filhos, mas com o sentimento da floresta, com sentimento pela Terra, que significa o amor e a paz.” Quando a lua nova aparece no céu, as índias se enfeitam, pintam o corpo todo e fazem uma roda em volta de uma fogueira para dançar para lua. É uma folia. Elas cantam chamando todas as mulheres da aldeia para a roda, até as pequenas índias, e celebram os ciclos da vida noite adentro. Com a benção das estrelas Se para a maioria das mulheres da cidade todas as informações sobre a gravidez e os preparos para o parto são resolvidos em um consultório médico, para as índias é bem diferente. Na aldeia, elas já crescem assistindo a partos naturais e, logo que engravidam, começam a se preparar para receber seu filho. As massagens com óleos para abrir o quadril começam a partir dos três meses de gravidez; a permanência na postura de cócoras também é praticada desde o início da gestação: “Na aldeia, as mulheres não têm problemas com dilatação ou contração porque lá a mulher se prepara bem antes, logo que engravida ela toma os remédios das plantas da floresta e as parteiras vão ajeitando a criança. Quando chega a hora do trabalho de parto, está tudo certo. As mulheres não têm medo da dor, aprendem a entregar-se a si mesmas, a confiar na natureza e as índias mais velhas explicam desde cedo para as moças como são as contrações e a dilatação”. Quando uma criança nasce na aldeia, as parteiras cortam o cordão umbilical e enterram a placenta encostada em uma árvore para devolvê-la para a floresta e para a Terra. E na hora que o nenê começa a nascer, a parteira faz uma reza e começa a entoar uma canção para receber a criança. A canção fala da lua, da água, da terra, do fogo e das estrelas e o bebê nasce envolvido em uma benção sagrada que lhe descreve o cenário da sua nova morada.
Fonte: http://materna.uol.com.br/reportagem-especial/mulheres-da-floresta/#.TfDuw59kuq0;facebook
Imagem: Comadrona hands, de Rebecca Plummer Rohloff

quinta-feira, 9 de junho de 2011

As parteiras da floresta

Por Eliane Brum
As mãos de um punhado de mulheres fazem do Amapá a região recordista em partos normais no Brasil das cesarianas
Elas nasceram do ventre úmido da Amazônia, no extremo norte do Brasil, no Estado esquecido do noticiário chamado Amapá. O país pouco as escuta porque perdeu o ouvido para os sons do conhecimento antigo, para a música de suas cantigas. Muitas não conhecem as letras do alfabeto, mas são capazes de ler a mata, os rios e o céu. Emersas dos confins de outras mulheres com o dom de pegar criança, adivinham a vida que se oculta nas profundezas. É sabedoria que não se aprende, não se ensina nem mesmo se explica. Acontece apenas.
Esculpidas por sangue de mulher e água de criança, suas mãos aparam um pedaço ignorado do Brasil. O grito ancestral ecoa do território empoleirado no cocuruto do mapa para lembrar ao país que nascer é natural. Não depende de engenharia genética ou operação cirúrgica. Para as parteiras, que guardaram a tradição graças ao isolamento geográfico do berço, é mais fácil compreender que um boto irrompa do igarapé para fecundar donzelas que aceitar uma mulher que marca dia e hora para arrancar o filho à força.
Quase 90% da população do Amapá, composta de menos de meio milhão de habitantes, chega ao mundo pelas mãos de 752 "pegadoras de menino". Campeão no Brasil em partos normais - e ostentando o segundo mais baixo índice de mortalidade infantil -, o Estado fez do nascimento tradicional uma política pública. Encarapitadas em barcos ou tateando caminhos com os pés, a índia Dorica, a cabocla Jovelina e a quilombola Rossilda são guias de uma viagem por mistérios antigos. Cruzam com Tereza e as parteiras indígenas do Oiapoque, onde já começou o Brasil. Unem-se todas pela trama de nascimentos inscritos na palma da mão. "Pegar menino é ter paciência", recita a caripuna Maria dos Santos Maciel, a Dorica, a mais velha parteira do Amapá. Aos 96 anos, mais de 2 mil índios conheceram o mundo pelas suas mãos pequenas, quase infantis. Dorica - avó, mãe, madrinha - nem mesmo gostaria de possuir o "dom". "O dom é assim, nasce com a gente. E não se pode dizer não", explica. "Parteira não tem escolha, é chamada nas horas mortas da noite para povoar o mundo." O espectro quase centenário é visto quando se navega pelos rios do Oiapoque iluminado apenas por uma lamparina. Viaja acompanhada da irmã Alexandrina, de 66 anos. "Mulher e floresta são uma coisa só", compara Alexandrina. "A mãe-terra tem tudo, como tudo se encontra no corpo da mulher. Força, coragem, vida e prazer." Quando os remos cortam o rio, são perseguidos pelos olhos fosforescentes dos jacarés. "Não tem perigo. Eles só comem cachorro e sandália", tranqüiliza Dorica. "Abrimos o bucho de um, dia desses, e era só o que tinha." Dorica lembra dos 16 abortos do próprio ventre, ela mesma impedida de ter um filho por desígnios que não lhe cabem invocar.
Está cansada, confidencia. "Queria pedir a Deus o meu aposentamento de parteira." Deus é ainda menos apressado que o ministro da Previdência: até agora, não deu resposta ao pedido. Assim, Dorica crava os pés nus no chão sempre que alcança o destino e acocora-se entre as pernas da mulher. Alexandrina abraça o corpo da gestante com as pernas, por trás. Das entranhas do corpo feminino Dorica nada arranca, apenas espera. "Puxa" a barriga da mãe endireitando a criança, lambuzando o ventre com óleo de anta, arraia ou mucura (gambá) para apressar as dores. Perfura a bolsa com a unha se for preciso e corta o cordão umbilical com flecha se faltar tesoura. "Pegar menino é esperar o tempo de nascer", ensina. "Os médicos da cidade não sabem e, porque não sabem, cortam a mulher." No escorrer de oito dias, Dorica abandona a roça de mandioca.
É missão da parteira lavar, cozinhar, "puxar" o útero para que a mulher fique sã. É obrigação pentear o seio para que o leite jorre entre os lábios do menino. É sabedoria aspirar o nariz do bebê com a boca até ouvir o choro. Cumpridas as etapas, Dorica entrega a mulher ao marido: "O que eu podia fazer pela sua mulher eu já fiz. Agora você tem de cuidar da família". O marido agradece. "Se eu puder lhe dar alguma coisa, lhe dô." E Dorica responde: "Deus dá o pago". E o diálogo se encerra. É tudo. E é assim há mais de 500 anos. Dos mais de 2 mil partos consumados no chão da Amazônia, Dorica só perdeu três. Não passa um dia sem lamentar. "É uma criança que faltou na comunidade", constata. Na cultura dos povos da floresta, ninguém é substituível. Ou descartável. A vida que feneceu antes de vingar será chorada para sempre. Brasil de cesarianas · 24% dos 2,6 milhões de partos anuais são cirúrgicos · Mato Grosso do Sul é o recordista, com 40,46% · Apenas entre 5% e 10% dos partos requerem cirurgia · A cada 10 mil partos normais morrem duas mulheres. A cada 10 mil cesarianas sucumbem sete · O SUS paga R$ 194,79 por parto normal e R$ 293,84 por cesariana. A parteira dá adeus enquanto a canoa some no rio. A arara a observa de um galho, um bando de papagaios corta o céu em algazarra, uma menina se banha no igarapé antes da escola. Dorica pousa a mão no velho coração e, pronunciando palavras silenciosas, arranca de lá a bênção aos que partem. Depois, dá as costas e vai pitar tabaco enquanto espera a hora em que o quinto filho de Ivaneide Iapará irá esmurrar a porteira do mundo pedindo passagem.
As parteiras da floresta comungam da religião católica. Algumas adotaram as pentecostais. Outras são espíritas, batuqueiras. Mas no coração vive uma religião antiga, em que a grande deidade era feminina. Aquela que governa o nascimento-vida-morte, presente-passado-futuro. No tempo dos ancestrais, a relação entre o sexo e os bebês era desconhecida, tabu insondável de onde surgiram os mitos da cobra grande ou do boto fecundador. Hoje, mesmo invocando um deus masculino, o Espírito Santo ou os orixás, elas guardam uma herança silenciosa em que o feminino é fonte de toda a vida, e cada mulher é a guardiã do mistério. Quando remam quilômetros por rios ou vão "de pés" para auxiliar uma igual a consumar o milagre da vida, o parto é símbolo de resistência, uma lembrança subversiva de que cada mulher guarda um pouco da deusa.
Aos 77 anos, Jovelina dos Santos é a parteira mais afamada de Ponta Grossa do Piriri, lugarejo a cerca de 100 quilômetros de Macapá. "Deus me deu esse prestígio", anuncia da porta do casebre. Tem mais rugas no rosto que a noite tem estrelas. Risonha, quando abre a boca parece que vai se desprender um pedaço do mundo. Não que Jovelina seja exatamente feliz: ri porque decidiu não ficar triste. De uma simplicidade complexa, ela quando acorda nem sempre sabe se vai comer antes de outro amanhecer. Pelo parecer de Jovelina, é mais rica que a maioria. "Filho é riqueza, minha irmã." De novo a filosofia. "No meio deste fundão de morte, ou a gente vai enchendo o mundo de filhos ou desaparece." Só assim para entender quando a cabocla Jovelina esconde os dentes, ameaçando mergulhar o planeta na escuridão: "Só tive oito". Como só? "Só, oras. É tão bom parir..." E emenda, no tom de quem desfruta safadezas: "E de fazer gosto mais ainda". Jovelina junta gente quando conta como estreou no ofício. Vale bem pagar ingresso para ouvi-la. "O primeiro foi com Isabel, mulher do compadre Sevério, que estava lá para o povoado da Volta das Cobras. 'Deixa, compadre', disse mamãe, 'que a Isabel fica com nós.' De noite Isabel teve a febre, sentiu tremor de frio, não falou um ai. De manhã mamãe foi pra roça, fiquei eu mais Isabel. 'Jovita, bota água para um banho.' 'Tá aqui, Isabel', disse eu. 'Sabe que de madrugada me deu um grande tremor de frio?', disse ela. 'Foi, Isabel?', disse eu. 'Foi, Jovita.' Tava penteando o cabelo quando se deu o despejo. 'Jovita, minha mana, me acode.' Peguei o menino. Tava frio, tava morto. Quando mamãe chegou, perguntou: 'Que tal, Jovita?' 'Tá bom, mamãe.' Aí, ela disse: 'Bem, minha filha, a partir de agora você vai no meu lugar'. E eu fui." Simples assim.
De ajutório, Jovelina só conta com São Bartolomeu, advogado das parteiras, como São Raimundo, Nossa Senhora do Bom Parto e outras santidades. São Bartolomeu, não. Para Jovita, é "São Bertolamê", um tantinho afrancesado e com muito mais brilho. "Às 4 horas da tarde, Bertolamê se levantou e seu bastão se 'amantumou'. Em seu caminho, caminhou. Encontrou Nossa Senhora, perguntou onde vai Bertolamê. Vou à casa de Nossa Senhora. Vai, Bertolamê, que lá te darei bom condão. Onde não morre mulher de parto nem menina abafada." Pronto. Basta recitar a oração e o menino desliza floresta abaixo, pousando nas mãos de Jovelina. "O que essa mulherada sofre na maternidade é um golpe", apavora-se. "Aqui, se o menino acomodou de mau jeito, a gente vai e dobra. Vou puxando até ele se ajeitar, botar a cabeça no lugar. Aí não precisa cortar. Médico, coitado, não sabe dobrar menino." País de parteiras · 60 mil aparadoras realizam 450 mil partos anuais · Apenas 6 mil estão organizadas em rede · Elas querem reconhecimento da profissão e acesso aos direitos trabalhistas · O SUS paga R$ 54,80 por parto domiciliar, mas poucas recebem. No Amapá, têm capacitação e material. E integram programas de renda mínima. Na despedida, Jovelina chama os "filhos de umbigo" para exibir. Planta as pernas de Garrincha, bota as mãos de bênção na cintura e dá um grito: "Venham cá, seu bando de abestado! Ô, se minha mãe tivesse me botado na escola, eu não tava dando murro para passar". Abre de novo o sorriso para dar uma alumiada no céu e se enternece: "Ô, filharada bonita, é não?" Parto é mistério de mulher. Feito por mulheres, entre mulheres.
Está além da compreensão das parteiras da floresta que a vida se desenrole em berço de morte, no hospital, como se doença fosse. Para cada parteira, a dor primal é o prenúncio do êxtase do nascimento. Parto, com as devidas desculpas à condenação divina, não é sofrimento. É festa. "Eu sou de um tempo em que já tinha de ser mãe de filho para conhecer o mistério. Donzela não conversava de sexo para não sentir prazer no falar", conta Rossilda Joaquina da Silva, de 63 anos, 11 filhos, 20 netos, quatro bisnetos. "Quando é hora do menino chegar, a mulherada se reúne e é uma graça." Negra, negríssima, como a terra do quilombo do Curiaú, nos arredores de Macapá. Abre os braços gorduchos, musculosos de pegar menino, alinhavar vestidos e benzer doentes: "Curiaú de Dentro, Curiaú de Fora, fiz os partos no de aqui e no de lá. Tudo aqui nasceu pela minha mão". Solene, Rossilda larga a vassoura para contar a sina, sacudindo-se na cadeira de balanço ao som de cantiga para apressar parto embaraçado: "Valei-me, Senhor, meu glorioso São João! São João foi ancorado lá no Rio de Jordão.
Valha-me Deus, ó Deus de misericórdia! As cordas que me ouvem haverão de me levar". Rossilda pega o rumo de cada parto acompanhada de outra parteira, Angelina. Em espírito invocado, porque Angelina deixou este mundo há muito. O segredo dessa dupla de vivente e não vivente não conta. "Senão, perde a valoridade." Quando a hora chega, vencidas as nove luas, os homens são despachados para não fazer zoada. Parto é festa feminina. Vem vizinha de todo canto, comadre e não comadre. Enchem a casa, fazem café e mingau e se põem a contar casos e piadas para distrair a barriguda. Rindo um pouco, rezando outro tanto, de branco dos pés à cabeça, Rossilda vai ajeitando a criança, vigiando a dor. Quando se vê, "lá vem o menino escorregando pro mundo". O pai é chamado então para engatilhar a espingarda e dar dois tiros para cima, se for menina, ou três, para o caso de ter nascido menino. Se for homem, mais um Joaquim ou Raimundo. Mulher, obviamente Maria. Se despede rimando, a Rossilda: "Tenho mão limpa e coração puro. Sou parteira, trago criança ao mundo".
A floresta das parteiras é assim, uma terra de cantorias. "Quem disse que não somos nada, que não temos nada, já se enganou. Repare nós organizadas e bem preparadas, com as parteiras estou...", cantarola Tereza Bordalo, de 51 anos, parteira desde os 16. Convoca as irmãs para o ritual de agradecimento, vai cumprimentando as amigas de Saint George, na Guiana Francesa, com um Bonsoir, ça va bien? No outro lado do Rio Oiapoque, são todas madames. Ou melhor, "madam". Como madam Marie Labonté, que penetra na mata em busca da pele das serpentes. "Tomando chá de pele de cobra, o menino nasce sem dor, oui?" Do fundo da floresta, as parteiras vão surgindo tímidas, silenciosas. As mãos da vida se agarram, os pés do caminho se plantam em círculo no útero da mata quando agradecem à divindade ao amanhecer. Assim como a criança, o dia nasce sem outra força que não seja a da natureza. Surge em hora precisa, sem que ninguém tenha de arrancá-lo do ventre da noite.
Elas erguem as velas pedindo iluminação no ofício. Invocam a terra, o rio e a floresta. É uma conversa de comadres, uma prosa ao pé do ouvido. A imagem primitiva parece falar a uma sociedade surda - esquecida do cordão umbilical com algo maior que o mundo forjado dentro do mundo. Do útero circular, a índia Nazira Narciso aviva a chama: "Índia, crioula, brasileira, é uma dor só. É tudo o mesmo chorar. O mesmo coração de mulher".
A roda se desfaz e as parteiras pegam a barca para singrar os rios da fronteira do Brasil. Uma "pegadora" em prosa e verso. Aos 92 anos, Juliana Magave de Souza é a mais antiga parteira de Macapá: "Escuta o que eu vou lhe dizer. Nasci em 20 de janeiro de 1908, dia de São Sebastião. Casei com 15 anos, por amor e mais nada. Comecei a partejar com fé em Deus e sozinha. Minha avó me deixou o endereço. Minha Virgem Nossa Senhora, minha Santa Catarina, aja no momento, no minuto me ajudando. Eu nem gostava de ser parteira, mas tinha de estar presente. Meu Deus do céu, nesse meio não se fica sossegada, se está sempre ocupada. Fiquei com as mãos aleijadas pelo sangue da mulher. Estes nós todos, esta paralisia. Este sangue é muito forte, vai encaroçando sem que a gente faça fé. Minha única filha não quis que eu aparasse o menino, morreu de parto por sua vontade. Anunciou que seguiria o pai, Manoel Carapuça, que havia se ido meses antes. Quando me chamaram já era tarde, minha filha estava perdida. Criei os nove filhos dela, mais outros quatro por fora. Fazendo queijo para um tal de Moacir Gadelha, caçando de espingarda. Neste mundo fiz 339 filhos de pegação. Todos me chamam de mamãe. Era importante a vida antiga porque de tudo se entendia. Agora não se entende é mais nada. Tão aqui estas mãos. Elas são o mostruário do trabalho que eu fiz. Tá bom? Então tá. Ô Virgem, sua vontade é da minha também.".
Produzido pela Tv Cultura - Caminhos
Fonte: http://shaktilalla.blogspot.com/2010/01/as-parteiras-da-floresta.html

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Instrução para Parteiras Tradicionais


Hoje compartilho um pouco do que vivenciei semana passada quando estive, por uma tarde de domingo, dia 13 e dois outros dias, na terça e quarta-feiras, na presença da parteira tradicional Suely Carvalho, fundadora da ong Cais do Parto, em Olinda/PE, na Instrução para Parteiras Tradicionais, ocorrida em Pariquera-Açu, no Vale do Ribeira/SP, distando 50 km aproximadamente de Cananéia, onde resido, sendo o 2o. módulo em que profissionais de várias áreas realizam esta imersão nas artes da Partería, tendo esta grande mestre Griô como porta-voz.
Tarde e dias intensos e muito felizes no sítio Toque Natural, propriedade da Acunputurista e Musicoterapeuta Esther Pallares, aliado ao carinho das mãos de Ana, que nos contemplava com deliciosos pratos vegetarianos e bolos integrais maravilhosos! Além disso, muita mulherada reunida, e, um único homem, o Rodrigo, em ótimas prosas sobre gestação, parto e pós-parto, querem mais?!
Eu quero, rs!
Suely chegou até a mim por esses caminhos que o destino nos permite viver. Através do casal Fábio e Fabiana, que gestavam Miguel, nascido meses depois pelas mãos de Suely, os recebi em junho passado em meu singelo lar! Já havia a visto pela tv, no Globo Rural, em uma matéria sobre parteiras, e cheguei a escrevê-la para solicitar a permissão de postar um lindo relato dela que havia lido no Orkut - leiam aqui Minhas mestras ancestrais. Assim, quando abri as portas do nosso chalezinho e abracei aquela parteira que nos contou muitas histórias de parto, de sua atuação, de sua luta soube, na serenidade de meu coração, a gratidão que tive por essa oportunidade - vejam aqui as imagens desse encontro!
Meses se passaram e novos trabalhos dessa parceria surgiram! A oito mãos escrevemos um projeto para a realização de uma Capacitação para Parteiras Tradicionais - indígenas, caiçaras, quilombolas e ribeirinhas, tendo em vista o contexto antropológico da região em que resido, com um dos menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do País, num contínuo de Mata Atlântica remanescente e uma rica biodiversidade, com a presença de comunidades tradicionais com práticas, modos de vida, mitos e ritos próprios e peculiares, pertencentes ao patrimônio material e imaterial brasileiro.
Sinto-me lisongeada por atuar profissionalmente na área da Antropologia como uma espécie de guardiã desses saberes na medida em que realizo trabalhos de resgate, registro, difusão e valorização das histórias desses povos, e o parto e nascimento fazem parte desse arcabouço em uma região escassa de riqueza econômica, mas milionária na sabedoria popular.
A metodologia aplicada nesta formação em Parteira Tradicional, oferecida pela Cais do Parto, tendo Suely como Mestre Griô, utiliza da oralidade, do resgate do sagrado feminino, da potencialidade natural e fisiológica de nosso corpo para gestar e parir. Receitas de ervas medicinais e curativas, posições para o parto, o parto, a Medicina da Placenta, a espiritualidade do parto, o pós-parto, a depressão pós-parto, os cuidados na amamentação, os 1os dias com o bebê e a formação de uma nova família são temas tratados neste curso que tem quatro módulos até sua conclusão, em que mais uma nova parteira nasce!
Vejam aqui a entrevista dada por Suely a TV Ribeira, por Esther Pallares, no Programa Medicina Alternativa.
Para ler e assistir alguns documentários em outros posts sobre Suely Carvalho acessem os links abaixo:
Ao natural - http://partonobrasil.blogspot.com/2010/11/ao-natural.html
Quem agora caminha - http://partonobrasil.blogspot.com/2010/10/quem-agora-caminha.html
Pelo direito de nascer de parto normal, do post Luta nossa de cada dia - http://partonobrasil.blogspot.com/2011/01/boa-noite-hoje-o-debate-por-aqui-e.html

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Por um novo modo de nascer no Brasil

Compartilho hoje o link para o incrível texto da pediatra, doutora em Saúde Pública pela UFMG e supervisora do Plano de Qualificação das Maternidades e Redes Perinatais da Amazônia Legal e Nordeste Sônia Lansky, publicado no site do Ministério da Saúde e postado via Facebook por Simone Diniz.
Confiram um trecho:
"É preciso mudar o modelo de atenção ao nascimento no Brasil para a solução deste grave problema de saúde pública. É preciso alcançar os níveis os patamares desejáveis na mortalidade materna e infantil, e melhorar a satisfação da mulher e da família no momento do nascimento de seus filhos. O foco deve ser o parto respeitoso e digno, apoiado na rede de atenção articulada que garanta acesso oportuno à atenção qualificada desde o pré-natal até o parto. Que garanta o protagonismo e os direitos da mulher e da criança neste momento ímpar de celebração da vida e do afeto, de forma a promover sua saúde e as relações humanas e da sociedade."
Para ler na íntegra acessem aqui - Por um novo modo de nascer no Brasil.
E, para engrossar o caldo leiam também neste link o artigo publicado no Femina - Assistência ao primeiro período do trabalho de parto baseada em evidências, de Ana Maria Feitosa Porto, Melania Maria Ramos Amorim e Alex Sandro Rolland Souza, autores de dois outros trabalhos postados aqui no blog - Indicações de cesareana baseadas em evidências (Parte I e II).

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Ao natural

A Revista Tpm filmou uma série de entrevistas com parteiras tradicionais, especialmente de regiões pernambucanas, disponíveis no vídeo Ao natural - assista abaixo.


[Use o Keepvid para baixar o vídeo]
O Blog Parto no Brasil postou em julho deste ano a matéria Em Casa, também da Tpm, #78, sobre o nascimento em casa, com entrevistas da parteira tradicional Suely Carvalho, fundadora da Cais do Parto, de Olinda/PE, que também aparece no vídeo acima e Heloisa Lessa, parteira que atua no Rio de Janeiro/RJ - leia aqui o post Sobre parir e partejar.

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