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terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Mamífera Convidada - Desatando nós. Ou como os fios da vida nos entrelaçam

No início do ano recebi um convite especial, vindo de Kalu Brum, uma das idealizadoras do Portal Vila Mamífera: escrever para o Mamíferas, como Mamífera Convidada, ao lado de Anna Gallafrio e Ana Thomaz. A pauta? Livre!

E, impossível não refletir sobre os novos caminhos traçados, ou como disse uma grande amiga no dia do meu aniversário, comemorado no início deste mês, minhas reinvenções!

O mote parto já não é mais um monotema por aqui! Linhas, agulhas, botões e retalhos fazem parte do bê-a-bá desta blogueira-comadre que vos fala - Florais de Bach também, rs!

Bora lá ler o texto Desatando nós. Ou como os fios da vida nos entrelaçam, publicado ontem, segunda-feira, dia 20, disponível aqui! Abaixo, o trecho:

A Lavanda acalma! A Camomila também. Já a Hortelã é boa para cefaleias. Alecrim para estimular e aliviar a ruminação mental, Eucalipto para descongestionar!” – exalto.


A conexão feminina se faz na palavra, no toque, no sorriso dado, e no ouvir atento, tendo o entrar e sair da agulha no tecido sua extensão, juntando pedaços e histórias!


Foto: Bianca Lanu.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Avante!


Vimos hoje nesta segunda-feira dar um retorno sobre a Blogagem Coletiva da semana passada, pela não-violência contra as mulheres, tendo em vista o viés obstétrico, e o triste cenário que encontramos nos dias atuais, tão comumente citado por nós e outros espaços que debatem o tema.
Convidadas pelas editoras do Mamíferas a integrar a ação, divulgamos o link do post de Nanda Café c/ os vários meios virtuais que participaram também - Posts sobre violência contra a mulher no parto - aqui!
O Blogueiras Feministas deram o início desta campanha, e também reuniram as publicações, sobre violência contra a mulher, em diversas perspectivas, em Blogagem Coletiva - Fim da violência contra a mulher - aqui!
O blog Cientista que virou mãe, por Ligia Sena lançou a pesquisa que sua editora realiza em seu doutorado, sobre violência obstétrica, a qual está linkada na lateral de nosso espaço - participem! Lola, do Escreva Lola Escreva tb fez menção a iniciativa - aqui!
Nós, contribuímos na prosa c/ um post editado por Ana Carolina - aqui, em Violência obstétrica é violência contra a mulher.
Hoje mesmo, via Facebook, o obstetra Ric Jones salientou:
Na residência médica as episiotomias eram chamadas de "transamazônicas". Os contratados do hospital debochavam dos residentes que faziam-nas menores, e execravam os que (como eu) não as faziam de rotina. As episiotomias são o exemplo mais claro e evidente de que a medicina NÃO se expressa como uma ciência, mas, pelo contrário, está bem próxima das religiões, com dogmas que resistem décadas à evidência científica da sua inutilidade. Episiotomia é lesão corporal, sem consentimento explícito, e os legisladores, tanto quanto os que trabalham com direitos humanos, devem dar atenção a essa prática ritualística e punitiva medieval. PS: Se alguém discordar do que eu acabei de expressar, por favor, traga seus dados. Como sempre me dizia meu amigo Max: "In God we trust. All the rest, please, bring data"
Assim, em rede, seguimos, avante! Por um ideal. Por um sonho. P/ q toda mulher possa participar ativamente de seu parto, e proporcionar aos seus filhos a dádiva de nascer c/ respeito!

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Porque o parto é nosso!


Imagem daqui.
Hoje começamos o dia compartilhando muito material bacana pela blogesfera afora! Link
Bora lá?!
Desde a matéria desde último domingo, na capa do jornal Folha de São Paulo, sobre nossas altíssimas (e vergonhosas) taxas de cesáreas que muito se fala sobre o assunto (leiam na íntegra aqui!). Ontem, o blog Mamíferas divulgou um post redigido pelas três editoras do espaço, Kalu Brum, Renata Penna e Nanda Café e nos faz (re)pensar o porquê desses assustadores índices - 52% de cesarianas no Brasil, e agora?
Outro espaço que discute o tipo de assistência prestada a uma gestante pelo Sistema Único de Saúde (SUS), porém s/ ter o autor nomeado é o blog Pré Natal no SUS, onde relatam-se as consultas, os exames, o atendimento, e a falta da boa prosa sobre gestação e parto, que é o que toda mulher mais necessita e deseja durante essa fase.
Indo de encontro a esta questão, em maio de 2010 escrevi um post no Mamíferas sobre como proporcionar de forma democrática e, inclusive, socialista, uma assistência p/ todas, e não apenas para àquelas que detém a (boa) informação, e um cuidado 1:1 durante o trabalho de parto e no parto, em Antropologia Militante.
Em setembro, neste mesmo veículo falei da responsabilidade da própria mulher neste momento, que deve ser protagonista de sua história, e não somente delegar ao médico/a como será seu parto e o nascimento de seu filho/a, em Tomar para si as rédeas da situação.
Finalizo c/ o blog PNAC - Parto Normal Após Cesárea, da doula Rebeca Celes, sobre relatos de parto após cesáreas anteriores - aqui!
Pois, o parto é nosso!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Blog Parto no Brasil entrevista Kalu Brum - Abril de 2011

Hoje publicamos a entrevista c/ a jornalista, doula e fotógrafa Kalu Brum, também co-editora do Mamíferas, ao lado de Tata e Kathy. Desde dezembro viemos idealizando realizar entrevistas c/ algumas pessoas desde cenário do Mov. da Humanização, e em fevereiro contactamos Kalu p/ prosearmos sobre como foi sua escolha por um parto domiciliar e como essa linda história da vinda de Miguel mudou seus rumos (literalmente - de SP p/ MG!), tal como aconteceu c/ Ana e eu, tendo nossas experiências pessoais dado uma nova guinada em nossa carreira profissional.
E, assim, tecemos essa grande rede que busca resgatar o feminino e a confiança na fisiologia de nossos corpos! Confiram a deliciosa conversa:
PARTO NO BRASIL Kalu, sabemos que a mudança de São Paulo para Minas Gerais está relacionada com a gravidez de Miguel. Conte-nos como foi este processo, da ideia ao desfecho. E também, como você avalia, hoje, tudo isso?
KALU R: Na verdade demorei um tempo para despertar minha Mamífera interior. Já tinha entrado em contato com estas informações sobre parto natural quando estava responsável pela pauta na TV Cultura. Fiz a pauta para uma matéria sobre parto humanizado. Guardei os links dos sites pesquisados em um diário. Quando minha chefe, na agência Folie Comunicação, engravidou, oferecei para ela os contatos destes sites e ela acabou mergulhando e compartilhando comigo do universo da humanização. Um ano depois eu estava grávida, no susto. Tinha um médico de família, que me atendia desde 13 anos de idade. Eu sabia das dificuldades de se conseguir um parto normal, afinal na minha família até minha avó teve cesárea. Sabia que teria que batalhar para conseguir parir meu filho. A princípio parti para um plano meio maluco: ficar mais tempo possível em casa, com uma doula e ser atendida por este médico no Hospital São Luís. Com 26 semanas fui a um encontro do GAMA. A minha chefe tinha tido a Ana Cris Duarte como doula e Dr Jorge Khun como obstetra e me indicou o GAMA. Neste encontro falei dos meus planos de parto para Ana Cris e ela me disse que minhas chances de parir com este médico eram mínimas. Saí de lá meio desesperada e fui pesquisar sobre os valores de ter um parto particular. É o preço de um carro popular. Resolvi que ia tentar parir com plantonista porque aos poucos fui percebendo que este médico estragaria meu parto e que não deixaria a doula trabalhar. Com 33 semanas fiz meu chá de bebê e foi a melhor (e pior) experiência para mim. Todo mundo me falava dos perigos de um parto normal, da maravilha da cesárea. Aquele dia eu estava fragilizada porque minha mãe tinha assumido o evento e eu não gosto que assumam as coisas por mim. Finalmente alguém me perguntou qual era meu plano de parto. Vale ressaltar que eu morava na casa dos meus pais, meu então namorado morava em Belo Horizonte. Eu achava que precisaria estar perto da minha mãe para os primeiros dias para cuidar de um recém nascido. Afinal eu não teria apoio familiar, nem de amigos em BH (afinal não conhecia ninguém). Então quando disse que meu plano de parto era ficar em casa com a doula e ir para o Hospital com uma dilatação mais avançada, meu pai disse que ao menor sinal de trabalho de parto me levaria ao hospital. Que doula nenhuma ficaria na casa dele. Foi a minha salvação e desespero final. Liguei para a Ana Cris que me deu a ideia de parir em BH, porque lá tinha o Sofia Feldman, uma maternidade pública referência em Parto Humanizado e que tinha uma casa de parto ótima. Me passou o telefone de uma doula também. Falei com Maurício, meu marido, sobre essa ideia. Ele ficou desesperado porque há muito preconceito contra SUS e um mito de que parto é perigoso. Fomos conhecer a Casa de Parto, que fica há 40 km da minha casa em BH. Adoramos a Casa de Parto e em todo momento eu pensava: nossa isso parece uma casa. Falei com uma das enfermeiras: pena que BH não tem parto domiciliar e que seja tão caro. Ela me disse que ela fazia parte de uma equipe de parto domiciliar e que cobravam mil reais. Eu fiquei maravilhada. Aí foi trabalhar com o marido que tinha medo de complicações. As enfermeiras foram lá em casa e explicaram tudo, os equipamentos que levavam para primeiros socorros. A doula, que acabei não chamando no parto, emprestou para meu marido o livro Nascer Sorrindo, do Leboyer. No final da gestação, com 37 semanas, reencontrei a Aurea Gil, que foi minha colega de infância (estudamos na mesma escola). Ela já tinha o Samuel e logo me apresentou a lista Parto Nosso e Materna_sp. Fui devorando os relatos de parto, tirando minhas dúvidas, sanando meus medos. Com 37 semanas cheguei a BH e 15 dias depois nascia Miguel, em 20 de fevereiro de 2007, em um parto que durou não mais que 40 minutos e apenas uma enfermeira conseguiu chegar (elas atuam em dupla). Foi um parto maravilhoso que me senti poderosa, dona da minha história. A mudança para BH foi o rompimento com a minha herança familiar. Foi a virada de mesa para assumir o protagonismo da minha vida. Poderia ter sido ao contrário (de BH para SP). E quando Miguel era recém nascido não precisei de ajuda alguma (só alguém para cuidar da casa, e então contratamos uma empregada). Com meu parto poderoso nasceu uma mãe segura. Assumir o protagonismo é a grande chave para a vida. Isso pode acontecer em muitos momentos da vida. E no parto é quando morre a filha para nascer a mãe/mulher.

Há 4 anos, arrumava as malas entre lágrimas e medo. Dentro e fora de mim uma nova vida a surgir. O que acumulei em 27 anos cabia em um porta malas de um corsa velho. Alguns livros, artigos de Yoga e meditação. Dentro de mim muita história. Dentro de mim uma nova vida. Com 37 semanas descobri um desejo ardente por parir em casa e uma coragem indescritível para romper com tantas verdades. Parir sozinha, em casa, a 700 km da família. Nascer como mulher, como mãe, como esposa tudo junto ao mesmo tempo agora. Mudar de estado, estado civil. Tantos lutos com tantos nascimentos. Escrever a minha história com consciëncia, coragem, perseverança e ousadia. Não sabia o que esperar de um relacionamento que existia há 1 ano. Nao sabia o que iria sobrar e se formar do incêndio da vida. E cá estou eu, mais madura, grata por mim, por meu caminho, por minhas escolhas. Como cantou Maria Betânia, acordei na noite escura para ver a lua. Brilhante e bela, escura e assustadora como a vida é.
PARTO NO BRASIL Como foi para você a decisão de ter um parto domiciliar? Que tipos de transformações a maternidade lhe trouxe?
KALU R: Eu brinco que meu parto domiciliar nasceu em 2001 quando tive uma dor de garganta com fechamento da glote que me levou a ser internada por três dias. Eu me sentia tão mal naquele hospital, com pessoas que nem me olhavam nos olhos, sem afeto, sem informação. Lembro que um dia fui passear pelo hospital e fui na maternidade (berçário) aqueles bebês sozinhos chorando atrás do vidro ativaram talvez uma lembrança do meu próprio nascimento. Eu não queria aquilo para mim, nem ser tratada como uma inválida, nem passar por uma cirurgia, nem que meu filho fosse deixado sozinho em sua chegada ao planeta. Mas, eu não sabia que existia Parto Domiciliar na cidade grande. Antes da gente engravidar a gente não sabe de nada, muito menos da profundidade que é toda essa história de parto/nascimento. Depois desta internação eu passei a fazer Yoga, me tratar com homeopatia e Reiki. Eu deixei de acreditar na medicina tradicional. Quando engravidei, apesar de ter demorado para descobrir o que eu realmente queria, minha jornada me levou para o parto mais natural possível, que é o domiciliar. Eu acho que toda mulher que pudesse deveria viver este parto. Ele é maravilhoso, incrível, transformador. Tem o cheiro da casa da pessoa, as músicas da pessoa, os objetos, cada detalhe íntimo, pessoal. É um portal de poder. Assim foi para mim. A maternidade mudou completamente a minha vida. Até então eu tinha sido programada para trabalhar e ser bem sucedida. Mas, quando eu engravidei eu vi que tinha uma responsabilidade maior: cuidar de uma vida e isso mudou o foco dos meus objetivos. Acho que quando nosso destino encontra a nossa alma o universo conspira para a realização. Jornalismo casou com maternidade, e eu com a Áurea e a Renata, pessoas que conheci na Materna_sp, assim nasceu o Mamíferas que aos poucos mostra que poderá ser até uma fonte de renda. Mudei de estado, mas como blogueira consegui um trabalho na agência que eu trabalho e trabalho em casa, o que é maravilhoso, porque estou todos os dias perto de meu filho. A maternidade me deu a chave para ajudar as pessoas, que já era um desejo meu. Fiz vários trabalhos voluntários, mas ainda não tinha achado o destino da minha alma. Quando meu destino encontrou minha alma, nasci doula. E desta paixão, a fotografia para registrar esse momento tão lindo.
PARTO NO BRASIL Quais as principais diferenças nos movimentos de humanização dos quais você participou em São Paulo, e, em Belo Horizonte? E como você percebe o movimento nacional pela humanização do parto e nascimento?
KALU R: Acho que em São Paulo temos mais doulas experientes, mais obstetrizes, mais médicos que atendem plenamente um parto humanizado. Mas, tudo isso pelo sistema privado a um valor bem alto. Em São Paulo há poucas Casas de Parto e elas são bem diferentes da Casa de Parto de Belo Horizonte. Em Sampa há mais mulheres com demanda de partos humanizados. Aqui em BH o movimento é bem mais recente e conta com a atuação da ONG Bem Nascer, da qual sou voluntária. Não existem médicos, nem pediatras que atendem em Partos domiciliares, por exemplo. Os médicos que são humanizados tem restrições. Atendem a planos de saúde, cobram um valor por fora, mas só fazem em partos hospitalares. Em contrapartida tem enfermeiras obstetras que atendem a poucos PDs. A Casa de Parto do Sofia tem sido uma alternativa para quem quer parir como se estivesse em casa. Em quatro anos que estou lá o movimento tem se intensificado. Em 2010 tivemos dois cursos de doulas. Com mais doulas atuando aumenta-se a demanda por partos humanizados. Em 2010 atendi dois PDs. Em 2011 foram dois, com mais três à vista. O mineiro é mais conservador. Mas, acho que estamos conseguindo expandir muito o acesso à informação.
PARTO NO BRASIL O quê a experiência de doula-fotógrafa tem lhe mostrado? Que tipo de situações você tem vivenciado com esses outros e novos rumos em sua carreira profissional?
KALU R:Minha experiência de doula-fotógrafa vem me mostrando que as mulheres estão acreditando mais em seus corpos e acordando para a importância das escolhas para um nascimento mais respeitoso. Acho que o grande desafio ainda é saber o limite dos médicos que nos atendem em Partos Hospitalares. Não tive boas experiências. Os Hospitais não querem a humanização. Então somos uma ilha (médico, doula, mulher) pressionados pelo sistema. Às vezes é triste ver um parto se perder por limite de um profissional. Quem perde é a mulher, o bebê e o mundo. Ser doula-fotógrafa era um hobby. Hoje já tem sido mais freqüente minha atuação, o que mostra que mais mulheres desejam um nascimento mais humanizado. Quero investir agora em equipamentos profissionais de fotografia e em cursos para aprimorar minha técnica/olhar. São rumos lindos com diferenciais. Eu estou amando seguir este caminho. Como jornalista eu descobri como posso informar as pessoas e como desejo mudar o mundo: mudando a forma de nascer, de como as pessoas encaram as dores, de como a gente favorece a fisiologia. Meus textos nascem da alma, do fundo do coração. Às vezes são ácidos e saculejam, como fui saculejada. Como doula posso fazer a informação virar ação. E como fotógrafa eu posso registrar a transformação da mulher em seu momento mais íntimo, transformador e inesquecível. Eu me sinto realizada com a minha maternagem e com a minha forma de maternar o mundo!

Fotos: Acervo Pessoal de Kalu Brum.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Mamífera convidada

Bom dia, com muita satisfação divulgo a vocês o texto "Tomar para si as rédeas da situação", de minha autoria, publicado no Mamíferas, como Mamífera Convidada.
Você que está gestando um bebê agora ou que já teve um filho sabe ou sabia como será ou seria seu parto no hospital ou maternidade escolhida, seja na rede pública ou privada de saúde?
Para continuar a leitura acesse aqui!
Esta é a 2a vez que escrevo no Mamíferas. Leia também "Antropologia Militante", publicado em 17 de maio deste ano aqui! Foto de Juliano S. do Nascimento, verão de 2010 - Acervo Pessoal.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Não bata, eduque

O ano? 2010. A campanha? Esta: “Não bata, eduque”. Ela é parte de uma ação que tem como peça legal uma especificação em relação ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A especificação diz respeito a uma legislação recém assinada pelo Presidente Lula, que define que a proibição aos “maus tratos” à criança inclui até mesmo a convencional “palmada pedagógica”.
Sendo assim, o Brasil dá passos no sentido de entrar na modernidade em mais um setor, o da punição infantil. Bem, isso é verdade ao menos se pensarmos que a modernidade é a que foi descrita pelo filósofo francês Michel Foucault: a cada dia colocamos mais tijolos na construção de instituições cujo papel é nos tornar mais suaves, isto é, instituições fomentadoras de relações de poder que visam antes a alma que o corpo. Lula obedece a esse destino. Com essa nova legislação, pais, professores e outros que cuidam de menores vão ter de redobrar a atenção e a paciência, caso não queiram sofrer conseqüências que incluem até mesmo a prisão.
Assim, derruba-se de uma vez por todas, no Brasil, um dos princípios básicos da educação vigente em boa parte do mundo. Sim, pois a legalidade da punição física no lar, na escola e no sistema penal não é coisa de um passado distante. Uma boa das nações trata a punição física de crianças antes como parte inerente ao processo educacional que um elemento de exceção utilizado como “último recurso”. Portanto, sendo assim, a legalidade da punição física, em vários lugares, está longe de ser questionada.
Nos Estados Unidos, como é de praxe, a discussão sobre o assunto é acirrada. Atualmente, pode-se dizer que o país está dividido, com metade dos estados proibindo ou tentando proibir a punição física na escola e no lar, enquanto que a outra metade se põe, em certo sentido, contrária à proibição. No Brasil, algum tipo de punição física é vigente e permitida em todas as três instâncias, sendo que a legislação assinada pelo presidente Lula, em 14 de julho de 2010 (exatamente neste momento em que escrevo), visa colocar o nosso país em uma situação totalmente inversa nas três instâncias consideradas. Busca-se o fim definitivo e claro de qualquer ato punitivo que vise antes o corpo que a alma.
(...) quando nos colocamos no lugar das crianças castigadas ou, ainda, quando interpretamos Foucault, não temos como não nos colocar ao lado dessas medidas anti-punição física. Todavia, sabemos muito bem que nem todos que defendem um castigo físico do tipo da “palmada pedagógica” são incultos, bárbaros ou, então, intelectuais ligados a uma psicopedagogia arcaica. Vários, são filósofos cuja visão sobre a modernidade não inclui os mesmos pressupostos de Foucault. São os que entendem que a modernidade pode até ampliar a suavidade, mas, enfim, não sem um preço, que é a ampliação da crueldade por meio da indiferença, da insensibilidade.
O filósofo alemão Theodor Adorno, perguntado sobre o que faria com uma criança que arrancou as asas de um inseto, não hesitou em afirmar que daria um bom tapa na mão do garoto. Seria pouco inteligente jogar nas costas de Adorno qualquer cultivo da frieza ou crueldade ou impaciência. Adorno tinha uma justificativa teórica bem arrumada para dizer o que disse. Dependendo da idade do menino, haveria outro tipo de punição? Haveria outro tipo de “marca” possível, que resultasse para a criança realmente uma censura à sua crueldade? Não se estaria aí, com o tapa, tentando dizer para a criança algo como “veja como a dor corporal é indesejável”, mas de uma forma capaz de marcar o momento e se fazer entender pela criança pequena?
A despeito de Adorno, parece que a lei de Lula será vencedora. (...) notamos que os países mais ricos, ao menos na entrada do século XXI, adotaram a postura da “punição física zero”. Toda e qualquer punição corporal, mesmo a mais tênue, foi assumida por esses países como alguma coisa cujos benefícios jamais superariam os prejuízos. Assim, do ponto de vista pedagógico imediato, tudo indica que logo não teremos nenhum argumento a favor da punição física. Mas, do ponto de vista filosófico, o assunto não estará encerrado. Pois, dessa perspectiva, há mais coisa em jogo, inclusive situações criadas pelo raciocínio filosófico de levar ao limite o instituído.
Utilizando o raciocínio de levar ao limite, uma vez terminado todo e qualquer castigo físico, em que estaríamos vivendo? Ora, teríamos que o contato do adulto com a criança não passaria mais pelos corpos, ou porque isso seria uma violência explícita (o tapa) ou porque estaria escondendo uma posterior violência de ordem mais complexa (o abuso sexual). Em termos filosóficos, ou seja, a partir de uma situação em que podemos imaginar possibilidades extremadas, seria difícil ver uma sociedade assim, de anjos, isto é, de pessoas incapazes de terem corpos, como uma sociedade feliz.
Podemos acreditar que a dor vinda da punição física comedida, como a “palmada pedagógica”, está longe de ser algo do campo da humilhação e da violência. Podemos, inclusive, temer que se as crianças crescerem privadas da experiência da dor física punitiva, ou seja, virgens do ponto de vista da experiência da dor quando elas criam a dor do outro, estaremos ao final sob o império do não-sentido. Geraríamos, então, uma população inteira de adultos incapazes de se identificarem com o sofrimento alheio que, enfim, continuaria a existir no mundo dos adultos. Uma sociedade assim não tenderia a ser altamente cruel? Não teríamos uma sociedade sujeita à violência aparentemente inconseqüente, como se tudo não passasse de um cenário para o Coyote e o Papa Léguas?
Mas a aposta da legislação não é esta. Ela está imbuída da ideia de que o fim da experiência da punição física é alguma coisa associada a tantas outras formas de suavidade que temos adotado. Algumas dessas medidas de suavização chegaram mesmo ao extremo. Mas, nem por isso, criaram distorções em nossas vidas; ao contrário, cumpriram sua “missão civilizatória” . Há a pena de morte em vários países, mas, em boa parte do mundo, não mais o enforcamento de rua ou o esquartejamento e nem mesmo a cadeira elétrica. Seria insano dizer que criamos uma geração que esqueceu o que é o sofrimento porque não mais assiste a barbárie do sangue derramado nas ruas com guilhotinas e coisas do gênero. No entanto, em contrapartida, alguns diriam que essa capa civilizatória não teria gerado outra coisa que não um mundo de exércitos altamente danosos. Exatamente pelo fato de todos acreditarmos que, numa guerra moderna, não há mais mortes, apenas “baixas” em um grande jogo de vídeo-game, abrimo-nos para a possibilidade da guerra, inclusive com a falsa noção de que todo e qualquer inimigo despreparado militarmente poderia ser eliminado por uma ação parecida a de quem limpa uma mesa com migalhas de mão.
Paulo Ghiraldelli Jr. , filósofo, escritor e professor da UFRRJ. Lei também o texto de Kalu Brum, É só um tapinha?, no Blog Mamíferas, publicado no dia 13 desse mês. Acessem também o site Não bata. Eduque.

sábado, 26 de junho de 2010

Chupeta: eis a questão

O acessório infantil desperta muitas controvérsias, de um lado profissionais, como pediatras e dentistas, do outro mães desesperadas por um pouco de sossego (e silêncio!). Costumo brincar que chupeta é para acalmar a mãe, e não o bebê, que com um pouco de colo e paciência logo para com o choro, mas quem atire a primeira pedra e nunca errou nesse aprendizado (diário) que é a maternidade. Me recordo que antes mesmo de Ícaro nascer, meu primogênito, já tinha uma coleção "fofíssima" de chupetas, com estampas para combinar com todo tipo de traje, o duro foi convencê-lo de deixar ela de lado, já com seus quase quatro anos! Com Rudá, o caçula que está com 10 meses (e dois dentes!), nem titubiei na ideia de dar-lhe a chupeta, mesmo com aquela pressão básica que sofremos por escolher caminhos conscientes e alternativos para criar nossos filhos, assim, ele nunca chupou nada a não ser meus seios até os dias de hoje, para água e sucos uso desde o sexto mês o copo de transição. Como me interesso pelo assunto encontrei dois materiais bem bacanas sobre o tema, dentre eles um relato de Fabíola Cassab - Uma Visão Mamífera das Chupetas, postado no Blog Mamíferas em 16 de março de 2009, sobre sua experiência com o uso e depois a escolha por não usar mais e um artigo de revisão do Jornal de Pediatria, da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre os Fatores de Risco para Otite Média Aguda Recorrente, relacionado, entre outros fatores, ao uso de chupeta. E vocês, como administram esse quesito: usar ou não usar? Eis a questão! Desenho de Mariana Massarani_alguns-nunca-largam_

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Estou de saco cheio

Maravilhosos (e complementares!) os dois últimos posts do Blog Mamíferas, de Kathy e Kalu, respectivamente - Exercitando a ironia & Chega de ladainha. Ativismo na rede! Perdõem a falta de neutralidade antropológica, mas a bandeira da humanização, muito mais que a imparcialidade científica de meu ofício (uma faca de dois gumes) me cercou... ainda sonho (e acredito) em um mundo onde mulheres possam parir com respeito e bebês nascerem amparados com amor!

segunda-feira, 17 de maio de 2010

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Eu sou a melhor mãe do mundo - Blog Mamíferas

Lindo lindo o texto de Kalu publicado hj no Blog Mamíferas, para dar água na boca um trechinho procêis:
Cada mãe é uma verdadeira heróina. Superamos (ou não) as dores do parto, as dificuldades de amamentação. Quantas vezes não experimentamos o desespero, o cansaço? Somos heroínas do cotidiano, aclamadas por uma horda de anjos. E isso é mais importante que qualquer conquista humana: saber que a maior delas é realizar com completude a experiência de ver desabrochar a grande obra de arte - seu filho.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Bacon, ovos e salsichas


Ou: quando a culpa arruma sua mochila e vai viajar
Flavia Penido *
Está na hora do jantar. Ok! Vocês venceram. Bacon, ovos e salsichas. "Uau, Que delícia!" Exclamam as crianças, dando pulinhos em volta da mesa e fazendo som de índio em um ritual maluco cheio de euforia. Lavam suas mãos sem nem mesmo pedir. Não posso evitar um sorriso. Não consigo deixar de notar o olhar estranho de meu marido. Ou será que estou imaginado coisas?
Ufa! Estou exausta e angustiada na mesa. Sirvo as crianças e me pergunto como cheguei a esse ponto. As crianças vão comendo, se esbaldando. A mesa está um clima alegre, as crianças descontraídas conversam alegres com o pai. Mas eu fico suando a camisa só de pensar na quantidade de gordura e na falta de vitaminas que essa refeição exibe. Nem me falem de qual tipo nojeiras são feitas as salsichas!
Não é que me sinta culpada se às vezes as refeições não são saudáveis... Bom, sim, eu me sinto culpadíssima, e tenho a ligeira impressão de que tem um monte de vozes e dedos que apontam na minha direção. “Ai não enche!” Empurro com toda força esse Superego lá para o lugar desagradável de onde ele vem.
Procuro me concentrar na conversa animada das crianças. Olho para cada um deles. Observo como são bonitos. O nariz de pintinhas de minha filhinha me preenche de ternura. Meu marido escuta atentamente o que as crianças lhe contam, mesmo se tem atrás das costas um dia complicado de trabalho e um monte de problemas por resolver.
Isso me comove tanto! Logo, penso em como ele é querido, e como meu cabelo está desgrenhado. Olho envergonhada para as pantufas delirantes que estou usando, notando ainda como minhas unhas estão eternamente por fazer. “Bolas! Lá vem a culpa novamente!” Empurro com mais convicção ainda para bem longe esses pensamentos.
Sinto saudades das papinhas bem feitas, dos legumes feito no vapor, das crianças comendo toda a papa sem me perguntarem o que era. Eu estou pagando pela língua arrogante. Minha caçula nunca gostou de minhas sopinhas, e o primeiro prato que ela realmente adorou foi um espaguete à bolonhesa bem picante!
Eu que no auge de minha pretensão estava convicta que criança aprende a comer de tudo através do exemplo e da oferta que tem... Ledo engano! As crianças têm suas próprias papilas gustativas! Cada filho que eu tive veio quebrar mais alguns paradigmas me transformando em uma pessoa melhor, mais tolerante.
Para que vou contaminar o ambiente familiar com minhas frustrações quanto ao ideal de mãe e mulher que eu construí? Quero relaxar e aproveitar a refeição alegremente sem as reclamações de todo tipo: “Isso eu não como, este eu não gosto, assim é duro, assado é sem graça.”
Para que sobrecarregar as relações com expectativas ingênuas que tendem a ser impossíveis de se atender? Vou desfrutar deste momento por inteira sem me deixar acossar pela mãe que eu pretendo ser. Eu sou apenas uma mãe de carne e osso diante da aceleração do mundo moderno.
A alimentação da família é apenas uma faceta da criação dessa família, chega de rabugices! Por favor, não me entendam mal. É claro que vou continuar com a paciente tarefa de colocar brócolis no prato do meu filho para logo em seguida por acaso das circunstâncias encontrá-lo na boca do cachorro. Eu não desisto nunca, mas todo mundo precisa de descanso.
Apenas escrevi tudo isso para lembrar a mim mesma e a vocês leitores que continuaram até aqui, que a maternidade traz uma imensa liberdade para quem for capaz de ser mãe no espaço e tempo do presente, ao invés de estar nas saudades do passado ou no desejo do futuro. Se livrar das ilusões de Ego que nos amarram, para viver plenamente a vida como ela é. Para mim a maternidade trouxe a possibilidade de me sentir linda sem nem mesmo ter tido tempo de verificar se a depilação está em dia! Quanta liberdade!
Então para terminar nosso jantar em família. Todos dão uma gargalhada gostosa ao ouvir a piada que meu filho dispara. Nisso meu marido olha para mim, estende o braço e, me puxando para perto, me dá um beijo. Eu realmente vivo tudo o que preciso nessa vida!
* Texto publiado no Blog Mamíferas como Mamífera Convidada, em 19 de outubro de 2009.
Flavia, mãe de três filhotes, é psicóloga, arteterapeuta e doula, também redige o Blog Bebedubem e coordena, junto com Kátia Zeny A. Pedroso, obstetriz, a Roda Bebedubem, em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, SP.

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