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segunda-feira, 28 de maio de 2012

Adoecer e morrer para dar à luz


Hoje, 28 de maio, é Dia Internacional de Ação pela Saúde das Mulheres, e Dia Nacional pela Redução das Mortes Maternas.

Todo o país está marcando a data, com eventos que tratam desta questão: direitos humanos fundamentais das mulheres de receber assistência obstétrica de qualidade e em momento oportuno. Confira no mapa.

Não podemos aceitar que nenhuma mulher morra por falta de ou demora no atendimento à gestação, parto e pós-parto. 
Melhorar a qualidade da assistência, que é praticamente universal, é o principal desafio.

Enquanto a imprensa oficial do governo anuncia a redução em 21% das mortes maternas em 2011, em comparação com o mesmo período de 2010 - e justifica a melhoria em decorrência de ações do Programa Federal Rede Cegonha, e também pela implementação do Cadastro Nacional de Gestantes (sim!!! a MP 557 e o não-diálogo com a sociedade estão vigentes!!!) - convidamos você leitora, a conhecer o artigo de Simone Diniz, publicado em 2009, sobre o porquê melhoramos as condições de saúde geral dos brasileiros, em detrimento da saúde das gestantes brasileiras. Confira abaixo o resumo, e acesse aqui o artigo original (Gênero, Saúde Materna e o Paradoxo Perinatal).
Nos últimos 20 anos, houve uma melhoria de praticamente todos os indicadores da saúde materna no Brasil, assim como grande ampliação do acesso aos serviços de saúde. Paradoxalmente, não há qualquer evidência de melhoria na mortalidade materna. Este texto tem como objetivo trazer elementos para a compreensão deste paradoxo, através do exame dos modelos típicos de assistência ao parto, no SUS e no setor privado. Analisaremos as propostas de mudança para uma assistência mais baseada em evidências sobre a segurança destes modelos, sua relação com os direitos das mulheres, e com os conflitos de interesse e resistências à mudança dos modelos. 
Confiram também a excelente reportagem de Eliane Brum e Cristiane Segatto, de 2008, Elas morreram de parto. Acesse aqui - são 5 páginas imperdíveis!

Arquivo Pessoal
Elas morreram de parto. Muitas outras mulheres não morrem, mas chegam a ficar em estado mórbido. 

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e Organização Mundial da Saúde (OMS) estimam que ocorram até 20 casos de morbidade materna por cada morte materna registrada. Então, tomando como exemplo a cidade de Londrina-PR, que registrou 5 mortes maternas em 2011, podemos supor que outras 100 londrinenses tenham tido severa complicação de saúde. A Pesquisa Nascer no Brasil poderá também dimensionar a quantidade de mulheres que adoecem, e em que medida padecem, as brasileiras que têm filhos.

O Conselho Nacional de Saúde reunirá diversas vozes do movimento de mulheres, e do governo, nos dias 28 e 29 de maio, em Brasília-DF, para o debate conforme a seguinte programação. Está excelente!

Evento promovido pela Prefeitura de Londrina-PR, por meio da Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres. Este ano, o IV Encontro A Saúde da Mulher no Ciclo da Vida abordará a qualidade da assistência ao parto, com destaque para a Humanização da Assistência ao Parto e Nascimento.

E, por fim, linkamos o relatório da ONU, publicado em 16 de maio de 2012, em inglês, que estima a redução global das mortes maternas, mas alerta para o fato de que 800 mães morrem diariamente em todo o mundo.


Você conhece alguma mulher que ficou seriamente doente logo após o nascimento de um bebê - e até 42 dias depois? 
Que precisou ser hospitalizada, receber transfusão sanguínea, ou cuidados intensivos (UTI)?
Quais foram os problemas identificados? Como foi a assistência ao parto que ela teve?

terça-feira, 12 de julho de 2011

Parto com Prazer

Aproveitando o delicioso sorteio desta segunda-feira, de nossa Promoção de Inverno, compartilho uma matéria da jornalista Eliane Brum, colunista da Revista Época, de maio deste ano, sobre o livro Parto com Amor.
Por Eliane Brum
Acho que exagerei na lasanha de berinjela”, comentou Luciana Benatti com o marido, Marcelo Min. Passava das dez da noite e Luciana, com 37 semanas e 4 dias de gestação, tinha sentido uma dorzinha. Não era a lasanha. Era Pedro, mas naquele momento ninguém sabia que ele se chamaria Pedro, porque os pais achavam que ainda teriam alguns dias de gestação para decidir o nome e preferiam descobrir o sexo apenas quando o bebê se apresentasse. Na madrugada, primeiro chegou a doula. Depois a pediatra. E em seguida a obstetra. Daria qualquer coisa para saber o que o porteiro do edifício no bairro de Pinheiros, em São Paulo, imaginou ao ver três mulheres chegando de malinha no meio da noite. Tudo – de homicídio a orgia – menos que alguém daria à luz no sétimo andar. De repente, já havia uma piscina inflável, decorada com uma alegre fauna marinha, no meio da sala. E uma mangueira de 50 metros levava água quente do velho Lorenzetti até banheira improvisada. Foi lá que Luciana começou a dar aqueles berros primais e libertadores, porque dói mesmo, para algumas mulheres mais do que para outras. E de novo fico pensando no que o pobre porteiro deve ter imaginado quando os vizinhos começaram a interfonar. Arthur, pelo menos, resolveu espiar o que estava acontecendo. Aos quatro anos, ele desembarcou da cama esfregando os olhos amendoados e encontrou uma festa na sala. Como Luciana sabia que nada melhor do que um bom berro quando a contração chegava mais forte, percebeu que precisaria explicar ao menino o que estava acontecendo antes que ele se desesperasse. “Filho, para o irmãozinho sair da barriga, a mamãe vai ter que dar uns gritos de leão”. Arthur é louco por qualquer bicho – mas rei é rei, e rainha melhor ainda. Adorou. E a partir daí, sempre que sua mamãe leoa berrava, ele ria e batia palmas na maior empolgação. Foi assim que Pedro escorregou para o mundo. Marcelo e Arthur, pai e filho, cortaram o cordão umbilical. E depois de um soninho gostoso, Luciana acordou pela manhã com os dois filhos ao seu lado e um café na cama preparado pelo Marcelo. O melhor pão com requeijão da sua vida.
Esta história é contada pelos protagonistas, a jornalista Luciana Benatti e o fotógrafo Marcelo Min, num livro – muito – importante lançado nesta quarta-feira, 4/5 (a partir das 18h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo). Parto com amor (Panda Books) é a narrativa de uma trajetória que começou em 2007, com a gestação de Arthur, o orgulhoso animador de partos do parágrafo anterior. E só terminou no ano passado, com o nascimento de Pedro.
Ao ficar grávida pela primeira vez, quatro anos atrás, Luciana pensava em ter parto normal, mas nunca tinha ouvido falar de parto humanizado. Como boa parte dos médicos, o dela disse: “Parto normal é o melhor para a mãe e para o bebê”. Mas não respondia – e até se irritava – com as perguntas de Luciana. “O que mais a senhora quer saber?”. Um dia Luciana, já com um barrigão de 35 semanas, encontrou uma amiga jornalista. “Mas você tem certeza? Muitos médicos dizem que fazem (o parto normal), mas na hora inventam uma desculpa para a cesárea”.
Luciana ficou bem irritada com a amiga que duvidava do seu médico naquela altura da gestação. Mas o comentário permaneceu fincado como um alfinete em sua cabeça e, na consulta seguinte, diante de seus questionamentos, o médico soltou esta pérola: “Por que você está tão preocupada com o parto? Cuide das roupinhas e da decoração do quarto e deixe que do parto cuido eu”.
Não era esta a ideia que Luciana e Marcelo compartilhavam sobre o parto do seu filho. Eles tinham certeza de que quem tinha de cuidar do nascimento do bebê eram eles – e especialmente Luciana, com o apoio de Marcelo. Nunca mais voltaram ao consultório do médico, que também jamais os procurou para perguntar o porquê.
Um mês depois Arthur nasceu num parto natural na banheira da maternidade de um hospital, sem anestesia, sem episiotomia (o corte que obstetras costumam fazer no períneo da gestante com a justificativa de que ajuda no nascimento e evita lesões maiores) e sem soro com ocitocina (medicamento usado para aumentar a frequência e a força das contrações). Arthur desembarcou do útero no seu tempo, forte e saudável. E Luciana deu à luz inspirada nas suas avós: Aurora teve sete filhos de parto normal e Antônia, sete. “Foi um daqueles momentos que fazem a vida valer a pena”, diz Luciana. “Fui a protagonista da minha história.”
E foi assim que outra história começou – a do livro. Marcelo, um dos melhores (e mais sensíveis) fotógrafos do Brasil, registrou em imagens o parto de Arthur. Ao refletirem sobre sua experiência, Marcelo e Luciana perceberam que valia a pena documentar o parto natural, comum nos países desenvolvidos da Europa, mas uma exceção no Brasil, um país com índices de cesariana superior a 80% nas mais conceituadas maternidades privadas – quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda no máximo 15%.
Nos últimos quatro anos, Marcelo e Luciana acordavam na madrugada com telefonemas do tipo: “Vai nascer!” ou “Começou!”. E lá se ia Marcelo com seu equipamento, enquanto Luciana ficava com Arthur. Depois, a jornalista fazia uma longa entrevista com cada uma das mulheres em suas casas, para que contasse sua trajetória a partir do seu próprio olhar – todos os textos do livro são na primeira pessoa e cada um deles traz o jeito particular da autora daquele parto. A cada final de capítulo, há uma seção de perguntas e respostas feitas com muita responsabilidade, precisão e conhecimento, que esclarecem questões trazidas na narrativa.
Como os meses de uma gestação, são nove histórias de mulheres – e homens – que decidiram se tornar protagonistas do nascimento de seus filhos. Cada uma delas com seu próprio caminho, suas possibilidades, seus conflitos e também seus limites. Cada capítulo nos dá uma história contada em duas linguagens – o texto e a fotografia. E ao final de cada um deles sofremos e nos alegramos junto com aqueles homens e mulheres – e bebês lindos e amarrotados – que passamos a sentir como se fossem da família.
Marcelo ganhou das gestantes o apelido de “fotógrafo invisível”, pelo seu dom – já testemunhado por mim em reportagens muito delicadas que fizemos juntos – de registrar a realidade com uma câmera enorme sem que ninguém se sinta invadido ou mesmo perceba a sua presença. As duas fotos abaixo são do primeiro capítulo, justamente o parto de Arthur. A mulher, berrando na banheira, é Luciana. Sim, parto dói, mas há uma diferença fundamental, que a maioria das pessoas parece ter esquecido, entre dor e sofrimento. A do parto é uma dor que não vem da doença e da morte, mas da saúde e da vida. É uma passagem. Você está junto com seu filho, ajudando-o no primeiro momento mais importante da vida que se inicia fora do útero materno. E poder berrar, sem que nenhum obstetra ou enfermeiro torça o nariz, é libertador.
Parto com amor é um livro que registra um dos movimentos femininos mais interessantes deste início de milênio (e que, para muitas parcelas da sociedade, permanece invisível): a decisão das mulheres de recuperarem a posse do corpo em um momento crucial da vida – o parto do filho. Elas passaram a perceber que dar à luz não é um procedimento técnico apenas, mas algo que vai definir uma questão determinante para tudo o que vem depois: o nascimento de uma mãe.
As decisões tomadas no parto e a forma como cada mulher lida com a gestação é parte da construção da maternidade que também ali se inicia. E para cada filho – e não apenas o primeiro – há uma mãe diferente que nasce. Assim como a forma que cada homem lida e participa – e a sua presença ou ausência nesse momento – também é determinante para a paternidade que se inicia, para o pai que também nasce.
Assumir a responsabilidade de parir é uma etapa essencial do processo de fundação e autoconhecimento da família recém nascida. Assim como delegar todas as decisões do parto para a autoridade médica também é, pelo avesso. Tanto uma escolha quanto a outra têm significados e consequências.
Em boa parte dos países desenvolvidos, a cesariana não é uma escolha, como é no Brasil. Da mesma forma que qualquer pessoa de bom senso acharia um absurdo se submeter a uma cirurgia nos rins ou na próstata sem necessidade. Nesta visão responsável da saúde, a cesariana é um procedimento de grande seriedade, como qualquer cirurgia, realizado apenas quando é necessário. E só é necessário quando há um risco comprovado para a mulher e para o bebê, quando é a realmente a melhor alternativa para a mulher e para o bebê.
Se esta fosse a verdade do atendimento às gestantes no Brasil, por que só as brasileiras teriam indicação de cesariana em mais de 80% dos nascimentos nas maternidades privadas – e não os 15% previstos pela OMS? Será que as brasileiras são mulheres diferentes das demais mulheres do mundo? Teriam um corpo diferente, que as impossibilita de parir seu filho de forma natural?
Assim, que bom que vivemos um momento da medicina em que, quando há risco para a mãe ou para o bebê, é possível fazer uma cirurgia. Mas que pena que um número significativo de cesarianas é realizado todos os dias não por necessidade real, mas por comodidade do médico e da mulher. E, mais triste ainda, que um número considerável seja feito à revelia da mulher. Diante dessa realidade e da sensação de que algo estava errado na experiência vivida nos consultórios e nos hospitais, em diferentes partes do país mulheres começaram a reagir. Sem encontrar respostas nos lugares óbvios, em geral contaminados pela cultura da cesariana e pela ideia da autoridade inquestionável do médico, elas passaram a criar grupos de discussão e de pesquisa na internet. Ao voltarem arrasadas da consulta, mães de primeira viagem encontravam pelo Google mães mais experientes que respondiam a suas perguntas e lhes davam orientação.
Duas destas mulheres, cada uma com uma história diferente, podem ser vistas nestas fotos extraordinárias. Na primeira, Denise, Lauro e a pequena Alice, no momento do nascimento. Na segunda, Andréia aconchega Maura, que acabou de nascer no ofurô. Matheus já deu as boas-vindas à irmã e muitos beijos na mãe. Em seguida, foi fazer xixi. “Muita gente se surpreende com esta foto”, comenta Andréia no livro. Como se o xixi fosse sujo, nascer fosse limpo e o fato de os dois estarem tão próximos pudesse fazer algum mal para o bebê.” A resposta padrão de Andréia é a seguinte: “Você sabe por onde ela saiu? Então, qual é o problema?”.
Pela internet, tornou-se possível recuperar uma tradição perdida: a das mulheres mais velhas ou experientes que compartilham seu conhecimento com as mais novas. A velha sabedoria das mães e das avós, só que a rede virtual e as mudanças culturais do nosso tempo tornaram esta uma família expandida. Hoje, há centenas de sites, blogs e listas de discussão de mulheres sobre gestação e parto. É possível, inclusive, assistir a partos pela tela do computador, em tempo real. Em algumas cidades brasileiras, profissionais da saúde adeptos do parto natural e humanizado formaram grupos onde as mulheres fazem cursos e trocam experiências. Trocam também indicações de doulas, parteiras, obstetras e pediatras que garantidamente vão respeitar suas escolhas, manter seu bebê junto delas e só realizar uma cesariana se for realmente necessário.
Da mesma forma que a internet deslocou o poder em muitas esferas – com o acesso à informação, a ampliação das vozes e a possibilidade de divulgação –, também teve profundo efeito no protagonismo do parto no Brasil. E, como toda mudança, esta causa um bocado de polêmica e resistência – especialmente entre a parcela dos profissionais de saúde que sente seu poder, antes inquestionável, ameaçado. Não acredito que esse movimento seja revertido. Pelo contrário, me parece que a tendência é crescer e se multiplicar com a ajuda das redes sociais.
Parto com amor é um dos primeiros livros brasileiros a documentar esse fenômeno cultural tão interessante. E recebeu o apoio entusiasmado de uma das brasileiras mais famosas do mundo, a supermodelo Gisele Bündchen. A maioria das celebridades marca dia e hora para botar seus filhos no mundo, a data é escolhida com a ajuda de um numerologista e o mapa astral está na lista do enxoval. Gisele, a celebridade entre as celebridades, não. Ela faz parte desse movimento novo. Teve seu filho Benjamin em casa, na banheira, com parteira, da forma mais natural possível. E sofreu críticas por causa disso.
Em entrevista ao Fantástico, programa da TV Globo, ela disse: “Meu parto não foi dolorido em nenhum momento. Não foi assim, ai que dor, mas a cada contração eu pensava que meu bebê estava mais perto de mim. Eu transformei aquela sensação intensa, que acontece para todo mundo, em uma esperança de ele estar chegando mais perto. E no segundo dia (depois do parto) eu já estava caminhando, lavando louça, fazendo panqueca, sabe assim, vida que segue”.
Gisele leu Parto com amor e comenta na contracapa do livro: “O parto pode ser, sim, um momento poderoso de transformação, alegria e prazer. Espero que este livro inspire muitas mulheres”. Depois, encomendou exemplares para dar de presente às irmãs.
Espero que os votos de Gisele Bündchen se realizem.
Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI229871-15230,00.html
Foto: Marcelo Min, de sua esposa Luciana, durante o parto do primogênito Arthur.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

As parteiras da floresta

Por Eliane Brum
As mãos de um punhado de mulheres fazem do Amapá a região recordista em partos normais no Brasil das cesarianas
Elas nasceram do ventre úmido da Amazônia, no extremo norte do Brasil, no Estado esquecido do noticiário chamado Amapá. O país pouco as escuta porque perdeu o ouvido para os sons do conhecimento antigo, para a música de suas cantigas. Muitas não conhecem as letras do alfabeto, mas são capazes de ler a mata, os rios e o céu. Emersas dos confins de outras mulheres com o dom de pegar criança, adivinham a vida que se oculta nas profundezas. É sabedoria que não se aprende, não se ensina nem mesmo se explica. Acontece apenas.
Esculpidas por sangue de mulher e água de criança, suas mãos aparam um pedaço ignorado do Brasil. O grito ancestral ecoa do território empoleirado no cocuruto do mapa para lembrar ao país que nascer é natural. Não depende de engenharia genética ou operação cirúrgica. Para as parteiras, que guardaram a tradição graças ao isolamento geográfico do berço, é mais fácil compreender que um boto irrompa do igarapé para fecundar donzelas que aceitar uma mulher que marca dia e hora para arrancar o filho à força.
Quase 90% da população do Amapá, composta de menos de meio milhão de habitantes, chega ao mundo pelas mãos de 752 "pegadoras de menino". Campeão no Brasil em partos normais - e ostentando o segundo mais baixo índice de mortalidade infantil -, o Estado fez do nascimento tradicional uma política pública. Encarapitadas em barcos ou tateando caminhos com os pés, a índia Dorica, a cabocla Jovelina e a quilombola Rossilda são guias de uma viagem por mistérios antigos. Cruzam com Tereza e as parteiras indígenas do Oiapoque, onde já começou o Brasil. Unem-se todas pela trama de nascimentos inscritos na palma da mão. "Pegar menino é ter paciência", recita a caripuna Maria dos Santos Maciel, a Dorica, a mais velha parteira do Amapá. Aos 96 anos, mais de 2 mil índios conheceram o mundo pelas suas mãos pequenas, quase infantis. Dorica - avó, mãe, madrinha - nem mesmo gostaria de possuir o "dom". "O dom é assim, nasce com a gente. E não se pode dizer não", explica. "Parteira não tem escolha, é chamada nas horas mortas da noite para povoar o mundo." O espectro quase centenário é visto quando se navega pelos rios do Oiapoque iluminado apenas por uma lamparina. Viaja acompanhada da irmã Alexandrina, de 66 anos. "Mulher e floresta são uma coisa só", compara Alexandrina. "A mãe-terra tem tudo, como tudo se encontra no corpo da mulher. Força, coragem, vida e prazer." Quando os remos cortam o rio, são perseguidos pelos olhos fosforescentes dos jacarés. "Não tem perigo. Eles só comem cachorro e sandália", tranqüiliza Dorica. "Abrimos o bucho de um, dia desses, e era só o que tinha." Dorica lembra dos 16 abortos do próprio ventre, ela mesma impedida de ter um filho por desígnios que não lhe cabem invocar.
Está cansada, confidencia. "Queria pedir a Deus o meu aposentamento de parteira." Deus é ainda menos apressado que o ministro da Previdência: até agora, não deu resposta ao pedido. Assim, Dorica crava os pés nus no chão sempre que alcança o destino e acocora-se entre as pernas da mulher. Alexandrina abraça o corpo da gestante com as pernas, por trás. Das entranhas do corpo feminino Dorica nada arranca, apenas espera. "Puxa" a barriga da mãe endireitando a criança, lambuzando o ventre com óleo de anta, arraia ou mucura (gambá) para apressar as dores. Perfura a bolsa com a unha se for preciso e corta o cordão umbilical com flecha se faltar tesoura. "Pegar menino é esperar o tempo de nascer", ensina. "Os médicos da cidade não sabem e, porque não sabem, cortam a mulher." No escorrer de oito dias, Dorica abandona a roça de mandioca.
É missão da parteira lavar, cozinhar, "puxar" o útero para que a mulher fique sã. É obrigação pentear o seio para que o leite jorre entre os lábios do menino. É sabedoria aspirar o nariz do bebê com a boca até ouvir o choro. Cumpridas as etapas, Dorica entrega a mulher ao marido: "O que eu podia fazer pela sua mulher eu já fiz. Agora você tem de cuidar da família". O marido agradece. "Se eu puder lhe dar alguma coisa, lhe dô." E Dorica responde: "Deus dá o pago". E o diálogo se encerra. É tudo. E é assim há mais de 500 anos. Dos mais de 2 mil partos consumados no chão da Amazônia, Dorica só perdeu três. Não passa um dia sem lamentar. "É uma criança que faltou na comunidade", constata. Na cultura dos povos da floresta, ninguém é substituível. Ou descartável. A vida que feneceu antes de vingar será chorada para sempre. Brasil de cesarianas · 24% dos 2,6 milhões de partos anuais são cirúrgicos · Mato Grosso do Sul é o recordista, com 40,46% · Apenas entre 5% e 10% dos partos requerem cirurgia · A cada 10 mil partos normais morrem duas mulheres. A cada 10 mil cesarianas sucumbem sete · O SUS paga R$ 194,79 por parto normal e R$ 293,84 por cesariana. A parteira dá adeus enquanto a canoa some no rio. A arara a observa de um galho, um bando de papagaios corta o céu em algazarra, uma menina se banha no igarapé antes da escola. Dorica pousa a mão no velho coração e, pronunciando palavras silenciosas, arranca de lá a bênção aos que partem. Depois, dá as costas e vai pitar tabaco enquanto espera a hora em que o quinto filho de Ivaneide Iapará irá esmurrar a porteira do mundo pedindo passagem.
As parteiras da floresta comungam da religião católica. Algumas adotaram as pentecostais. Outras são espíritas, batuqueiras. Mas no coração vive uma religião antiga, em que a grande deidade era feminina. Aquela que governa o nascimento-vida-morte, presente-passado-futuro. No tempo dos ancestrais, a relação entre o sexo e os bebês era desconhecida, tabu insondável de onde surgiram os mitos da cobra grande ou do boto fecundador. Hoje, mesmo invocando um deus masculino, o Espírito Santo ou os orixás, elas guardam uma herança silenciosa em que o feminino é fonte de toda a vida, e cada mulher é a guardiã do mistério. Quando remam quilômetros por rios ou vão "de pés" para auxiliar uma igual a consumar o milagre da vida, o parto é símbolo de resistência, uma lembrança subversiva de que cada mulher guarda um pouco da deusa.
Aos 77 anos, Jovelina dos Santos é a parteira mais afamada de Ponta Grossa do Piriri, lugarejo a cerca de 100 quilômetros de Macapá. "Deus me deu esse prestígio", anuncia da porta do casebre. Tem mais rugas no rosto que a noite tem estrelas. Risonha, quando abre a boca parece que vai se desprender um pedaço do mundo. Não que Jovelina seja exatamente feliz: ri porque decidiu não ficar triste. De uma simplicidade complexa, ela quando acorda nem sempre sabe se vai comer antes de outro amanhecer. Pelo parecer de Jovelina, é mais rica que a maioria. "Filho é riqueza, minha irmã." De novo a filosofia. "No meio deste fundão de morte, ou a gente vai enchendo o mundo de filhos ou desaparece." Só assim para entender quando a cabocla Jovelina esconde os dentes, ameaçando mergulhar o planeta na escuridão: "Só tive oito". Como só? "Só, oras. É tão bom parir..." E emenda, no tom de quem desfruta safadezas: "E de fazer gosto mais ainda". Jovelina junta gente quando conta como estreou no ofício. Vale bem pagar ingresso para ouvi-la. "O primeiro foi com Isabel, mulher do compadre Sevério, que estava lá para o povoado da Volta das Cobras. 'Deixa, compadre', disse mamãe, 'que a Isabel fica com nós.' De noite Isabel teve a febre, sentiu tremor de frio, não falou um ai. De manhã mamãe foi pra roça, fiquei eu mais Isabel. 'Jovita, bota água para um banho.' 'Tá aqui, Isabel', disse eu. 'Sabe que de madrugada me deu um grande tremor de frio?', disse ela. 'Foi, Isabel?', disse eu. 'Foi, Jovita.' Tava penteando o cabelo quando se deu o despejo. 'Jovita, minha mana, me acode.' Peguei o menino. Tava frio, tava morto. Quando mamãe chegou, perguntou: 'Que tal, Jovita?' 'Tá bom, mamãe.' Aí, ela disse: 'Bem, minha filha, a partir de agora você vai no meu lugar'. E eu fui." Simples assim.
De ajutório, Jovelina só conta com São Bartolomeu, advogado das parteiras, como São Raimundo, Nossa Senhora do Bom Parto e outras santidades. São Bartolomeu, não. Para Jovita, é "São Bertolamê", um tantinho afrancesado e com muito mais brilho. "Às 4 horas da tarde, Bertolamê se levantou e seu bastão se 'amantumou'. Em seu caminho, caminhou. Encontrou Nossa Senhora, perguntou onde vai Bertolamê. Vou à casa de Nossa Senhora. Vai, Bertolamê, que lá te darei bom condão. Onde não morre mulher de parto nem menina abafada." Pronto. Basta recitar a oração e o menino desliza floresta abaixo, pousando nas mãos de Jovelina. "O que essa mulherada sofre na maternidade é um golpe", apavora-se. "Aqui, se o menino acomodou de mau jeito, a gente vai e dobra. Vou puxando até ele se ajeitar, botar a cabeça no lugar. Aí não precisa cortar. Médico, coitado, não sabe dobrar menino." País de parteiras · 60 mil aparadoras realizam 450 mil partos anuais · Apenas 6 mil estão organizadas em rede · Elas querem reconhecimento da profissão e acesso aos direitos trabalhistas · O SUS paga R$ 54,80 por parto domiciliar, mas poucas recebem. No Amapá, têm capacitação e material. E integram programas de renda mínima. Na despedida, Jovelina chama os "filhos de umbigo" para exibir. Planta as pernas de Garrincha, bota as mãos de bênção na cintura e dá um grito: "Venham cá, seu bando de abestado! Ô, se minha mãe tivesse me botado na escola, eu não tava dando murro para passar". Abre de novo o sorriso para dar uma alumiada no céu e se enternece: "Ô, filharada bonita, é não?" Parto é mistério de mulher. Feito por mulheres, entre mulheres.
Está além da compreensão das parteiras da floresta que a vida se desenrole em berço de morte, no hospital, como se doença fosse. Para cada parteira, a dor primal é o prenúncio do êxtase do nascimento. Parto, com as devidas desculpas à condenação divina, não é sofrimento. É festa. "Eu sou de um tempo em que já tinha de ser mãe de filho para conhecer o mistério. Donzela não conversava de sexo para não sentir prazer no falar", conta Rossilda Joaquina da Silva, de 63 anos, 11 filhos, 20 netos, quatro bisnetos. "Quando é hora do menino chegar, a mulherada se reúne e é uma graça." Negra, negríssima, como a terra do quilombo do Curiaú, nos arredores de Macapá. Abre os braços gorduchos, musculosos de pegar menino, alinhavar vestidos e benzer doentes: "Curiaú de Dentro, Curiaú de Fora, fiz os partos no de aqui e no de lá. Tudo aqui nasceu pela minha mão". Solene, Rossilda larga a vassoura para contar a sina, sacudindo-se na cadeira de balanço ao som de cantiga para apressar parto embaraçado: "Valei-me, Senhor, meu glorioso São João! São João foi ancorado lá no Rio de Jordão.
Valha-me Deus, ó Deus de misericórdia! As cordas que me ouvem haverão de me levar". Rossilda pega o rumo de cada parto acompanhada de outra parteira, Angelina. Em espírito invocado, porque Angelina deixou este mundo há muito. O segredo dessa dupla de vivente e não vivente não conta. "Senão, perde a valoridade." Quando a hora chega, vencidas as nove luas, os homens são despachados para não fazer zoada. Parto é festa feminina. Vem vizinha de todo canto, comadre e não comadre. Enchem a casa, fazem café e mingau e se põem a contar casos e piadas para distrair a barriguda. Rindo um pouco, rezando outro tanto, de branco dos pés à cabeça, Rossilda vai ajeitando a criança, vigiando a dor. Quando se vê, "lá vem o menino escorregando pro mundo". O pai é chamado então para engatilhar a espingarda e dar dois tiros para cima, se for menina, ou três, para o caso de ter nascido menino. Se for homem, mais um Joaquim ou Raimundo. Mulher, obviamente Maria. Se despede rimando, a Rossilda: "Tenho mão limpa e coração puro. Sou parteira, trago criança ao mundo".
A floresta das parteiras é assim, uma terra de cantorias. "Quem disse que não somos nada, que não temos nada, já se enganou. Repare nós organizadas e bem preparadas, com as parteiras estou...", cantarola Tereza Bordalo, de 51 anos, parteira desde os 16. Convoca as irmãs para o ritual de agradecimento, vai cumprimentando as amigas de Saint George, na Guiana Francesa, com um Bonsoir, ça va bien? No outro lado do Rio Oiapoque, são todas madames. Ou melhor, "madam". Como madam Marie Labonté, que penetra na mata em busca da pele das serpentes. "Tomando chá de pele de cobra, o menino nasce sem dor, oui?" Do fundo da floresta, as parteiras vão surgindo tímidas, silenciosas. As mãos da vida se agarram, os pés do caminho se plantam em círculo no útero da mata quando agradecem à divindade ao amanhecer. Assim como a criança, o dia nasce sem outra força que não seja a da natureza. Surge em hora precisa, sem que ninguém tenha de arrancá-lo do ventre da noite.
Elas erguem as velas pedindo iluminação no ofício. Invocam a terra, o rio e a floresta. É uma conversa de comadres, uma prosa ao pé do ouvido. A imagem primitiva parece falar a uma sociedade surda - esquecida do cordão umbilical com algo maior que o mundo forjado dentro do mundo. Do útero circular, a índia Nazira Narciso aviva a chama: "Índia, crioula, brasileira, é uma dor só. É tudo o mesmo chorar. O mesmo coração de mulher".
A roda se desfaz e as parteiras pegam a barca para singrar os rios da fronteira do Brasil. Uma "pegadora" em prosa e verso. Aos 92 anos, Juliana Magave de Souza é a mais antiga parteira de Macapá: "Escuta o que eu vou lhe dizer. Nasci em 20 de janeiro de 1908, dia de São Sebastião. Casei com 15 anos, por amor e mais nada. Comecei a partejar com fé em Deus e sozinha. Minha avó me deixou o endereço. Minha Virgem Nossa Senhora, minha Santa Catarina, aja no momento, no minuto me ajudando. Eu nem gostava de ser parteira, mas tinha de estar presente. Meu Deus do céu, nesse meio não se fica sossegada, se está sempre ocupada. Fiquei com as mãos aleijadas pelo sangue da mulher. Estes nós todos, esta paralisia. Este sangue é muito forte, vai encaroçando sem que a gente faça fé. Minha única filha não quis que eu aparasse o menino, morreu de parto por sua vontade. Anunciou que seguiria o pai, Manoel Carapuça, que havia se ido meses antes. Quando me chamaram já era tarde, minha filha estava perdida. Criei os nove filhos dela, mais outros quatro por fora. Fazendo queijo para um tal de Moacir Gadelha, caçando de espingarda. Neste mundo fiz 339 filhos de pegação. Todos me chamam de mamãe. Era importante a vida antiga porque de tudo se entendia. Agora não se entende é mais nada. Tão aqui estas mãos. Elas são o mostruário do trabalho que eu fiz. Tá bom? Então tá. Ô Virgem, sua vontade é da minha também.".
Produzido pela Tv Cultura - Caminhos
Fonte: http://shaktilalla.blogspot.com/2010/01/as-parteiras-da-floresta.html

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