A América Latina é o continente campeão em número de nascimentos via cesárea; o Brasil perde apenas para o Chile. Nesta lógica, as gestantes brasileiras são umas coitadas! Mulher brasileira, grávida, sabe muito bem que vai passar por apuros para pôr seu filho no mundo.
No SUS, elas sabem que não poderão gritar; não poderão comer ou beber água; terão de ouvir humilhações do tipo "Foi bom fazer né? Agora aguenta pôr pra fora!"; levarão soro na veia, o que aumentará suas dores; sofrerão a episiotomia de rotina; e muitas vezes, viverão tudo isso sozinhas com a equipe de saúde.
Se é um plano de saúde que paga pelo parto, elas sabem que farão uma cirurgia; que ficarão mais de uma semana em recuperação; que será outra pessoa que cuidará de seu bebê nestes primeiros dias; que será difícil amamentar e maternar. O marido, a sogra, mãe, irmã ou vizinhas, serão indispensáveis.
Se o "evento médico", que é o nascimento, for pago particularmente, a história mais comum é a lenga-lenga da mentira deslavada para justificar uma intervenção cirúrgica. Mas é justamente aqui, nesta situação específica, que a lógica deveria ser completamente outra. Um casal está contratando um serviço para lhes ajudar com o nascimento de seu filho. Você está pagando, você deve pagar por aquilo que quer. Então, o ponto chave se torna o protagonismo da mulher - como muito bem descreve o dr. Ric Jones (aqui você encontra um excelente texto que ele escreveu sobre o assunto).
De nada adianta o médico topar um parto humanizado, a presença de uma doula, o marido não se opor e a mãe incentivar, se a grávida não estiver disposta a assumir a responsabilidade pelo nascimento do seu filho. O corpo é da mulher. A saúde é dela e do seu filho. Para uma criança nascer, sempre, há uma série de decisões que precisam ser tomadas - aconteça o parto em casa, na floresta ou no centro cirúrgico. Se a brasileira não tomar as decisões para si, alguém o fará, é certo!
Entretanto há salvação. Embasada em evidências científicas e contra essa cultura de que o parto normal é perigoso para mãe e bebê, há milhares de mulheres organizadas e muito bem dispostas a ajudarem as gestantes a darem à luz. É o caso, por exemplo, da Parto do Princípio, Mulheres em Rede pela Maternidade Ativa, e das tantas listas de discussão que circulam pela internet, como a GestaPR, PartoNosso etc.
São nestes espaços virtuais de articulação política que aquelas mulheres que desejam lutar por um parto e nascimento respeitosos encontram alento e orientação certeira. Não dá para ignorar as informações que circulam nestes espaços. Não dá para confiar no sistema médico obstétrico e no padrão de atendimento hospitalar. Para parir em paz, confiante, com prazer e, sobretudo, segurança, a gestante brasileira precisa mesmo de ajuda.
Ps.: se for ter parto normal, procure alguém que saiba realmente assiti-lo.
Obs.: Car@s leitor@s, esse balde não é o daquela versão caríssima e sim um balde normal, como esses que usamos para a limpeza de nossas casas, uso para banhar minha cria desde o primeiro mês, ele adora! Às vezes coloco ervas medicinais, como calêndula, hortelã, lavanda, junto da água quentinha!Delícia!
O que fazer quando os conflitos familiares se convertem numa constante e explodem por qualquer motivo? Como assumir e expressar raiva, medo, frustração ou tristeza, sem ter a impressão de colocar em risco o amor e a confiança? Como formar e educar as crianças sem recorrer ao castigo físico?
Estratégias de educação positiva são aquelas formas educativas que não utilizam a violência física e psicológica e que promovem o desenvolvimento físico, emocional e social dos filhos de forma saudável e participativa.
Educar não é nada fácil. Depois de um dia inteiro de problemas, mães e pais chegam em casa e precisam cuidar dos filhos. E as crianças querem atenção, nem sempre obedecem logo, pedem tudo. É muita pressão.
Nessa hora a palmada ou um tapinha de leve parecem uma boa idéia. Sem que a criança entenda direito, os mesmos pais que dão comida e beijinho de boa noite, de vez em quando aparecem com o chinelo na mão. Para não apanhar, as crianças passam a preferir a distância e o silêncio.
Mentem para evitar brigas, escondem seus erros. Aos poucos, quase nada se resolve sem gritos ou ameaças. E o resultado disso é que as crianças, ao invés de respeitar os pais, ficam com medo deles.
Muitos pais apelam para a violência porque é comum acreditar que é a melhor forma de manter a autoridade e de proteger os filhos. Antigamente se achava que castigos físicos e humilhantes faziam parte da educação. Hoje, se sabe que não é bem assim. Existem formas carinhosas de educar que dão resultado. Reunimos aqui algumas dicas de educação que você pode aliar a estratégias específicas de educação positiva, para garantir ao seu filho um desenvolvimento pacífico, feliz e livre de violência.
1. Se acalme. Respire fundo antes de chamar a atenção do(a) seu(ua) filho(a).
Evite discutir os problemas sob o efeito da raiva, pois dizemos coisas inadequadas para a aprendizagem das crianças, que as magoam tanto quanto nos magoariam se fossem dirigidas a nós!
2. Sempre tente conversar com as crianças, mantendo abertos os canais de comunicação.
Entender porque algo está acontecendo ao conversar com a criança é o primeiro passo para juntos vocês encontrarem a solução!
3. Mostre à criança o comportamento mais adequado dando o seu próprio exemplo.
Beber suco diretamente da garrafa irá ensiná-lo que esse é um comportamento adequado. Assim como falar mal das pessoas depois de encontrá-las. Seu filho aprenderá muito mais com o seu exemplo do que com o que você diz a ele sobre o que é certo ou errado.
Isso vale também para os pequenos atos de higiene do cotidiano: escovar os dentes, lavar as mãos antes de comer etc. É mais fácil para a criança criar e manter essa rotina se você também a realiza.
4. Jamais recorra a tapas, insultos ou palavrões.
Como adultos não queremos ser tratados assim quando cometemos um erro... Então não devemos agir assim com nossos filhos! Devemos tratá-los da maneira respeitosa como esperamos ser tratados por nossos colegas, amigos ou pessoas da família, quando nos equivocamos. As crianças são seres humanos como nós!
5. Não deixe que a raiva ou o stress que acumulou por outras razões se manifestem nas discussões com seus filhos.
Seja justo e não espere que as crianças se responsabilizem por coisas que não lhes dizem respeito.
6. Converse sentado, somente com os envolvidos na discussão.
Isso contribui para uma melhor comunicação. Mantenha um tom de voz baixo e calmo, segure as mãos enquanto conversam - o contato físico afetuoso ajuda a gerar maior confiança entre pais e filhos e acalma as crianças.
7. Considere sempre as opiniões e idéias dos (as) seus (as) filhos(as).
Afinal muitas vezes suas explicações pelo ocorrido não são nem escutadas. Tome decisões junto com eles para resolver o problema, comprometendo-os com os resultados esperados. Se o acordo funcionar, dê parabéns. Se não funcionar, avaliem juntos o que aconteceu para melhorar da próxima vez.
8. Valorize e faça observações sobre os aspectos positivos do comportamento deles (as).
Elogios sobre bom comportamento nunca são demais! Cuidado para não atacar a integridade física ou emocional da criança fazendo com que ela sinta que jamais poderá atender suas expectativas!
Ela colocou a roupa suja no cesto de roupas? Elogie. Assim como o desenho que a criança fez, o fato dela ter conseguido colocar a calça sozinha, o fato dela contar uma história para você ou colocar algo no lugar que você pediu.
9. Busque expressar de forma clara quais são os comportamentos que não gosta e te aborrecem.
Explique o motivo de suas decisões e ajude-os a entendê-las e cumpri-las. As regras precisam ser claras e coerentes para que as crianças possam interiorizá-las!
10. "Prevenir é melhor que remediar, sempre”.
Gerar espaços de diálogo com as crianças desde pequenos colabora para que dúvidas e problemas sejam solucionados antes do conflito. Integrá-las nas atividades do dia-a-dia evita que tentem chamar a atenção por outros meios.
Você precisa fazer compras e terá que levar com você seu filho pequeno. Você pode deixá-lo ajudar nas compras; conversar com ele sobre o que está comprando – peça-lhe para falar o que ele acha de um determinado produto; se for uma criança mais velha, ela pode ter maior mobilidade e ir pegar outros produtos enquanto você está em outro setor do supermercado.
11. Se sentir que errou e se arrependeu, peça desculpas às crianças.
Elas aprendem mais com os exemplos que vivenciam do que com os nossos discursos!
12. Procure compreender a criança e saber o que esperar dela na fase desenvolvimento em que ela se encontra.
Uma criança de 1 ano e meio já consegue se alimentar sozinha e este é um comportamento que deveria ser estimulado pelos pais e/ ou cuidadores. Mas eles devem ter paciência e, ao invés de se irritarem com a “lambança” que a criança irá fazer, estimulá-la a se alimentar por conta própria. Colocar um plástico ou jornais embaixo da cadeira que a criança está comendo torna mais fácil limpar o local depois da refeição.
13. Deixe as conseqüências naturais do comportamento inadequado acontecerem ou aplique conseqüências lógicas.
Conseqüência natural: a criança está brincando de maneira violenta com seus brinquedos. Você a avisa que ele pode se quebrar, mas ela continua a brincar da mesma maneira até que ele finalmente se quebra. Logo em seguida ela pede para você comprar outro. Neste momento, você deve relembrá-la do aviso que lhe foi oferecido e negociar com ela esta nova compra.
Conseqüência lógica: a criança não cumpre com o que foi acordado com os pais sobre xingar os irmãos. Ela, então, ficará no “cantinho do castigo” o tempo adequado para a sua idade.
Importante: conseqüências são diferentes de punições. Estas últimas machucam as crianças, fisicamente e emocionalmente deixando-as com raiva, inseguras e tristes. As conseqüências ensinam. Essa estratégia, no entanto, não deve ser usada quando significar submeter a criança a situação de perigo.
A dor sentida (ou não) durante o trabalho de parto é muito subjetiva, pois cada mulher tem suas próprias sensações, diríamos que ela seja relativa a cada experiência e vivência enquanto pessoa, pelos caminhos já percorridos, por acontecimentos vivenciados no passado, mas o foco é que por conta dessas ditas dores que a medicalização do parto ocorreu, por volta de 1920, com o “sono do crepúsculo”.
As intervenções propostas nessa época pelo obstetra norte-americano Joseph DeLee, que salientava o caráter patológico do parto e os usos indiscriminados do fórceps, da episiotomia e de substâncias que acelerassem o nascimento, como o ergot e que sedassem a “paciente”, como o éter e o clorofórmio, ganharam força, assim, já na década de 30, a profilaxia na obstetrícia era norma rotineira (ODENT, 2003).
Pessoalmente, em minha primeira gestação, de Ícaro, hoje com pouco mais de sete anos, não senti fisicamente esta dor, por um laudo de distócia e bolsa rota há 12 horas, sem nenhuma contração como sinal, mesmo com uso de ocitocina sintética, fui submetida à cesariana, onde fiquei anestesiada por uma combinação de morfina e raqui. Meu filho nasceu, no auge da Copa do Mundo de 2002, assunto comentado pela ginecologista obstetra (GO) e anestesista durante a cirurgia, sendo que após seu nascimento, nada humanizado, ele já foi levado para o pediatra e sabe Deus (e nós sabemos!) por quantas intervenções a cria passou, pauta essa que apetece meu coração ao imaginar como bem-vinda foi sua recepção ao mundo, com a ausência de sua mãe, de seu seio, do nitrato de prata pingado em seus olhos, da vitamina de Potássio (K) injetada, das vacinas para imunização, enfim...
Já com o nascimento natural e domiciliar de Rudá, há cinco meses, amparado por uma parteira obstetriz, em um trabalho de parto ativo de 32 horas vivi plenamente minha função de mulher, mãe e mamífera; a cada contração e abertura de meu colo uterino podia perceber que sua chegada se aproximava, escutava a bacia se alargando e dando espaço a passagem, imaginava meu filhote em meus braços, no calor de meu peito, sem intervenções e interrupções bruscas, em prol da segurança neonatal e hospitalar de seus protocolos inóspitos. E, assim, ele chegou, em nosso quarto, no chão, a luz de velas, na penumbra da noite chuvosa e fria de inverno, ao lado das montanhas, nos braços do mar!
Doeu? Sim! E muito! Mas, revivendo e relembrando consigo entender o porquê dessa dor e consigo compreender as falhas hormonais que tive, visto que a ocitocina, que colabora para que o útero se contráia e a endorfina, que funciona como um analgésico, foram perseguidas pela adrenalina dessa aprendiz de parideira...
De qualquer forma, faria tudo novamente!
O parto é um momento único na vida da mulher e também de seus familiares, é um processo fisiológico, parte da natureza humana; nosso corpo, tal como uma máquina, possuí todas as funções para que esse evento ocorra e as mãos do homem, nessa medida, devem agir quando necessárias, caso seja preciso um resgate.
_ ODENT, Michel. O camponês e a parteira. São Paulo: Editora Ground, 2003.
Ou: quando a culpa arruma sua mochila e vai viajar
Flavia Penido *
Está na hora do jantar. Ok! Vocês venceram. Bacon, ovos e salsichas. "Uau, Que delícia!" Exclamam as crianças, dando pulinhos em volta da mesa e fazendo som de índio em um ritual maluco cheio de euforia. Lavam suas mãos sem nem mesmo pedir. Não posso evitar um sorriso. Não consigo deixar de notar o olhar estranho de meu marido. Ou será que estou imaginado coisas?
Ufa! Estou exausta e angustiada na mesa. Sirvo as crianças e me pergunto como cheguei a esse ponto. As crianças vão comendo, se esbaldando. A mesa está um clima alegre, as crianças descontraídas conversam alegres com o pai. Mas eu fico suando a camisa só de pensar na quantidade de gordura e na falta de vitaminas que essa refeição exibe. Nem me falem de qual tipo nojeiras são feitas as salsichas!
Não é que me sinta culpada se às vezes as refeições não são saudáveis... Bom, sim, eu me sinto culpadíssima, e tenho a ligeira impressão de que tem um monte de vozes e dedos que apontam na minha direção. “Ai não enche!” Empurro com toda força esse Superego lá para o lugar desagradável de onde ele vem.
Procuro me concentrar na conversa animada das crianças. Olho para cada um deles. Observo como são bonitos. O nariz de pintinhas de minha filhinha me preenche de ternura. Meu marido escuta atentamente o que as crianças lhe contam, mesmo se tem atrás das costas um dia complicado de trabalho e um monte de problemas por resolver.
Isso me comove tanto! Logo, penso em como ele é querido, e como meu cabelo está desgrenhado. Olho envergonhada para as pantufas delirantes que estou usando, notando ainda como minhas unhas estão eternamente por fazer. “Bolas! Lá vem a culpa novamente!” Empurro com mais convicção ainda para bem longe esses pensamentos.
Sinto saudades das papinhas bem feitas, dos legumes feito no vapor, das crianças comendo toda a papa sem me perguntarem o que era. Eu estou pagando pela língua arrogante. Minha caçula nunca gostou de minhas sopinhas, e o primeiro prato que ela realmente adorou foi um espaguete à bolonhesa bem picante!
Eu que no auge de minha pretensão estava convicta que criança aprende a comer de tudo através do exemplo e da oferta que tem... Ledo engano! As crianças têm suas próprias papilas gustativas! Cada filho que eu tive veio quebrar mais alguns paradigmas me transformando em uma pessoa melhor, mais tolerante.
Para que vou contaminar o ambiente familiar com minhas frustrações quanto ao ideal de mãe e mulher que eu construí? Quero relaxar e aproveitar a refeição alegremente sem as reclamações de todo tipo: “Isso eu não como, este eu não gosto, assim é duro, assado é sem graça.”
Para que sobrecarregar as relações com expectativas ingênuas que tendem a ser impossíveis de se atender? Vou desfrutar deste momento por inteira sem me deixar acossar pela mãe que eu pretendo ser. Eu sou apenas uma mãe de carne e osso diante da aceleração do mundo moderno.
A alimentação da família é apenas uma faceta da criação dessa família, chega de rabugices! Por favor, não me entendam mal. É claro que vou continuar com a paciente tarefa de colocar brócolis no prato do meu filho para logo em seguida por acaso das circunstâncias encontrá-lo na boca do cachorro. Eu não desisto nunca, mas todo mundo precisa de descanso.
Apenas escrevi tudo isso para lembrar a mim mesma e a vocês leitores que continuaram até aqui, que a maternidade traz uma imensa liberdade para quem for capaz de ser mãe no espaço e tempo do presente, ao invés de estar nas saudades do passado ou no desejo do futuro. Se livrar das ilusões de Ego que nos amarram, para viver plenamente a vida como ela é. Para mim a maternidade trouxe a possibilidade de me sentir linda sem nem mesmo ter tido tempo de verificar se a depilação está em dia! Quanta liberdade!
Então para terminar nosso jantar em família. Todos dão uma gargalhada gostosa ao ouvir a piada que meu filho dispara. Nisso meu marido olha para mim, estende o braço e, me puxando para perto, me dá um beijo. Eu realmente vivo tudo o que preciso nessa vida!
* Texto publiado no Blog Mamíferas como Mamífera Convidada, em 19 de outubro de 2009.
Flavia, mãe de três filhotes, é psicóloga, arteterapeuta e doula, também redige o Blog Bebedubem e coordena, junto com Kátia Zeny A. Pedroso, obstetriz, a Roda Bebedubem, em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, SP.
Gisele Bündchen, uma das top models brasileiras mais requisitadas do universo internacional da moda, há seis semanas pariu Benjamin em sua casa, em Boston, nos Estados Unidos da América, com o amparo de uma parteira, num parto na água.
Pela primeira vez ela fala do parto, do protagonismo feminino e da maternidade associada ao trabalho como modelo, confiram!
Ter um bebê. Gerar uma vida. Trazer um filho ao mundo. Mais do que isso: uma enorme e única experiência. Bem além de simplesmente gestar e parir, a maternidade ganha um significado diferente para mulheres que buscam viver esse momento a fundo. Sem temer uma das sensações mais mitificadas da humanidade - a dor do parto - elas querem vivenciar o nascimento dos filhos de uma forma natural, sem intervenções, procedimentos, cirurgias, ao contrário da voz corrente que instituiu a cesariana como regra para os nascimentos no Brasil. Elas querem ser donas do próprio parto - um direito que, embora elementar à primeira vista, é freqüentemente desrespeitado pelo profissionais de saúde e contestado por familiares. Mas com uma coragem de mãe que defende a cria, elas vão à luta, peitam, contestam o sistema, se ajudam. E em um trabalho de parto simbólico, mostram o que desde sempre a humanidade soube: nascer é o ato mais natural do mundo.
Há um período em que os pais vão ficando órfãos de seus próprios filhos. É que as crianças crescem independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados. Crescem sem pedir licença à vida. Crescem com uma estridência alegre e, às vezes com alardeada arrogância. Mas não crescem todos os dias, de igual maneira, crescem de repente... A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil... Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias, e da ditadura das horas... Não mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas... Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas... Eles cresceram sem que esgotássemos neles todo o nosso afeto... O jeito é esperar: qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável carinho. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que eles cresçam.
* Poeta, cronista e jornalista, editor do blog e site, respectivamente:
http://www.affonsoromano.com.br/blog/http://www.affonsoromano.com.br/Desenho de Mariana Massarani_mãe e filha_
_Por Ana Carolina Arruda Franzon & Bianca Cruz Magdalena_
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Hoje em dia temos muita pressa; é preciso viver rapidamente, pois “tempo é dinheiro”. A velocidade das informações e os avanços tecnológicos invadiram nosso cotidiano tão intensamente que mudaram até a forma de nascer. Nossos filhos vêm ao mundo com hora marcada, e já não recebem mais o mesmo respeito que tinham no tempo dos partos de nossas avós, por exemplo. Isso porque muitas mulheres são levadas pelos seus médicos a optarem pela cesárea, tanto por falta de informações, quanto por quadros clínicos aterrorizantes, como sofrimento fetal, circular de cordão, bolsa rota há muito tempo. Enfim, são inúmeros os motivos dados por aqueles doutores do saber biomédico que acreditam serem eles os protagonistas do nascimento, papel que deveria ser desempenhado pela mulher.
Em tempos passados, as mulheres podiam dar à luz e receber cuidados em casa, acompanhadas por parteiras e entes queridos – vale lembrar que, atualmente, o número de partos domiciliares vem crescendo nos grandes centros urbanos. Outra alternativa, que pode ser realizada também no ambiente hospitalar, é a escolha pelo parto natural e humanizado, sem as intervenções desnecessárias ou de rotina, que apenas servem para atender protocolos.
O medo das dores do parto sempre foi tão certo quanto o nascimento. Mas, muita coisa mudou nestes últimos anos. A medicina moderna possibilita um rol de procedimentos cirúrgicos “seguros” para aquelas mulheres que preferem não passar pelas dores do parto. Em 2008, aumentou para 84,5% o número de cesáreas na rede de saúde privada, de acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar[1]. No Sistema Único de Saúde (SUS) a proporção é de 31%, caracterizando o Brasil como o segundo país da América Latina com maior índice de cesarianas, após o Chile.
Mas qual seria o motivo dessa escolha? Porque as mulheres não se apropriam de seus corpos e de sua saúde ao invés de confiá-los a um médico? Será que elas sabem exatamente por tudo o que vão passar no centro cirúrgico e no pós-operatório? Sabem realmente o que vão perder se optarem por deixar de dar à luz de forma natural?
Partos de baixo risco podem ser realizados seguramente em casa, com auxílio de profissionais da saúde como enfermeiras obstetras ou parteiras. Em algumas cidades brasileiras, as mulheres já podem optar pelas Casas de Parto, onde o nascimento é realizado sem as “cascatas” de intervenções que geralmente ocorrem nos hospitais (como por exemplo, a indução do parto com uso de ocitocina sintética, medicamento que aumenta as contrações uterinas, porém aumenta a intensidade das dores; analgesia para combater a dor, que impossibilita a mulher de participar ativamente desse momento, já que estará anestesiada, sendo obrigada a ficar deitada; episiotomia, que é um corte realizado na região do períneo, entre a vagina e o ânus, para facilitar a passagem do bebê). Ao invés de auxiliarem a parturiente, estes procedimentos muitas vezes são realizados de maneira desmedida, somente para acelerar o ato fisiológico que é o parto.
Um nascimento requer tempo, paciência e intimidade, pois quanto mais relaxada a mulher estiver, melhor será a experiência para ela e para o bebê, bem como a liberação de hormônios naturais como a ocitocina e a endorfina. E melhor ainda será se puder ter um trabalho de parto ativo, onde possa assumir a posição que melhor lhe conforte, podendo ficar em pé, caminhar, agachar, tomar banho, receber massagens e apoio emocional. Assim, poderá sentir e entender suas tensões e contrações, entrar no ritmo delas, e viver o nascimento de seu filho como algo prazeroso.
Afinal, trata-se da perfeição da natureza humana, já que segundo o obstetra francês Michael Odent, 73, “no parto normal, há a liberação de um coquetel de hormônios, que podemos chamar de hormônios do amor, que aumenta a capacidade da mãe e do bebê de amar.”.
[1]Caderno de Informação da Saúde Suplementar: Beneficiários, Operadoras e Planos, publicado em junho de 2009 pelo Ministério da Saúde/Agência Nacional de Saúde Suplementar.
Vídeo da Clínica La Primavera - Instituto de Parto Humanizado, do Equador, sobre a importância da conscientização em um momento tão especial como o nascimento de nossos filhos, realizado com respeito e sem intervenções! Sublime!!!
"Um filho é como um caminho - há coisas boas bem ali, ao alcance da mão: amoras silvestres, fontes escondidas, sombras. E também há o mistério do destino, escondido no horizonte e na noite. Um filho é como o mar - espuma que brinca com pés descalços e funduras que nunca haveremos de compreender".
Mulher barriguda que vai ter menino
qual o destino
que ele vai ter?
que será ele
quando crescer? Haverá guerra ainda?
tomara que não,
mulher barriguda,
tomara que não...
*Letra de João Ricardo & Solano Trindade_Secos & Molhados_Desenho de Tulipa Ruiz_Perfil dentro de uma grávida_
Porque esse é o meu último filho e eu preciso experimentar o que o meu corpo pode. Quero sentir meu filho passando através da minha bacia, abrindo meus ossos, fazendo-os quase quebrarem pela força dele dentro de mim. Quero sentir meu filho descendo e encaixando a cabeça nas minhas entranhas, milímetro a milímetro, como se estivéssemos dançando um tango emocionante, em que cada passo fosse totalmente calculado para um resultado perfeito. Quero sentir minhas mucosas cedendo espaço e esquentando a cada contração, quero sentir meu filho saindo pelo mesmo lugar por onde entrou. Quero me sentir mais perto de Deus ao ser capaz de produzir uma vida e colocá-la de forma segura neste mundo.
Quero sentir meu útero se contraindo com força, porque sou mulher e me sinto muito orgulhosa de poder gerar, gestar, parir e alimentar uma criança. Se eu não vim ao mundo para isso, então não sei exatamente o que vim fazer aqui. Quero sentir cada contração como se fosse o sopro de Deus direto para dentro do meu corpo, fazendo todas as minhas células tremerem com a energia desse evento. Quero que meu filho sinta cada uma dessas contrações como se fosse um abraço forte que dou nele, como se Deus pessoalmente o estivesse embalando.
Quero que ele perceba que algo importante e grandioso está para acontecer na vidinha dele. Quero que confie em mim para o resto da vida como sendo aquela pessoa que lhe deu a vida e o colocou em segurança para fora do finito espaço uterino. Quero que confie nele mesmo para sempre e saiba que com esforço e perseverança pode conseguir o que quiser. Quero que saiba que eu e ele juntos, com o apoio do pai dele e a torcida do irmão, podemos tudo. Que não há limitação para a nossa força.
Quero provar a mim mesma que sou uma pessoa capaz, que meu corpo não é meu inimigo. Pelo contrário, é meu amigo, meu companheiro, meu templo e meu porto seguro. Quero recuperar tudo o que perdi e o que me roubaram quando tive bebê pela primeira vez. Quero me sentir poderosa, forte, vitoriosa, criativa, emotiva, grande, bonita – durante o parto e para sempre.
Quero que meu filho nasça e venha imediatamente para o meu colo, os meus braços, os meus lábios, as minhas mãos, os meus peitos. E para isso preciso ter um parto natural. Quero que meu filho nasça em paz, sem dor, sem ser arrancado das minhas entranhas porque eu não me esforcei o suficiente.
Quero que, se as intervenções forem necessárias, só o sejam porque eu fiz tudo o que estava ao meu alcance para evitá-las. Quero que meu filho nasça livre de drogas, e que assim permaneça por toda a vida. Para que possa sempre sentir a beleza da vida de cara limpa, de pele limpa, de olhos limpos. Quero que ele se sinta calmo e seguro por estar sempre nos braços meus ou seus, ouvindo minha voz ou a sua, e não fique sozinho chorando num berço aquecido, sem um único som familiar para se acalmar.
Quero me sentir mais capaz quando tudo isso terminar. Uma bruxa, uma deusa, uma sacerdotisa do meu templo particular. Quero sentir minhas entranhas se abrirem e desabrocharem dando uma vida nova a essa criança. Quero sentir a dor, a ardência, o tremor, o prazer e a glória de parir. Quero me sentir mulher.
* Obstetriz pela Universidade de São Paulo (USP) Leste, doula e Coordenadora do Grupo de Apoio à Maternidade Ativa (GAMA).
"Há uma semana atrás tinha em meus braços o rebento que tanto aguardei chegar, depois de um processo de 32 horas, aproximadamente, de esforço e resgate que começou na noite de sexta-feira, dia 21 de agosto, às 20h30min quando entrei em trabalho de parto, fase latente, com contrações regulares e dolorosas de aproximadamente 10 em 10 minutos; no início da semana meu tampão mucoso já tinha saído e estava com um dedo de dilatação, o que indicava que meu colo uterino estava amadurecendo, se afinando, para conceber Rudá nesse mundão!
As últimas semanas foram de muita ansiedade, barrigão grande e pesado; a cada mudança de lua pensava que estava chegando nossa “boa hora”, pois nunca deixei de acreditar e confiar que tudo daria certo e que depois de uma cesária desnecessária de minha primeira gestação, há sete anos atrás, quando Ícaro nasceu, nosso tão desejado e clamado parto domiciliar seria vitorioso, já que minha gravidez era de baixo risco, mesmo assim fortalecer o pensamento já era o início desse parir, pois muitas pessoas estavam me desestimulando e me chamando de “louca” por ter feito essa escolha.
Nessas 39 semanas me empoderei de muitas informações sobre o parto natural e humanizado em livros de referência ao assunto e nas listas e sites de discussão que circulam na internet, caminhos de descoberta, de lágrimas a cada relato lido, de medos e de um coração que pedia às forças da Mãe Terra que nos provêm e nutre de que Rudá seria recebido com amor e respeito, sem intervenções e medicalização, e como nada nessa vida é por acaso encontrei nesse trilhar, através do Blog Bebedubem, Flavia Penido que me apresentou (virtualmente, risos) Kátia Z. Assumpção Pedroso, um ser que teve as asas tiradas quando desceu a Terra, mas que não deixou de exercer sua vocação com aquelas lindas mãos pequeninas que amparou meu filhote na madrugada de domingo, dia 23, a ela nossa eterna gratidão, querida parteira!
Como narrava acima depois de ter passado a noite toda de sexta-feira com contrações dolorosas recebemos Kátia na manhã de sábado, já que estávamos cerca de 400 quilômetros de distância, pois moramos em Cananéia, no Vale do Ribeira, uma remota ilha no extremo litoral sul paulista e Kátia no Vale do Paraíba, em São José dos Campos, mas como imaginava que esse trabalho de parto poderia ser demorado confiamos em esperar a parteira chegar.Assim que ela chegou me examinou, pressão arterial ok, batimentos fetais também, com dois dedos de dilatação, em seguida me pediu para caminhar, imagina, com tantas dores, mas apesar de ser teimosa fui com meu companheiro Juliano até à padaria, uns quatro quarteirões de casa, o que levou uns 30 minutos daquela manhã chuvosa.
Quando retornamos iniciamos os “hots”: chazinhos de camomila, bola de Pilates, banhos quentes, massagens, posições verticalizadas e em pouco tempo evoluí para cinco dedos de colo dilatado, Kátia disse a Juliano e Silmara, minha comadre que acompanhou meu parto e que mesmo não sendo doula soube me encorajar e acalentar, que até o início da noite Rudá nasceria!
Oras e a noite passou...
Lembro-me que até os sete dedos as dores eram suportáveis, apesar de intensas e que os banhos quentes eram maravilhosos, dado o relaxamento que me permitiam, mas depois disso confesso que era preciso garra para suportá-las e o tempo, que já não existia para mim, não passava!A madrugada já tinha iniciado e o cansaço tomava conta de todos, mesmo assim essa equipe não tardava em ajudar, nesse aspecto não dá para deixar de comentar quanto é importante ter ao lado da parturiente pessoas especiais nesse momento, que tenham calma, que saibam doar; sempre comentava que imaginava que Juliano fosse ficar nervoso, mesmo porque quando vim com a idéia de ter nosso filho em casa ele logo disse: “Não me venha com essa idéia de antropóloga hein!”, porém sua devoção me espantou, tanto cuidado e zelo que foram primordiais para que eu também me mantesse confiante!
Fortes dores, cansaço de duas noites sem dormir praticamente, contrações bem próximas uma da outra, como ondas que vinham, atingiam seu zênite e iam embora, permitindo que eu respirasse, quase não conseguia gritar nesse estágio, alguns gemidos e pensamento firme, mentalizando que o útero estava se abrindo, permitindo passagem para Rudá que no seu tempo se despediria do local que lhe abrigou todos esses meses.
No entanto, essas últimas quinze horas de trabalho de parto ativo já estavam me esgotando, pensava comigo: “Porque ele não nasce?” e minha bolsa de águas nem tinha rompido ainda, o que era ótimo, pois o bebê estava protegido, mas caso isso ocorresse o processo também aceleraria.
Mas, tudo tem mesmo seu tempo!
A bolsa rompeu!
Ufa!
E as contrações se intensificaram progressivamente.
Já estava com o colo todo dilatado, 10 dedos, só tínhamos que esperar, foi quando resolvi tomar mais uma chuveirada, pois estava difícil suportar a intensidade da dor, de qualquer maneira penso que vivenciar, sentir essas dores foram um resgate em minha vida, resgate como filha, mãe e mulher, apesar dessa reta final já estar em outro estágio de consciência; me contavam piadas, me perguntavam se eu já havia visto algum animal parir (sim, minha gata!), como meu companheiro e eu tínhamos nos conhecido, como era nossa história, mas já não era eu que estava lá!
Depois desse último banho voltei para o colchão que estava no chão de nosso quarto e me pus de quatro, pois era como me sentia melhor, deitada era impossível!
Senti uma dor muito forte, fiz uma força instintiva junto com a contração e quando pensei que Rudá estava para nascer Kátia me disse que eu havia feito coco, o que me aliviou muito, pois tive muito incômodo no reto, dado que essas fezes deviam estar atrapalhando.
Em pouco tempo outras contrações, muito líquido amniótico saindo, como um rio caudaloso e escutava: “Rudá está vindo! Olha a cabecinha dele!”, nessa hora os gritos eram guturais, primitivos, vinham de dentro dessa mamífera que como um animal estava para parir, naturalmente, sem drogas alopáticas ou anestésicos.
Rudá coroou! Círculo de fogo, nossa... como queimava!
Depois de sair sua cabecinha o corpo veio rapidamente, pura ocitocina! E nossa cria nasceu!
Não dá para descrever esse momento... mágico, divino, abençoado!
Kátia o passou pelo meio de minhas pernas, mas eu tremia, assim Juliano o pegou e o deu em meus braços, ahhhhhhhhhhhhhhh, coisa linda!
Aquela energia que circulava naquele lugar era cósmica, celestial!
Em seguida, ainda com o cordão umbilical pulsando o coloquei em meu seio, depois de uns 20 minutos o pai cortou o cordão e ficamos juntinhos, corpo a corpo, olhos abertos para descobrir a aventura de viver!
Minha placenta não saiu, só pela manhã que consegui expulsá-la no banho, ainda tinha dores como cólicas, Kátia informou que um coágulo poderia ter se formado, por isso que ela não saia, quando finalmente senti a última contração e pude expelir de dentro de mim aquela que protegeu meu filhote, frondosa como uma árvore que surtiu seu fruto!
Ah! Parir, partejar, dividir, e ficar na sua cama, com sua família, no seu lar, nem dá para comparar com ter um filho num ambiente hospitalar... inóspito, frio, impessoal. Faria tudo novamente!
E naquela Lua Nova um novo trilhar se iniciou em nossos caminhos, um novo ciclo!Nesse feriado de sete de setembro plantaremos a placenta em nosso quintal, com a vinda dos avós de Rudá e comemoraremos mais um dia essa sementinha que brotou, devolvendo a terra e a Natureza o que o fortaleceu em meu ventre!" Bianca C. Magdalena
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Texto redigido em 30 de agosto de 2009.
_Na voz da parteira
-->Ontem e essa madrugada minha cabeça revivia o tempo com você e seu marido e a Sil. De madrugada acordava e agradecia a Deus por tudo o que aconteceu. Sabe, eu quase desisti de ir; pensei:"É muita loucura...", mas não ficava sossegada com o meu não. Então, fiz o que faço sempre: conversei com Deus e pedi que fosse conduzindo tudo, abrindo os caminhos e me mostrando o que era melhor fazer. Na verdade, desde o seu primeiro contato, eu me comprometi. Eu não queria saber a distância, eu queria poder proporcionar a mais uma mãe o direito de ter seu filho naturalmente, sem intervenções.Eu dirigi a madrugada toda pra chegar aí, parei umas três vezes pra checar se estava certa e outras duas pra lavar o rosto. Durante a viagem, sem rádio eu sozinha o que eu fazia, cantarolava e orava a Deus; pedia por você, por Rudá, pelo seu marido e por mim. É eu tenho provado e visto o quanto Deus é maravilhoso e o quanto Ele age em minha vida, desde a minha gestação, que foi uma surpresa inesperada e que Ele me prometeu que eu veria o milagre que eu sonhara acontecer e foi assim, você deve ter lido contrariando todos as razões da lógica eu pari e em casa, e olha, um dia te conto os detalhes, foi mesmo milagre, ou melhor milagres. Eu pedi muito a Deus que me permitisse sentir as dores e as contrações para poder fortalecer as mulheres que pudessem passar por mim, e foi assim com você, eu sabia a intensidade da dor, eu não só imaginava, eu tinha a real experiência do que você sentia e sabia que você seria capaz.Quando eu cheguei pedi a Deus que me abençoasse e que me mostrasse claramente se algo não estivesse indo bem e olha o que aconteceu; o tempo todo o coração de Rudá ficou ótimo, ele conversava conosco e dizia que estava tudo bem.Não posso esquecer sua expressão quando te vi e você disse de sua alegria por eu ter ido, por não ter desistido.É... foi um dos partos mais lindos de que já participei, tudo a seu tempo: você foi muito forte, em momento algum chutou o balde e pediu analgesia, a garra de uma guerreira veio à tona e Deus mais uma vez me ouviu: te fortaleceu. Eu vibrei tanto de alegria quando Rudá nasceu, veio de novo em mim a mesma emoção de quando pari minha filha, uma explosão de alegria e muita ocitocina. Minha mama já estava cheia, na hora desceu mais leite. Muito lindo!!!Só pode vir de Deus algo tão perfeito, emocionante e transformador como é o nascimento natural. Eu costumo dizer que cada parto me transforma, e que cada parto me faz renascer; cada parto transforma a mãe em mais mulher e mais mãe e mais ser humano, e cada pai de igual forma!!!Eu voltei, estava exausta na segunda-feira no estágio, meu corpo dolorido, as pernas doendo do movimento de dirigir tanto em tão pouco tempo, mas a alegria e satisfação recompensaram tudo. Valeu à pena ter conhecido você e ter ido à Cananéia, agora, nossas vidas estão interligadas pelo nascimento tão lindo de Rudá.Um grande abraço e parabéns por essa experiência tremenda que é o parto.
Kátia Z. A. Pedroso
_Na voz da dinda
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Quem sou eu para escrever sobre a vinda de um serzinho a este mundo, sendo que eu mesma ainda não exerço o belo papel de mãe? Sou a madrinha, fotógrafa oficial da gravidez e parto, doula amadora e amiga-irmã da mãe da criança. Por isso, aí vai...Para relatar minha emoção em estar presente no grande momento do nascimento de Rudá vou precisar me constextualizar um bocado, relembrar momentos e só então contar como foram os momentos que passei junto ao casal de amigos queridos naqueles 22 e 23 de agosto de 2009.Minha amizade com “os gordinhos”, como são chamados carinhosamente pelos amigos, iniciou-se aos poucos, sem muito alarde ou emoção. Tudo foi acontecendo aos poucos, fomos nos descobrindo, entendo nossas afinidades e mais do que tudo respeitando nossas diferenças que não são poucas. E as coisas foram fluindo...Até que pela primeira vez nos tornamos cumpadres em meu casamento e de lá para cá somos uma família. Sim, a de sangue está distante, mas a de alma está sempre por perto.E de tão próximos, posso dizer que desde o princípio da amizade eu me lembro da Bianca achando estar grávida em quase todos os meses. Sua menstruação nem atrasava e ela já ficava toda preocupada. E quanto dávamos risada com isso... A preocupação era sempre em vão. Até que em dezembro de 2008, no mês que ela nem esquentou a cabeça, a menstruação atrasou!!!Foram dias crendo que em algum momento menstruaria, mas isso não aconteceu e uma tarde eu liguei para ela e recebi a seguinte informação: “é amiga, você vai ser tia”. Meu Deus, que misto de alegria e preocupação... Grana curta, Codorninha na faculdade, Bi sem emprego fixo e os amigos tão duros quanto! Como ajudar? Dando apoio, afinal, eu ia ser tia agregada! Nunca me esqueço que na noite do mesmo dia da notícia nos encontramos e ela me disse: “um filho é uma benção, sempre!”. Guerreira!Avesso!Durante sua gravidez não estive muito presente, ela precisou se ausentar da cidade em que vivemos, mas mesmo com a distância os pensamentos eram sempre voltados a ela. Sofri quando ela disse que faria o parto longe daqui por achar mais seguro, já que vivemos numa ilha e o hospital mais próximo fica a 40 minutos. E sou grata a ela por ter mudado de idéia.Em maio de 2009 ela voltou para a terra do marzão e das montanhas encantadas e disse que teria o bebê em casa, num parto humanizado. Pirei! Amei! E dei o maior apoio. Desde minha adolescência eu dizia que se um dia fosse mãe, meus filhos nasceriam em casa, mas achava que isso não seria possível, achava que ninguém mais fazia isso...O bom é que quando ela me contou sua escolha eu já estava mais informada sobre a “humanização do parto” por outra amiga que também já tinha feito essa escolha e pude apoiá-la.Enquanto a maioria absoluta a chamava de louca, eu a admirava cada dia mais, ficava ouvindo-a por horas contar sobre suas leituras e pesquisas na internet sobre o assunto.Me preocupava sim, mas quanto mais ela me munia de informações, mais eu acreditava no poder da natureza de Deus.Minha mãe teve seis filhos, todos de parto normal (a primeira nasceu em casa) e sempre se indignou com o número abusivo de cesárias no Brasil. A educação que recebi dela me fez acreditar que a Bianca conseguiria.E assim tudo foi se encaminhando e quando chegou agosto – o possível mês de nascimento do Rudá, já que ele poderia também nascer em setembro - eu “falhei” em alguns momentos e espero que a Bi não tenha sofrido demais com minhas falhas de madrinha de primeira viagem.Estava tão ansiosa quanto ela e por várias vezes minha falta de maturidade no assunto não me permitiu ajudá-la corretamente. Eu dizia que sentia (quem era eu pra sentir alguma coisa?) que já estava chegando a hora, que ele ia nascer em breve, enfim, fui infantil!A gota d'água foi um almoço em casa no qual ela achou que a bolsa pudesse ter estourado porque tinha sentido alguma coisa úmida na calcinha... Pronto! Eu já fiquei falando que ela estava com 5 dedos de dilatação, que ia nascer, que precisávamos ligar para a parteira... mais uma vez, infantil!Fomos para o pronto-socorro da cidade e o médico disse que ela estava com nenhum dedo de dilatação. Me lembro do seu semblante ao sair do hospital, triste e cabisbaixa. Foi naquele momento que percebi que ela precisava que eu me acalmasse.E foi o que eu fiz!Tentei levá-la para caminhar algumas vezes, mas só consegui numa segunda-feira 17 de agosto, e nesse dia ela me contou que o tampão havia saído e que estava chegando a hora.A Silmara de alguns dias atrás faria tudo aquilo novamente, mas eu me comportei como a mulher de quase 30 que sou e não fiz um carnaval com a notícia.Fiquei feliz, mas de uma forma mais comportada.Durante essa semana que o tampão saiu eu não apareci muito, não queria ficar pressionando-a, me lembro só de ter levado o casal ao médico e de ter recebido a notícia do 1 dedo de dilatação.Felicidade!E fomos conversando pela internet todos os dias. Até que na sexta-feira, 21 de agosto o Codorna passou em casa, tarde da noite e me disse: “Sil, está acontecendo, a Bi tem tido contrações de 10 em 10 minutos e já ligamos para a parteira”.Fiquei parada, sem reação... Esperei tanto aquele momento e não sabia o que fazer. A Bianca já havia me dito que gostaria que eu estivesse presente no momento do parto, mas eu não soube como reagir. O Codorna me disse que achava que ainda demoraria e que qualquer coisa eles me ligavam. Por mim eu já ia pra casa dela naquele momento, mas precisei mais uma vez não agir por impulso. Foi duro pegar no sono aquela noite... Acordei antes das seis e fui correndo para a internet ver se tinha novidades. Que inocência a minha achar que uma mãe prestes a parir vai parar para escrever na internet, mas enfim, eu queria notícias.E fui atrás dela, liguei para o Codorna e ele me disse que estava tudo bem, que a parteira havia chegado e já estava fazendo os exames... Alívio, a parteira chegou! Veio de São José dos Campos especialmente para o nascimento do Rudá. Um anjo!Umas duas horas depois a Bianca me ligou avisando que estava com dois dedos de dilatação e que a parteira havia pedido que ela caminhasse um pouco para acelerar as contrações.Mais uma vez vontade absurda de ir até lá, mas com medo de atrapalhar. Toquei meu sábado, fiz várias coisas e chegou uma hora que eu não aguentei e fui para lá.Eram umas duas da tarde. Levei bolsas de água quente e uma vontade imensa de ajudar e estar perto dos amigos. Quando cheguei a parteira estava no computador, o Codorna fazendo comida e um clima que não era de parto. Fiquei meio perdida.Na minha cabeça a Bianca estaria deitada na cama, gritando bastante, nós todos ficaríamos em volta falando faz força, ele está vindo, está vindo, nasceu! Nada a ver...Quando cheguei, a parteira, muuuito fofa, me disse que estava feliz que teria alguém para fotografar. Apaixonei por ela na hora, ela não tinha noção para quem estava falando isso!!! A Bi estava no chuveiro, aliás, onde passou a maior parte do trabalho de parto e não me viu chegar. Quando saiu foi fazer o exame de toque e já estava com 5 centímetros de dilatação. Alegria geral!Kátia, a parteira, acreditava que Rudá nasceria até às 18h do dia 22 de agosto e seria, para pânico da mãe, um leonino, assim como o pai. Mas não, ele queria agradar a mãe e fazer o que ela tanto pediu, nascer um virginiano organizado no primeiro dia do signo aos 23 dias de agosto e foi o que ele fez, mas até lá ainda tem muita história...Esse exame de toque foi feito por volta das três da tarde e o próximo às 17h50. Nesse meio tempo vi a Bianca sofrer muito com as dores... o pai, a parteira e eu fizemos compressas com a bolsa de água quente, chá, massagens, etc. e acreditávamos que o momento estava chegando, mas neste segundo exame foi descoberto que ela ainda estava com 6 dedos e teria chão pela frente.Os amigos que estavam reunidos aguardando notícias me ligavam sem parar, minha família de Itu também e eu conversava com uma grande amiga da Bianca que também tinha optado pelo parto natural, pela internet, ela dava dicas para eu repassar para a mãe em trabalho de parto. Modernidade misturada à tradição, ao natural, ao “antigo”...E assim foi entrando a noite. O pai visivelmente cansado e a cumadre também. Assistir ao sofrimento dela despertava em nós uma espécie de dor solidária. Um cansaço de vê-la sofrer...Certa hora da noite o Codorna olhou pra mim e disse: “Estou cansado de vê-la sofrer assim”...Lindo!E dá-lhe massagens, e dá-lhe pontos de acupuntura para aliviar a dor e para acelerar as contrações... Um trabalho em equipe! Equipe esta composta por mãe, filho, pai, parteira e cumadre, movidos pelo amor.A bolsa não estourava e mais uma vez eu vivia um misto de alegria e preocupação... Alegria porque isso queria dizer que Rudá estava protegido no útero da mãe e preocupação porque na minha cabeça quanto mais demorasse para estourar, mais tempo duraria.E foi então que às 23h27 a bolsa estourou. Me lembro que a Bi estava em pé, ao lado da cama com as mãos sobre a mesma e disse: “agora estourou”; e foi o que realmente aconteceu.Gritamos viva e abraçamos a mamãe. Nesse momento me emocionei, ela agradeceu nossa presença e disse que só estava conseguindo porque estávamos lá... Tão lindo!Daí pra frente as dores foram mais intensas e posso dizer isso porque vi o sofrimento dela aumentar. Ela pedia muito para o Rudá nascer, mas ele ainda esperou mais quatro horas e meia para nascer. E noite a dentro continuei minha função de amiga e cumadre: massagem, chá, bolsa de água quente...Em um determinado momento ela estava deitada num colchão no chão, o Codorna estava amparando sua cabeça, a parteira fazendo massagem em seus pés e eu com uma bolsa de água quente em suas costas. Nessa hora eu e meus companheiros já não conversávamos como antes, estávamos cansados e eu pensava até quando ela ficaria sofrendo daquele jeito e mais ou menos nesse momento ela se levantou ficou de joelho no colchão e abraçou meu quadril (eu estava sentada na cama)... Naquele momento eu senti o quanto nossa amizade era verdadeira.Meus olhos se encheram de lágrimas e me pus a fazer massagens em suas costas. Achei que era hora de interceder pela Bi junto ao Rudá e comecei a cantar: continue a nadar, continue a nadar, vamos Rudá, continue a nadar...Depois disso ela resolveu ir para o chuveiro e lá ficou por poucos minutos, não mais como antes quando ficava por muito tempo. E quando voltou se colocou de quatro no colchão, fiquei novamente com a função da bolsa quente em suas costas e alguns minutos depois a Kátia falou que estava sentindo o cheiro do líquido amniótico, pediu que eu segurasse uma vela e me mostrou a cabeça do Rudá se aproximando... Quanta emoção!Corri pegar a máquina fotográfica, pois se tinha um pedido da mãe era que eu fotografasse o momento do “coroamento” e foi o que fiz.Foram várias fotos e ao mesmo tempo ajudando a Kátia e seguindo suas instruções... O pai parecia um bicho, olhava a cria nascendo e voltava correndo consolar a mulher... E às 3h56 do dia 23 de agosto de 2009 ele nasceu! Depois de 32 horas de trabalho de parto.Eu estava tensa, enquanto o Rudá não abriu os olhos eu não fiquei bem... Me deu um pavor ele nascer e não abrir os olhos, não chorar, não se mover... Mas quando seus olhos se abriram e um chorinho bem leve tomou conta do quarto, foi só alegria! Ele foi passado por baixo da mãe, o pai amparou-o e enfim ela o pegou em seus braços... E dá-lhe fotos! Nessa hora eu já estava em prantos! Emoção sem igual! Meu sonho de assistir um parto enfim estava realizado e da forma mais natural possível.Logo depois que ele nasceu, que a Bianca levantou do chão, sentou-se, ficou com ele pertinho de si, que enviei mensagens aos amigos avisando do seu nascimento, que o cordão foi cortado pelo pai, comecei a sentir uma cólica muito forte e minha menstruação desceu. Coisa louca esse mundo da natureza, esse mundo de Deus!Acabei não podendo ajudá-la muito depois do parto, pois estava com muita dor, com uma cólica que há tempos eu não sentia. Mas mesmo assim fui até minha casa buscar aveia para que a Kátia pudesse preparar um mingau para ela e nesse momento meu marido foi até lá comigo, com a dor que estava sentindo nem conseguia mais dirigir. Fui sair da casa dela o dia já estava clareando e eu, assim como todos da “equipe”, precisávamos descansar.Me lembro de ter chegado em casa, tomado um banho e ter ido deitar em minha cama pensando em como a vida é mesmo um misto de sentimentos. Mais uma vez eles se mesclavam em mim... alegria e dor. Dor porque a cólica estava realmente forte e alegria porque... ah... eu preciso mesmo explicar a razão da alegria?Silmara Guerreiro