sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Mãe craft, ou seriam mãos crafts!

Ainda ano passado convidamos Elly Chagas, educadora lá em Santo André, em São Paulo, para nos contar as peripécias divertidíssimas das festas que costuma organizar para o filhote Caetano, em seus aniversários, pois já sabíamos, rede social afora, que ela bota a mão na massa, literalmente, e prepara cada item da decoração, no bom estilo Faça-Você-Mesm@!

Inclusive, eles já foram premiados em uma promo por aqui, em novembro de 2010!

Numa prosa super especial, e cheia de carinho ela nos escreveu, com detalhes como é essa grande missão, de transformar com criatividade o Rá Tim Bum de Cae! Bora conferir?!



Como parir um dragão

Desde quando Caetano estava para completar seu primeiro ano e minhas mãe e irmã vieram conversar comigo que iriam contratar um buffet para celebrar sua chegada na casa delas, deixei claro: “Eu cuido da decoração. E também de alguns alimentos mais saudáveis”. Caetano nascera num parto normal, numa casa de parto e me transformou. Por isso a cada ano, craftar sua festa tem sido um trabalho de parto.


Naquele momento ainda pouco sabia sobre craftagem, achei poucas referências, criei algo ainda muito próximo das festas mais comuns no Brasil, com muito TNT, EVA e balões de ar compondo o tema jardim. O diferencial ficou por conta do convite e de imãs de geladeira com edição gráfica minha.


No segundo ano, fizemos um pouco diferente a começar pela escolha de um tema pelo qual eu e ele compartilhávamos grande carinho: o personagem Menino Maluquinho, do Ziraldo. Foi incrível! Até a boleira do buffet viajou com a gente criando um “bolo em quadrinhos”. Usamos panelas na decoração e as bandeirolas substituiriam para sempre os balões. Nas mesas dos convidados barquinhos de papel.
Lembrancinha: um CD com a trilha do filme, além do imã mais uma vez editado em computador pela mamãe. Tudo criado em casa. E, durante a festa as crianças pintavam desenhos do personagens nas mesas que tinham também um porta lápis e soltavam bolinhas de sabão.


Tudo isso começou a se transformar em uma troca mãe e filho a partir do terceiro ano. Conversamos sobre que tema deveria ser, acredito que faltando uns 7 meses para a celebração e concordamos com “Música”. Os balões voltaram, mas só como adorno de mesa. Comprei instrumentos na tal 25 de março e utilizei outros brinquedos musicais que ele já tinha. Repetimos as lembrancinhas (CD com as preferidas do pequeno à época e imã editado por mim). Já não houve TNT nem EVA. Utilizei Contact colorido e adesivos destes de parede para compor o painel.


No quarto ano do pequeno, o tema foi escolhido bem por ele. Muito antes da data. Trouxe para casa muitos livros e audiovisuais com o tema: Espaço Sideral. Iniciamos um estudo do tema, andávamos por aí pensando em foguetes e planetas. Aprendemos muito juntos. O espaço físico da casa era pouco, mas o Espaço Sideral que criamos por quase um ano era vasto para a imaginação. Os coleguinhas gostaram muito e Cae também.


Terminada a festa de quatro anos, Cae já tinha eleito o tema Piratas  para a próxima celebração. Foi quando mergulhei fundo no mundo crafteiro, conheci o trabalho da Stéfi Machado e coletei muitas coisas pela internet. Um ano de trabalho de parto: pesquisando e respirando pirataria com Cae. Bandeirolas, barcos piratas de papel, papagaio de pelúcia pirata, caça ao tesouro, tapa-olho… O painel desta vez exibia o número cinco rodeado por adesivos piratas e uma foto do pequeno. Até giz de cera pirata confeccionamos em casa. Muita criança correndo, gritando, pulando pelo quintal. Ao término daquela festa pensei: difícil superar. Pode-se manter este nível, mas superar…


E já sabíamos que o tema de 6 anos seria ‘Dragão’…


De como parimos um dragão


Com toda esta experiência acumulada, saímos numa festa pensando na outra. Como muita gente acompanhou o processo pela rede social e interagiu, decidi criar um grupo chamado festas infantis alternativas e DIY ideias no Facebook e durante o ano ele cresceu assustadoramente, ajudamos muitas famílias a parir festas deliciosas e é um grupo muito especial de troca.


Tudo começa aqui, na internet. Utilizo o “Google Alerts” da minha caixa de email para receber notificações de festas no tema. Uso o tema em português e inglês: “festa infantil dragão”, “dragon kids party”. Cada vez que alguém publica algo assim na rede o google me envia o link. Eu entro, salvo numa pasta “níver2013″ cada ideia interessante durante todo o ano. Caminhamos na rua sempre de olho em coisas dragonescas e nos mêsversários do pequeno, como ele aprendera a ler entre quatro e cinco anos, comprava um livro da série “Como treinar o seu dragão”. Faltava pouco mais de um mês para a festa quando fui definindo graficamente os convites.




Geralmente uso a mesma arte ou parte dela para compor o imã de geladeira.


Levo para imprimir fora, nestas pequenas gráficas de porta de universidades o convite (compro vergê e levo) e nestes quiosques de fotografia a foto para o imã. Compro então a manta de imã num destes locais de silk screen, onde também compro por metro o Contact colorido para o painel.


Nas bandeirolas alternei gravura de dragão que fiz com canetinha e aquele transferidor plástico e adesivos que também levei para imprimir com os convites.





Depois, eu vi uma capa de dragão linda na internet. Eu, que nada entendo de costura resolvi tentar. O resultado:





As lembrancinhas deste ano conseguiram nos representar por demais: um dragão pregador que confeccionamos juntos mesmo (Cae pintou muito pregador de verde) e um livro cuja história criei e Cae ilustrou! Tudo num saquinho que também decoramos à mão eu e a tia Dadaya!




Para as crianças criamos viseiras de dragão e uma grande chama era cenário para fazerem uma foto!




Nas mesas, cascas de ovos que pintamos eu e Cae e bebês dragões feitos com papel rococó  e olhinhos (ideia minha a partir de uma outra ideia que vi na rede) davam o tom num pratinho com bolinhas de amendoins!




E fomos a cada dia criando a partir de ideias que encontrávamos por aí. Uma oficina de dragão chinês, com papel e lápis de cor empolgou as crianças. Eu e Cae fizemos a contação da história do livro “Meu filhote de dragão”. Assim a festa foi uma festa também dentro de mim, cumprindo a missão de trazer a mim e ao pequeno novamente a sensação do ritual de um parto.
  

* Elly Chagas é mãe do menino maluquinho Caetano, professora de Educação Infantil na rede municipal de Santo André/SP. Amante da arte e blogueira há 8 anos, edita os blogs Certezas Provisórias e Caetaneando, entre outros.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Mamífera Convidada - Desatando nós. Ou como os fios da vida nos entrelaçam

No início do ano recebi um convite especial, vindo de Kalu Brum, uma das idealizadoras do Portal Vila Mamífera: escrever para o Mamíferas, como Mamífera Convidada, ao lado de Anna Gallafrio e Ana Thomaz. A pauta? Livre!

E, impossível não refletir sobre os novos caminhos traçados, ou como disse uma grande amiga no dia do meu aniversário, comemorado no início deste mês, minhas reinvenções!

O mote parto já não é mais um monotema por aqui! Linhas, agulhas, botões e retalhos fazem parte do bê-a-bá desta blogueira-comadre que vos fala - Florais de Bach também, rs!

Bora lá ler o texto Desatando nós. Ou como os fios da vida nos entrelaçam, publicado ontem, segunda-feira, dia 20, disponível aqui! Abaixo, o trecho:

A Lavanda acalma! A Camomila também. Já a Hortelã é boa para cefaleias. Alecrim para estimular e aliviar a ruminação mental, Eucalipto para descongestionar!” – exalto.


A conexão feminina se faz na palavra, no toque, no sorriso dado, e no ouvir atento, tendo o entrar e sair da agulha no tecido sua extensão, juntando pedaços e histórias!


Foto: Bianca Lanu.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

AgendArte em nossa Loja Virtual

Com imensa alegria divulgo uma novidade em nossa Loja Virtual - agora teremos a AgendArte para nos acompanhar neste ano de 2014!


Fruto da Família Guerra, este almanaque anárquico, com Anarquino ilustrando suas páginas, com muita poesia e lindas ilustrações vai encantar os leitores que ainda não a conhecem - nascida em Curitiba/PR, em 1993, pelas mãos de Gerson Guerra e Cia, integra o selo AgendArte Livros, que dispõe de um espaço físico com livraria e sebo, na Av. Manoel Ribas, n° 110, em Curitiba/PR, ou na Feirinha do Largo da Ordem, aos domingos!

A felicidade é tamanha, pois desde os áureos anos da universidade que conheci esta publicação, que a cada ano se veste de criatividade, tendo adquirido nos fins dos anos 90 a minha primeira AgendArte, sendo que de lá pra cá sempre é minha preferência quando vou escolher a agenda nossa de cada dia!

No balaio das coincidências, ano passado soube que seu idealizador é irmão de nosso pediatra, o querido Dr. Henrique Guerra, me me mostrou a trilha dos Florais de Bach! Assim, poder incluir este item em nosso espaço tem um sabor a mais, aquele de fanzoca convicta, que admira muito este material! Como nada é por acaso, há um ano também conheci em Curitiba, numa Oficina de Bordados Arpilleras, que facilito Brasil afora, a ilustradora Maureen Miranda, que compôs a capa de 2013!

Abaixo, o Prefácio desta 21a. edição, por Alice Guerra, uma das filhas do casal empreendedor, e uma página para vocês se deleitarem:



Faça já o seu pedido através dos contatos:

Email -  lunabianka@yahoo.com.br
Telefone - (014) 98143-0576 (Tim), com Bianca Lanu

R$35,00 + frete!

sábado, 18 de janeiro de 2014

Multimídia Parto no Brasil - Parteira

Simbora que este sábado é dia de retomar nossa sessão de imagens, vídeos e áudios sobre este rico universo ligado às mulheres, gestantes e mães - nosso Multimídia Parto no Brasil!

Confiram os incríveis cartões vinculados em jornais, e também uma placa das parteiras e seus atendimentos, Brasil afora, compilados e disponibilizados para vocês! Sábado que vem tem mais!


De 1885, por Cley Scholz

De 1931, pelo O Collinense

De 1938, em Santos/SP

Foto de João Xavier




terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Blogagem Coletiva - Maternidade e violência obstétrica: pautas feministas

As questões da maternidade não agregam ao feminismo

Recentemente, um grupo de mulheres fundou a Artemis, organização não governamental que tem como um dos seus objetivos a erradicação da violência obstétrica no Brasil. A Artemis tem promovido atuação efetiva, com presença decisiva no Fórum Mundial de Direitos Humanos e junto à Defensoria Pública do Estado de São Paulo.

Também recentemente, as ativistas deste grupo foram duramente atacadas, não virtualmente mas presencialmente, no cara a cara, por pessoas que afirmavam não ser a maternidade uma causa feminista.

Isso aconteceu no início do mês de dezembro, dias 06 e 07, por ocasião do IV Ciclo de Conferências da Defensoria Pública do Estado de São Paulo. A participação da Artemis em tais conferências se deu no âmbito do Grupo de Trabalho dos Direitos da Mulher, tendo sido representada por 9 delegadas e com o objetivo de pautar o tema “violência obstétrica” como uma das metas da Defensoria Pública de São Paulo para os próximos dois anos.

A Conferência é um espaço da sociedade civil, onde todas as 90 propostas apresentadas devem ser de extrema importância para a sociedade em geral e para o Estado de São Paulo.

Ali estavam propostas importantíssimas para a questão da mulher: funcionamento das delegacias da mulher 24hs/dia, inclusive finais de semana; acolhimento de mães puérperas em situação de rua; criação de casas de passagem e abrigo especializado para mulher em situação de violência; criação de Juizados Especializados em Violência Doméstica; proteção à identidade de gênero; campanhas pela legalização do aborto; atuação na questão da violência obstétrica, entre outros de igual importância. É facilmente perceptível a grande relevância de todas as propostas, as quais, certamente, estão dentro do escopo dos movimentos feministas.

E a inserção da violência obstétrica como mais um tema a ser trabalhado e a ser combatido na sociedade é prioritário num contexto do Poder Judiciário onde pouco ou quase nada tem sido feito sobre o assunto.

Após a defesa de nossa proposta, duas delegadas de movimentos feministas da capital paulista se manifestaram contrariamente à inserção da violência obstétrica como violência contra a mulher: uma sugerindo que a questão da maternidade não agrega o feminismo, já que a maternidade, segundo ela, seria “uma forma de controle do patriarcado sobre o corpo da mulher”, e outra sugerindo que as delegadas deveriam votar em questões sérias e não em “questões que ainda estão no imaginário e não acontecem de fato”.

Tais manifestações de negação da violência obstétrica como causa feminista nos causaram brutal perplexidade. Não apenas pelo caráter discriminatório para com milhares de brasileiras que estão sendo violentadas durante o nascimento de seus filhos, como também pelo desconhecimento e desatualização de ambas as delegadas a respeito do tema. Não é possível ignorar dados sérios de pesquisas brasileiras realizados nos últimos três anos e amplamente divulgados nos cenários científico e midiático brasileiros, os quais já mostraram a toda sociedade civil a gravidade da questão. Muito menos desmerecer a violência sofrida por uma a cada quatro mulheres que dão à luz no Brasil, atribuindo a essa violência caráter de “invenção”, de “imaginário”, ignorando mulheres e suas dores.

A despeito de tais manifestações, continuamos nossa atuação enquanto grupo feminista organizado e conseguimos levar a proposta à plenária final. O resultado: a proposta de inserção da violência obstétrica como pauta relevante obteve a segunda maior votação da Conferência, recebendo 43 votos (a primeira recebeu 44, pertencendo à temática do idoso e pessoa com deficiência). É importante mencionar que, nesta conferência, cada delegado tem direito a 9 votos, que podem ser dados à mesma proposta. Nossa proposta somente foi aprovada porque nós, delegadas ativistas, nos articulamos e destinamos grande parte de nossos votos a uma única proposta e, considerando que tivemos apenas 12 votos entre 116 delegados, achamos pouco – e triste. Triste porque o GT do Direito da Mulher possuía cerca de 25 delegadas e nem metade delas entendeu a gravidade do que representa a violência obstétrica enquanto violação do direito à dignidade humana e que precisa urgentemente ser discutida, combatida e, principalmente, erradicada. Triste porque a violência obstétrica que afeta tantas mulheres em nosso país diz respeito ao corpo e ao direito da mulher no momento do parto e, paradoxalmente, justamente por isso não mereceu a atenção dos movimentos feministas. Embora satisfeitas pelo que consideramos ser uma vitória – a inclusão da violência obstétrica como pauta a ser discutida – é profundamente lamentável constatar o alto grau de misoginia presente entre as próprias mulheres, ao se recusarem a tratar a questão da violência obstétrica como violência à mulher. E, por ser violência contra a mulher, é obviamente uma causa feminista.

Feminismo, maternidade e empoderamento

Não sabemos se nesse contexto ou fora dele, alguns dias depois foi publicado no coletivo Blogueiras Feministas o texto “O ativismo materno para além do parto”.

Concordamos com alguns trechos do referido texto. Realmente nos incomoda muito ver/ler/ouvir alguns discursos que se baseiam em julgamentos da mulher que não pariu, ou porque não quis, ou porque não conseguiu, ou porque… sabe-se lá porque… Nós somos do  movimento pela humanização do parto e contra a violência obstétrica e, ainda assim, fazemos essa crítica, apenas porque soa a nós como grande discrepância e incongruência defendermos o direito da mulher de não ser violentada no parto e, ao mesmo tempo, violentarmos outras mulheres com nossos discursos pré-moldados e, por vezes, sem sentido.
Porém, ao começarmos a leitura de tal texto, sentimos algo como o que sentimos quando ouvimos alguém dizer: “Não sou racista, mas….” ou “Não sou machista, mas…”, ou “Acho que mulheres têm direitos, mas…”. À semelhança desse cartoon aqui:

Extraído daqui!

Ou seja: ao ler o texto, o qual começa reafirmando a importância do apoio à humanização do parto e ao movimento pela dignidade de parir, já sabíamos que viria um “mas”… E o “mas” que veio em seguida mostrou-se muito parecido com os “mas” mencionados anteriormente e o tom do texto se assemelhou em muito ao ataque sofrido pelas ativistas da Artemis em função do suposto não pertencimento da maternidade à pauta feminista.

O texto “O ativismo materno para além do parto” foi explicitamente direcionado a um blog, cujo nome – “Mulheres Empoderadas” – faz menção ao que viveu a própria autora do blog, que viveu cesáreas indesejadas antes de lutar e conseguir dois partos naturais, porque era esse seu desejo. Claro que sabemos disso porque a conhecemos e as autoras do texto não têm obrigação de saber. Entendemos isso. Mas, do mesmo modo que ninguém tem obrigação de saber disso, também não é possível traçar uma crítica ao que se “pensa” ser, porque isso seria apenas uma de muitas interpretações possíveis da razão do nome.

Arriscamos dizer que 90% das mulheres que curtem e “fazem” a página “Mulheres Empoderadas” não se intitulam empoderadas porque defendem e vivem a autonomia da mulher para parir de cócoras, na piscina, sem intervenções ou porque amamentam seus filhos no peito por tantos anos. Não. Intitulam-se assim porque venceram muitas lutas pessoais – e coletivas – para conseguirem fazer isso, lembrando que tudo isso aí representa grandessíssimas exceções no Brasil. Estamos falando de uma minoria. E por que é que o direito de escolha de uma minoria está sendo atacado tantas vezes?

Essas mulheres travaram grandes lutas para conseguirem parir do jeito que queriam e amamentar. Muitas delas foram demitidas por incompatibilidade entre a bombinha de extrair leite e o cartão-ponto. Não são empoderadas porque paririam assim ou assado ou deram o peito, mas por terem enfrentado um sistema nojento, machista e patriarcal para fazer isso. E, muitas vezes, enfrentaram e desafiaram a si próprias, gente que nunca pensou que fosse capaz de dar conta desse tipo de enfrentamento.

O texto tem razão quando diz que mulher empoderada vai muito, mas muito além de parir. E é exatamente isso que queremos dizer aqui: essas mulheres não podem ser resumidas a um corpo que pariu, mas a mulheres que, sim, venceram um sistema esmagador, cruel, violento, humilhante, degradante, onde chegamos invariavelmente como “mãezinhas”, “mamãezinhas”, que não podem gemer ou não gemeram quando fizeram o filho e – SÓ ENTÃO – pariram. Pariram OU NÃO. Porque grande parte, ainda assim, não consegue, porque o que acontece dentro de uma sala de parto é muitas vezes cruel, opressor, indignante e ultrajante.

São mulheres recebendo tapas nas pernas de profissionais da saúde. São mulheres proibidas de gemer ou gritar para expressar sua dor porque “pra fazer não gritou nem chamou a mamãe, vai gritar agora?!”. São mulheres amarradas de pernas abertas em estribos frouxos, que caem a todo momento, para receberem exames vaginais de cinco, seis, oito alunos que as tratam como um  número. São mulheres dopadas porque “estão dando trabalho”. São mães que veem seus bebês morrerem logo após o nascimento por má assistência. Estamos falando sobre essas mulheres.

E se, à semelhança dos exemplos citados no texto mencionado, houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por mulheres que escolheram não ser mães? E se houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por mulheres que escolheram abortar? E se houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por mulheres que nasceram com pênis? E se houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por quem nasceu com ovários e vagina mas não se reconhece como mulher? E se houvesse um blog chamado MULHERES EMPODERADAS escrito por mães de plantas, mães de gatos, mães de projetos? Faria mais sentido? Seriam empoderamentos mais bem vistos no contexto do “feminismo”? Essa crítica ao uso do “empoderadas” ainda seria feita? Sejamos sinceras: não seria! E não seria porque todas essas “subáreas do empoderamento”, digamos assim, todos esses feminismos, são respeitados e reconhecidos. Mas a maternidade não! A maternidade e o direito das mulheres que se tornam mães não são reconhecidos! A maternidade é um assunto que caiu num limbo que um feminismo específico dos muitos que existem não anda muito a fim de abraçar não… E tem sido assim mesmo considerando que mulheres que se tornam mães tornam-se, também, alvos preferenciais para inúmeras iniquidades e violências de gênero. Como ser demitida sem justa causa. Como ser preterida em concursos públicos. Como ser ridicularizada ou tida como “mulherzinha”, “fraquinha”, “mãezinha”. Como ser vista para sempre como subserviente ao ser que colocou no mundo.

Condições gerais da maternidade no Brasil

Mulheres mães brasileiras vivem em péssimas condições. Pelos rankings internacionais, feitos por diferentes instituições de pesquisa, como a Save the Children, o Brasil tem péssimo desempenho no que se trata do bem estar materno. Enquanto Cuba aparece com a melhor posição da América Latina, em 33o. lugar, nosso país permanece na 78a. posição, atrás da Ucrânia (país mais pobre da Europa) e da África do Sul. Mas o que os rankings não mostram é que os melhores desempenhos, medidos por variáveis como saúde gestacional, mortalidade materna e infantil, renda, emprego, educação, dentre outras, foram construídos ao longo do tempo, principalmente por políticas públicas focadas no bem estar das mães, pais e crianças. A Suécia, por exemplo, que figura há muito tempo entre a primeira e a segunda posição em diferentes rankings como esse, construiu políticas sociais focadas nas famílias, sob influência de um feminismo forte e preocupado com as condições de vida das mães – casadas ou não. Uma das medidas mais antigas e importantes nesse país foi o financiamento de creches acessíveis e de qualidade para as crianças de famílias monoparentais. Sabendo que em 90% dessas famílias quem se responsabilizava pelo sustento e cuidado das crianças eram as mulheres, os movimentos feministas do início do século XX já cobravam medidas especiais para acolhê-las. Com o tempo e o aumento da consciência da desigualdade de gênero nas famílias e no mercado de trabalho, e com a preocupação crescente com os direitos das crianças, a Suécia desenvolveu um sistema de pré-natal totalmente baseado na prática das enfermeiras obstetras, doulas e casas de parto, concomitante a uma política de licença parental remunerada de até 13 meses, a ser desfrutada por homens e mulheres, e que, assim, contribui para uma das melhores taxas de amamentação da Europa. Mas, claro, é importante lembrar que nesse país as mulheres passaram a ter direito ao voto e representatividade política muito antes do que no Brasil.

Nossa situação, então, pode ser explicada pela dificuldade que as mães e as mulheres de maneira geral têm encontrado para entrar na arena política e colocar suas demandas por serviços de saúde e de acolhimento de bebês conectados com as recomendações internacionais acerca do bem estar materno. Em nosso país, parece ainda pairar uma ideia majoritária de que maternidade e paternidade são assuntos da vida privada, que nada tem a ver com movimentos sociais e políticas públicas. Isso é um imenso engano! Desde a redemocratização e a gradual emancipação das mulheres no mercado de trabalho, o tema dos direitos familiares tem crescido. O Estado tem reconhecido o papel fundamental das famílias e das comunidades locais para a saúde (vide Programa Saúde da Família, base do SUS) e para o desenvolvimento humano (vide Programa Bolsa Família, empoderando mulheres nos confins do Brasil principalmente porque são mães!). Ainda é pouco. Muito pouco! Ainda temos um déficit enorme de creches e escolas infantis, onde faltam cerca de dez milhões de vagas. Ainda temos um sistema de saúde suplementar totalmente desconexo das diretrizes mais importantes da saúde materno-infantil levadas a cabo com muita dificuldade pelo SUS.

Ainda temos um congresso que não acredita na necessidade de uma licença parental (que inclua os homens – hoje os pais só têm direito a cinco dias corridos de licença).

Esse abismo de políticas para as famílias acaba reforçando também a reprodução da desigualdade econômica e racial entre as mulheres. Sem garantia de vagas em boas creches, e sem licenças parentais razoáveis, a mão de obra de outras mães, pobres e geralmente negras e/ou migrantes, é explorada pelas famílias de classe média. Essas trabalhadoras, na maior parte dos casos, ainda não têm seus direitos trabalhistas respeitados e não encontram apoio público para o cuidado com suas próprias crianças.

Concordamos com as autoras: o empoderamento feminino não pode ser deslocado da luta feminista. Inclusive o empoderamento materno. Por que, então, ele é “café com leite”? Que tipo de julgamento estamos fazendo sobre as mães que se “empoderam” para viver a maternidade à sua maneira?

Também concordamos com as autoras: não é possível falar em empoderamento feminino e ser contra a descriminalização do aborto. Essa é uma das maiores expressões de incoerência de quem defende o direito da mulher de escolher parir mas não defende a escolha de não ser mãe mesmo que tenha um óvulo fecundado. Não é possível falar em empoderamento feminino e achar que outra mulher não tem direito de dispor sobre o corpo dela. Não é possível falar em empoderamento feminino e ofender moralmente a mulher que está vestida sensualmente. Assim como não é possível falar em empoderamento feminino e desmerecer o empoderamento que culminou na fuga do sistema para parir dignamente, sem ser chamada de “gorda escandalosa” ou “égua parindo”.

As mulheres que têm feito jus ao seu direito de escolha e escolhido cesarianas têm tido seu direito respeitado. Quem não tem tido é justamente quem quer parir de cócoras, para usar apenas um exemplo. E quem é que vai defender essa aí? Ou, pior: quem é que vai defender aquela que, mesmo querendo isso, está tomando tapa e sendo xingada dentro de instituições de saúde, com o suposto aval da sociedade, que se nega a acolhê-las pelo não reconhecimento da violência sofrida?

Discordamos das autoras em mais um ponto. Nem sempre parir traz poder, biológico ou político. Nem sempre traz satisfação e beleza. Nem sempre traz o poder de contestar a medicalização. Na verdade, quase nunca isso acontece no Brasil. E isso porque a grande maioria das mulheres está parindo em meio a xingamentos, barriga esmagada por um braço ou uma mutilação vaginal. Então, o “parir poderoso”, novamente tem sido para uma minoria. Então vamos atacar a minoria? E a defesa dos direitos das minorias, era só um discurso nosso?

Ao contrário do que parecem achar outras pessoas, não temos visto um culto exacerbado ao lugar da “mulher mãe” como sinônimo daquela que larga tudo para cuidar dos filhos em tempo integral. O que temos visto, isso sim, são centenas ou milhares de mulheres em luta constante para satisfazer simultaneamente seu próprio desejo de cuidar de suas crias de perto e o desejo de seu patrão de produzir ou o desejo do marido de pagar contas, ou o próprio desejo de ter uma vida profissional ativa. O que há é uma pluralidade de vozes e, entre tais vozes, há as das que querem cuidar dos filhos em período integral – embora esteja muito longe de ser majoritário. A grande maioria das mães contrata uma creche cara e vai ralar e são poucas as que continuam a tirar leite do peito para amamentar… Ou vamos cair no erro de achar que os poucos gritos de “VAMOS VOLTAR PARA CASA!” que ouvimos nas redes sociais representam a maioria das brasileiras? O mundo é mesmo machista pra cacete, como as autoras mencionaram, e ninguém está podendo fazer isso no Brasil sem arcar com uma longa lista de julgamentos e preconceitos, mesmo quem se sente “empoderada”. As mães que têm conseguido representam mesmo uma minoria. O que algumas feministas têm chamado de privilégio representa também uma conquista árdua, a partir da tomada de consciência e desejo de mudança sobre as condições gerais de maternagem em nosso país. De novo, atacaremos uma minoria porque a consideramos “privilegiada”?

Reconhecer não significa estereotipar

Uma das críticas de alguns grupos à inclusão da maternidade como questão feminista é o fato de que isso reforçaria o estereótipo de que as mulheres são as únicas responsáveis pelos cuidados com as crianças.

Não querer reforçar a ideia comum de que os cuidados com a criança é algo natural na mulher é diferente de negar que não apenas a maternidade mas todas as funções de cuidados são executadas majoritariamente por mulheres. Ao afastar isso das frentes de debates feministas perdemos a oportunidade de não apenas desnaturalizar tais associações, mas também de exigir políticas públicas que liberem a mulher de tal condição. Como falar em cuidados compartilhados entre os pais se a licença paternidade é de apenas cinco dias, enquanto a licença maternidade é de quatro a seis meses? A não criação de vínculo parental pelo pai da mesma forma como acontece com a mãe, pela ausência de tempo dedicado, também traz nefastas consequências, como o acúmulo de tarefas pela mãe que também trabalha fora de casa. E esse é apenas um exemplo sobre como agregar questões de maternidade ao debate feminista, a fim de pleitear direitos como aumento da licença paternidade, resulta em melhoria de condições para as mulheres, em especial maior possibilidade de escolhas em suas vidas.

É importante lembrar, também, que muitas mulheres que estão em defesa de crianças cuidadas presencialmente estão é colocando o homem na jogada. Queremos crianças cuidadas não pela babá ou pelo professor em tempo integral? Então que venham os homens pra dentro de casa também! E, sim, estamos vendo isso acontecer, claro que em pequeníssimo grau, mas estamos vendo! Tem homem voltando pra casa para que a mulher, que ganha mais e está bem realizada em sua carreira, continue fora, sem que as crianças percam na qualidade do cuidado recebido. É maioria? Claro que não é. E de novo vamos atacar uma minoria?

O parto humanizado no Brasil, atualmente, está mesmo limitado a um recorte de mulheres da classe média. Fato. O que significa que todas as demais, financeiramente abaixo ou acima, estão atualmente fora dele – com exceções como as que têm acesso ao Sofia Feldman (MG – SUS) ou ao Elpídio de Almeida (PB – SUS), ou a parteiras tradicionais nos confins do Brasil e outras poucas. E, por conta disso, as mulheres da classe média que estão parindo dignamente são muitas vezes ridicularizadas ou chamadas de alienadas, umbiguistas, egotripistas, etc etc. E são essas mesmas mulheres da classe média que estão organizadas para lutar pelos direitos de todas por um parto sem violência ou mutilação. É uma das poucas vezes que o Brasil vê uma mobilização da classe média espirrando na assistência básica à saúde, no SUS, na legislação. Então, sim, é um privilégio da classe média, no momento, poder parir sem ser amarrada ou xingada ou sem tomar tapa. Mas essa classe média não está em berço esplêndido vangloriando-se de seu parto orgásmico – algumas nem sequer conseguiram parir como queriam e continuaram a engordar as estatísticas que caem muito bem nos bolsos do corporativismo médico. Essas mulheres estão organizadas e estão se organizando – vide a ONG mencionada no início do texto e outros tantos exemplos.

Quanto de empoderamento feminino é preciso para sair do lugar de mãezinha e reivindicar direitos coletivos de saúde às mulheres, ainda que estejamos extrapolando a classe média brasileira tão viciada na inação? Muito. E o fato de serem mulheres mães empoderadas não desmerece nenhuma outra luta de empoderamento feminista.

O ponto é: mulher mãe não pode se intitular empoderada?

A que aborta pode, a que não quer ser mulher pode, a que é mulher embora não tenha nascido biologicamente uma pode. Mas as mães não. As mães vão ali praquele cantinho e tratem de ficar quietinhas.
Quer dizer: na categoria “mães” vamos aglomerar toda a história de opressão vivida pelas mulheres e vamos mantê-la ali porque, afinal, as mães merecem, já que concordaram em abdicar de sua “real” condição de autonomia quando se tornaram mães – esse parece ser o pensamento de um grupo que não reconhece a maternidade como pauta feminista. E, paradoxalmente, o que temos visto é justamente um movimento de luta contra uma forma cruel (e invisível e velada, até negada, veja só! e, a despeito disso, altamente prevalente) de violência – a obstétrica, que mata e mutila – cujas bandeiras estão nas mãos de… mães!
Qual é, companheiras? Não temos direitos mas podemos lutar?

Sim, o feminismo é muito mais, MAS MUITO MAIS MESMO. É autonomia para além de ser mãe.
Mas TAMBÉM para ser uma.

Nós escrevemos esse texto com o único e exclusivo objetivo de convidar outras feministas a olharem para a questão da maternidade e da violência obstétrica com olhos de luta, de empatia e de indignação, para que consigam enxergar em ambas as questões os mesmos séculos de opressão, preconceito, discriminação e violência que pairam sobre todas as mulheres. Não fazer isso é violentá-las, é violentar-nos.

Estamos ao lado de todas as demais lutas feministas. E esperamos que, em 2014, tenhamos mais lutadoras feministas ao nosso lado, ao invés de sermos atacadas apenas por sermos mulheres que criam crianças – crianças por um futuro onde haja verdadeira equidade..


Ana Lucia Keunecke - Causa Justa / Portal Vila Mamífera
Carolina Pombo - Mãe e tempo
Ligia Moreiras Sena - Cientista que virou mãe
Raquel Marques

* Lola, do Escreva Lola Escreva tb postou o texto, no Guest Post - aqui, além das respectivas autoras, em 30 de dezembro de 2013.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Dia Internacional pelo Fim da Violência Contra a Mulher

Neste 25 de novembro o mundo se une para lutar contra a violência que arrebate milhares de mulheres, sejam em seus lares, no ambiente profissional, e/ou num dos momentos que deveriam ser dos mais zelosos e respeitosos, da vida feminina: o parto.


É da violência obstétrica que estamos nos referindo, e que é um dos temas centrais deste espaço, trazendo e divulgando informações sobre o assunto, e militando na causa, tendo oportunizado a criação de algumas ações, em rede, e coletivas, com grande repercussão, como foi o Teste da Violência Obstétrica, e o documentário popular Violência Obstétrica - A Voz das Brasileiras, premiado no Seminário Internacional Fazendo Gênero 10, em Florianópolis/SC, este ano, como Melhor Filme, da Mostra Audiovisual.

Assim, nesta data, compartilhamos mais uma produção brasileira, desta vez de Brasília/DF, A Dor Além do Parto, de Letícia Guedes, Amanda Rizério, Nathália M. Couto e Raísa Cruz, com edição de Léo Preto, pela Branco Preto Produções, sobre esta violência velada e ainda invisível, que não nos cansamos de denunciar e lutar, para que chegue seu fim!



Divulgamos também a exibição de Violência Obstétrica - A Voz das Brasileiras em Ourinhos, interior paulista, no Curso Técnico de Enfermagem, da ETEC, em 02 de dezembro, às 19h30!

Assista aqui!

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Parto no Brasil entrevista Adriana Vieira - Agosto de 2013


Publicamos hoje uma entrevista realizada em agosto c/ a querida Adriana Vieira, doula, educadora perinatal, instrutora de Yoga e coordenadora do Namaskar Yoga, na Baixada Santista. Na ocasião ela estava em seu puerpério da filhota Dora, nascida de um parto normal após duas cesáreas!








PARTO NO BRASIL Adriana é um prazer ter você neste espaço para nos contar como foi gestar após os 40 anos, e, também buscar um parto natural, após duas cesáreas anteriores! Conte-nos como foi este processo!

ADRIANA R: Obrigada pela oportunidade em estar aqui também. Sempre li o blog, e por aqui aprendi muito com outras mulheres, com as informações que vocês passam, então, fico feliz em estar falando sobre o meu parto e minha vivência e espero poder ajudar também. 
O processo foi longo e cheio de aprendizado. Posso dizer agora que havia uma Adriana antes do parto normal e outra agora. Renasci como mulher! Foi a experiência mais divina que já tive.
Bem, tive duas cesárias: uma há 22 anos e outra há 20. Na época achei que a cesariana era o melhor pra mim e para meu bebê, pois ouvia isso constantemente, tanto de amigas, familiares, como de médicos, e não questionei. Por sorte, entrei em trabalho de parto em ambas gestações, mas como tive uso de ocitocina (o que chamam de sorinho, no hospital) não aguentei a dor e acabei indo pra cesariana. 
Mas tudo começou há sete anos, quando estive na Holanda e acabei fazendo um curso de Iyengar Yoga em Amsterdã.  Lá comecei a ouvir falar sobre Yoga pré-natal e Yoga para casais grávidos, e então comecei a estudar por lá. Assim, conheci o trabalho das midwifes e das doulas.
Fiz um curso em Amsterdã e me encantei com esse mundo das gestantes, e dos casais que se preparavam pra ter seu parto, pra serem protagonistas desse momento. E vi uma realidade por lá muito diferente do que via aqui: a maioria das mulheres queriam o parto normal e tinham seus bebês em casa, com todo apoio da família, marido, e também do governo.
Quando voltei ao Brasil comecei a dar aulas de Yoga bem direcionadas para as gestantes,  e elaborei alguns cursos para os casais grávidos, pois em Santos, onde moro, não havia nenhum curso que realmente preparasse os casais pra um parto natural, ou normal. 
Então, conheci um grupo em São Paulo que falava a língua que eu estava começando a entender, e lá fiz vários cursos para começar atuar como doula aqui no Brasil. 
Realmente aprendi a importância do parto normal para a mulher, para o bebê, para o casal em si! Me apaixonei por esse mundo e há cinco anos abri a Namaskar Yoga, com esse intuito: levar informações para que as mulheres e casais pudessem fazer suas escolhas conscientes em relação ao seu corpo, ao seu parto. Por isso, temos grupos gratuitos, encontros para gestantes e casais que realmente buscam essas informações.
Bom, essa viagem a Holanda que mudou minha vida profissional, mudou ainda minha vida pessoal. Me casei com um holandês e viemos morar no Brasil, e então, quando completei 42 anos, em 2012, decidimos ter um bebê, já que meu marido ainda não tinha filhos, e eu estava realmente louca pra ser mãe de novo!
A gravidez foi de baixo risco, sem nenhuma intercorrência, ou seja, saúde perfeita: pressão ótima, peso ok, nenhuma doença crônica.
Bom, com tudo normal, minha médica, um anjo na minha vida, me liberou para uma viagem que eu já tinha marcado antes de saber que iria engravidar. Então, com quatro meses de gestação fui para Dubai e Índia, onde estive por 22 dias, estudando mais sobre Yoga e saúde da mulher, bem como passeando bastante com Dorinha na barriga.
Continuei a levar minha vida normalmente, mas claro, sem excessos. Doulei alguns partos durante a gravidez, até completar 30 semanas. Mas como dou aulas de Yoga para gestantes, continuei com essa atividade, e acrescentei a caminhada na praia e mais meditação. Mas depois, com 36 semanas parei de dar aulas de Hatha Yoga e Yoga para crianças, pra descansar um pouco mais, fisicamente. Senti essa necessidade e assim fiz.
Eu e meu marido queríamos tentar o parto em casa e já tinha o apoio de uma equipe, com quem trabalho já aqui na minha cidade, Santos. 
Como eu já tinha duas cesárias anteriores, durante o trabalho de parto eu não poderia ter nenhum medicamento, caso precisasse ajudar a dilatar, então, decidimos ficar em casa. Entrei em trabalho de parto num domingo, e tive minha bebê na madrugada de terça-feira, 23 de julho. Passamos a segunda-feira toda em TP (trabalho de parto). A equipe trabalhou muito comigo, e me ajudou bastante, pois foi um parto longo. E meus dois filhos, Aline, 22 anos e Thales, 20, ficaram comigo o tempo todo também me ajudando, bem como meu marido. Cada momento foi importante. 
Num trabalho de parto longo como foi o meu, todo o preparo anterior é de total importância! Eu praticava Yoga e meditação, e ambos me ajudaram muito, pois o parto é físico e mental! Ambos precisam estar em sintonia. 
Bom, outra coisa que me ajudou muito foi a total sintonia com meu marido e meus filhos. Cada olhar, cada palavra. 
Num longo TP , qualquer coisa poderia ter me desanimado, mas com uma boa equipe, pessoas te ajudando e preparo físico e mental anterior, resultou no que tive: um parto normal vaginal.

PARTO NO BRASIL Compartilhe conosco seu parto, e nos conte como foi a participação de seu companheiro, e filh@s durante o trabalho de parto e parto.

ADRIANA R: Ficamos em casa domingo e segunda, e eu entrei em trabalho de parto franco, na segunda-feira. Liguei para a doula na segunda de manhã, mas as contrações ainda estavam espaçadas, porém, ritmadas. Como eu já não havia dormido bem de noite, devido às contrações, resolvi ligar pra ela. Ela chegou em casa, ficamos fazendo alguns movimentos na bola, eu caminhava, agachava etc. Eu ainda estava conversando e interagindo bem com todos em casa. Quando as contrações começaram a ficar mais fortes, comecei a querer ficar mais em silêncio, e a usar mais o chuveiro. Aliviava muito as dores, a água quente na lombar. E então, depois do almoço, eles montaram a banheira no meu quarto. Foi excelente também! Tomamos um lanche, feito pela minha mãe, já no final da tarde, pois entre uma contração e outra, parece que nada havia acontecido. Com isso, aguentei bem as contrações nesse período. Depois das 18hs, aí sim comecei a achar que as contrações estavam bem fortes, e a coisa foi ficando pior e pior! Enfim, a equipe auscutava sempre os batimentos da bebê, e ela colaborava sempre. Coraçãozinho sempre ótimo. Então, eu poderia continuar meu TP. E então, comecei a fazer força. Chegava ao período expulsivo. Contrações mais perto umas das outras e muito doloridas. Nessa hora lembro que o que eu mais queria é que alguém da equipe, ou meus filhos, marido, continuassem a acreditar em mim e que eu iria passar essa fase, e então minha filha ia nascer. E foi exatamente o que fizeram. Me falavam que já estavam vendo o cabelinho do bebê, e brincavam comigo, enfim, me incentivavam sempre. 


Mas, a equipe viu que eu estava com um edema na vagina, e que a dor que eu sentia era também do edema, e esse período do expulsivo foi se tornando mais e mais longo. A bebê estava bem, mas já há muito tempo no canal vaginal, então, resolvemos ir para o hospital e tomar uma analgesia pra não sentir mais tanta dor. Foi tudo bem rápido. Cheguei no hospital depois da 1 da manhã, e ela nasceu antes das duas. Na terceira força que eu fiz Dora coroou. Parto vaginal, sem episiotomia, sem corte nenhum na vagina. Um bebê bem esperto, sadio e lindo! Minha Dora chegou e foi o momento mais emocionante da minha vida, do meu marido, da minha mãe e dos meus dois filhos mais velhos. Eles não  haviam assistido um parto anteriormente. E viram e vivenciaram tudo comigo, na sala de pré-parto, pois nem entramos no centro obstétrico. Tive ela no quarto.
Meu filho, Thales, foi quem cortou o cordão, e foi extremamente emocionante pra mim assistir de certa maneira, meu filho e minha filha. Detalhe:  eu tirei a foto dele cortando o cordão, uma cena inesquecível! Minha filha e minha mãe estavam comigo e adorei tê-las por perto. Maridão o tempo todo pertinho, e logo que Dora nasceu, ele a segurou no colo, e só largou para que ela viesse mamar, o que aconteceu logo nos primeiros minutos.
Me senti a mulher mais feliz do mundo, mais poderosa, mais forte e vi que minha família toda vibrou com minha alegria! Foi divino. Nos trouxe uma união incrível.

PARTO NO BRASIL Você também atua como doula e educadora perinatal, além de instrutora de Yoga. Como está sendo a vivência da maternidade durante o puerpério, e os primeiros dias amamentando Dorinha, aliado à vida profissional, nessa área.

ADRIANA R: Como mulher, mãe e doula, fico feliz em ter tido essa experiência, e aos 42 anos. Me percebi ainda mais. Senti o poder que temos sobre nossa mente, sobre nosso corpo, e também como podemos aprender sobre nossos limites, medos e como ultrapassá-los. Percebi, que tudo que venho aprendendo e ensinando com o Yoga foi fundamental pra que eu tivesse essa percepção, física e mental, e como é importante sermos responsáveis pela nossa decisão do que queremos, do que podemos fazer por nós mesmas. E como é importante escolher bons profissionais pra ter nesse momento, e apenas as pessoas importantes e essenciais pra você nesse momento tão importante, tão privado, que é nosso parto e o nascimentos de seu bebê, de uma nova família. 
Percebi ainda mais a importância da privacidade e do silêncio durante o trabalho de parto e no parto realmente. E o respeito à gestante para que ela possa ficar consigo mesma e perceba o que seu corpo pede, que posição ficar, como agir, pois no fundo, cada mulher sabe o que precisa fazer e como agir.


Dora nasceu num ambiente amoroso, sem intervenções desnecessárias e veio logo pro meu peito mamar. Ficou comigo o tempo que quisemos. Pôde mamar, pôde parar de mamar quando quis. Fomos pra casa no dia seguinte. Tomei banho sozinha, claro, e me sentia inteira, física e mentalmente. Sem cortes ou cicatrizes, sem dores, sem medos, pelo contrário, me sentia a super mulher, super mãe. Percebi a admiração também de meu marido por tudo que fiz, que consegui. Na verdade, tudo o que juntos conseguimos! 
Hoje me sinto uma profissional também mais completa, como doula e educadora perinatal me sinto plena. Pude passar pelas duas experiências diferentes, e assim, sinto-me mais capaz pra ajudar muitas mulheres, pois saber na prática o que a teoria nos diz e isso é realmente algo profundo. Espero assim, poder ajudar ainda mais as gestantes e os casais grávidos.
Vejo hoje, ainda mais, também que devemos dar uma extrema importância para o período pós-parto. Pois, começamos uma nova fase,  tanto para o casal, que se torna uma família, como para o binômio mãe-bebê, que tem que se adaptar a tudo: amamentação, dormir menos etc. 
Como eu já havia amamentado meus dois primeiros filhos, e já sabia que queria amamentar exclusivamente também até os seis meses, e que no início, nem sempre amamentar é fácil, então, tive bastante paciência, até eu e Dorinha nos adaptarmos uma a outra, nesse balet que é o amamentar. Depois de uma semana, tudo já estava fluindo naturalmente, sem dores, sem medos, sem ansiedade. Ela mama bem, e claro, dorme muito bem. 
E adoro fazer massagem nela, a Shantala, pra que ela não tenha muitas cólicas. Ela ama receber. Também logo dei o banho de ofurô nela, com três dias, pois acredito que remeta o bebê ao útero, e eles amam esse tipo de banho. Embalo ela numa fralda e a mergulho até o pescocinho, deixando o rostinho de fora, claro, e mantendo o corpinho dela imerso no baldinho. Ela fica paradinha, apenas sentindo, e ama também.
Como casal também conversamos muito sobre as mudanças que passamos. Acho isso importante, principalmente pra quem é pai ou mãe de primeira viagem, pois meu marido, que é pai agora, pela primeira vez, aos 47 anos, está percebendo como as mudanças são grandes para o casal. E ele tem aprendido muito e cuidado muito bem da Dorinha também, pois achamos importantíssimo para que eles dois criem um bom vínculo, que ele também faça todas as atividades e tenha os cuidados com ela, como dar banho, trocar fralda, fazê-las dormir, etc.
O pós-parto é um período que requer muito cuidado de ambos, marido e mulher, para que passem bem por essa fase, com um novo serzinho a ser cuidado, uma fase sem sexo pelo menos nos 40 primeiros dias, enfim, muitas mudanças e novidades. Bater papo é o melhor para um bom entendimento e para que a nova família se vincule e se fortifique. Se tivesse que dar um conselho diria pra o casal e bebê terem sempre um tempo sozinhos, sem visitas, sem compromissos e preservem o bebê desses tumultos, por pelo menos 15 a 20 dias. Isso, acredito, faz o trio se vincular mais e melhor! 
Eu me sinto privilegiada por tudo que passei. Me sinto privilegiada por ter conhecido esse caminho, meu marido, essa família que tenho, e pela profissão que estou trilhando. E creio que toda mulher que tiver essa vontade, esse desejo de ter seu parto normal, corra realmente atrás de informações úteis para realizar esse sonho, que nos realiza como fêmeas realmente. 
E claro, aprendi e aprendo muito com as mulheres que doulei, e também com as alunas que ministrei aulas de Yoga pré-natal, e quero cada vez mais retribuir tudo isso. E através do meu trabalho, penso que posso dar um pouco do que recebi!
Se tive meu parto lindo e tão gratificante dessa maneira, foi porque outras mulheres me ensinaram muito! E isso me faz amar mais e mais o trabalho que faço como doula. E acredido muito, que nosso "trabalho" na vida seja realmente nossa "missão". Algo muito maior do que "ganhar" dinheiro pra viver. O trabalho depende da nossa energia e essa depende de como lidamos com o que fazemos, então, quanto mais amor, melhor você se doa, e mais você recebe. Uma roda cíclica de linda em nossas vidas!
E assim tudo foi acontecendo em minha vida. O espaço Namaskar Yoga foi se moldando dia após dia. E fico feliz, porque, se tem tido procura pelas aulas e cursos que ministramos por lá, é porque as mulheres e os casais grávidos estão realmente buscando ser protagonistas de seus partos. Isso vai fazer mudar a triste realidade do nosso país, que hoje é um campeão de cesárias desnecessárias. 
Eu estou retomando as atividades na Namaskar aos poucos, percebendo o ritmo que seja bom pra minha bebê Dora também. Quando ela fez 15 dias participamos do encontro mensal e gratuito que transmitimos ao vivo, via internet, e é dedicado aos casais grávidos, nossa Roda de Mães da Baixada. 


Quanto às aulas de Yoga também volto a dar em setembro, quando completo 40 dias de pós parto.
Em setembro vamos voltar ainda com as aulas de Babyoga, que é pra ser feita pela mãe com o bebê.
Mas claro, devemos perceber nosso bebê, e sentir como eles se comportam, se essas saídas atrapalham ou não o sono e a mamada deles. Por enquanto, Dora fica muito bem no meu colo, no wrap ou sling, quando participamos desses eventos. 


E assim é a fase de puerpério, um eterno aprendizado entre pais e bebês, com uma linda jornada pela frente: a Vida!


(Re)leia outras entrevistas!

Rebeca Celes

Janet Balaskas

Kalu Brum

Mayra Calvette

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A legislação brasileira e a violência institucional no parto e nascimento - VIII COBEON (2013)

Entre os dias 30/10 e 01/11/2013, foi realizado, em Florianópolis-SC, o VIII COBEON – Congresso Brasileiro de Enfermagem Obstétrica e Neonatal. Promovido pela ABENFO – Nacional e organizado pela ABENFO-SC e Departamento de Enfermagem da UFSC, o evento reúne centenas de profissionais que trabalham diretamente com o ciclo gravídico-puerperal. 

O grupo de pesquisa Gênero, Maternidade e Saúde esteve representado por alunas e as docentes líderes, as profas. Dra. Carmen Simone Grilo Diniz (FSP/USP) e Dra. Camilla Schneck (EACH/USP).

A advogada Prisicila Cavalcanti apresentou uma série de marcos legais que protegem as brasileiras da violência obstétrica. Confira a íntegra do trabalho na imagem abaixo.

Priscila Cavalcanti, que também é doula em São Paulo-SP, considera ainda que o trabalho apresenta um “panorama geral” dos marcos legais, não incluindo as normas vigentes que decorrem de tratados internacionais ratificados pelo país.




Você também pode enviar seu trabalho apresentando no COBEON para publicação no Blog Parto no Brasil. 
Escreva para lunabianka@yahoo.com.br

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Maternidade precoce: enfrentando o desafio da gravidez na adolescência

O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) divulgou hoje, 30 de outubro, o relatório "Situação da População Mundial 2013 - Maternidade precoce: enfrentando o desafio da gravidez na adolescência". Acesse todo o documento aqui. O lançamento ocorreu em mais de 150 países, mobilizando agências de informação, organismos internacionais, governamentais e da sociedade civil.

O relatório destaca os principais desafios da gravidez adolescente e seus graves impactos sobre as meninas em termos de educação, saúde e oportunidades de emprego de longo prazo. Também mostra o que pode ser feito para frear esta tendência e proteger os direitos humanos e bem-estar das adolescentes.
"A gravidez na adolescência é simultaneamente uma causa e uma consequência de violações de direitos. A gravidez mina a capacidade de uma adolescente de exercer seus direitos à educação, saúde e autonomia. Por outro lado, quando ela é impedida de desfrutar de direitos básicos, também é mais vulnerável a engravidar. Para cerca de 200 adolescentes por dia, a gravidez precoce resulta na mais definitiva violação de direitos: a morte."
Morte materna - 90% das quais poderiam ser evitadas com a aplicação do conhecimento médico hoje disponível - resultado de agravos clínicos da gravidez, parto ou abortamento. 
Para o movimento feminista, as mortes maternas representam a mais grave violação dos direitos humanos das mulheres. Isso porque elas resultam da ineficiência dos governos em executar as políticas públicas que garantem os direitos reprodutivos daquelas que engravidam. E vale lembrar que, atualmente, mais de 50% das gravidezes do país não foram planejadas.


Gravidez na adolescência no Brasil - acesse aqui o resumo

No Brasil, são os determinantes sociais da saúde que elevam os números para índices de saúde alarmantes, tal como é considerada a taxa de natalidade entre as adolescentes. São as meninas pobres, negras ou indígenas e com menor escolaridade as quais engravidam com maior frequência. 
  • 26,8% da população sexualmente ativa (15-64 anos) iniciou sua vida sexual antes dos 15 anos no Brasil
  • Cerca de 19,3% das crianças nascidas vivas em 2010 no Brasil são filhos e filhas de mulheres de 19 anos ou menos
  • Em 2010, 12% das adolescentes de 15 a 19 anos possuíam pelo menos um filho (em 2000, o índice para essa faixa etária era de 15%)  
Acesse aqui a matéria
E para completar, "Muitas gravidezes de adolescentes e jovens não foram planejadas e são indesejadas; inúmeros casos decorrem de abusos e violência sexual ou resultam de uniões conjugais precoces, geralmente com homens mais velhos. Ao engravidar, voluntaria ou involuntariamente, essas adolescentes têm seus projetos de vida alterados, o que pode contribuir para o abandono escolar e a perpetuação dos ciclos de pobreza, desigualdade e exclusão."

Nos últimos meses, por meio do Conselho Municipal de Direitos da Mulher de Londrina-PR, pudemos constatar a ineficiência das nossas políticas de planejamento reprodutivo, que excluem as adolescentes e exigem presença de um "responsável" para as adultas. Nos postos de saúde, as adolescentes só têm acesso ao programa municipal de planejamento familiar após darem à luz ao primeiro filho. Daí então poderão receber informação e métodos de contracepção. Além disso, mulheres adultas devem ser acompanhadas por um responsável... arram... mesmo que seja ela a pessoa responsável pelo domicílio... É motivo daquele riso de nervoso, sabe?

Voltando às meninas, antes de se tornarem mães, nem mesmo o contraceptivo de emergência é disponibilizado, contrariando as diretrizes do protocolo do Ministério da Saúde (acesse aqui). Isso também acontece em São Paulo capital e cidades do interior, segundo relatos ouvidos nas disciplinas do Quadrilátero da Saúde da USP. É como se toda a política de planejamento reprodutivo não reconhecesse a sexualidade dos jovens. Não há atribuição específica.... quem deve garantir informação e educação em sexualidade? A Saúde? A Educação? O Serviço Social? 

Destaco que, em minha cidade, são os CRAS aqueles que mais propiciam o tema para adolescentes. Eu tive a oportunidade de participar de um dos encontros do Programa PROJOVEM Adolescente, em uma escola pública da Zona Oeste de Londrina. Esperava encontrar-me com cerca de 25 jovens. Preparei 20 slides de conteúdo e um vídeo de 10 minutos, para 2h30min de conversa sobre "Saúde, sexualidade e gravidez na adolescência". Inesperadamente, cerca de 70 meninos e meninas entre 14 e 17 anos estavam diante de mim, e durante a minha apresentação, no momento em que eu disse que eles poderiam me interromper a qualquer momento com dúvidas e questões, cinco mãos foram erguidas. Mais risos nervosos.

Foram mais de 70 perguntas, 10 delas sobre aborto, outras 25 sobre métodos contraceptivos, 25 sobre comportamento e discriminação sexual, 10 sobre situações clínicas específicas, as quais não pude ajudar, a não ser indicar: consulte um médico se os sintomas permanecerem ou procure segunda opinião médica, se possível. Eu fiquei impressionada, muito positivamente.

Nas aulas sobre saúde e sexualidade, as quais tenho grande prazer de organizar, sempre utilizo referências de políticas públicas nacionais e recomendações de organismos internacionais. São as diretrizes para a garantia dos nossos direitos reprodutivos, direitos humanos. Quando conversamos sobre sexualidade com meninas e meninos, não corremos o risco de incitar neles o exercício prático. Estudos comprovam que os jovens que conhecem conteúdos sobre saúde sexual e reprodutiva, direitos sexuais e direitos reprodutivos, tendem a ser mais responsáveis com o exercício de sua sexualidade. Isso porque a informação lhes dá escolhas. Nem a sexualidade, tampouco a gravidez ou o aborto, são evitáveis com o silêncio. 

Nós sabemos que, para algumas meninas, a maternidade adquire um significado de melhor status, mas precisamos defender a educação e o trabalho porque proporcionam melhores oportunidades de autonomia e cidadania nos países em desenvolvimento, marcadamente patriarcais, machistas, racistas e homofóbicos.

Para finalizar, uma defesa das meninas. Não raro ouvimos argumentos do tipo: as mulheres fazem uso rotineiro da pílula do dia seguinte se ela é distribuída sem consulta médica nas UBS; ou, as mulheres farão mais abortos se descriminalizado. Isso é mais uma expressão da infantilização das mulheres, de sua irresponsabilidade de gênero, nas palavras da feminista Angela Freitas, em entrevista a Conceição Lemes para o Blog Viomundo: "um descaso com a honestidade das mulheres. É achar que, por princípio, elas são desonestas e mentirosas." - acesse aqui a entrevista.

E para que a crítica não deixe de ser construtiva, nesses casos, a proposta é que seja dever dos serviços de saúde acompanharem o fluxo das mulheres pelos programas de planejamento reprodutivo, o que só é possível com sistemas de informação eficientes.

Em livre tradução: Ações que os governos deveriam implementar para melhorar a saúde sexual e reprodutiva de adolescentes e garantir seus direitos humanos:
1. Fazer com que as escolas trabalhem conteúdos de edução sexual;
2. Revisar suas diretrizes de educação sexual para quem sejam adequados à idade, sensíveis às relações de gênero e baseadas em conhecimento científicos (e não crenças, tabus, dogmas religiosos, etc.)
3. Organizar o financiamento nacional para tais ações;
4. Firmar parcerias com jovens, especialistas e grupos da sociedade civil, para sua execução;
5. Assegurar que a saúde e os direitos sexuais e reprodutivos de meninas e meninos estejam incluídos nas políticas nacionais e supranacionais.

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