quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Relato: Nascimento de Heitor - Parto normal hospitalar

Depois de algum tempo tentando digerir um trabalho de parto completamente desrespeitoso e desumano, agora eu acho que posso falar dele.

Tudo começou na quarta-feira (dia 23 de setembro) de manhã, quando fiz o primeiro toque: Colo 80% apagado e bebê ainda descendo. O médico (humanizado), que eu só procurei com 39 semanas, passou a mão na minha barriga e eu tive uma contração, depois de uns dois minutos ele passou novamente a mão na minha barriga e tomou um susto que eu tive mais uma contração. Ele me disse que o bebê nasceria no máximo até o fim de semana. Fiquei um pouquinho ansiosa e quando tiramos minha pressão ela estava um pouquinho alta (15X9). Então, depois de umas quatro horas (quando já estava em casa), os pródomos começaram. As contrações agora vinham com dor no pé da barriga.

De quarta a quinta tive pródomos (com dores no pé da barriga) com intervalos entre três e oito minutos (completamente irregulares). Falei com a minha doula e a minha parteira e elas me mandaram ficar em casa e descansar o máximo que eu conseguisse. De madrugada fiz um toque, um cm de dilatação e bebê ainda alto. No hospital ainda senti que perdi o tampão mucoso. Nessa noite não dormi nada por causa da dor e das contrações que eram muito próximas uma das outras.

Quinta-feira de manhã eu fiz uns exames (glicose, ecografia com dopller e urina), estava tudo ok. As contrações ficaram com intervalos maiores (mais de 15 minutos) e a dor diminuiu bastante. E nessa noite dormi melhor, a dor estava bem fraquinha e as contrações mais espaçadas.

Na sexta-feira as contrações continuaram bem espaçadas, às vezes achava até que iriam parar. Concluí que tinha entrado no "falso trabalho de parto". Mas de madrugada as contrações voltaram e mais uma vez não consegui dormir muito bem.

No sábado as contrações diminuíram um pouquinho durante o dia, mas já estavam um pouco mais doloridas e a dor no pé da barriga e na lombar estava mais freqüente. Fiz mais um toque e fiquei arrasada quando o médico disse que eu estava com um cm de dilatação. Minha doula conversou comigo sobre a possibilidade de termos o bebê no hospital (meu plano A era um parto domiciliar com uma parteira), me mostrou os riscos de sofrimento fetal e mecônio depois de tantos dias com pródomos, pressão um pouco alta e passando das 40 semanas. Elas queriam que tudo estivesse certinho para tentar um parto domiciliar, não queriam arriscar minha vida e do bebê. Fiquei arrasada, chorei muito e acho que toda minha confiança se foi quando percebi que minha parteira e minha doula não estavam tão confiantes no parto domiciliar. E junto vieram todos os medos... de não aguentar a dor, de acabar em uma cesárea, de algo ruim acontecer ao bebê por causa do sonho do parto domiciliar. E eu, que me via tão segura e confiante, agora tinha muitos medos. A noite foi outro inferno, as contrações voltaram a ficar mais freqüentes (praticamente de 10 em 10 minutos) e a dor estava muito maior. Eu não dormi nada, nessa noite era impossível continuar deitada quando vinha uma contração, eu precisava levantar jogar o corpo para frente e esperar a contração passar, então deitava e tentava dormir novamente. Completei 40 semanas.

E chegou domingo (dia 27 de setembro). Desde que começou a semana eu fiz sexo, tomei muito chá de canela, tomei vários banhos quentes, rebolei na bola, fiz agachamentos, fiz acupuntura e continuei esperando (cada vez mais ansiosa) pelo parto que não chegava nunca. Passei o dia com contrações espaçadas. À noite elas se aproximaram e se intensificaram. Às 21 horas, eu e meu marido começamos há contar o tempo e o espaço entre as contrações (três contrações em 10 minutos). Liguei para minha doula e para minha parteira. A parteira disse que não achava seguro o domiciliar (ela queria o aval do médico que eu fui ao começo dos pródomos, mas ele disse que só achava seguro o parto domiciliar se minha pressão estivesse boa e mesmo assim somente até sábado), como já era domingo a noite ela me disse para ir para o hospital. Liguei para o médico humanizado, que era meu plano B (após a parteira). Mas, no mesmo dia ele estava acompanhando outro parto e como eu não fiz meu pré-natal com ele, eu tive que decidir entre ligar para o médico que fez meu pré-natal ou tentar a sorte com um plantonista. Eu escolhi meu médico do pré-natal, um médico que se dizia vaginalista, mas que era completamente contra parto domiciliar e era a favor de uma série de intervenções. Foi a pior escolha que eu fiz. Arrependo-me amargamente disso.

E então começou minha jornada. Eu estava em trabalho de parto e estava indo para o hospital. As dores estavam bem mais fortes e mais freqüentes. E para piorar eu estava muito chateada por não ter conseguido meu domiciliar (mas, eu sentia que deveria mesmo ir para o hospital, já não me sentia tão segura). Chegamos ao Hospital Brasília (Lago Sul – DF) e recebemos a informação de que o hospital não estava mais aceitando meu plano de saúde (o plano de saúde queria me mandar para um hospital a mais ou menos 40 km de distância, para uma Cidade Satélite que eu não conhecia e não sabia como chegar). Meu marido discutiu com vários atendentes e eles não fizeram nada. Depois de mais de uma hora esperando (com contrações de dois em dois minutos), eu fui atendida (obs.: pagando tudo no particular, o que me deixou ainda mais preocupada). Era mais ou menos meia-noite e fiz um exame de toque... três cm. Nesse momento eu já estava desesperada, queria tanto já estar com oito ou nove cm. Mas eu tinha que esperar.

Fui para uma sala enquanto esperava a liberação do quarto. Colocaram-me soro (sem ocitocina pelo menos) e eu fiquei andando e chorando por causa da dor. Em pouco tempo minha doula chegou e começamos o nosso trabalho... andar, sentar, rebolar, chuveiro, massagem.... e a dor só piorava.

Meu médico chegou e a primeira coisa que ele perguntou foi: “Você vai querer uma cesariana ou um parto normal? Porque eu não vou fica horas com você tentando um parto normal para fazer uma cesariana depois”. Eu respondi que queria um parto normal. No quarto os minutos pareciam não passar, a dor aumentava, meu medo aumentava e tudo ia ficando muito assustador para mim. E então eu cedi e implorei por uma anestesia.

Eu tentava me focar no trabalho de parto, mas toda vez que o médico entrava no quarto, eu surtava, começava a chorar e implorava novamente por uma anestesia (eu estava enlouquecendo de tanta dor). No começo o médico dizia que ainda não era hora de dar a anestesia e depois ele disse que eu já estava pronta e por isso não podia mais me dar à anestesia. Em vez de tentar me acalmar (como fazia minha doula), o médico falava ‘alto e grosseiro’ comigo; falava-me: “Você não quer um parto normal? Tem que agüentar a dor”. E esse tratamento grosseiro que eu recebia do médico me deixava ainda pior. Eu não conseguia nem brigar, tinha medo que ele me deixasse sofrer ainda mais. Ele ainda chamou meu marido no lado de fora do quarto para dizer que eu estava perdendo o controle e que se eu não colocasse minha cabeça no lugar não conseguiria meu parto normal. Quando o médico saia do quarto eu conseguia me acalmar um pouco, mas as contrações estavam muito fortes e algumas vezes eu virei chorando para o meu marido e disse: “Amor, me ajuda, por favor. Pede uma anestesia para o médico. Eu não estou agüentando mais.”. Mas, acho que meu marido estava quase tão atordoado quando eu. Minha doula nessas horas tentava me acalmar, dizendo que eu estava indo muito bem, que não ia demorar muito mais, que eu estava dilatando rápido e que eu ia agüentar sim. Fiz uns quatro toques ao longo do trabalho de parto, todos muito doloridos (duas vezes o médico fez um toque com uma manobra para ‘apagar’ o colo do útero)... acho que foi a pior dor que já senti na vida.

O trabalho de parto começou às 21 horas, cheguei ao hospital meia-noite e às 4:45 horas eu fui para o centro cirúrgico. E então tudo piorou.

Cheguei ao centro cirúrgico na maca (de barriga para cima) gemendo de dor. O médico não deixou a doula entrar, com a desculpa de que nesse hospital só uma pessoa podia acompanhar a parturiente no centro cirúrgico (era mentira dele). Então entramos só eu e o meu marido. Fui colocada na mesa de barriga para cima, completamente deitada (a cama não foi levantada nenhum centímetro sequer); amarraram minhas pernas nos estribos com uma faixa; colocaram-me na ocitocina (meu marido contou que o médico mandou colocar ocitocina e ligar no máximo); sempre que eu tinha que empurrar, o médico enfiava dois dedos (um de cada mão dentro da minha vagina) e puxava para os lados, como se ele quisesse abrir mais (nunca tinha visto esse procedimento)  e isso machucava demais; todos (médico e enfermeiras) ficavam gritando o tempo todo me dizendo que eu estava fazendo força errado (mas eu já estava sem força e não tinha onde apoiar os pés para fazer força... meus pés estavam no ar); o médico começou a dizer que o meu bebê estava no canal de parto e não podia ficar ali muito tempo (isso foi me deixando apavorada); ele fez uma episiotomia enorme (meu marido contou que ele cortou a primeira vez e depois de um tempo aumentou o corte); ele chamou outro médico e pediu que ele fizesse a manobra de Kristeller; a cabecinha do Heitor saiu e estava com uma circular de cordão (que em vez de desenrolar para o bebê terminar de nascer, ele clampeou e cortou com o corpinho do bebê ainda dentro de mim).

E então, às 5:15 horas do dia 28 de setembro, o Heitor nasceu... roxinho e deprimido. Eles levaram meu filho sem me mostrá-lo e sem falar nada. Acho que demorei uns segundo para voltar à realidade, só vi alguém saindo com meu filho e a cara de desespero do meu marido. Então o médico disse que ele nasceu muito deprimido e precisava ficar em observação (só deixaram meu marido vê-lo depois de uns cinco minutos). O Heitor nasceu roxo e deprimido, com uma circular de cordão no pescoço e com mecônio. Só vi meu filho depois de duas horas (quando o trouxeram para mim).

Para finalizar, o médico (que disse que ia fazer meu parto pelo plano de saúde, mesmo sabendo que seria difícil ele receber porque meu plano estava meio “falido”) mandou a secretária ligar para o meu marido e cobrar R$ 2.000,00 pelo parto.

Mas, depois de todo esse desespero tudo ficou bem... meu bebê estava comigo, rosado, alerta, guloso e lindo. Isso era o mais importante, durante todo aquele dia (e nos primeiros dias de vida do meu filho) eu não quis pensar muito no parto, quando alguém perguntava, eu só dizia que tinha sido normal. E então alguns dias se passaram e eu não pude deixar de sentir as feridas desse parto traumático (não as feridas físicas, mas aquelas feridas que ficam na nossa alma e no nosso coração). Chorei muitas vezes debaixo do chuveiro. Tentei várias vezes escrever esse relato, sem sucesso.

O Heitor nasceu com 3.860 kg e 52,5 cm. Foi o maior bebê que nasceu na maternidade aquele dia. Mamou certinho assim que se encostou ao meu peito (e mamou muito depois disso). Hoje meu príncipe está com quase seis meses e é um bebê lindo, adorável, sorridente, danado e sapeca. E as feridas são bem mais suportáveis agora. Eu posso pensar com mais clareza e perceber tudo que aconteceu... a forma como fui tratada, o desrespeito do médico e até meus próprios erros.

Eu consegui colocar tudo isso para fora e acho que esse foi o primeiro passo para a minha cura. Agora eu estou me sentindo melhor e acho sim que posso viver um parto feliz e sagrado da próxima vez. Eu preciso ter fé nisso.


“Se alguém me perguntasse o que eu nasci para ser... minha resposta seria: MÃE”


_Michely Silva Alvim Lares, esposa do Vitor (meu amor e companheiro) e mãe do Heitor (amor da minha vida).

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Relato: Nascimento de João – Cesárea




 Meu filho nasceu em novembro do ano passado e hoje finalmente pari o relato do que considero um "quase-parto", pois ao contrário do que aconteceu no nascimento do meu primeiro filho, dessa vez eu pude pelo menos experimentar a dor e a delícia de um trabalho de parto de que eu fui protagonista até o momento da indicação da cesárea.

Sintam-se livres para me questionar, meu objetivo em postar o relato aqui é justamente entender e digerir a cesárea.

Coloquei algumas fotos tiradas durante o TP e cesárea (quase todas "by Helô Lessa") no álbum: http://picasaweb. google.com. br/biancaz/ NascimentoDoJoao #


ANTES

Eu já estava de 42 semanas pela ultra e minha estimativa da concepção, e 43 semanas pela DUM. Já tinha tido vários episódios de falso trabalho de parto e desde as 40 semanas estava seguindo todas as dicas pra entrar em trabalho de parto (chá de canela, sexo, caminhada, banhos quentes, exercícios, homeopatia). Fiz uma ultra e estava tudo ótimo, então já tinha combinado com a Helô e o Rodrigo de esperar mais uns dias e tentar fazer um descolamento de membranas, já que indução mesmo eu não poderia fazer por conta da cesárea prévia.

Meu pai me indicou um médico acupunturista que segundo um amigo dele era muito bom pra estimular trabalho de parto (aliás, indico: Alcio Gomes). Então marquei uma consulta com ele. Ele me disse que se eu já tivesse um pouco de dilatação, as chances de funcionar seriam grandes. Fiz uma seção com ele e ele me disse pra voltar no dia seguinte se não tivesse entrado em trabalho de parto.

No dia seguinte fui andando a pé da minha casa até a Gávea pra segunda sessão de acupuntura e durante a seção comecei a sentir contrações. Saí de lá sentindo contrações espaçadas e pouco doloridas. Estava muito calor e eu saí de lá direto para passear no shopping (andei, andei, andei) porque na rua não dava, o calor estava demais.


EM CASA

À noite finalmente as contrações ficaram mais doloridas e regulares, apesar de ainda estarem bem espaçadas (a cada 7 minutos, mais ou menos). Liguei para a Helô e quando disse que estava em TP ela disse "Oba! Não era isso que você queria?" Ela veio aqui pra casa lá pelas 22h. Me olhou e me disse pra tentar descansar. Passamos a noite na sala, cada uma deitada em um sofá. O Roberto ficou tocando violão por um tempo, tocou de tudo, mas lembro principalmente de Elomar. Em algum momento as luzes se apagaram e fomos pra varanda ver se tinha sido só aqui. Vimos que estava tudo escuro, até onde a vista alcançava. Era o apagão que apagou grande parte do Brasil. Acendemos algumas velas pela casa, ficou um clima ótimo. Eu conseguia dormir entre as contrações, mas acordava e ficava na posição que me parecia mais confortável quando vinha a contração. Passamos a noite assim e de manhã ela fez o primeiro toque da minha gravidez: 2cm. As contrações continuavam espaçadas. Ela decidiu sair pra resolver algumas coisas na rua e disse pra eu ligar quando precisasse.

O meu filho Antônio acordou e eu fiz de tudo pra dar café-da-manhã normalmente pra ele, mesmo tendo que parar durante as contrações. Expliquei pra ele que logo, logo o irmãozinho dele estaria chegando. O Antônio saiu para a escola e meu marido foi para o trabalho (o trabalho dele é pertinho da nossa casa). Eu fui pra cama tentar dormir mais um pouco porque estava muito cansada. Nisso eu dormi por uma meia hora e acordei assustada porque não estava mais sentido as contrações. Eu tinha muito medo que o TP parasse. Liguei pra Helô e contei pra ela o que estava acontecendo. Contei que tinha feito acupuntura e que estava com medo que fosse um falso TP causado pela acupuntura. Ela me disse que isso não tinha nada a ver, que era normal dar uma parada e depois recomeçar com mais força. Disse pra eu tentar dormir mais. Dormi mais um pouco e acordei com uma contração mais forte. Aí peguei a bola e fiquei quicando nela. As contrações foram ficando mais fortes e regulares, comecei a realmente sentir dor. Liguei pra Helô e ela me disse pra tomar um banho de chuveiro, não de banheira. Me disse que teria que resolver algumas coisas e mais tarde passaria aqui em casa. Eu fiquei entre o chuveiro e a bola mais algum tempo. Nisso muita gente (minha mãe, meu pai, meus sogros) ligou pra saber como estavam as coisas, já que o plano era fazer o descolamento naquele dia. Eu nem falei que estava em TP e disse que só iria fazer o descolamento mais tarde.


NA MATERNIDADE

Lá pelo meio-dia liguei pra Helô e disse que não estava aguentando mais que queria ir logo pra maternidade porque se demorasse mais não sabia se iria aguentar a viagem de carro. Ela aceitou, já que meu plano era parir na maternidade, não em casa. Me disse que ia ligar para o Rodrigo, pra ele tentar conseguir vaga. O Rodrigo ligou depois de um tempo pra dizer que não tinha vaga na Perinatal de Laranjeiras, que ele sugeria a Promatre no Centro. A Helô tinha me falado dessa Promatre, mas eu fiquei com pé atrás (infelizmente) e perguntei se não podia ser na Perinatal da Barra. O Rodrigo ligou pra lá e conseguiu vaga. Ele e a Helô iriam encontrar com a gente lá.

Fui no banco de trás do carro me contorcendo nas contrações. Chegando lá, enquanto meu marido resolvia a internação, o Rodrigo quis fazer o exame de toque e pra minha surpresa ainda estava em 2cm. Fomos para o quarto e ficamos lá só eu e o Roberto por um tempo. Ficamos um tempão juntos no chuveiro e pra minha surpresa meu marido foi perfeito nessa hora me ajudando a relaxar e ficar mais ocitocinada. Quando a equipe voltou umas duas horas depois eu já estava com quase 5cm. Aí como eu estava muito cansada, resolvemos que era melhor ir pra banheira na suíte de parto humanizado. Tive que colocar aquela roupa de hospital e ir pra lá na maca (reclinada) me contorcendo e gritando muito. Os enfermeiros me olhavam como se eu fosse uma louca, acho que nunca tinham visto aquilo por lá. Nessa hora eu já estava começando a entrar na Partolândia, ficava entoando uma espécie de mantra, que eu mesma tinha inventado e que me acalmava. Chegando na suíte, vi a equipe toda e o meu marido com aquela roupinha de hospital, muito estranho. Pediram pra encher a banheira e a louca da enfermeira resolve colocar espuma de banho na água. A Helô quase teve um treco, tiveram que esvaziar tudo, limpar e encher de novo. Fiquei um tempão na banheira, a Helô e o Roberto se revezavam pra jogar água na minha barriga porque a banheira era muito rasa. Acho que foram quase duas horas na banheira porque deu tempo de ouvir duas vezes o CD da Monica Salmaso cantando Afro-Sambas.

As contrações mesmo na banheira estavam punk, eu tentava mentalizar que elas estavam trazendo meu filho, mentalizava "vem João, vem João", mas o que me aliviava mesmo era mentalizar "vou conseguir, sou forte, vou conseguir". Aí a água esfriou e eu saí da banheira. Novo exame de toque e a dilatação não tinha evoluído quase nada. Mas, o bebê tinha girado e agora estava com o dorso a esquerda, não mais com dorso a direita. Falaram pra eu ficar fora da banheira e tentar ficar em outras posições, mais agachada, pendurada. Me pendurava no meu marido e a Helô me fazia massagem nas costas, que aliviava muito. A dilatação progrediu um pouco mais, mas como eu estava muito cansada depois de algum tempo eles me propuseram analgesia e eu aceitei. Entrou a anestesista, me explicou que daria só uma anestesia bem fraca que duraria mais ou menos uma hora pra eu descansar. Não vou negar que foi um grande alívio. Fiquei deitada vendo a minha barriga mexendo durante as contrações. Falei pro Roberto ir jantar porque ele já estava há horas sem comer nada. Eu tinha comido antes de sair de casa e confesso que nem me passou pela cabeça comer (só beber água, o que eu fiz). Pedi pra chamarem a minha mãe que fiquei sabendo que já estava na maternidade. Ela entrou e ficou do meu lado junto com a Helô, falando de como tinha sido o meu parto. Depois de um tempo pedi pra ela sair, porque estava me tirando a concentração e eu sentia que a anestesia ia passar e eu precisaria voltar ao trabalho.

Fizeram um exame de toque e pra minha surpresa minha dilatação tinha progredido muito durante a analgesia, estava com 7cm. A analgesia passou e voltei pras posições de cócoras e de repente senti uma água escorrendo e comecei a falar que tinha feito xixi (não sei por que falei isso, já que era óbvio que era a bolsa). Depois de algum tempo, novo toque e eu já estava com 9cm, mas o João ainda estava um pouco alto e eu com edema de colo. Disseram pra eu ficar um pouco em posição semi-reclinada pra colocar gelo e tentar diminuir o edema. Depois de um tempo, novo toque, edema tinha diminuído só um pouco e saiu mecônio (não tinha mais líquido, era mecônio puro). Senti que aí o Rodrigo começou a ficar preocupado. Eu comecei a tentar fazer força nas contrações pra ver se ajudava. Estava na Partolândia total e sabia que de vez em quando ele media os batimentos, mas eu não conseguia ouvir o que estavam falando. Só sei que uma hora o Rodrigo falou que não dava mais pra esperar, que os batimentos não estavam mais recuperando depois das contrações e que tínhamos que ir correndo pra cesárea. Eu fui de cócoras na maca fazendo força nas contrações com esperança de que meu filho nascesse no caminho. Ainda fiz um auto-toque e tive a impressão de sentir a cabeça dele em cima do colo inchado. Mas, quando me deitaram na mesa da cirurgia e começaram a dar a anestesia, vi que não tinha mais jeito, tentei me acalmar e apesar de tudo ficar feliz porque veria meu filho em breve. Falei pro meu marido: "Amor, vamos finalmente conhecer o João". A cesárea foi feita rapidamente e meu filho nasceu de olhos abertos e coberto de mecônio, a 00:25 do dia 12 de novembro de 2009. Colocaram ele um pouco no oxigênio, o Apgar foi 6/8 e o capurro 41 semanas e 6 dias. Puseram ele em cima de mim e ele mamou logo em seguida.


_Bianca Zadrozny, mãe de João.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Relato: Nascimento de Nicole - Parto Normal Hospitalar

Vou relatar um pouco da história da minha gravidez para chegar ao parto da Nicole. Em 2004 engravidei sem planejar. Estava tão desligada com minha menstruação que custei a perceber que estava atrasada. Fiz um teste de farmácia e deu positivo. Contei para Deus e o mundo, ficamos todos (marido, mãe, sogros, amigos etc.) muito felizes. Duas semanas depois veio o diagnóstico: gravidez anembrionada. Meu médico me disse que eu teria que fazer uma curetagem e na época eu nem pensei em questioná-lo. O dia da curetagem foi o dia mais triste de toda a minha vida. Hoje entendo por que. Porque ficou tudo parecendo falha do meu corpo. Eu não tinha conseguido “produzir”, “fazer” um bebê, e ainda por cima meu corpo não expulsou o saco gestacional.

Depois desse acontecimento não pensei em engravidar. Na verdade tinha medo de tudo isso acontecer novamente. Tinha medo de passar por toda aquela tristeza de novo. Tinha medo de mais uma vez acontecer uma gravidez anembrionada e eu descobrir que não seria capaz de ser mãe.

Em maio de 2005, acordei de manhã com um pensamento fixo na cabeça: quero engravidar novamente. Passados alguns dias o pensamento fixava e se intensificava mais ainda na minha cabeça. Resolvi conversar com meu marido e ver o que ele achava, pois para mim a gravidez nunca foi um evento isolado. Engravidar significava muito para mim: a construção de uma família, onde ele, o pai, o marido, deveria estar totalmente presente (isso é um mecanismo meu para compensar a falta do meu pai). Ele concordou, ficou muito feliz e acredito eu que desde a outra gravidez ele estava esperando essa minha decisão.

Sendo assim, paramos de usar métodos contraceptivos e já na próxima ovulação aconteceu a fecundação. Eu sei exatamente o dia que aconteceu, pois no dia seguinte já me sentia grávida, apesar de não ter nenhum sintoma na gravidez inteira (enjôo, azias etc.). Só sentia um pouco de sono lá pelo terceiro mês de gravidez.

Pois bem, marquei consulta com o médico e iniciei a bateria de exames que sempre são solicitados. Iniciei uma busca frenética na internet sobre gravidez e parto porque desta vez eu não ia deixar as coisas acontecerem sem que eu soubesse exatamente o que estava acontecendo. Foi então que cai em um blogger que tinha um relato de parto humanizado. De lá, passei pelo site Amigas do Parto e cheguei, finalmente, a lista Parto Nosso.

Nesse meio tempo já havia trocado de médico por pura bobagem. Eu queria um médico especial, chique, pois era a MINHA gravidez tão esperada. Hoje eu vejo e sei que o meu primeiro médico era muito bom, defendia o parto normal (lembro disso porque eu cheguei a comentar que queria cesárea e ele gastou uns 30 minutos me explicando o porquê do parto normal ser melhor). Talvez (e aí eu não sei dizer, pois não cheguei a conversar com ele) ele seja um médico que é adepto ao parto normal, mas faça todas as intervenções. Talvez não.

Sei que depois disso fui parar, por uma indicação (uma amiga minha que tinha um excelente médico – detalhe: ela teve cesárea por falta de dilatação... rsrsrs) em um cesarista e lá fiquei até a 36ª semana. Nessa altura eu já estava bem interada na lista e nos assuntos e percebi que estava numa cilada e com a ajuda da lista mudei de médico pela terceira vez: fui para um médico humanizado.

De longe se via a diferença de tratamento, de opinião, de conduta. Esse último médico realmente assistia ao parto. Quem fazia era a mulher e no discurso dele, a todo o momento, era possível perceber essa postura!

Minha gravidez foi super tranqüila. Não tive nenhum problema, exames todos normais, ultra-sons (necessários ou não) todos normais, tudo bem. Foi então que tive o primeiro problema: pagar por ter a assistência desse excelente médico no meu parto. Conversei muito com pessoas da lista e a opinião de todos era que, não importa o valor e forma de pagamento, mas valia a pena fazer um sacrifício para ter esse profissional ao meu lado.

Eu acho que vale a pena ter essa segurança ao lado, mas eu não estaria totalmente tranqüila, pois não poderia fazer esse “sacrifício”. Na minha cabeça, o meu parto não poderia me deixar preocupada um minuto que fosse e na minha cabeça também estava mais fácil, mais tranqüilo, mais sereno, eu buscar alternativas do que “buscar” dinheiro para esse momento. O “arranjar” dinheiro, naquele momento, para mim, não estava me fazendo bem!

Sendo assim, comecei a cogitar alternativas. Visitei a casa de parto do Sofia Feldman e lá algumas coisas também não me deixaram a vontade. Foi então que comecei a pensar no óbvio: de ter o parto com plantonista de um hospital particular (o mais próximo da minha casa): situação essa que era a principio, a pior de todas. Comecei a me perguntar o que poderia dar errado, o que me impedia de ter esse parto com plantonista, o que iria fugir do que eu estava almejando, enfim, comecei a analisar friamente a situação. E cheguei à seguinte conclusão: eu estava informada e confiante que poderia ter um parto normal nesse hospital particular com o plantonista. Todavia eu tinha um plano B, mas a todo o momento sabia que não seria necessário usar o plano B. Foi algo instintivo mesmo: eu sabia que ia dar certo e isso tudo me bastava!!! Meu marido que estava muito participativo (por insistência minha e depois por muito interesse dele) em toda essa história também estava confiante!!! Então, estava decidido!!!!

A data provável para o parto conforme os dois primeiros médicos era dia 24/02. De acordo com o terceiro médico era dia 27/02. Eu estava trabalhando intensamente no meu trabalho e durante as noites e fins de semana eu estava trabalhando (ajeitando) na minha nova casa. Logo, quando soube que estava grávida aceleramos o término da construção da casa para que Nicole chegasse ao nosso novo lar. Em janeiro terminou a construção e em fevereiro começamos a acertar os detalhes finais para mudar. A cada final de semana ou fim do dia mudávamos uma parte da casa e eu com aquele barrigão subia e descia escada carregando coisas. Estava muito feliz. Cansada também, mas não deixava de fazer, pois sabia que isso muito iria contribuir para o meu parto. Dia 12/02 mudamos definitivamente para a casa nova. Também avisei no meu trabalho que esta seria minha última semana antes da licença, pois eu já estava considerando necessário descansar para o tão esperado dia. Além disso, as pessoas do meu trabalho estavam incomodadas comigo, com aquele barrigão, trabalho, dirigindo e a todo o momento me perguntavam se já não estava na hora de nascer. Eu respondia: não, ainda não está na hora. Fique tranqüila que você não vai precisar fazer meu parto. Chegou uma hora que eu já não agüentava mais responder para quando era, qual era o nome, se era menino ou menina etc.... Eu estava precisando de sossego, pois estive muito agitada nesse finalzinho de gravidez: tanto no trabalho, quanto em casa.

Trabalhei até dia 17/02. Fui para casa e disse para mim mesma: Letícia, agora você precisa descansar. Ainda arrumei algumas coisas na casa nova, coisas leves, tranqüilas. Sábado (18/02) à noite me senti extremamente cansada. Então deitei na minha cama, apaguei as luzes, liguei o rádio e comecei a relaxar. Antes fiz uma depilação nas minhas pernas (com a luz apagada), só sentindo minha pele. Pedi ao meu marido que fizesse uma massagem nos meus pés e pernas para que eu relaxasse e dormi.

Dia 19/02, as 02:00 am acordei com uma colicazinha. Achei normal, pois essas cólicas já estavam acontecendo há algum tempo, inclusive, na minha última consulta, no dia 16/02 eu já estava com 2 cm de dilatação. Fiquei muito feliz com essa notícia, pois eu já estava sentindo muito desconforto, já estava tendo contrações e já sentia Nicole bem baixa. Inclusive quando eu esvaziava a bexiga a sentia descendo e se posicionando. Então voltei a dormir. Mas não tive aquela noite de sono. De tempos em tempos eu acordava sentindo cólicas e comecei a pensar: mas será que estou entrando em trabalho de parto? Lá pelas 5:00 hs levantei e fui ao banheiro fazer xixi e também para ver se tinha algum sangramento ou se o tampão tinha saído ou se a bolsa tinha rompido. Percebi um catarro, bem pequeno e claro. Não parecia com o tampão que tinham me descrito. Percebi que eu estava mais úmida, mas isso já estava acontecendo a mais ou menos uma semana. Pensei: não é o trabalho de parto ainda não. Deitei para tentar dormir, mas não consegui. Ficar deitada doía. Então, por curiosidade comecei a anotar o intervalo entre as contrações e a duração também. Estavam de cinco em cinco, de seis em seis... Às vezes de 10 em 10 e duravam 20, 30 segundos. O que me deixou muito na dúvida era a dor. Era uma dor totalmente suportável e nada parecia com aquelas dores horríveis que ouvi várias mulheres falarem. Fiquei muito na dúvida se era ou não trabalho de parto. O meu último médico disse que as contrações do trabalho de parto são inconfundíveis e que eu saberia que estava tendo. Mas, isso não estava acontecendo. Era algo diferente, mas não tão doloroso assim.

Em certo momento, eu espirrei e senti que fique muito molhada. Fui ao banheiro e senti uma pequena quantidade de água descendo pelas minhas pernas. Também não parecia com as descrições que eu tinha sobre rompimento de bolsa. Fiquei achando aquilo tudo muito estranho. Acordei meu marido e começamos a conversar sobre o assunto: era ou não trabalho de parto?

As contrações continuaram. Era dolorido, mas nada assustador. Totalmente suportável. Eu ficava pensando: será que é isso o início do trabalho de parto? Nesse momento senti muito a falta de uma doula ou do médico para que eu pudesse ligar e conversar sobre o que estava acontecendo. Então, às 07:00 hs, decidi que ia ao hospital fazer uma consulta para saber se eu estava ou não em trabalho de parto, para saber se a bolsa tinha ou não rompido, para o medico auscultar o coração do bebê e sabermos se estava tudo bem. Se eu tivesse uma doula ou alguém que escutasse o coração do bebê com certeza eu teria ficado mais tempo em casa, pois as dores estavam super tranqüilas. Hoje digo com plena convicção que é muito importante ter alguém que conhece do processo do trabalho de parto na prática ao seu lado. Eu tinha muita teoria, muita informação, mas não bastou nesse momento.

Eu estava muito tranqüila. Cheguei ao hospital por volta de 08:00 hs. Na recepção, ao me sentar, senti mais uma leva de líquido escorrendo pelas minhas pernas. Fui ao banheiro e aí tive quase certeza que se tratava do líquido da bolsa. Fui encaminhada para o médico, conversamos, expliquei a situação e ao ser examinada, durante o exame de toque, senti muito líquido saindo e o médico disse que realmente minha bolsa havia rompido e que eu estava com os mesmos dois cm de dilatação. Confesso que fiquei desanimada, pois depois de algum tempo de contrações eu continuava com a mesma dilatação.

Era domingo e não tinha ninguém no hospital além de mim, meu marido, minha mãe e médicos e enfermeiros. O Dr. Renato optou por me deixar na sala de pré-parto para ver como evoluía. Como eu estava bem, concordei que poderia ficar lá sim. Antes de terminar a consulta eu disse a ele que eu queria parto normal, que eu diria a hora que queria tomar anestesia, que não ia ficar no soro e perguntei se ele fazia episio em 100% dos partos (foi aí que cometi um erro: eu deveria ter dito que não aceitaria episio e que preferia uma eventual laceração). Ele respondeu que depende da evolução do parto. Ele concordou com todas as minhas determinações, nem mencionou enema e tricotomia. Prescreveu que eu poderia me alimentar como quisesse. Compartilhou comigo minhas decisões e disse que era possível ser do jeito que eu queria, pois ele estava lá para ajudar e não atrapalhar. Fiquei muito feliz e extremamente tranqüila, pois apesar de não ter tido outro contato anterior com ele, ele foi super receptivo e calmo.

Fui para a sala de pré-parto e minha mãe e meu marido ficaram comigo e começamos a anotar o intervalo e duração das contrações novamente. Tava tão tranqüilo que fiquei andando pelo corredor do hospital e lendo os quadros de aviso interno deles. Depois de uma hora mais ou menos cansei de ficar lá e mandei chamar o médico. Eu já não tinha mais o que fazer para passar o tempo e estava ficando aborrecida. As contrações continuavam nas mesmas: uma ou outra que durava mais, chegando há uns 40 segundos. O intervalo entre elas era de cinco em cinco minutos, às vezes três, às vezes dois. Eu ficava me perguntando se estava cronometrando certo, pois era fato: eu estava em trabalho de parto, mas estava tudo tão tranqüilo que eu não estava acreditando. Cheguei a dizer: se for isso o trabalho de parto quero mais uns três filhos... rsrsrsrsrs.

Então fui encaminhada para o quarto. Lá eu podia ver televisão, usar o chuveiro e ficava mais à vontade. Depois de um tempo que eu estava lá chegou o médico e veio fazer um novo exame de toque. Eu estava com esperanças de estar com uns cinco cm de dilatação já, devido ao tempo e a duração das contrações. Fiquei super desanimada quando obtive a seguinte resposta: “Você está com quase quatro cm de dilatação”. Como assim, quase?????????? Depois de tanto tempo eu estava com quase quatro cm. Nem era quatro cm!!!!! Fiquei irritada e pensei, se for nesse ritmo, não vou dar conta de chegar nos 10 cm. Já estava cansada.

Mandei chamar o anestesista, pois queria conversar com ele sobre como seria (olha só: eu já estava com a idéia fixa na minha cabeça de tomar a anestesia). Ele veio me explicou tudo e foi embora. Junto com ele veio o Dr. Renato e outro médico obstetra que brincou ser residente do Dr. Renato. Esse outro médico trabalhou no Sofia Feldman por dois anos e acredito que ele estava lá para conhecer e conversar com a moça que queria parto natural!

Por volta de 13:00 hs (de acordo com meu marido, pois aí eu já não me lembrava que existia algo chamado relógio e que isso servia para registrar horas) a coisa começou a ficar “punk”. As contrações estavam bem intensas e demoradas. A essas alturas eu só ficava no chuveiro, o que aliviava muito as dores. Depois de certo tempo comecei a ficar cansada de ficar em pé, então, durante as contrações, eu ficava em pé no chuveiro, quando elas passavam sentava no vaso. (É, lá não tinha uma banqueta para eu sentar no chuveiro). E aí, assim, eu fiquei: sentava no vaso, levantava e ia para o chuveiro. Meu marido lá, me ajudando a levantar e a sentar. Minha mãe no quarto, tentando manter a calma e pensando em como ela poderia ajudar. E eu só sentindo as contrações. Tentava me lembrar de todas as dicas que eu li, então, quando vinha uma contração eu tentava relaxar e repetia para mim, na minha cabeça: “Pode vir Nicole. Já estamos preparados para receber você! Pode vir que você será muito amada!!!!”. Eu não gostei de massagem (não sei se é porque não souberam fazer). Aliás, em um determinado momento eu não queria que encostassem em mim. Ficava de cócoras, rebolava e dá-lhe chuveirada. Para mim não teve coisa melhor que a água quente batendo nas costas, porém, faltou muito uma banqueta para eu sentar embaixo da água.

Depois de um tempo, mandei chamar o médico. Precisava saber se o bebê estava bem e as quantas andavam os quase quatro cm de dilatação (aí que raiva... rsrsrsrs).

Então veio o médico com uma enfermeira maravilhosa, doce, um anjo. Quando ele chegou estava no chuveiro (pra variar) então ele esperou acabar uma contração e eu sair e me enxugar. A enfermeira me ajudou a deitar e me ajudou a relaxar para ele fazer o toque (como doía o toque...). Foi quando ele veio com a seguinte frase: “Você está com quase seis cm”. O que??????? Como assim??????? De novo quase????????? Isso não é possível!!!!! Nem são seis cm?????????

Ai eu descambei: “Doutor, eu achei que já estaria com sete cm. Já não estou agüentando de dor mais. Não está muito lento isso? Agora não agüento mais. Quero a anestesia”. Ele disse: “Ok! Vamos para o segundo andar (andar dos partos)”. Quando eu estava indo (de maca) tive que escutar de uma enfermeira: “Ah, agora ela quer anestesia.” Nem me dei ao trabalho de responder, pois a opinião dela pouco importava para mim. Além do mais, sei que é pura ignorância e isso não me incomodou e sim, me deu dó.

Chegando ao segundo andar, eu fui novamente para a sala de pré-parto o que me deixou irritada, pois apesar de lá ter chuveiro, eu não queria ficar lá (sei lá eu por que...). Dr. Renato entrou no quarto e disse: “Você vai mesmo querer a anestesia?”

Esse momento merece um parêntese: acredito eu que ele não queria que eu tomasse a anestesia já que tudo estava indo muito bem. Já tínhamos conversado antes e compartilhávamos da opinião de que o parto é muito melhor sem a anestesia. Porém, ele falhou nesse momento, pois ele poderia ter conversado melhor comigo e em um intervalo de contração. Lembro que ele me fez essa pergunta DURANTE uma contração e eu ainda consegui lembrar que no meu plano de parto estava escrito que qualquer decisão e/ou pedido meu deveria ser levado em conta apenas no intervalo da contração. Nunca durante a contração. Pois bem, diante dessa pergunta, na situação que foi feita, eu dei um berro: “Quero sim, rápido!”

Em um momento desses, não me lembro que foi antes ou depois da pergunta sobre anestesia, eu disse a ele que estava sentindo vontade de fazer coco. Eu sabia que se tratava dos puxos, mas como eu estaria com os puxos se eu estava com apenas “quase seis cm”? Algo me soa estranho nisso e se alguém da lista puder me ajudar a entender agradeço. Ele me disse que isso era um bom sinal e que quando eu sentisse isso, que eu fizesse força. Eu sabia que isso era um bom sinal e sabia também que eu deveria agir conforme eu achasse melhor e me sentisse bem, então, eu não fiz força, pois não me sentia bem. Estava insegura. Não entendia o porquê dos puxos com seis cm de dilatação...

Foi nesse momento que meu parto começou a me assustar. Eu me preparei demais para as contrações, mas não me preparei para os momentos finais (puxos, dilatação final, expulsivo). Na minha cabeça (e hoje eu tenho clareza disso - no dia eu não tinha) eu não me preparei para isso porque eu sabia que ia tomar anestesia. Ou seja, eu não estava preparada para um parto sem anestesia. Não estava preparada porque isso nem passou pela minha cabeça. Meu discurso era um, mas minha intenção era outra.

Mas, Deus é impecável. Ele sabe o que faz e faz tudo para que possamos crescer e evoluir. Eu fui para o bloco cirúrgico tomar a bendita da anestesia. Doíam muito às contrações e eu tinha que ficar deitada no caminho e chegando lá eu tinha que ficar curvada para o anestesista poder trabalhar. E, além disso, eu tinha que ficar quieta. Como ficar quieta com as contrações??????????? Impossível! Doía muito. Os puxos estavam muito fortes! Pois bem, depois de umas duas contrações o anestesista aplicou a anestesia e eu deitei (eu tinha pedido para o Dr. levantar a cama na hora do parto, mas ele não estava lá nessa hora). Quando eu deitei senti muita dor. Fiquei super assustada. Pronto: eu tinha entrado na Partolândia e nesse momento eu já não conseguia raciocinar nada, dizer nada, apenas gritar que ainda estava doendo e se a anestesia não iria fazer efeito. O anestesista disse que aplicou uma dose muito pequena (conforme eu havia conversado antes e solicitado que assim fosse) e que demoraria uns cinco minutos para fazer efeito, mas que eu continuaria sentindo a pressão, menos a dor. Mal ele acabou de dizer isso, a enfermeira soltou a seguinte frase que fez meu coração acelerar de medo e susto: chama o médico que está no expulsivo.

Como assim no expulsivo????????? Que expulsivo o que?????????? Eu tinha acabado de fazer um toque e estava com “quase seis cm” de dilatação. Não era possível!!!!! E a anestesia???????? Não vai fazer efeito???????

Nesse momento, comecei a gritar. Meus gritos eram de pavor, susto, medo. Fez muita falta uma doula nesse momento. Muita falta! Eu gritava: “Tá doendo, tá doendo ainda!!!!!!!! Chama meu marido!!!!!!!!!” Quando Paulo (meu marido) entrou, Nicole já estava coroando e ele viu a cabeleira dela.

Depois comecei a fazer uma checagem na sala de parto: “Cadê meu marido?” Paulo respondeu: “Estou aqui (realmente ele estava segurando a minha mão e eu não tinha visto)”. Aí eu gritei: “Cadê o pediatra?” Alguém respondeu: “Está ali.” Levantei a cabeça e vi um homem no cantinho da sala. Aí gritei: “Cadê o anestesista?” Ele respondeu, aparecendo do meu lado: “Estou aqui.” Gritei: “Cadê o médico?” O Dr. Renato respondeu, levantando o dedo como que respondendo a uma chamada: “Estou aqui.”.

Eu olhei nos olhos dele e disse (gritando): “Faz alguma coisa logo porque está doendo demais!” Então, em um determinado momento, uma enfermeira, outro anjo que caiu do céu, me disse num tom calmo e sereno: “Talvez se você usar sua força para fazer força ao invés de gritar será melhor para você.” Nesse momento eu entendi que eu tinha parado de participar do parto para gritar e que eu deveria esquecer se tinha ou não dado tempo da anestesia fazer efeito e cuidar do meu parto! Eu gritava porque achei que não ia sentir mais dor e estava sentindo. Então, eu não entendia nada!!!!

Quando ouvi o que a enfermeira me disse fiz força. Acho que nesse momento o Dr. Renato fez a episio, pois conforme ele era necessário. (Essa foi a segunda falha dele. Eu só fui saber que tinha feito episio depois que Nicole tinha nascido e eu fui perguntar a ele o que ele estava fazendo e ele me disse que estava dando pontos. Eu perguntei: “Que pontos?” E ele disse: “Da episio.” Me senti traída, mas ao mesmo tempo eu estava ciente desse risco. Segundo meu marido era impossível conversar comigo naquele momento e por isso o médico não me disse nada). Fiz mais uma força e a Nicole nasceu, às 14:55 hs. Foi um momento de alívio, êxtase, felicidade, emoção e outras coisas mais que nem consigo descrever. Olhei para ela na mesa, vi aquelas bochechas e aquele tanto de cabelo. Minha visão estava meio turva, mas achei-a linda, linda, linda. Fiz a pergunta idiota: “Ela não vai chorar?” (Eu sei que o bebê não tem que chorar quando nasce, mas sei lá porque eu soltei essa pérola...). Alguém me respondeu: “Calma, ela tem que ser aspirada.” Meu coração doeu. Pensei: “Agora ela vai para os procedimentos de rotina ... que dó.” Mas, ao mesmo tempo eu não iria argumentar contra isso em momento algum (nem antes, nem na hora e nem agora), pois não estou segura da real necessidade, ou não, desses procedimentos. Hoje eu sei que é porque também não me informei bem a respeito disso. Mais uma vez repito: eu estava muito preparada para as contrações (que era o que me metia mais medo), mas não estava preparada e informada para o que vinha depois das contrações.

Depois de o pediatra aspirá-la e fazer não sei mais o que, colocaram ela no meu colo. Ela parou de chorar instantaneamente. Isso é muito mágico. Ofereci o seio, mas ela não quis. Só ficou olhando para mim com aqueles olhões que ela me olha até hoje. Ficamos lá, alguns minutos, uma namorando a outra e, então levaram ela. Mandei meu marido ir junto e ele ficou olhando pelo vidro todos os outros inúmeros procedimentos que fizeram com ela.

Eu passei da cama que eu estava para a maca sozinha. Sentia minhas pernas um pouco dormentes, mas nada que me atrapalhasse. Hoje eu tenho certeza que pari praticamente sem anestesia. Ela começou a fazer efeito um pouco depois do nascimento e acabou o efeito rapidinho, tão pouco era a dose. Confesso que me arrependi de ter pedido a anestesia. Na verdade, meu pedido veio oficializar o que já estava certo na minha cabeça, independente de qual médico estivesse comigo.

Fui levada para uma sala ao lado para recuperação e uns cinco minutos depois trouxeram a Nicole. Colocaram-na do meu lado e ela mamou até eu chegar ao quarto. Chegando ao quarto lá estavam minha mãe, meu marido, meu sogro, minha sogra e meu sobrinho. Todos ansiosos por ver a mais nova integrante da família!!!!!!

Às 20:00 hs eu tomei banho (tive que esperar a enfermeira para me acompanhar no banho) e a partir daí sou só orgulho do meu parto. Consegui e consigo cuidar da minha filha sozinha, não preciso da ajuda de ninguém para me locomover e adoro contar para as pessoas que tive um parto normal e que estou muito bem, obrigada!!!!

Eu elaborei um Plano de Parto e iria fazer na semana que estaria de licença uma carta de intenções para entregar ao médico quando chegasse ao hospital. Porém, esqueci de levar o Plano de Parto no dia e não deu tempo de fazer a carta. Acho que meu parto foi muito tranqüilo, apesar da confusão que eu fiz no final. Acho também que cada uma tem o parto para qual está preparada. Sei que meu próximo parto será diferente e melhor, mas esse parto foi para mim muito especial. Tenho orgulho de mim por ter conseguido e tenho orgulho de mim por ter intuído que o atendimento do plantão seria bom. Para mim o doutor plantonista foi o médico mais humanizado que encontrei desde que soube que estava grávida, pois tivemos uma sintonia que aconteceu ali, na hora, porque ele foi receptivo. Ele não atrapalhou, apenas fez o seu papel de assistir ao parto, apesar das duas intervenções. Creio que nós, mulheres, devemos lutar por partos cada vez mais dignos e acho que isso pode ser feito de diversas formas: partos domiciliares, equipe de parto humanizado, Casas de Parto e agora também tem mais uma opção: fazer valer nossos direitos em qualquer hospital, com qualquer médico. Nessa minha experiência concluí que o trabalho da doula é fundamental, pois apesar de meu marido e minha mãe estarem preparados para me ajudarem (e terem ajudado muito) faltou alguém com experiência prática no assunto. Alguém que pudesse passar mais segurança. Talvez uma boa luta seja exigir que os hospitais permitam, não só a presença do pai, mas também da doula durante o parto.

No mais, agradeço a lista pelo enorme aprendizado, agradeço a meu marido que foi um companheirão e agradeço a minha mãe por estar comigo nesse momento tão especial. Agora, vem uma parte muito difícil e que está sendo um enorme aprendizado: aprender a cuidar de um recém nascido!!!!

_Leticia Dawahri Menezes, nascida de Parto Normal Hospitalar, em 1980, esposa de Paulo, nascido de Parto Normal Hospitalar, em 1976, mãe de Nicole, nascida de Parto Normal Hospitalar, em 2006 e de Yasmim, nascida de Parto Domiciliar, em 2008.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Relato: Nascimento de Luisa - Parto Normal Hospitalar


 

Domingo à tarde tive uma disposição, fui ao shopping bater perna, como dizem aqui... fomos visitar uns amigos, jantamos com eles e foi o que aliviou a tensão, tirou o foco dos pródons... rsrs.

À noite, por volta das 11h30 senti que as contrações estavam próximas e fui monitorando.


Fiquei alerta até a uma e meia da manhã quando telefonei para a médica e resolvi ir até o hospital, pois estava perdendo líquido já.

Talvez tivesse que esperar mais, pois chegando ao hospital fui monitorada e colocaram o sorinho. Tentei argumentar, mas como a minha médica ainda não havia aparecido e eu estava nas mãos de plantonista resolvi argumentar com ela e esperar.


Santo Deus, como aquela ocitocina mexe nas entranhas... Era uma única ampola, mas parecia que estava botando a torcida do Flamengo para agitar dentro de mim.

Como percebi que parte do que desejava estava perdido, conversei com a médica que chegou um tempo depois, reclamei dos procedimentos e me neguei à analgesia e qualquer outra intervenção.



Delirava de dor e graças a Deus minha mãe, minha tia e minha prima (madrinha da Luisa, que acompanhou todo o parto) estavam comigo para me acolher.

Era muita dor e muita determinação para resistir à analgesia, mais coisas para bagunçar meu momento milagroso...


Enfim, isso foi até as oito da manhã, quando já tremia, estava branca, sem forças e preocupada em não ter mais ânimo para o expulsivo.

Não sei se resistiria ainda, mas se não fosse a ocitocina, uma única ampola, que ajudou a acelerar as contrações e mexeu com meu ritmo, e foi quando decidi pedir para ir para o expulsivo, pois as dores eram tantas que não conseguia mais controlar minhas pernas.


Conversei com a médica, pedi uma dose muito baixa, e ela me respeitou, aliás, respeitou e me acompanhou com as dores e a resistência a qualquer outra intervenção. Estava com muito medo, pois, afinal, aqui o povo adora fazer "bagunça" e colocar recursos no parto alheio, mas graças a Deus, pudemos negociar como fazíamos a cada consulta.


O mais engraçado foi que no auge da dor pegava o celular e ligava para os amigos, confesso que pouco lembro, pois fui para outro lugar no mundo, me concentrava apenas em mim, no meu corpo e em fazer parceria com Luísa  para que ela pudesse vir ao mundo com paz, tranqüilidade e mais amor ainda.

Enfim, depois de um breve alívio, porque sinceramente esta tal analgesia não funcionou muito não, fui para o expulsivo e comecei a fase dois.


Pensava nas aulas de Yoga, respirava e me concentrava, porém, Luísa não descia.


Como estava com uma equipe boa não em deixaram perceber que por mais força que fizesse o bebê não vinha.


Não faço a menor idéia de quanto tempo fiquei ali fazendo força para a Luísa vir, apenas me recordo de ter sido ajudada por outro médico que empurrou minha barriga e me ajudava a concentrar forças...


Logo, veio a sensação mais incrível que senti Luísa vindo ao mundo...



Depois disso não havia mais dor muito menos preocupações somente uma alegria incrível, um amor que rasgava minhas "entranhas", mais do que qualquer contração.


Enfim, apesar de não ter sido 100% natural, foi 100% verdade, 100% o melhor momento da minha vida.

Realmente, parir um filho é transformador, agora sei da potência que tenho, do poder que possuo e o quanto somos capazes de amar.



Fico mais feliz por ter conseguido ter meu parto da forma que foi possível e o melhor de tudo, saudável para mim e para Luísa.

Hoje curto cada pedacinho de minha “pitiquinha”, cada barulhinho e minutos de sono dela.


Agradeço muito a todos e digo e repito, se desejar algo, faça, pois “DESEJO é produção".

Produzi dentro do que pude e espero ter iniciado uma nova história aqui nesta cidade.

Ainda me consideram maluca, mas ninguém mais ousa duvidar do que sou capaz.


Obrigada Deus e acima de tudo obrigada filha, com seu nascimento eu renasci!


Relato de uma mãe com lágrimas nos olhos para uma filha mais do que  amada!




_Juliana Mogrão Moreira, psicóloga e mãe de Luisa.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Relato: Nascimento de Joana Vitória - Parto Domiciliar




Era véspera do meu aniversário e estávamos organizando os preparativos para um churrasco em comemoração. Como poderia entrar em trabalho de parto, confirmei o convite somente na véspera. À noite, fomos ao supermercado comprar o que faltava. Eu estava com 39 semanas e cinco dias e, além de algumas contrações, sentia apenas algumas cólicas que não eram regulares.

No dia seguinte estava marcado um encontro do grupo de grávidas que eu organizava. O local era um pouco distante de onde morávamos e meu esposo Wellington achou melhor eu ir com uma amiga, pois ele e nosso filho Ernesto iriam para o clube organizar as coisas por lá.

A reunião foi tranqüila e o tema discutido foi “intervenções no trabalho de parto e parto”. Minha doula também estava presente. Ela veio a Brasília a nosso convite para me acompanhar e eu estava bem confiante de que nos próximos dias entraria em trabalho de parto. A reunião começou às 9h e, com um atraso habitual, terminou quase ao meio dia. Nesse intervalo, senti umas três contrações, mas não dei muita atenção. Eu estava me sentindo bem. Ao final do encontro seguimos para o clube e no percurso de meia hora senti mais umas três contrações. Chegando ao clube continuei sentindo contrações, mas nada tão dolorido. Pensei: será hoje o dia de Joana?

Chegando lá, já haviam chegado algumas pessoas, mas o churrasco ainda não estava pronto. Comecei a cortar verduras para fazer a salada, conversei com o pessoal, ganhei presentes, ri, almocei. Senti que as contrações estavam ficando mais regulares, mas continuei sem dar muito crédito. Quando pedi para Wellington marcar no relógio elas estavam de três em três minutos! Ele decidiu ligar para a parteira e deixá-la avisada. Minha doula que foi convidada, ainda não tinha chegado. Tentei manter a tranqüilidade, comecei a rebolar, caminhar, mudar o foco da dor, lembrando das aulas de yoga, da respiração. Quando eu rebolava o quadril sentia como se minha pelve estivesse dando estalos, como se a cabeça de Joana estivesse lá embaixo e cheguei a comentar isso com uma amiga. Resolvi tomar banho de piscina, mas precisava fazer o exame de pele para ser liberada. Fui ao banheiro, troquei de roupa, senti uma contração bastante dolorida, mas fui fazer o exame. Torcia para não sentir outra contração na frente da médica, senão seria reprovada. A contração não veio. Fui até a piscina, deixei a água de um dos chuveiros cair nas minhas costas imaginando que iria relaxar, mas foi pior: as dores aumentaram. Resolvi sair da piscina e disse a Wellington que deveríamos ir para casa. Nem me despedi dos convidados, fiquei caminhando, dando voltas ao redor de uma árvore e tentando lidar com as contrações. Nesse momento, minha doula chegou. Eu disse a ela que estavam começando a ficar insuportáveis as contrações e que iríamos para casa. Wellington deixou Ernesto com um casal amigo nosso e avisou que depois ligaria. Todos ficaram lá no clube, comendo churrasco e se divertindo sem entender direito o que estava acontecendo.

Entrei no carro e tentei relaxar no banco de trás. Saímos rapidamente, pedi que Wellington corresse para casa, pois as contrações estavam intensas. Assim que saímos senti um estalo e pensei: a bolsa estourou! No caminho eu conseguia sentir a cabecinha dela no canal de parto e quando as contrações vinham eu fechava as pernas, com medo que ela nascesse ali, no carro. De lá para casa foi uma eternidade, apesar de o percurso ser curto e durar, no máximo, cinco minutos! Eu pedia para Wellington acelerar e logo depois andar mais devagar. Comecei a gritar, chamar palavrões, pedir para ele correr. Corre! Devagar nas curvas! O sinal fechou e eu me desesperei! As contrações estavam uma atrás da outra e a minha filhinha não podia nascer no carro. Enfim, chegamos ao estacionamento do prédio, saí do carro, coloquei a mão no banco, procurando, mas não senti nada úmido. A bolsa não tinha estourado! Peguei a chave da mão da doula e pedi a Deus para não sentir contrações quando subisse as escadas. Será horrível! Chegamos ao 2º andar, abri rapidamente a porta e senti uma contração enorme. Soltei um grito, quase um uivo! Ouvi a doula dizer: É agora! Vai nascer!

Imediatamente, tentei tirar a roupa, mas era difícil. Senti uma pressão. Fiquei de cócoras e ela chegou! Gritei de alívio! Numa jorrada de líquidos, vi Joana no chão. Eu estava na porta do banheiro e pensei: será que ela caiu no chão?  Será que ela bateu a cabecinha?

Não ouvi o choro. Mal conseguia vê-la direito, pois a roupa nem chegou a passar do joelho. A doula me apoiou pelas costas, Wellington a pegou no chão e colocou no meu colo. Ela chorou! Quando eu a peguei vi que ela era pequenininha. Tão pequenininha. O cordão era curto e eu mal consegui coloca-la no colo. Fiquei lá, imóvel. Tentaram cortar a roupa que eu usava para dar mais espaço, pois estava deixando o cordão mais curto ainda. Ela fez seu primeiro xixi sobre mim e ficou lá, quietinha. Trouxeram uma toalha e a envolveram. Coloquei-a para sugar meu seio e ela aceitou rapidamente.

Resolvemos ir para o quarto, tentar ficar de cócoras em algum lugar para a placenta sair. A parteira chegou 10 minutos depois do nascimento de Joana. Ela nasceu às 14:45. Resolvemos ir para o banheiro sentar no vaso sanitário para a fase de dequitação de a placenta ser feita. Estava demorando e a doula sugeriu que fizéssemos a Oração de Santa Margarida.

Minha Santa Margarida
Não estou prenha nem estou parida
Tira essa carne morta
De dentro da minha barriga

Rezamos com fé, todos, no banheiro, por duas vezes e a placenta saiu cerca de 40 minutos depois de Joana ter nascido. A parteira examinou a placenta que se apresentava normal. Wellington cortou o cordão umbilical, como havíamos planejado. Fomos para o quarto, deitei na cama, continuei com Joana no colo sugando o colostro. Devido à rapidez do expulsivo tive alguns pontos no períneo.

Ernesto chegou trazido pelo casal amigo. Eles ficaram impressionados e demonstravam não acreditar que Joana tinha nascido ali, em nossa casa, tão rapidamente.

Ernesto estava radiante de alegria. Queria tocar Joana, pega-la, sentir a irmãzinha que horas atrás estava na barriga da mamãe

Ela foi pesada e medida: 2,7 Kg e 47 cm, confirmando a pequinês que tínhamos observado.  O teste do capurro indicou 40 semanas.

Brindamos sua chegada com licor de amarula!

Mais uma vez, não tivemos um parto na água e, dessa vez, a piscina nem chegou a ser inflada. Apesar do parto não ter ocorrido segundo nosso plano de parto, ficamos muito felizes porque ela chegou naturalmente e foi o maior presente que eu poderia ter recebido no meu aniversário!

No total foram cerca de 3 horas de trabalho de parto intenso e tivemos a certeza de que Joana chegou na hora dela, em casa, num parto quase que desassistido, mas com muito amor!

Bem vinda, Joana!

20 de fevereiro de 2010.

_Sylvana, mãe de Ernesto e Joana.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Relato: Nascimento de Pedro - Parto Domiciliar

Meu nome é Aline, tenho 30 anos, sou casada com o Rodrigo, mãe do Davi (2 anos e meio, parto normal hospitalar) e do Pedro (4 meses, parto domiciliar). Participo da lista Parto Nosso como leitora desde a segunda metade da gravidez do Pedro. No final da gestação lia absolutamente tudo e aprendi muito sobre trabalho de parto, parto, conceitos, opções, mas especialmente aprendi com as experiências das pessoas.

Agradeço muito a vocês por manterem este espaço. O parto do Pedro foi um sucesso e sei que eu estava preparada para ele, portanto ter aprendido com vocês e com o grupo MaternaMente, grupo de apoio ao parto ativo no ABC (São Paulo), apoiado pela Parto do Princípio. Aproveito para encaminhar o link de uma matéria que saiu num jornal local, da qual participamos.

Numa tarde chuvosa de segunda-feira, com uns sete meses de gravidez, eu e o Davi, nosso filho de 2 anos, recebemos duas visitas queridas. Uma delas veio me ajudar a relembrar respiração e relaxamento para o trabalho de parto, a outra veio trazer um mosaico com o nome do Pedro. Tinha torta de banana com chocolate e um chazinho. Estava um clima muito gostoso, mas só me dei conta dele quando escutei: “que delícia aqui, tá... um cheiro de lar!”. Fiquei muito feliz e emocionada, porque eu sabia exatamente o que era isso, de tantas vezes ter sentido em casas de avós - em lares de avós.

Posso dizer que foi aí que eu me rendi ao parto domiciliar. Eu não percebi na hora, mas foi esse momento que me fez passar a desejar que o Pedro nascesse aqui em casa. Alguns dias depois, na consulta com a homeopata da família, que recomendava o parto domiciliar desde o início da gestação, se assim quiséssemos, perguntei muito e me pus a chorar. Estava convencida. Os próximos dias foram para ir revelando ao Rodrigo, meu amado esposo, que eu já tinha uma decisão, já tinha elegido um plano A dentre as várias opções que havíamos desenhado. Por amor ele me ouviu, por amor ele se abriu, por amor ele e eu continuamos avaliando os prós e contras. Até que a decisão passou a ser nossa.

Retomamos contato com a parteira que já havíamos conhecido há alguns meses e fizemos mais mil perguntas a nossa homeopata, que se dispôs a acompanhar o parto também. Ficamos ainda mais confortáveis com tudo. Preferimos não revelar nossas intenções à família, apenas minha mãe e meu pai souberam antes do dia D. Imaginávamos que as tensões e medos de todos poderiam interferir no conforto da decisão. Não sei se teria sido assim. Depois que o Pedro nasceu à ideia foi tão bem recebida, os familiares e amigos ficaram tão tocados, tão admirados e tão agradecidos! Mas, desde o nascimento do Davi, parto normal hospitalar, achamos mais confortável evitar as pressões que acabam acontecendo perto da hora P.

O Pedro tem o nome do meu avô, uma homenagem. A data prevista para o parto era quatro de novembro e eu queria muito que ele nascesse no dia cinco, data natalícia do meu outro avô. Mas, pelas minhas contas as 40 semanas se completariam dia sete.

Estava combinado com meu GO que, se “nada acontecesse” até dia 4, eu deveria ligar para ele. Dia quatro fiz uma bela caminhada, dia cinco caminhei de manhã e só liguei para ele à tarde. Ele disse que eu fosse à maternidade para uma amnioscopia. Não gostei nada da ideia: já sabia que estava com dilatação de três para quatro dedos (porque minha parteira tinha verificado), talvez quisessem me segurar por lá. Além disso, não me convenci da necessidade desse exame. E foi a sorte, porque houve mecônio no nascimento, e se já houvesse no momento do exame, poderia apavorar a equipe e pôr em risco inclusive um parto normal. Não fui. Andei por mais uma hora no entardecer do dia cinco. Nesses últimos dias, de vez em quando eu tinha umas contrações doloridinhas.

Dia seis, sexta-feira, amanheci decidida a conversar com meu GO. Liguei para ele e disse que não ficasse na expectativa da minha amnioscopia, porque eu não iria. Falei também que queria muito entrar em trabalho de parto em casa e que se tudo estivesse bem, poderia ficar por aqui mesmo e dar à luz em casa. Ele estava esperando assistir ao parto no hospital em conjunto com a parteira. Foi uma conversa muito boa, pude agradecer sua atenção e cuidado durante o pré-natal e antes de desligar perguntei se poderia passar no consultório na segunda-feira, caso nada acontecesse. Na verdade foi um telefonema libertador e acho que a partir daí as coisas engrenaram mesmo.

Fui ao parque com minha mãe e o Davi. Eles ficaram jogando bola e eu andando com o Pedro na barriga. Foi um momento inesquecível, delicioso, lindo. Quando pensava em parar, eu dava uma volta mais. Enquanto andava eu cantava baixinho:

“Espero por Ti / Sou sede de Ti / Ouve meu grito / Quero liberdade/ Quero meu pé na estrada que me leva a Ti...” 

e

“A voz do anjo sussurrou no meu ouvido / E eu não duvido, já escuto teus sinais / Que tu virias num amanhã de domingo / Eu te anuncio nos sinos das catedrais / Tu vens, tu vens, eu já escuto teus sinais”.

Depois fiquei alongando, soltando o quadril, como minha parteira tinha me ensinado. Passamos à tarde na casa da minha mãe, brinquei muito com o Davi no quintal, com o barrigão de fora, agachando para aliviar as contrações. Uma delícia não ter nenhum problema em “exagerar”, “carregar peso” etc: já estava na hora de nascer, mesmo...

Algumas contrações pareciam mais “definidas”, eu liguei para minha parteira umas duas ou três vezes, um pouco preocupada com o trânsito do horário de pico. Ela me disse que daria tempo e que eu não ficasse racionalizando, medindo as contrações, mas que deixasse meu corpo se entregar, que eu iria perceber a evolução mesmo sem cronometrar. Segui a risca essa sugestão. Estava um dia bem quente, no início da noite fui tomar banho, pensando “será o último banho grávida?”. Umas oito e pouco tive uma contração definida e senti uma umidade, não sei bem o que era. Estava meio alheia às conversas da família, na sala. O Rodrigo chegou para nos buscar. Eu tinha ido dirigindo, mas fui falando com ele à tarde por telefone e decidimos deixar o carro lá e pegar no dia seguinte (rsrs, o carro ficou lá por um bom tempo!).

Fui embora certa de que o Pedro nasceria naquela noite. O Davi dormiu no carro. Ao chegar em casa, separei umas fraldas, toalhas, e deixei em cima da mesa. Parecia tudo pronto. Na verdade, ainda tinha muita coisa para ser feita, mas é como se nada importasse, o essencial estava lá. Assisti um pouco de televisão, era tão estranho pensar que supostamente alguns instantes antes do parto tudo estava tão normal, sem cerimônia nenhuma... brinquedos no chão, roupas espalhadas, louça na cozinha (até que a casa estava arrumadinha, porque passamos o dia fora!). E por outro lado não havia escândalo nenhum nisso. É o fluxo da vida mesmo.

As contrações silenciaram. Fui deitar por volta das dez com uma sensação de “parou“. Liguei para minha mãe dizendo que dormisse tranqüila, porque pelo jeito não estava acontecendo mais nada. Fiquei deitada, mas não peguei no sono logo, fiquei rezando e adormeci mais de onze horas. Meia noite e vinte acordei com uma contraçãaaaao. Fui ao banheiro, voltei e deitei mais um pouquinho para descansar, mas não cairia no erro de ficar deitada como fiz durante o trabalho de parto do Davi (como era madrugada, minha intenção era dormir entre as contrações). Como mudei nesses dois anos! Como aprendi sobre gestação, parto, nascimento, e sobre mim!

Tentei ir para a sala, mas o resto da casa me parecia “impessoal”, quis ficar no quarto mesmo. Fui para a cozinha e comi alguma coisa, voltei para o quarto com a bola suíça. Fiquei sentada na bola rebolando, com o rosto apoiado na cama, numa almofadinha. Fui ao banheiro várias vezes.

Por volta da 1:30 chamei o Rodrigo e decidimos ligar para a parteira. Ele foi buscar o telefone, eu mesma falei. Ela me perguntou a freqüência das contrações e eu disse “mas, você me falou para não medir...”. Ela me orientou a ir para o chuveiro e eu perguntei se isso não relaxaria e faria as contrações pararem. Ela falou bem sério comigo perguntando o que eu queria. Em nenhum momento eu tive dúvidas de que ficaria em casa, na verdade para mim já estava acontecendo e assim continuaria, mas entendo esse questionamento dela como mais um convite a parar de racionalizar (se no chuveiro o processo parasse, era porque não era trabalho de parto, senão continuaria e pronto. Deixa fluir.). Nem registrei detalhes da conversa, porque as contrações estavam fortes. Quando vi que ela ia desligar, eu disse que durante o telefonema tinha tido três contrações (tempos depois, quando a conta de telefone chegou, vi que essa chamada teve quatro minutos e
20! E eu tive três contrações! Foi bom mesmo não ter medido).

Fui para o chuveiro. Muitas vezes, quando eu imaginava o trabalho de parto, pensava que seria bem humorado subir na balança imediatamente antes e imediatamente depois do parto. Mas naquela hora olhei para a balança e não tive humor nenhum para fazer isso, rsrs... Engraçado que pensei “daqui a pouco, quando a dor melhorar, eu subo”. Até parece...

Fiquei em pé com a água morna caindo nas minhas costas por um tempo. Foi bom porque aliviou o calor, mas logo comecei a ficar com frio. O Rodrigo fechou a janela do banheiro e começou a derreter... Resolvi ficar de quatro, rebolando, no chão da banheira, mas logo meus joelhos e cotovelos começaram a doer bastante por causa do meu peso. O Rodrigo foi buscar o tapete de EVA do Davi para eu me apoiar, mas não deu muito certo porque as partes começaram a boiar e ficar arrumando me irritava. Pedi umas toalhas de rosto e o Rodrigo me ajudou a colocá-las sob os braços e joelhos. Aliviou por pouco tempo, mas em alguns momentos essa dor era mais incômoda do que as próprias contrações. Lembrei que soltando a mandíbula a gente solta a pelve também e comecei a abrir e fechar a boca, emitindo um gemido como um /gzangzangzan/ mal articulado, especialmente durante as contrações.

“Daqui a pouco” escutei a voz da minha parteira, Vilma: “pra frente e pra trás” (minha tendência era sempre rebolar para os lados). Eu sorri, disse “oooi”. Perguntei as horas, eram 2:30. Não acreditei que uma hora havia se passado, parecia muito menos! Perguntei se ela queria que eu avisasse sobre as contrações, e eu logo disse “acabou de acabar uma” e uns cinco segundos depois “não, só está acabando agora”, ela riu. Eu mesma não ia conseguir avisar e logo percebi que com a experiência dela ficava mais do que nítido quando começava e acabava a contração, então desisti. A Vilma perguntou se tínhamos ligado para a médica, então eu pedi que ela fizesse isso. Ao voltar ela não disse nada. Depois perguntou se eu queria verificar a dilatação. Eu aceitei. Tive que mudar de posição na banheira para me aproximar dela e percebi como estava difícil comandar meus movimentos. Sete centímetros! Que alegria! Fiquei muitosatisfeita, comemorei com o Rodrigo, “uaaau!”, mas logo pensei “ai, e os outros três?!”.

Uma vez, conversamos sobre nossa vontade de que o Pedro nascesse na água. A Vilma fechou a tampinha da banheira para já ir enchendo, acho que ela viu que estava progredindo rápido. Fiquei mais um pouco ali, rebolando, movimentando a mandíbula, gemendo. A sensação térmica indefinida e variável estava muito incômoda. Por causa da dor nos apoios, fiquei em pé novamente, embaixo do chuveiro, com a cabeça tombada para o lado direito. A Vilma me sugeriu retificar a cabeça e perguntou se eu estava evitando molhar o cabelo. Não era isso, eu não sei por que estava torta, mas era muito custoso comandar o movimento de arrumar a cabeça.

Em algum momento perguntei se eles tinham conseguido falar com a médica, só para ter uma ideia de quando ela chegaria, mas a Vilma disse que não. Eu estranhei e ela disse que o celular deu caixa postal, se estava tudo bem pra mim. Olhei pro Rodrigo e fiz que sim com a cabeça, na verdade na hora não me importei nem um pouco com isso, não dei espaço para me importar, quis “continuar meu trabalho” sem gastar energia lidando com esse inesperado.

Não consigo lembrar com exatidão a cronologia desse pedaço, mas sei que quando eu estava mergulhada na água da banheira senti vontade de ir ao banheiro. Com muita dificuldade (começar a falar era difícil também) disse isso. A Vilma disse que eu podia fazer ali mesmo, depois era só remover. Num instante vi o Rodrigo chegar no banheiro com um balde e uma pazinha de lixo. Ri, olhei para a Vilma e ela riu também.

Achei isso lindo, essa passagem tão boba ilustra muito bem como o Rodrigo estava ali presente, completamente disponível. Mas eu ainda estava tentando entender se era mesmo vontade de ir ao banheiro.

A Vilma disse “depois a gente troca a água”, mas aquilo me deu uma preguiça tremenda, encher tudo de novo? Ia demorar, minha vontade era “agilizar”. Não falei nada, acho que só acenei “não” com a cabeça. Ela me disse para não segurar a vontade, porque quem segura uma coisa segura outra – no caso, o bebê! – também.

Então eu me superei e saí dali, apoiada pelo Rodrigo. Sentei no vaso e a pressão foi muito forte, como se estivesse sentando numa cadeira. Eles colocaram uma toalha nas minhas costas, porque o frio aumentou muito nessa hora. Vi que não ia acontecer nada e resolvi ficar de cócoras no chão. Segurei bem firme na pia e comecei a transferir o peso de uma perna para outra, com o quadril bem baixo.

A parteira tinha escutado o coraçãozinho do Pedro umas duas vezes na banheira e nesse momento escutamos de novo e ela me mostrou como estava posicionando o aparelho bem mais para baixo, sinal que ele estava encaixando cada vez mais. Ouvimos o coraçãozinho dele por um bom tempo, perguntei se estava tudo bem, ela me garantiu que estava tudo ótimo e que seria a primeira a dizer caso não gostasse de alguma coisa. A partir daí nem pensei em me preocupar com isso, apenas confiei.

Foi muito bom sair da banheira, acho que estava cansada da posição. Mas a dor continuava muito forte, só a posição estava melhor. Quando eu estava de cócoras foi a única vez que fiquei contrariada pelo fato da médica não estar lá, porque me lembrei que tínhamos providenciado uns remédios homeopáticos para o parto e certamente algum deles poderia aliviar aquela dor. Dias depois comentei isso com a parteira e ela falou que eu podia ter dito isso a ela; realmente podia, mas falar dava tanto trabalho...

O Rodrigo ficou sentado na tampa do vaso, atrás de mim, me sustentando pelas axilas. E eu balançando de cócoras. O contato físico com o Rodrigo durante o trabalho de parto foi impressionantemente confortável.

O toque da Vilma também; os dois não ficaram pegando em mim o tempo todo, mas os momentos em que me lembro de ter sentido o toque deles foram de muito alívio. Sempre que eu “aconselho” alguma amiga grávida, eu faço questão de dizer como é fundamental o contato físico do marido no trabalho de parto.

De vez em quando eu choramingava alto, não queria gritar para não acordar o Davi, mas nem senti mesmo vontade de gritar. Estava bem dolorido, nos intervalos entre as contrações doía também, como se houvesse uma dor contínua e picos de dor sobrepostos a ela. Nessa hora me lembrei de Nossa Senhora. Tudo pareceu ficar mais fresco e mais claro. Veio a inspiração de cantar e eu comecei, com uma afinação que não era minha:

“Ó minha Senhora e também minha mãe
Eu me ofereço inteiramente toda a Vós
E em prova da minha devoção eu hoje vos dou meu coração
Consagro a Vós meus olhos, meus ouvidos, minha boca
Tudo o que sou desejo que a Vós pertença
Incomparável Mãe, guardai-me e defendei-me como filha e propriedade vossa. Amém”

Tudo ao redor pareceu parar. Experimentei um alívio muito profundo enquanto cantava. Depois disso, entre as contrações eu simplesmente repousava. Vinha a dor, forte, dura, e depois eu só sentia conforto e paz. Estava num colo de Mãe, no colo de uma Mãe que, há dois mil anos, numa estrebaria, deu à luz a Luz.

A Vilma me perguntou se eu queria comer. Lembrei que tinha lido sobre mel no trabalho de parto e tinha providenciado para essa hora. Pedi ao Rodrigo, mas a Vilma perguntou se eu não queria alguma coisa salgada que tivesse em casa ou uma fruta. Eu pedi manga “cortada” – como se ele fosse e trazer uma inteira... rsrs. Comi uns pedaços e falei “preciso passar fio dental”. A Vilma arregalou os olhinhos, haha, não cheguei nem perto de expressar que estava brincando.

Em algum momento dessa etapa em que eu estava entre vaso/chão, por volta de umas 3:00, o Davi chorou. Lembro que o Rodrigo não estava no banheiro, então acho que ele tinha ido buscar a manga, e eu pedi à Vilma que verificasse se ele tinha ouvido o Davi. Foi muito ruim ficar sozinha. O Rodrigo atendeu o Davi, que dormiu num instante, e voltou.

De vez em quando a Vilma abaixava para olhar entre minhas pernas, e eu pensava “o que ela está fazendo, não sabe que ainda vai demorar?!”. Ela comentou que eu estava na transição para o expulsivo e eu disse “não, não é assim a transição!” Hahaha, acho que minha expectativa era de uma “solenidade” nessa hora, como se aparecesse um luminoso em algum lugar anunciando a transição. Depois de um tempo resolvi perguntar se estava na transição, só para ouvir de novo, e ela disse que já estava no expulsivo. Muito estranho como é mesmo uma divisão didática, não foi nada “definido”.

Ela viu que meus pés estavam ficando roxos e me sugeriu esticar as pernas ali no chão mesmo (acho que tinham estendido uma toalha antes de eu sair da banheira). Eu demorei muito para responder. Tinha a impressão de que não conseguiria, porque era muita pressão embaixo, parecia que não poderia fechar as pernas para a “manobra”. Comentei que queria deitar na cama, mas um pouco descrente que aquilo fosse possível. Recebi o maior incentivo, a Vilma disse que eu poderia tentar dormir um pouco e o Rodrigo praticamente me carregou, eu fui bem curvada e fiquei de quatro na cama (suíte).

A Vilma foi arrumando uns travesseiros sob minha barriga e me cobriu, o que foi muito ruim, porque nessa hora eu estava com calor. Mas eu não conseguia expressar isso, não estava entendendo direito se tinha algum motivo para me cobrir, até que perguntei se precisava ficar coberta e a Vilma entendeu e tirou as cobertas. Continuei rebolando e fazendo aquele som durante as contrações, mas estava tensa depois da “mudança” para a cama. Tomei consciência disso e tentei relaxar, lembrei que Deus estava cuidando de mim e da presença de Nossa Senhora. Soltei muito meus ombros e meu rosto, de bruços sobre o travesseiro, deu certo, foi muito bom, expirei tranqüila algumas vezes, é como se esses breves momentos de relaxamento entre as contrações tivessem a qualidade de um cochilo. Na dor eu choramingava, nessa hora foi mais alto, e optei por não me preocupar em acordar o Davi, como se tivesse uma clareza que agora ele não acordaria.

A Vilma me pediu para deitar de lado, para que ela pudesse colocar o lençol descartável na cama. O outro lado da cama estava forrado com plástico há algumas semanas, para quando a bolsa estourasse, mas a lucidez desses detalhes não combina com trabalho de parto, eu até pensei nisso, mas deixei pra lá. Continuei deitada do lado esquerdo e pedi a bola para apoiar minha perna direita, estava pesando muito. O Rodrigo deitou atrás de mim, bem pertinho, com a mão meu ombro e me lembrando de abaixar o queixo (minha tendência era hiperestender o pescoço). Sentir o toque do corpo dele foi novamente muito confortante, disse isso e ele se aproximou mais. Tiramos a bola.

Pedi pra Vilma “fala que eu vou conseguir?” e ela imediatamente: “mas você já tá conseguindo! Tá nascendo!”. Perguntou se queria que apagasse a luz, eu aceitei, foi ótimo, porque eu não teria me lembrado disso e ficou muito acolhedor o ambiente com a luz do banheiro acesa e a do quarto apagada.

Então ela disse que quando eu tivesse vontade poderia fazer força. Que bom que ela falou isso, porque pode parecer maluco, mas eu tinha esquecido completamente da força. Até aquele momento nem tinha me passado pela cabeça fazer força! E eu pensava que, indo tudo tão natural assim, seria uma vontade natural também. Na verdade em momento nenhum eu senti os puxos, e, como no parto do Davi - com ocitocina sintética - eles formam muito definidos e intrusos, acho que estava esperando algo assim. Bem, tentei fazer uma força só para ver o que acontecia e o interessante foi que no fim da força, aí sim dava vontade de fazer uma força ainda maior e eu sentia o Pedro descendo.

Não sei quantas forças fiz, acho que umas oito ou 10, talvez mais. A bolsa literalmente explodiu numa força, eu e o Rodrigo tivemos a impressão de ver o contorno do líquido no ar, como nos filmes em câmera lenta. A Vilma ficou toda molhada e eu pedi desculpas, hahaha. Foi gostoso quando toda aquela água quentinha saiu, como se a pressão diminuísse.

A Vilma sugeriu baixinho para eu chamar o Pedro; eu fiquei relutante por uns segundos e quando comecei não parei mais: “Vem, Pedro, vem com a mamãe, filhinho, vem no colo da mamãe!”.

Esse momento na cama deve ter durado uma meia hora. A Vilma insistiu para eu pôr a mão na cabecinha do Pedro quando ele coroou, eu só queria empurrar, queria que nascesse logo; eu estava segurando a minha perna e era muito trabalhoso comandar o movimento do braço para tocar a cabecinha do Pedro. O Rodrigo levou minha mão e eu senti o cabelinho dele. Continuei fazendo força e senti um ardor e só nessa hora lembrei da possibilidade de laceração, mas não dei a menor importância para isso, o ardor ia aumentando e eu fazendo mais força, não tomei cuidado nenhum.

Senti a cabecinha sair, o maior alívio do mundo, uma sensação muito agradável, a Vilma desenrolou uma circular de cordão rapidinho (eu nem percebi direito) e depois mais forças e o corpinho saindo, deu para perceber o corpinho dele “afinando” do bumbunzinho para os pés. 3:56h. Ele fez “ihiii”, baixinho, não chorou. Imediatamente ela o colocou em meu colo, eu disse: “que pequenininho!” e eles dois “não, não é pequenininho não!”. Eu sentia o cordão esticado por fora da minha barriga. A Vilma ajudou o Pedro a abocanhar o peito e ali ele ficou, conectado comigo, mamando, deitado no meu braço esquerdo enquanto eu segurava o bumbunzinho molhado dele com a outra mão. Aquele cheiro de filho, tão especial, que eu sinto agora ao escrever. Não chorei na hora, foi um êxtase, parece que a emoção passou do ponto que faz chorar.

A Vilma colocou uma fralda de pano e uma toalhinha de capuz, bordada pela minha sogra, cobrindo o Pedro no meu colo. Falei um pouquinho com ele, nós três adultos ficamos conversando um pouco. Sem a menor pressa a Vilma pegou a tesoura para cortar o cordão. Deitei de costas, com muito custo. O Rodrigo nunca pensou em cortar o cordão, estava decidido que não cortaria e eu não ia questionar. Mas nessa hora ele tomou a iniciativa como se fosse a coisa mais clara do mundo e cortou. Disse que ficou impressionado com a dureza do cordão.

Só a partir dessa hora lembramos de fotografar. Queria muito ter mais fotos. As que temos não estão estéticas. Mas as lembranças são tão lindas!

Percebi uma movimentação da Vilma e lembrei da placenta... Falei “ah, deixa a placenta pra lá, não quero mais!”, mas não tinha jeito... Enquanto o Pedro mamava senti uma bola saindo, foi gostoso, fiquei animada achando que tinha sido a placenta, mas foi só um coágulo, beeem mais fácil. Fiz uma força e senti uma cólica, a placenta saiu aquela sensação tão boa de alívio, embora a laceração de grau 2, de uns 3 cm, estivesse ardendo. Pedi para ver a placenta, coisa que queria desde o parto do Davi, quando meu pedido, idêntico a esse, foi simplesmente ignorado. A Vilma explicou e mostrou tudinho. Na penumbra não consegui ver com nitidez, mas fiquei satisfeita. Achei a placenta linda. Ela ficou guardada na geladeira e no dia seguinte minha mãe a enterrou num vaso grande onde está plantado um jasmim viçoso e cheiroso. Com o cordão umbilical minha mãe montou um formato de coração.

A Vilma deu uma arrumada na bagunça do quarto, perguntou se estava tudo bem e foi para a sala, para que pais e filho curtissem o momento com privacidade. O Pedro não parava de mamar. Eu e o Rodrigo ficamos reconstituindo tudo, tentando lembrar como tinha acontecido, o Pedro era parte da cena, era estranho falar dele com ele ali, mas ele estar “do lado de fora” era apenas a conseqüência, foi tudo um contínuo. Eu estava eufórica, acordadíssima, aquele momento pós-parto imediato poderia ter durado muito mais. Se não me engano foi nesse período que o Davi deu sua segunda acordada da noite, eu até me animei pensando que ele conheceria o irmãozinho, mas o Rodrigo foi atendê-lo e ele dormiu instantaneamente.

Quando a Vilma voltou, ficou espantada pelo Pedro ainda estar mamando sem parar. Tinham se passado 50 minutos desde que ela saíra. Então ela pediu licença para pesá-lo e vesti-lo. Para isso, o Rodrigo o segurou pela primeira vez. Eu fiquei muito emocionada, chorei rindo, queria abraçá-los, mas não conseguia nem me mexer. Tirei umas fotos borradas, a Vilma tirou umas fotos borradas da gente, sem flash, eu toda esparramada.

Pesamos o Pedro duas vezes, porque esquecemos de tirar foto na primeira pesagem, hahah... parecia que eu queria descontar as fotos perdidas... 3,680g. Ele chorou na segunda vez, foi muito legal ouvi-lo. A Vilma perguntou onde estava a roupinha que o Pedro vestiria e ela estava na mala “da maternidade”, rsrs, que ficou por semanas no quarto dos meninos. Por um instante pensamos que o Davi acordaria, mas lembrei que antes de deitar eu a trouxe para o nosso quarto. O Rodrigo encontrou lá dentro da mala: body e mijão amarelinho com balinhas e docinhos desenhados em laranja, macacão amarelo com cavalinho “upa, upa!”, escolhido pelo papai, já usado pelo Davi, gorrinho de lã amarelinho. Este deu um pouquinho mais de trabalho para encontrar na mala... A fraldinha descartável minúscula que ele usou, a Vilma disse, rindo, que não daria nem por uma semana. Eu tinha imaginado vestir o Pedro, mas nem considerei essa possibilidade na hora, tinha sido muito exigida fisicamente.

A Vilma perguntou se precisávamos de alguma coisa ou se podia ir, deu algumas orientações, “Aline, descansa, você pariu” (que delícia ouvir isso!). Disse que voltaria no dia seguinte, ou que ligássemos se precisássemos dela à noite. Eram umas 5:30h.

Quando o Pedro voltou para o meu colo, dormiu. O colocamos ao meu lado, na cama, foi aí que eu vi o rostinho dele pela primeira vez. Na verdade, só no meio do dia vi direitinho, mas parecia um rosto tão misterioso, tão desconhecido, tão diferente do meu “parâmetro” (o rosto do Davi), me atraía para examinar cada detalhe, para olhar mais e mais. O Rodrigo não ficou à vontade em ficar deitado na cama, acho que teve medo de “atropelar” o Pedro, e foi para a sala. Logo o Pedro chorou e eu o “arrastei” para meu peito, foi bem difícil ajudá-lo a abocanhar, porque eu não conseguia levantar a minha cabeça, mas nem precisou: ele deitou em mim e dormiu. Lembro nitidamente do sonzinho da sua respiração irregular.

Dei umas cochiladas, mas logo fiquei com vontade de fazer xixi; muita dor nas costas, muita dificuldade para levantar, desisti. Tentei chamar o Rodrigo algumas vezes, mas não queria acordar o Davi. Quando escutei o Davi acordar, por volta das 7:00h., achei ótimo poder chamar bem alto o Rodrigo.

O Davi pediu água de côco e enquanto o pai foi buscar, ele saiu do quarto, coisa que nunca faz. Passou pela porta do meu quarto e eu disse “Davi, sabe o que aconteceu? Olha quem tá aqui!” E ele: “Ah, o Pido! Quero essa água de côco aqui!” (apontando para o cabelinho do irmão). Então eu fiz de conta que entreguei um copo a ele, a partir da cabecinha do Pi, que então já estava sem o gorro, bem quentinho no peito da mamãe. Ele recusou o “copinho”: “Nãaao!” Ficou na pontinha dos pés e fez um carinho na cabecinha do Pi. Saiu correndo atrás de sua água de côco.

Eu poderia continuar relatando os acontecimentos um atrás do outro. Uma das coisas mais impressionantes dessa experiência natural foi a quão contínua ela foi. Até hoje, dia em que o Pedro comemora seus quatro meses, um fato atrás do outro, uma emoção atrás da outra, um desafio atrás do outro, sem interrupções. Nesses quatro meses, os que passaram mais rápido em todos os meus trinta anos foram ficando mais nítido a cada dia como a vida é feita de imprevistos e como as coisas acontecem “apesar” de nossas previsões: a realidade se impõe.

Agradeço muito a Deus pela nossa saúde; a Nossa Senhora, por ter me acompanhado tão maternalmente; ao Rodrigo, por confiar em mim, por nos amar e querer o melhor para nós; ao Pedro, por ter feito seu trabalho com tanta simplicidade e continuar assim até hoje; ao Davi, pela forma carinhosa como recebeu o irmãozinho e sempre o tratou; a Vilma Nishi pela sensibilidade de fazer apenas o necessário, com tanto respeito.

Escrever este relato foi surpreendentemente bom.

_Aline Elise Gerbelli Belini, mãe de Davi e Pedro.

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